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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

José Mário Silva escreveu no Expresso sobre A Liberdade do Drible, de Dinis Machado.

 

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«As 23 crónicas futebolísticas reunidas neste volume foram publicadas entre 1978 e 1996 – a maior parte no então trissemanário desportivo “A Bola”, as restantes no “Tal & Qual”, em “O Jornal”               e no “Guia da Semana”. Apesar da sua qualidade desigual, ao lê-las é reconfortante verificar que Dinis Machado era daqueles escritores que nunca deixavam de o ser, mesmo quando as circunstâncias da vida o levavam a alinhavar prosas para a imprensa, sabendo que no dia seguinte já só serviriam para embrulhar peixe. O certo é que estas crónicas, décadas depois, ganharam a dignidade da edição em livro – e bem a merecem. Merecem justamente porque escapam ao mero comentário a realidades que a distância temporal tornaria incompreensíveis aos leitores de hoje, rememorando e recriando, em vez disso, histórias que podem ser lidas com proveito por leitores de qualquer época.»

«Não é preciso gostar de bola para gostar de A Liberdade do Drible. Muitas das crónicas de futebol que nos são prometidas no subtítulo não chegam a entrar nas quatro linhas do campo. O desporto que interessa a Dinis Machado dispensa as chuteiras – às vezes, dispensa até a bola. Como em “Onde Começa o Futebol?”, quando o escritor relata ao pormenor o seu método para transformar uma laranja numa bola de futebol. E chutá-la para longe numa “verdadeira viagem sideral ao país da infância”.»

 

Luís Leal Miranda, Time Out

 

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«Sendo a minha juventude jogada entre balizas de interesses variados e ocupando nela o futebol, como prática física, um dos lugares de intensidade e prazer, não surpreenderá o leitor que venha dar nesta secção, de vez em quando, testemunho dessa forma de festa e de conhecimento. e dos factores humanos nela implícitos, do factor humano.

 

Estava eu a cumprir serviço militar no Regimento de Artilharia 3, quando parceiros do futebol me chamaram para participar num prélio de importância histórica (passe a megalomania). E apresentei-me, num domingo de folga militar, já não me lembro em que rectângulo nem o nome do adversário, para jogar numa equipa que reunia gente do bairro, da escola – e mais um ou outro, convocado ali ou além. uma selecção a martelo, digamos, com jogadores de várias idades, um certo curriculum – e até alguns bem seniores, na casa dos trinta. Tinha eu 20 anos, era dos mais novos.

 

Notícias esparsas, dadas por este ou por aquele, transmitiam-me o seguinte: o nosso adversário era um time de miúdos abaixo dos 20 anos e tinha um treinador a tempo inteiro, com trabalho de campo e aulas teóricas. Parece que treinavam todos os dias, ou quase, nas horas livres que a escola ou o emprego permitiam. Desfrutavam de um certo estatuto nos meios populares e não receavam qualquer adversário. Eram «tácticos», comentava-se.

 

Dado o pontapé de saída e vamos lá ver como é, percebi logo que tínhamos novidades. Agora, relembrando, ainda percebo melhor. Eram jogadores «naturais», habilidosos, trocando a bola quase de olhos fechados, cobrindo-a com uma naturalidade surpreendente – e avançando no terreno, fazendo e desfazendo triângulos, variando os flancos com muitos lances ao primeiro toque, de passe curto. Um dos vértices do triângulo desfazia, de repente, a figura geométrica, iniciando outra, logo ao lado, ou mais à frente, com aceleração súbita, obedecendo a movimentações estudadas e mudanças de ritmo. Criavam assim, permanentemente, bolsas de três jogadores tecendo uma rede de passes repetidos e rasteiros. Atiravam, muitas vezes, inesperadamente, a bola para trás, solicitando a peça livre para iniciar novo triângulo. Para nós, mais habilidosos a jogar o que o jogo desse, o processo deixava-nos, às vezes, desencaixados nessa espécie de sucessivos coletes-de-forças falsamente soltos. Tinham iniciativa e mecanização. Dois ou três deles, menos amarrados ao esquema, improvisavam bem, até com brilho, eram o sal da receita.

 

E como acabou isso?, perguntará o leitor. Sempre lhe digo que nós, os mais velhos e experientes, ganhámos por 5-4 – mas também lhe digo (de resto, como o resultado indica) que tivemos de fazer a sério pela vida para evitar o descontrolo. No que me diz respeito, estava numa excelente forma física, porque tinha saído de uma recruta intensa, de quatro meses, cheio de ginástica, com uma saúde de ferro, integrado (embora contrariado, convenhamos, por alguma indisciplina e preguiça congénitas em relação a certas obrigações, mas tropa é tropa) no grupo especial do quartel que acabara de participar no campeonato militar. Esfalfei-me durante os noventa minutos (tinha forças para o fazer, é isso), corri o campo todo – e até marquei um golo, no limite do tempo e do esforço (fazendo o 5-4), depois de ganhar a bola, próximo da grande área deles, em takles teimosos e felizes. