[O ENTARDECER]
O pai de Lisa viu passar esse entardecer
até lá em baixo
até México D.F..
O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas
antes do seu último combate.
O pai de Carolina viu esse entardecer
derrotado e doente depois da guerra. O mesmo
entardecer sem braços
e com os lábios
delgados como um queixume.
O que o pai de Lola viu trabalhando numa
fábrica de Bilbau e o que
o pai de Edna viu procurando as palavras
exactas da sua prece.
Esse entardecer fantástico!
Aquele que o pai de Jennifer contemplou
num barco no Pacífico
durante a Segunda Guerra Mundial
e o que o pai de Margarita contemplou
à saída de uma taberna
sem nome.
Esse entardecer corajoso e trémulo, indivisível
Como uma seta lançada ao coração.
[Tradução de Francisco José Viegas]
NOTA: «O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas antes do seu último combate» Léon Bolaño, pai de Roberto Bolaño, foi boxeur e condutor de camiões. Chegou a ganhar o titulo de campeão de pesos pesados antes de conhecer a professora primária Victoria Avalos, com quem casou e com quem se mudou para Quilpué. Léon e Victoria separaram-se em 1973. Léon e Roberto Bolaño não se viram durante 22 anos – o encontro entre os dois deu-se em Madrid, em 2000, quando o escritor trabalhava no romance 2666. «Matou-se por causa desse livro. Quase não dormia, era uma obsessão», declarou Léon Bolaño em 2006. O pai soube da morte de Roberto apenas dois dias depois.