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«A semana será de festa em Portugal. Passam 40 anos sobre o 25 de Abril, o golpe militar que terminou com a ditadura de Marcello Caetano.

 

Mas no momento de festa, inteiramente merecido, uma pergunta nunca deixou de me ocupar - e envergonhar: como foi possível a um país da Europa suportar a mais longa ditadura do século 20, quase meio século, até ao momento em que a putrefacção interna e a guerra colonial externa a fez desabar sob os tanques pacíficos dos capitães?

 

Uma boa resposta está em J. Rentes de Carvalho e no livro "Portugal, a Flor e a Foice" (Quetzal, 238 págs.). Sim, o nome talvez não seja conhecido entre o público brasileiro (uma lástima). Curiosamente, também não o era entre o público português: nascido em 1930, exilado na Holanda, autor de romances, diários, crónicas e prosa biográfica vária, Rentes de Carvalho, vivo e activo, é um dos melhores prosadores da língua lusa. Mas não custa perceber por que motivo um estilista como Rentes foi "persona non grata" entre a intelectualidade nativa, habitando o silêncio da indiferença durante grande parte da sua carreira.»

 

João Pereira Coutinho na sua coluna da Folha de São Paulo

 

 

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Nas livrarias desde a passada sexta-feira, o livro «maldito» de Rentes de Carvalho terá uma 2ª edição. Publicado em 1975 na Holanda, Portugal, a Flor e a Foice nunca tinha sido editado em Portugal. No ano em que se assinala o 40º aniversário da Revolução dos Cravos, este olhar heterodoxo sobre o período revolucionário está a cativar os leitores portugueses.

 

«Os cravos simbolizaram a esperança, mas a foice que os cortou não foi, como por um instante se temeu, ou fingiu temer, a do papão comunista, sim a dos lobos que a traziam escondida sob o disfarce de cordeiros.»

J. Rentes de Carvalho

 

«De início, não houve interesse em publicá-lo porque a minha visão do que se estava a passar era considerada desagradável e incómoda.»

Entrevista ao Atual

 

«As pessoas até aos 40, 50 anos vão ficar tristes ou assustadas com a revelação. Depois, os mais velhos, dos 60 anos para cima, vão-se dividir em duas categorias: aqueles que, contra toda a evidência, continuarão a acreditar que houve uma revolução muito bem feita e muito feliz, e os outros, que se vão dar conta de que nem tudo o que reluz é ouro.»

Entrevista ao i

 

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Excerto da entrevista de J. Rentes de Carvalho ao Expresso (Atual).

 

«Este livro, escrito entre abril de 1974 e outubro de 1975, nunca foi publicado em Portugal. Porquê?

De início, não houve interesse em publicá-lo porque a minha visão do que se estava a passar era considerada desagradável e incómoda. Mesmo na Holanda, teve uma única edição, pequena, e só saiu uma crítica ao livro num jornalzeco belga. Por causa do meu pessimismo, chamaram-me filho da puta, vendido ao capital e mais não sei quê. Demorou trinta anos para que os meus amigos socialistas, que na altura me abandonaram, começassem a dizer: “Olha lá, se calhar tiveste um bocado de razão, só que foi cedo demais.” A verdade é que ao mostrar o manuscrito ao Manso Pinheiro, editor da Estampa, já nos anos 80, ele explicou-me que o livro continuava a não ser publicável, “nem agora, nem daqui a dez anos, nem daqui a vinte”.

 

E que justificação deu para essa recusa?

Nos anos 80, este assunto ainda era intocável.

 

O problema era a falta de recuo histórico?

Não. O problema era contrariar as grandes certezas saídas da Revolução dos Cravos. Um sujeito vir dizer estas coisas não caía bem. Não vendia livros. E era até capaz de dar cadeia, sei lá.»

 

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Para quem não pôde estar presente no lançamento de Portugal, a Flor e a Foice, fica aqui o texto lido pelo autor, J. Rentes de Carvalho.

 

«A sabedoria popular é fraca justificação, mas há alguma verdade no provérbio que diz: burro velho não toma andadura.

Mau grado as provas de que é contraproducente, mantenho de nascença a teimosia de querer ver claro. Mas como a sociedade raro aprecia a clareza, e funciona melhor na sombra, com meias palavras e meias-tintas, tem-me acontecido ser desmancha-prazeres, estragar uma ou outra festa, pôr o dedo nesta e naquela ferida. Sofro entãoas consequências e, sem discutir,  pago o que custa.
 
Felizmente não havia Inquisição na Holanda quando, em fins de 1975, este livro foi editado. Mas da extrema-esquerda à extrema-direita, se não me enfiaram o sambenito, nem puderam acender a fogueira, um excessivo número de cidadãos, e uma boa parte dos media, arrastaram-me pelas ruas da amargura e, de fascista a traidor, de cego a vendido ao capital, não pouparam os insultos.
Um quarto de século depois comecei a ouvir uma ou outra desculpa, e agora que na Holanda sai a segunda edição, leio tratar-se de um clássico, oiço arrependimentos aqui e ali.
 
