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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

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«Nuno Costa Santos é debutante na perigosa arte do primeiro romance com este Céu Nublado com Boas Abertas, mas é um veterano numa lide com várias frentes nas letras em geral. Poeta e cronista dos costumes portugueses; biógrafo de escritas alheias como é o caso de Fernando Assis Pacheco; blogger em vários projectos incluindo o :Ilhas; melómano com passagem pela rádio e sketcher com experiência televisiva; humorista de produções fictícias e dono de um humor com marca registada: o melancómico. Tudo isto são dimensões de um autor multifacetado que tem ainda outras três valências a destacar: a de dramaturgo e encenador engajado socialmente, com destaque para o Condomínio da Rua, que esteve em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, ou para a mais recente e notável peça I Don't Belong Here, um projecto sobre deportação partilhado com Dinarte Branco; a de jornalista com uma marcante colaboração com o Açoriano Oriental, especialmente com uma arqueologia completa e imparcial dos acontecimentos do 6 de Junho e do Verão Quente de 75 que, pelo seu valor histórico, documental e jornalístico, devia ser compilada e editada; a de cinéfilo e cineasta com uma das joias do seu currículo: Noite de Festa, um filme que permanece na memória de quem viu e que tem muitas pontes de contacto com a linguagem e planos de imagem desenrolados neste Céu Nublado com Boas Abertas.

Há ainda uma outra dimensão da obra do Nuno Costa Santos que quem o conhece ou se cruzou de alguma forma com a mesma não pode omitir: o Nuno é um exímio cinto negro e praticante regular da arte do aforismo. A propósito repesco um aforismo: “Never Judge a Book by the Cover”, uma falácia hipócrita para quem gosta de livros, impossível de contornar, quando nos deparamos com esta primorosa edição, onde todos os pormenores e protocolos de leitura são de irrepreensível funcionalidade e bom gosto, da gramagem do papel, ao lettering e espaçamento de texto que respeita o leitor, até ao cuidado do design de cada vinheta que adorna a abertura dos diversos capítulos. As expectativas que se oferecem no espaço opinativo da contracapa e das badanas, bem como a autoridade da crítica publicamente reconhecida, orientam o leitor no bom caminho para dentro da obra que tem em mãos. O autor não esquece uma nota de agradecimentos típica de quem tem a humildade e generosidade de evocar familiares e amigos. De referir que Nuno Costa Santos cresceu num círculo intelectualmente curioso e criativo que influenciou e pelo qual foi influenciado. Um círculo excepcional, com interesses comuns, incluindo a Arte, que ainda hoje o acompanha e no qual têm lugar honorário Alexandre Pascoal, Bernardo Rodrigues, André Almeida e Sousa, Pedro Arruda, Zé Bernardo Rodrigues, os irmãos Albergaria e os irmãos Decq.

Em Céu Nublado com Boas Abertas um desafio vindo do passado em escrito do Avô é a casa de partida de um regresso à Ilha. Numa nota que cai, ao acaso ou talvez não, de um volume da Biblioteca na casa de Lisboa de João Pereira da Costa, é lançada a demanda: “Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da Ilha”. E isto com um conselho do além: “não se fatigue demasiado. Viva a vida que não consegui viver”. Com este bilhete de um remetente do passado a um destinatário futuro, Nuno Costa Santos retorna a São Miguel, onde se faz “romeiro profano” numa “jornada insular”. Nesta obra a dois tempos há um permanente diálogo com o livro que o Avô quis escrever e editar, deixado em herança ao Nuno, e outro livro que no presente o autor vai escrevendo num coito ininterrupto entre a realidade e a ficção, sendo que aquela, nas ilhas, supera frequentemente a ficção e é pasto fértil para narrativas próximas do realismo fantástico. No debulhar da história de João Pereira da Costa, o autor segue um fio de sangue que o liga geneticamente à história do Avô. Há uma Montanha Mágica replicada no Caramulo, enquanto vasto sanatório para “lesados” da tuberculose, onde João Pereira da Costa é obrigado a exilar-se da sua ilha. Mas, para lá do “purgatório” do sanatório, há também memórias do “Éden” da ilha. O retrato a sépia e a preto e branco de outro tempo, suspenso no Caramulo ou em andamento na ilha, é um trilho paralelo que se vai construindo em Céu Nublado com Boas Abertas, no meio da flora e da fauna local, sendo que o deslumbre com a ilha-jardim é, para Nuno Costa Santos “uma visão mitificada que esconde as angústias e os medos da caminhada adolescente”.

