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«Havia um bando de crianças à volta da médica, curiosas pelo cabelo de fogo. Rodeavam-na, tocavam-lhe na roupa e acariciavam a mala, como se ali houvesse feitiços. A russa tinha um ar trágico de Ana Karenina. Por momentos, Daniel alheou-se da negociação, que entrara em fase de ruptura. Observou até que ponto ela era magra e ruiva. Fascinou-se, por um instante, com o seu cabelo, que brilhava naquela luz. O sol iluminava-lhe a cara, oval e pálida como a Lua, com tons de bronze quente, alimentando a frescura rósea da pele, desenhando-lhe o contorno dos lábios pequenos e tristes. Dessa forma, era quase bela. Os miúdos deviam estar fascinados, ou talvez meio atemorizados, com aquela deslocada brancura das estepes.»

 

De Jardim Botânico, de Luís Naves. Dia 4 de Fevereiro nas livrarias.

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Luz Mendiluce

18.10.10

«Luz Mendiluce foi uma menina maravilhosa e sadia, uma adolescente gorda e pensativa e uma mulher alcoólica e infeliz. Além disso foi, de todos os escritores da sua família, quem teve mais talento. A famosa fotografia de Hitler com a menina de poucos meses ao colo acompanhou-a toda a sua vida. Emoldurada num rico trabalho de prata lavrada, presidia ao salão da sua casa juntamente com vários retratos de pintores argentinos onde ela aparecia, menina ou adolescente, geralmente acompanhada da mãe.»

 

A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño.

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«A 1 de Setembro de 1932, o jornal O Século publica um anúncio para o preenchimento do lugar de conservador-bibliotecário no Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, a 30 quilómetros de Lisboa. A 16 de Setembro, Fernando Pessoa envia a sua carta de candidatura, um documento de seis páginas que está reproduzido em Fernando Pessoa - uma fotobiografia, de Maria José de Lencastre, obra coeditada e, 1981 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e pelo Centro de Estudos Pessoanos, adquirida por mim numa livraria de Coimbra, em Novembro de 1983, ao preço de 500 escudos. Quando a comprei, já só havia um exemplar. Nos cafés da cidade as mesas ainda tinham, por baixo do tampo, uma prateleira onde se podia pousar o chapéu, e lembro-me de uma mulher a caminhar pela rua com uma máquina de costura equilibrada sobre a cabeça.»

 

Assim começa Bibliotecas Cheias de Fantasmas, de Jacques Bonnet, traduzido por José Mário Silva. Já nas livrarias.

 

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«"Os rapazes ganharam", disse a enteada dele, Silvia. "Outra vez."

"Detesto ouvir isso", disse Keith.

"Eu detesto dizê-lo."

Silvia cursara Sexo (no sentido de Género) na Universidade de Bristol. E era agora uma daquelas «crianças» jornalistas que, aos vinte e três anos, já escrevia uma muito discutida coluna semanal num dos grandes jornais. Leith conhecera-a quando ela tinha catorze - em 1994, quando ele vendera o seu grande duplex em Notting Hill e se mudara para a casa por cima do Health. Silvia tinha herdado a aparência da sua mãe, mas nenhuma da insana alegria desta; era um daqueles espíritos tórpidos que causavam riso a toda a gente menos a si mesma.

"Portanto, contrariamente ao teu melhor juízo", disse ela torpidamente, "dás por ti a passar a noite com um jovem. E são todos iguais. Não interessa quem. Um replicante com fato de quem trabalha na City. Um mal-cheiroso qualquer com uma camisola do Arsenal. E, na manhã seguinte, por hábito, tu dizes-lhe, sabes como é, quando puderes telefona-me. E ele fica a olhar para ti. Como se fosses uma leprosa que o tivesse acabado de pedir em casamento. Porque telefona-me é chantagem emocional, compreendes. E o compromisso não é permitido. Os rapazes ganharam. Outra vez."»