Bizarro destino, o de um livro que tem a sua génese uma tarde de Março de 1964, em Paris, no café em que uma dezena ou mais de "figuras gradas da Oposição", como já nesse tempo se intitulavam, começaram uma zaragata de murros e insultos, denúncias de vigarices, de traições e poucas-vergonhas.
Nos três ou quatro comícios da oposição portuguesa a que na altura assisti, repetiam-se essas cenas, abundavam os clichés ideológicos, era muito o vento e pouco o movimento, dividiam-se os presentes em quatro ou cinco facções, cada uma delas mais pura no ideal, pronta a enterrar a faca no interesse e na reputação do camarada.
Recordo que uma noite, depois de um desses comícios, me fui a jantar com Joaquim Novais Teixeira, o brilhante jornalista que já muito me tinha aberto os olhos, e, contando-lhe o que testemunhara, resumiu-me ele o historial da oposição a Salazar, terminando por uma frase que é difícil esquecer: "A oposição democrática portuguesa, só tem razão (…) mais nada."
Estranhei, preocupou-me, e deitei-me a investigar.
 
Nesse Verão de 64, retornando pela primeira vez a Portugal depois de mais de uma dezena de anos de ausência, tive a boa sorte de conhecer António Alçada Baptista. Desse encontro iria nascer uma amizade que durou até ao seu falecimento.
Inteligente, franco, com a excepcional visão que as suas relações e amizades lhe permitiam ter da sociedade portuguesa, Alçada Baptista foi para mim, ao longo dos anos, uma inestimável fonte de informação, ora partilhando confidências, ora deixando-me entrever o que acontecia nos bastidores da política nacional e da sociedade lisboeta.
A ele devo muito. Devo muito também ao Professor Kenneth Maxwell, da Universidade de Harvard, e ao Professor David Birmingham, das Universidades de Canterbury e Ohio, ambos excepcionais conhecedores da sociedade e da política portuguesa.
Um dia, ouvindo David Birmingham afirmar que a revolução financeira, social e sexual, que viria a explodir na metrópole com a Revolução dos Cravos, tinha de facto tido o seu início nos anos 60, em Angola e Moçambique, experimentei uma sensação mais desconcertante do que a de ser operado às cataractas.
 
Devo ainda um obrigado a um certo número de pessoas, mas para isso terei de explicar um passo da minha biografia.
Durante um período de cerca de dez anos, entre ter deixado de ser funcionário da embaixada do Brasil e aceitar o convite para uma docência na Universidade de Amsterdam, fui homem de negócios.
Ora proveitosos, uma ou outra vez deixando-me, como dizem os brasileiros, em mangas de colete, mas de qualquer forma pondo-me em contacto com alguns homens de poder e influência.
Por simpatia, apreciando o meu genuíno interesse e, numa ou noutra altura, avaliando erradamente as minhas simpatias políticas em função do corte do fato e da qualidade da gravata, proporcionaram-me eles pontos de vista de que eu nem sequer suspeitava, abriram portas que doutro modo me seriam fechadas.
Ouvi então muito que preferiria não ter ouvido; aprendi o que, para o sossego do meu espírito e ilusões do futuro, seria melhor ignorar; em mais de uma ocasião deram-me prova cabal de que, de facto, no teatro da política, e no dos grandes negócios, nunca os actores são o que parecem, nem o enredo é como se vê.
 
De modo que assisti ao 25 de Abril com a alegria de testemunhar o fim de um pesadelo, mas sem fé nas consequências da mudança, tanto mais que às antigas moscas se juntava uma nova espécie: carente de vergonha e esfomeada, decidida - como Mário Soares afirmaria num discurso em 1985  - "a chupar ao máximo a teta" que a entrada, na então Comunidade Económica Europeia, iria proporcionar.
A teta, de facto, tem sido gulosamente chupada, não por aqueles a quem ela se destinava, e dela precisavam, mas pelos chicos-espertos que batem no peito, jurando amar a pátria e defender o povo.
Pessoalmente, convicto de que o retorno só me traria inimizades e dissabores, optei por ficar onde estava, certo que os meus direitos eram garantidos, a Justiça imparcial, e o meu bem-estar não dependia de amizades, complacências e submissões.
Agradeci os convites que então me fizeram para regressar a Portugal, dando sempre a mesma resposta: as mudanças não me convenciam e, mais família menos família, o país continuava a ser dos poucos que de facto nele mandavam e o tinham como coisa sua.
E assim continua. São esses que cinicamente recomendam que quem não está bem muda-se, ou vai embora.
Os cravos simbolizaram a esperança, mas a foice que os cortou não foi, como por um instante se temeu, ou fingiu temer, a do papão comunista, sim a dos  lobos que a traziam escondida sob o disfarce de cordeiros.
 