Fazer a crítica de qualquer obra, incluindo, a literária “(...) não é ciência, mas, na melhor das hipóteses, diálogo, encontro de vozes e respectivas mundividências”, disse José Martins Garcia. Dialogar com este livro de Nuno Costa Santos é também viajar para um mundo com um tempo de eterno Verão Azul numa adolescência que não quer acabar. É o mapa para um paraíso perdido que, nas palavras resgatadas a José Martins Garcia, é a chave para a “mundividência de uma existência num estado paradisíaco, inicial, harmonioso, como que isento do desgaste do tempo” e nessa “nostalgia das origens”, o mito antigo do paraíso perdido, aquele que ecoa na obra de Milton,enquanto “idade da ventura ou inocência”, desloca-se para a infância e adolescência. Essa visão romantizada, ou mitificada, como escreve o autor, que marca o livro, não esconde o recorrente e típico sentimento insular de que a ilha é uma prisão. Será por acaso que um dos capítulos se desenrola sob a epígrafe Prison Blues? Creio que aqui nada é por acaso e que o Nuno Costa Santos, autor que se confunde com o narrador, na demanda do “romance definitivo sobre as questões essenciais da existência: o amor, a morte e a água azeda”, tenta na literatura a fuga artística de uma “ilha que tanto apaixona como oprime”. Uma ilha-prisão em forma de rotunda numa longa circular, hoje dispensada dos enjoos de má memória, pois as novas gerações vivem “uma pavimentada existência em linha recta”. E é também em linha recta, em fuga desse cárcere em forma de ataúde suspenso no mar, que recorrentemente o autor/narrador, com a mesma pulsão natural que o impele a escrever, sente o apelo da evasão em passo de corrida, de se atirar a um longo jogging, e de caminhar sobre as águas como um atleta bíblico. Ao longo de toda a deambulação pela ilha grande fechada há esse recorrente ponto de fuga que nos lembra o Estranho Mundo de Garp, pois, no livro de John Irving, Garp, a excêntrica personagem principal, por tudo e por nada, sem saber porquê, saía disparado porta fora para correr. Talvez seja porque correr é um manifesto libertário que une “os nossos dois impulsos mais primários: o medo e o prazer”, como bem escreveu Christopher Mcdougall em Nascidos para Correr: “Corremos quando estamos assustados, corremos quando estamos em êxtase, corremos em fuga dos nossos problemas e corremos para nos divertirmos. E é quando as coisas parecem piores que mais corremos.” Ora, perante a opressão e o “stress insularis” diagnosticado por Nuno Costa Santos, o mesmo prescreve, em automedicação a essa condição, longas caminhadas e penitentes corridas numa romaria profana pela Ilha. Céu Nublado com Boas Abertas é um querido diário desses dias de deambulação, em que a partida se confunde com a chegada (veja-se o eterno retorno que liga o princípio ao fim do livro), num registo de enamoramento com a Ilha. É um diário sem roteiro, como o filme de Moretti, só que em vez de lambretar pela cidade eterna, sob a luz dourada de Roma, temos o registo pedestre de Nuno Costa Santos sob um céu muito nublado, intervalado com as boas abertas que compensam o negrume da insularidade. Essa mesma Insularidade que no livro e na vida real é o equilíbrio instável das variações de humor entre só estar bem aonde não se está e o querer ir aonde não se vai. A Insularidade é uma inquietude definida assim na lição de José Almeida Pavão: “O nascer ou viver numa Ilha. O ser sempre Ilha. O ter corpo e alma de Ilha, mesmo fora dela. O ter presente uma ausência perene. Uma perpétua saudade que identifica a ânsia da partida com o desejo de retorno. O cárcere que se transporta dentro de nós”. Como essa inquietude é constitucional ao micaelense, a presença do Divino, como amparo perante forças maiores do que o indivíduo, é uma marca de um temor reverencial aos desígnios de Deus. Tal como noutras obras de Nuno Costa Santos – em especial no filme Noite de Festa - a presença do Divino e da religiosidade telúrica dos micaelenses é marcante no autor e na obra. Conclui Nuno Costa Santos que os Açorianos são um “povo herdeiro de um cristianismo penitente”, acentuado nos micaelenses, o que no livro se venera com recorrentes passagens de romeiros e romarias ao longo da ilha. Apesar de afirmar: “O Deus da minha geração não existe” é com o fervor de quem lamenta a perda dessa fé “de um povo de aflitos” que descreve os romeiros envoltos na bruma referida como “a barba de um Deus do absurdo”. Quase no final do livro e da sua “jornada insular de romeiro profano” encontra, porque procura, um Irmão Romeiro, deliberadamente sem nome ou qualquer traço identitário excepto o de possuir o “sorriso de Deus se Deus existir”. Esse Irmão Romeiro, que reza por todos os aflitos, encerra, com a sua oração, uma das mais marcantes páginas de Açorianidade deste livro. Escreve Nuno Costa Santos, com brilhantismo, que “este sempre foi um povo de aflitos – é daí que vem a religião, socorro para quem suportou, sem ajudas, intempéries e humores meteorológicos. Um povo aflito que habita em ilhas de vulcões, terramotos, pilhadas por piratas, feita de gente que desbravou uma terra agreste e que, no meio de tanta aflição, rezou, implorou uma prece aflita, dominada pelo medo das intempéries, numa terra que tem tanto de belo como tenebroso”. Para lá dessa tipologia antropológica, tão atavicamente ligada à natureza da ilha-jardim ou ilha-prisão, “que tem tanto de belo como tenebroso”, Nuno Costa Santos, em Céu Nublado com Boas Abertas, colecciona vários espécimes da flora e fauna locais.

