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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

No ano que que se assinalam os 15 anos da morte de Roberto Bolaño, a Quetzal Editores publica um conjunto inédito de narrativas daquele que é considerado um dos mais talentosos e fascinantes autores da segunda metade do séc. XX. Sepulcros de Cowboys, com tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, chega às livrarias esta sexta-feira, 14 de setembro.

São três narrativas exemplares, fundamentais para a compreensão da génese e evolução daqueles que viriam a ser os grandes temas e as personagens que deram vida a toda a obra posterior de Bolaño: «Pátria», «Sepulcros de cowboys» e «Comédia do horror de França». 

Provenientes de uma época em que Roberto Bolaño ainda «ensaiava» aqueles que viriam a ser os seus mais icónicos romances, estas três narrativas tornam Sepulcros de Cowboys “um livro desconcertante, dentro do desconcertante universo bolañiano”, escreve Juan Antonio Masoliver Ródenas, no prólogo. “Basta dizer que a imaginação transbordante, a intensidade dos sentimentos, a crítica incisiva, a atividade febril ou as personagens estranhas fazem de ‘Sepulcros de cowboys’ um livro – um livro dentro de um Livro – enormemente atrativo e original.”

 

 

[O ENTARDECER]

 
O pai de Lisa viu passar esse entardecer
até lá em baixo
até México D.F..
O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas
antes do seu último combate.
O pai de Carolina viu esse entardecer
derrotado e doente depois da guerra. O mesmo
entardecer sem braços
e com os lábios
delgados como um queixume.
O que o pai de Lola viu trabalhando numa
fábrica de Bilbau e o que
o pai de Edna viu procurando as palavras
exactas da sua prece.
Esse entardecer fantástico!
Aquele que o pai de Jennifer contemplou
num barco no Pacífico
durante a Segunda Guerra Mundial
e o que o pai de Margarita contemplou
à saída de uma taberna
sem nome.
Esse entardecer corajoso e trémulo, indivisível
Como uma seta lançada ao coração.

 

[Tradução de Francisco José Viegas]
 
NOTA: «O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas antes do seu último combate»  Léon Bolaño, pai de Roberto Bolaño, foi boxeur e condutor de camiões. Chegou a ganhar o titulo de campeão de pesos pesados antes de conhecer a professora primária Victoria Avalos, com quem casou e com quem se mudou para Quilpué. Léon e Victoria separaram-se em 1973. Léon e Roberto Bolaño não se viram durante 22 anos – o encontro entre os dois deu-se em Madrid, em 2000, quando o escritor trabalhava no romance 2666. «Matou-se por causa desse livro. Quase não dormia, era uma obsessão», declarou Léon Bolaño em 2006. O pai soube da morte de Roberto apenas dois dias depois.

«Publicado em 1999, Amuleto é um romance breve que funciona como uma ponte entre as duas monumentais obras-primas de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (1998) e o póstumo 2666 (2004). Os livros do escritor chileno, embora autónomos, estão imbricados uns nos outros. Têm vasos comunicantes. Partilham temas, obsessões e personagens. Nas mais de mil páginas de 2666 não se encontra uma única frase que justifique o título, mas numa cena noturna deste Amuleto, com três personagens à deriva pela Cidade do México, a explicação surge quase como um prenúncio: no desamparo da madrugada, a Avenida Guerrero parece-se com “um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo.”» (5 estrelas)

 

José Mário Silva, Atual

 

«Publicado em 1999, Amuleto é um romance breve que funciona como uma ponte entre as duas monumentais obras-primas de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (1998) e o póstumo 2666 (2004). Os livros do escritor chileno, embora autónomos, estão imbricados uns nos outros. Têm vasos comunicantes. Partilham temas, obsessões e personagens. Nas mais de mil páginas de 2666 não se encontra uma única frase que justifique o título, mas numa cena noturna deste Amuleto, com três personagens à deriva pela Cidade do México, a explicação surge quase como um prenúncio: no desamparo da madrugada, a Avenida Guerrero parece-se com “um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo.”»

 

José Mário Silva, no Expresso, dá cinco estrelas ao livro de Roberto Bolaño

 

«Esta vai ser uma história de terror. Vai ser uma história policial, uma narrativa de série negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que a conto. Sou eu que falo e por isso não parecerá. Mas no fundo é a história de um crime atroz. 

 

Eu sou amiga de todos os mexicanos. Podia até dizer: eu sou a mãe da poesia mexicana, mas o melhor é não dizê-lo. Conheço todos os poetas e todos os poetas me conhecem a mim. Por isso podia até dizê-lo. Podia dizer: sou a mãe e sopra um zéfiro danado há séculos, mas é melhor não dizer. Podia dizer, por exemplo: conheci Arturito Belano quando ele tinha dezassete anos e era um menino tímido que escrevia peças de teatro e poesia e não sabia beber, mas seria de alguma forma uma redundância e a mim ensinaram-me (com um chicote ensinaram-me, com uma vara de ferro) que as redundâncias sobram e que o argumento por si só é suficiente.

 

O que eu posso dizer, sim, é o meu nome.»

«Para o escritor chileno Roberto Bolaño (1953 - 2003) a literatura era o duro ofício de dar voz aos fantasmas que habitam a noite escura da alma esses lugares onde já mal se ouvem canções e onde cabem a loucura e o horror.»

 

Arranca assim o texto de José Riço Direitinho, no Ípsilon de hoje, sobre Amuleto, o nosso novo livrinho do Bolaño. E, sim, podemos escrever 'livrinho', são 138 páginas, de literatura bolañiana, é certo, mas 138 páginas. 144 páginas e 5 estrelas.

 

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