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Pedro Paixão escreveu A Cidade Depois a seguir ao 11 de Setembro, em Nova Iorque. Agora que o livro foi recomendado pelo Ministério de Educação aos alunos do 10º ano, o autor disponibiliza no seu site todo o texto (62 páginas) para download.

 

Eis um dos parágrafos iniciais:

 

Naquela pequena e acolhedora ilha onde vivem seis mil pessoas e chove quase nada, entrei em agonia. A distância, a impotência, a confusão, a tristeza, o medo tomavam conta de mim. Eu, que já antes estava deprimido, agora não sabia o que fazer: deixei de falar, de andar, de ler. Tínhamos bilhetes de passagem para o continente para dali a três dias. A Leonor e um casal amigo, acabado de chegar e que não via há muito, ajudou-me a suportar aquilo. A única coisa que sabia, sem que no entanto pudesse dizer por que o sabia e que me repetia sem cessar, era que aquilo era a pior coisa que acontecera na minha vida, uma vida privilegiada em que tivera a sorte de nunca ter conhecido a guerra, o exílio, a destruição, a miséria. O que confusamente sabia era que aquilo era muito mais do que aquilo: a destruição de edifícios, a morte de seis mil pessoas. Se bem que isso fosse já de uma extrema violência e as televisões continuassem a repetir mecanicamente as mesmas imagens, sem propósito nem piedade. O que eu sabia era que alguma coisa tinha mudado, no mundo e em mim.

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«Uma amiga telefonou-me trepidante: Thomas Bernhard está em Sintra. Sim, tenho a certeza, não alucinei. Vi-o com os meus olhos no Café Central. Ou está hospedado no Tivoli ou em Seteais. Tu não imaginas o que é vê-lo sentado a uma mesa a beber café e a olhar em frente.


(...) Fechei os olhos para me concentrar e quando os abri tinha o senhor Thomas Bernhard sentado no sofá de veludo azul à minha frente. Não havia dúvidas: o nariz proeminente, o cabelo esbranquiçado penteado para trás, o jornal de Zurique, que eu sabia ser o seu favorito, numa mão. Trazia calças de caqui creme, uma camisa azul-escura aberta no pescoço envolto por um lenço também creme, meias azuis e impecáveis sapatos brancos. Normalmente não são coisas às quais dou a importância necessária para fixar. O que eu fazia era protelar o momento da decisão. Como todos sabemos, imaginamos mil e uma maneiras como vai decorrer um encontro e o que acontece é precisamente a única coisa na qual não tínhamos pensado. Foi o senhor Thomas Bernhard que me dirigiu a palavra. Depois de me pedir desculpa por me incomodar, perguntou em que língua podíamos falar. A que distância se encontra o mar? Como se pode lá chegar?»

 

De O Mundo É Tudo o que Acontece, de Pedro Paixão

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Pedro e Miguel

03.07.09

Na mesma entrevista, a propósito de Miguel Esteves Cardoso, Pedro Paixão responde à pergunta:


Não tem saudades da cumplicidade intelectual?

O que eu faço, ao escrever, de uma maneira pouco ilusória, é fixar esses momentos para sempre. É como se passasse o que vivi para a eternidade.

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Escreve onde?

Vou para hotéis. Com o Ladrão de Fogo fui para um hotel no Norte, estive lá fechado três ou quatro dias, e acabei-o - nem sei o que está lá escrito. A familiaridade, o hábito impedem a criação. Tenho de estar num sítio que é meu mas não é meu. Como se fosse uma metáfora da vida: uma passagem - nada me pertence num hotel.

 

Na edição de ontem da Sábado, Pedro Paixão dá uma envolvente entrevista de vida onde fala de bipolaridade, de amizade e criatividade. Em mise-en-abîme, na fotografia que ilustra esta conversa de leitura viciante vemos uma fotografia no lugar da pauta do piano onde Pedro improvisa: a fotografia da capa de O Mundo É Tudo o que Acontece, publicado pela Quetzal no final de 2008.

 

 

 

 

 

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«E a beleza não serve de nada. Atrapalha. Provoca desastres nas famílias, intoxica-nos até ao desmaio e não poupa nada. Devia ser proibida. É um escandâlo no meio do mundo. É a casa do espantoso medo que é perdê-la. Não escolhi ser quem sou, este vício de que sou escravo. O que mais importa ninguém escolhe. Já tentei ser tantos para escapar de mim, para me desviar desta vida que me deram. E depois vem a beleza. Surpreendente ao virar de uma esquina. Um desejo marcado no ponto de encontro do aeroporto onde ficaremos para sempre abraçados. Envolta em nevoeiro a tomar duche à minha frente. A irromper do nada. A primeira coisa que uma qualquer tirania sabe que tem a fazer é demolir a beleza. Com todo o direito, de todas as maneiras. A beleza semeia a desordem nas almas e nos corpos que anima. Alimenta-se de uma liberdade particularmente virulenta. É impertinente. Não conhece regras. Viva da vida e de mais nada.»

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Na sua 10ª edição, um dos livros mais conhecidos de Pedro Paixão.

 

«Pois é assim. Pedro Paixão saiu da sua geração e entrou na minha efectiva e afectiva leitura intemporal. Redespertou-me o gosto de ler.» Fernanda Botelho

 

«Um escritor que diz que este é o seu melhor livro - e tem razão.» Tereza Coelho

 

«Mas defende uma ideia de literatura? Luiz Pacheco: Mas tem de ser. Por exemplo, o Pedro Paixão, de quem já comprei os livros todos umas três vezes e estou a apanhar o bichinho. O Carver não é o Pedro Paixão

 

«Provavelmente este livro será o mais bem armado e, também provavelmente, muitos voltarão a dizer que ele é o melhor escritor português da sua geração. Sem exagero.» Rui Tendinha

 

«Com uma caneta por testemunho e um espelho como confessionário, faça-se a arqueologia de afectos e desafectos. Um tratado das paixões da alma.» Sílvia Cunha

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Pedro Paixão

10.02.09

 

Pedro Paixão nasceu em 1956 em Lisboa. Estudou nesta cidade, em Lovaina e Heidelberga. Doutorou-se aos 29 anos. Publicou vinte e um livros e dois álbuns de fotografia. Escreveu dois textos para teatro, um para ópera e outro para cinema. Não pertence a qualquer clube, partido, associação ou Igreja. Tem um filho. É casado. Vive em Santo António do Estoril.

 

Mais informações em www.pedropaixao.net.

 

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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