No portefólio deste Céu Nublado com Boas Abertas a flora é um registo que emoldura a verde a fauna da ficção, desde a Planthatera Azorica (uma orquídea única dos Açores), passando pela Araucaria Heterophylla (uma árvore natural das ilhas do Sul no Pacífico e replicada no meio do Atlântico numa mata no Livramento), até ao Jasmin Grandiflorum e à Malva Vacciones (sementes da indústria de transformação do chá), tudo acrescido de um largo "etc" num jardim silvestre de Urze, Pau-Branco, Cedro, Louro, Sanguinho, Mogno, Acácia, Criptoméria, Camélias, Hortênsias e Azáleas. É nesse cenário que se move a fauna com que nos cruzamos sob um Céu Nublado com Boas Abertas: Laureano Veneno, pedreiro e traficante acidental de cocaína; Neuza - a ruiva do Pico -, stripper profissional e, nas horas vagas ,amante de Laureano; Marinho de Mississauga, um repatriado do Canadá com um ressentimento que remonta aos anos 80 por ter sido barrado à porta de uma boîte; um sósia de Céline que disfarça um pescador de São Roque; Étienne Bouchiére, velejador francês e traficante profissional com sotaque brasileiro; o Sr. Zhang improvável mordomo chinês de um Império do Divino Espírito Santo; um Inspector da Polícia Judiciária, espécie de polícia secreta de uma ilha com segredos sombrios, que se alivia da sua existência com doses letais de stand-up comedy sueca e que, sem perceber a piada, tem uma cadela labrador de nome "Blika", que usa para fossar no ofício de detectar estupefacientes; um juiz de lábios mortos, de fácies lombrosiano à la Buster Keaton, e discípulo daquela Faculdade de Direito que sepulta a eito a melhor juventude da adolescência; um poeta por obrigação, cheio de borbotos no traje de representar para turistas o repertório de clichês do postal-poético da bruma, emoldurando gaivotas sobre o basalto negro; um imitador de Kafka com sotaque micaelense perdido nos castelos de fumarolas das Furnas e possível agrimensor dos labirintos curtos da sociedade micaelense; um James Joyce que sonha com os Açores e um burguês, Henrique, arquétipo de “amigo de infância” a quem nada se tem a dizer na distância que a idade cria entre os cúmplices da adolescência.