 

De A Viúva Grávida, de Martin Amis.

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«Ele lembrou-se da descrição que Lily fizera da primeira vez dela, de Lily, com o estudante francês em Toulon, e de ela ir caminhar pela praia na manhã seguinte, e pensar, meu Deus, sou uma mulher... Despertar para a feminilidade. Era a isso que os psicólogos chamavam aniversário animal: um aniversário animal é quando o nosso corpo nos acontece. Não era assim para os rapazes, a primeira vez: a primeira vez era somente algo que se tirava do caminho. Foi percorrido por um grande desamparo, e procurou a mão de Lily.»

 

De A Viúva Grávida, de Martin Amis.

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«Era manhã de carnaval. Bernardino abriu um olho, depois outro, e este alcançou Maria, ressonando ali ao lado. Era manhã de carnaval, não se poderia ainda dizer se ela viria a ser bonita, mas o publicitário estava aliviado: agência só na quinta-feira de cinzas. Eram cinco dias longe de Adelaide e cinco dias longe de Adelaide talvez fossem tudo o que ele precisava para se emendar e não dar novos vexames como o dado ao piano do Copacabana Palace. Na quinta-feira seguinte à festança, lógico, ele não conseguira aparecer para trabalhar, pois seu fígado estava a fazer uma operação tartaruga. Na sexta-feira, antes de sentir-se novamente mal, tivera tempo apenas de resolver algumas pendências insignificantes com Laura e dar uma passada na sala de Milano, como quem não quer nada, só para aferir o bom humor do velho depois da noite dos 25 anos da agência. Depois de uma e de outra tarefa, passara os olhos preguiçosamente pelos remetentes e pelos assuntos das dezenas de e-mails acumulados durante o dia no estaleiro. Abrira apenas dois deles.

 

O primeiro, ainda de quinta-feira, 14:13, dizia:

<Oi, Dino, tudo bem? Fiquei preocupada com você ontem. Você bebeu tanto e a sua mulher estava com um ar tão triste na pista de dança... Por que você faz isso? Você também acha que a agência vai fechar em breve, como o P.H.? Ele me falou isso agora de manhã, no café, e disse que não sabia se você viria trabalhar. Beber do jeito que você bebe vai acabar te fazendo mal. Desculpa não ter assistido até o final da sua interpretação da música do Caetano Veloso: eu comecei a chorar e tive que sair dali. Beijos pra vc, Adelaide.>

 

A segunda mensagem, datada daquela mesma sexta, 9:37, dizia:

<Oi, Dino, eu de novo... Espero que você tenha melhorado ao menos o bastante para dar as caras aqui antes do feriadão de carnaval. Vou sentir saudades se não te vir... Me dá uma ligada, de qualquer maneira? Só para eu saber que você já está recuperado? Tô meio mãezona, né? Apesar de cansada dos Escravos da Mauá, ontem, vim cedo hoje pra agência pra poder sair logo e curtir a folia. Hoje sai o Carmelitas! Beijos pra vc, Ade-Laide.>

Bernardino aprendera, em meia dúzia de rápidas conversas ao pé da máquina de café com Adelaide, a importância do carnaval, não apenas para ela, como para toda aquela geração de Paulos, Thiagos, Renatas. E, claro, Mários e Marias. Sim, era um pouco chato admitir isso, porque essa admissão igualava seus filhos a Adelaide, ou seja, dizia pô, cara, você tem idade para ser o pai dela! nas entrelinhas, mas a convivência com a ruiva, ainda que corrida entre um almoço comercial e outro, ainda que quase sempre mediada pelo correio eletrônico, vinha lhe ajudando a entender melhor os jovens que tinha em casa.»

 

 

Excerto de De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo, de Arthur Dapieve. Dapieve virá a Portugal em Abril, mês em que publicamos Blackbox, um novo romance do autor brasileiro.