Cabe aqui, a terminar, um agradecimento ao Francisco José Viegas.
Em meados dos anos 80, um seu colega, editor em Lisboa, quis ler o manuscrito, sentenciando depois que talvez dali a dez anos editasse o livro.
Passado esse tempo, quando lhe lembrei a promessa, respondeu ele que nem dali a trinta iria correr o risco.

O Francisco correu o risco de editar um livro incómodo, contracorrente, e isso lhe agradeço. Mas de facto, pelo que lhe estou profundamente grato, é por me ter trazido de volta à literatura a que pertenço.»

 

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«Não importa estar de acordo ou contra. Importa que tudo é dito, muito antes de haver frieza para isso, sem olhar por cima do ombro. Que dá vontade de ler frases em voz alta perante mesas cheias, só para ver a expressão na cara dos outros. E que tão depressa dá para gargalhar se um homem vem a correr para Portugal quando Salazar cai da cadeira – a contar com agitação – e encontra toda a gente na praia, como o estômago pesa ainda antes de a frase acabar. É que tem muita piada, mas não é uma piada – o que tanto vale para este episódio como para o livro todo.»

 

Catarina Homem Marques, Time Out

 

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«A ironia é ingrediente que não falta. O humor é uma ferramenta importante?

O humor ajuda a suportar e a relativizar, a pôr um travão aos excessos de entusiasmo e a idolatrias. Aprecio a mentalidade dos países nórdicos, onde é mínimo o apreço pelos heróis e são sempre de proporções modestas as estátuas que a um ou outro se levantam.

 

Qual acha que vai ser a reacção dos portugueses a esta história?

As pessoas até aos 40, 50 anos vão ficar tristes ou assustadas com a revelação. Depois, os mais velhos, dos 60 anos para cima, vão-se dividir em duas categorias: aqueles que, contra toda a evidência, continuarão a acreditar que houve uma revolução muito bem feita e muito feliz, e os outros, que se vão dar conta de que nem tudo o que reluz é ouro.»

 

Entrevista de J. Rentes de Carvalho ao i. Portugal, a Flor e a Foice chega às livrarias a 21 de março.

 

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O documentário J. Rentes de Carvalho – Tempo Contado, de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira, terá a primeira exibição no próximo dia 18 de março, às 18h, na Universidade Nova de Lisboa (auditório 1, Torre B).

 

Durante décadas celebrado no país que o acolheu, a Holanda, e desconhecido em Portugal, o escritor transmontano J. Rentes de Carvalho só nos últimos anos tem tido o reconhecimento merecido. A publicação das suas obras pela Quetzal, desde 2009, e, acima de tudo, a inegável qualidade literária das mesmas impuseram Rentes de Carvalho como um nome maior da literatura portuguesa contemporânea.

 

O documentário que agora terá a sua estreia é um reflexo desse estatuto entretanto alcançado, uma justa homenagem e uma forma de levar ainda a mais leitores a obra do escritor. Ao longo do filme, entrevistado em Amesterdão e na aldeia transmontana de Estevais, Rentes de Carvalho evoca a sua vida e fala da sua obra, testemunho que é completado pelas pessoas que, na Holanda ou em Portugal, com ele conviveram.

 

O livro Portugal, a Flor e a Foice chega às livrarias no dia 21 de março. No dia seguinte, sábado, o livro será apresentado pelo jornalista Henrique Monteiro na Fnac Chiado, às 17h, numa sessão que contará com a presença do autor.

 

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«Destinado ao público holandês, o livro foi publicado em 1975, em Amesterdão. Vem a talhe de foice lembrar que no ano passado circulou uma petição “exigindo” a sua publicação no nosso país. Voltando ao que interessa. Trata-se de uma obra didáctica, onde não falta sequer uma tábua cronológica da História de Portugal. Com a desenvoltura de um livre pensador, Rentes de Carvalho faz uma radiografia azeda do período que decorreu entre Abril de 1974 e Outubro de 1975, terminando antes do golpe de 25 de Novembro.»

 

Eduardo Pitta, Sábado

 

Portugal, a Flor e a Foice chega às livrarias a 21 de março.

 

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«Um momento, durante os primeiros meses que se seguiram ao 25 de Abril, houve a esperança de que realmente alguma coisa iria mudar. O Portugal revolucionário ia ser exemplo, um passo em frente para uma Europa nova, o país cuja sociedade garantiria a cada cidadão um lugar digno. Mas quê? Em fins de 1975 as elites de agora são as mesmas de ontem, acrescentadas de uns poucos que, hábeis, subindo a tempo, ocuparam um lugar; diminuídas temporariamente da meia dúzia que, no estrangeiro, confortavelmente, aguarda dias melhores que muito certamente voltarão. Tal como na velha República de 1910, em que os ministros foram quinhentos, interessa ser ministro, garantir as benesses do amanhã.»

 

 

 

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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