Sobre a Literatura escreveu António Cândido, um dos maiores críticos literários da Língua Portuguesa, que “(...) é uma actividade sem sossego. Não só os homens práticos, mas também os pensadores e moralistas questionam a sua validade, concluindo que não se justifica: porque nos afasta de tarefas sérias, perturba a paz da alma, ou porque cria maus hábitos de devaneio. Isto faz com que a literatura quase nunca tenha a consciência tranquila e manifeste desassossego com tudo o que é reprimido ou contestado: tem dramas morais, renuncia, agride, exagera a própria dignidade, bate no peito e justifica-se sem parar. Logo, não é raro vermos os escritores envergonhados do que fazem, como se estivessem praticando um acto reprovável ou desertando de uma função mais digna e burguesa. Então, enxertam na sua obra um máximo de não-literatura, sobrecarregando-a de moral ou política, de religião ou sociologia, pensando justificá-la deste modo, não apenas perante os tribunais da opinião pública, mas ante os tribunais interiores da própria consciência”.

Ao contrário da nebulosidade dos dias, a consciência de Nuno Costa Santos perante este livro só pode estar imaculada e do mesmo só pode exibir orgulho, partilhando-o com os seus leitores, amigos, e família que tanto preza. No resto, amanhã, sem surpresas, a previsão meteorológica é de céu nublado com eventuais boas abertas.»

Texto de João Nuno Almeida e Sousa, lido na apresentação de Céu Nublado com Boas Abertas em Ponta Delgada, no Teatro Micaelense.

 

 «Com os seus vinte e dois capítulos, e portanto a um capítulo de ser perfeito, o Céu Nublado com Boas Abertas entrou na minha vida numa noite de Snob. Eu creio que o Alexandre já tinha chegado - não tenho a certeza - e estávamos derramados pela mesa em torno de uns copos, quando o Nuno me falou do seu romance. Houve ali um momento de choque ao aperceber-me que seria o primeiro romance do Nuno. Quer dizer, para mim o Nuno sempre fora escritor e, por isso, em qualquer altura do Nuno um romance seria algo natural, mas eis que ali estava ele, o romance, na iminência de ser uma realidade, como um produto dos 40 e poucos anos. Uma boa idade para um primeiro romance. Tomei como nota mental comprá-lo quando saísse e estava longe de pensar que estaria aqui hoje a apresentá-lo.»

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Domingos Farinho sobre Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos. Para ler na íntegra aqui

 

 

 

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«Só o retornado vê e vive a ilha verdadeiramente. É uma questão de visão; daquela paralaxe que cabe ao viajante, ao combatente, ao emigrante, ao estudante, enfim, a quem coraja voltar sabendo que nada será o mesmo e que o passado se fará, de ora em diante, da falsa memória e da selecção. O autor e o personagem de Céu Nublado com Boas Abertas toma pulso e impulso e percorre o trilho terapêutico neste regresso com múnus, com um propósito herdado cujo destino circular é uma aproximação ao passado através de um presente desconforme e até mesmo insólito. Mas rápido se apercebe o leitor que o insólito não é coisa nupérrima, não é sequer moderno, mas sim uma viga transversal ao tecto humano, uma natural vértebra kafkiana. Quem se gruda e descola da tradição de Joyce ou Beckett trará sempre no lombo a marca de formidáveis personagens e da sensação de jornada feita dentro e fora. Munido de todas as referências que o alicerçam, Nuno Costa Santos consegue ser intrépido na audaz facada que desfere no lugar-comum que é muitas vezes dado às ilhas. E é essa facada correspondente a uma clínica sangradura que é correctiva ao corpo. Um trabalho que se aventura a apontar um céu dividido, metade azul, metade cinzento (…) por mais que passe a imagem de soturno e castigador. É, assim, descrita a verdadeira dicotomia insular, que não é mais que a imagem do próprio Homem e da vida, na sua visão mitificada (…) que esconde… Que esconde sempre a sua origem eruptiva e violenta, e um final prometido, feito do mesmo.