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«Então, e felizmente, chegou o Carnaval para pôr fim à seca sexual a que o meu casamento estava submetido. Foi quando Aninha, de Brasília, actriz, bonitinha, vintes e tais, leitora de Bukowski, levemente alcoolizada, se sentou à nossa mesa no Jobi e a questão se resolveu por si, já que ela se convidou para a nossa cama naquela madrugada de domingo de Carnaval. Tudo se resume ao tempo e, neste caso, também à distância. O tempo e a distância juntos trabalham bem. Fosse outro o tempo e o convite da lolita nunca seria aceite. Estivéssemos acima da linha do Equador (ah, o céu de Lisboa), o convite não seria feito. Não existe pecado do lado de baixo do Equador, muito menos se o número de chopes que o garçom anotava nas bases dos copos chegava aos vinte e oito. E se Aninha não era nenhuma beleza, era daquela cidade saída da cabeça do Niemeyer e tinha as curvas extraterrestres do mestre, e estava no Rio, em casa de amigos — que nunca chegaríamos a conhecer —, tomando todas no Carnaval Carioca. Aninha tinha uma tatuagem, calçava umas botas de cano baixo e vestia uns trapinhos pretos. Pareceu-nos sexy.»

 

 

Excerto de Transa Atlântica, de Mónica Marques. Mónica Marques publicará um novo livro ainda este ano.

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Alice

23.11.09

 

O vento empurrou a neve contra o que tinha sido uma janela e estava agora tapado com metade da porta de um arquivo de documentos e folhas de jornal que não conseguiam vedar completamente o ar frio. Por isso, a temperatura na casa da Alice nunca subia muito acima dos zero graus.


Neste momento, neste preciso momento, aperta ela um pouco mais o papel desbotado na frincha da janela. As letras impressas não passam de uma vaga ilusão que pouco ou nada significa. Treme, sem dar conta, Alice. Passou a ser um estado natural  ter um corpo que não consegue permanecer quieto. Aperta um pouco mais o fecho éclair do casaco de malha azul e puxa mais para baixo as luvas sem dedos.  

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«Nunca dê um charuto a um desconhecido, este também é o meu lema. Há alguns anos eu era muito amigo de um lorde inglês, que certa noite veio jantar a minha casa. Depois do café e, talvez do conhaque, abri uma caixa de Montecristos que me fora oferecida por um amigo mexicano, um produtor de cinema, proprietário de terras no Yucatan. Era um ricaço das Caraíbas que sabia de charutos e, o que era mais importante, conhecia a minha paixão por bons charutos e, o que era mais importante, conhecia a minha paixão por bons charutos, sentimento tão veemente como a impaciência de Fortunato pelo amontilado. Embora nunca tenha declarado que um charuto, mesmo que se trate da minha vitola, é melhor do que uma mulher, como Kipling se casou com uma norte-americana porque não podia ter relações mais íntimas com o seu amigo americano, irmão dela. Parece que nunca conseguiu manter relações tão íntimas com o seu amigo americano, irmão dela. Mas essa é outra história.»

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«Eu próprio não tinha até à essa data e durante muitos anos usado nenhum fato, pois tinha até então aparecido sempre de calças e pulôver, mesmo ao teatro ia sempre, quando ia, só de calças e pulôver, em especial com umas calças de lã cinzentas e pulôver cor de fogo de lã grossa de carneiro, que um americano bem-disposto me ofereceu logo a seguir à Guerra. Lembro-me de que com esse traje fui algumas vezes a Veneza ao famoso Teatro Fenice, (…) e estive com essas calças e esse pulôver em Roma, em Palermo, em Taormina e em Florença e em quase todas as restantes capitais da Europa, abstraindo ainda do facto de, em casa, eu usar quase sempre essas peças de vestuário, quanto mais surradas estavam as calças e o pulôver, mais eu gostava de as vestir, (…) eu usei essas peças de vestuário durante um quarto de século.»

 

De Os Meus Prémios, de Thomas Berhnard (Tradução de José A. Palma Caetano)

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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