Não me foi difícil encontrar madeira a que lançar cabo de abordagem neste livro. Há uns anos estive aqui nesta casa [dos Açores], e o Eduíno [de Jesus] deu-me a oportunidade de tomar assento na mesa, no lugar que, na altura, se destinava ao Fernando Aires. Mal sabia eu que o plano era uma mais complexa substituição. Ali estaria para falar pelo meu Avô, Fernando de Lima. Um plano bem urdido, pelo seu irmão de armas, que nos sabia muito próximos. Esse diálogo, surpreendentemente, também não me foi difícil. Esta herança geracional, este acto de profunda ligação com um Avô é, precisamente, o que inaugura Céu Nublado com Boas Abertas. Inicia-se a viagem literal com uma descoberta, a de uma obra inédita do avô do protagonista-narrador: Exílio na Montanha, uma referência titular deveras evocativa de um conhecido livro de Thomas Mann, que não incidentalmente, coloca o seu herói no topo de uma montanha, em convalescença e na perfeita oportunidade de se rever existencialmente. Em crise existencial, o palco deverá ser território neutro, ou a casa, ou ambos. Em qualquer dos casos, dita a circunstância que nos vejamos como estrangeiros, em sítio conhecido ou num que devíamos conhecer. Será sempre o estrangeirado que mede a sua ambiguidade identitária, as suas dialéticas, procurando a identificação derradeira, procurando talvez aquele sentir de pertença que nos remete ao berço e a tempos em que os deuses verdadeiramente existiam, pairando, cuidando, alimentando, sempre neste gerúndio tão nosso. Este reencontro será sempre uma utopia cumprida na odisseia e no desterro. O Homem soube disso quando criou o Olimpo para os seus deuses, e quando lançou os dados a Ulisses, dando-lhe a sacola de Éolo, senhor de todos os ventos e direcções. Aqui [em Céu Nublado com Boas Abertas], o nosso protagonista é, não tanto instalado quanto levado por sirenas, a um outro sítio de isolamento: à ilha. Ora, com o avô na montanha e o neto na ilha, temos construídas as duas pontas do fio condutor para um dialogo literário sem tempo, e com um espaço perfeitamente inerte, não fosse essa a natureza lenta comum às ilhas e às montanhas. Quem não se lentifica nesses lugares de perdição e de encontro, são as personagens. Essas, ricas em metáfora, por vezes esbarrando em arquétipos, noutras fugindo deles com despudor quanto baste, são talvez, e cada uma, pingos destilados da metis, ou argúcia do autor, característica , aliás, partilhada com o mesmo Ulisses feito navegador e explorador existencial. A orgânica inteligente do livro é feita de muitos órgãos, com diferentes funções, assim deve ser qualquer corpo. O uso de cartas, não desigual ao de Olivier Rolin no seu O Meteorologista, faz do leitor mirone e massaja a glândula da empatia. Esse influxo da polifonia vívida num dialogismo de forma e ferramenta, constrói personagens que enchem o espaço da linguagem e circulam nele com todas as cores e iluminuras, mesmo que, por vezes, estas sejam na escala cromática do cinzento, apontando ao negro. E, mesmo aí, urge considerar a propriedade que dita que o negro assim o seja porque absorve toda a luz que nele se incide. Neste prisma, o chumbo insular seria nada mais que um todo absorvido de luz. Um nublado da ordem do melancólico que se espraie em momentos eutímicos, em abertas, e essas, boas.

Neste ponto na ordem de trabalhos a que se sujeita um livro quando se torna físico, já muito foi dito sobre Céu Nublado com Boas Abertas. Muitos olhos fizeram os seus processos especializados e ecléticos de dissecação in vitae; todos, adianta-se, com as melhores considerações. Fazer um exercício de não pisar dedos é difícil nesta maravilhosa circunstância, mas há uma nota não menos importante a escrevinhar-se nestas margens: O título do livro é um diagnóstico, todo ele clínico na sua metáfora. Céu Nublado aponta o melancólico, Boas Abertas, a mania. Mania, pelo adjectivo que eleva a condição da abertura luminosa, aqui incandescente, no mínimo. A polarização não é novidade na condição humana, senão parte integrante desta, algo cíclico a que são sujeitos os ilhéus talvez mais do que muitos. Dita a melancolia que o seu dínamo seja permanentemente alimentado a desilusão e angústia. São essas as duas Erínias do nublado. Mas no movimento ascendente, antes do precipício, fazem-se as boas abertas, muitas vezes mantidas pelo impulso, pelo prazer. Assim é a própria vida, quer o vejamos, quer não. Do mesmo modo, é na perda e no recuperar da saúde, que ela própria é apreciada. Saber viver com esse dínamo alojado no peito será, talvez, atingir a verdadeira liberdade. Saber traçar limites nesta vivência: o desafio. E é nesse desafio, nessa corda bamba, que fazem travessia as personagens, empurradas para a deslimitação, para o crime, essa fuga rente à própria morte por não se suportar a vida tão em cerco. E o que é uma ilha que não um cerco? O que é uma pessoa que não um cerco de si mesma? Não nos enganemos, no entanto, no diagnóstico. Não é este um que rotule o ilhéu de maníaco depressivo. Existirá, sim, uma depressividade, uma melancolia, furada de quando em quando por momentos de melhoria. A gravidade aqui, terá que ser imposta sobre a melancolia tornada crónica, indício sempre de perda precoce, de vazio. Para esse vazio bastará um sentimento de estrangeirismo, de singularidade cercada pelos mais castradores elementos, do Mar ao Céu, antigas moradas dos deuses. Céu Nublado com Boas Abertas é, portanto, e também, um tratado clínico. E não creio que em total contra-narrativa com outras gerações. Afinal, através do realismo mágico, muito foi traçado a grafite, escura também. Mas é tendência no Autor, como deve ser em todo o mudar-da-guarda, o lancetar edipiano. o desafio feito ao Pai, aos deuses, ao sistema, ao Mar, ao passado. Tenta-se sempre, falha-se e consegue-se, e assim se restaura o próprio fabrico do Tempo e as dinâmicas que dele dependem. Faz-se, no combate, a homenagem. O Autor é vencedor nisto, sempre. Aqui, com a justa húbris de quem sabe o que faz. De quem tem bagagem quanto baste para sobreviver a qualquer viagem que se proponha fazer. Será ele, o Autor narrador, também, um melancólico inconstante, como nós todos, como o tempo. A sua solução final é sempre vencer através do sofrimento. Até mesmo o Avô extirpa o pulmão para salvaguardar a sua filha da contaminação. É respirando, enfim, vivendo, que se morre. Apenas na obra valorosa nos libertamos da lei da morte. Avô sabia disso, o neto também.

Estamos já em escalada suficiente para termos boa vista sobre o impacto deste romance no nosso tecido literário. Fez vinco, dobra; acepilhou, nivelou, inaugurou, brindou. E tudo isto em presente histórico, também.

Entretanto, olha-se o mar, do regresso que abre a narrativa ao que a encerra, e sonha-se, do voo que inaugura a viagem até à página final. É esse o derradeiro positivismo humanista, a derradeira aberta luminosa num céu nublado e carregado, sonhar sobre o abismo e, fatalmente, vencer.»

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Texto de João Pedro Porto, na apresentação de Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos, na Casa dos Açores em Lisboa, na semana passada.

 

Sim, mas está sempre na fronteira. Não posso negar que este elemento real interessa-me muito. Há sempre um lado de ilusionismo, de ficção, de artifício. Estamos a assistir a um regresso artístico ao real – na literatura, na música, no cinema, na televisão. Eu não me considero um seguidor desse movimento, mas um praticante natural desse movimento. Quando li o livro-manifesto do David Shields, “Reality Hunger”, pensei que era aquilo que eu sentia e que já tinha intuído e até discutido com alguns amigos. Muitos trabalhos meus já têm isso: esse ilusionismo entre o real e o imaginário. Esse fingimento de algo que aconteceu. Há muita gente que julga que sou o melancómico.

 

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 Nuno Costa Santos (aqui fotografado por Vitorino Coragem), em entrevista a Mário Rufino, para ler na íntegra no Diário Digital

 

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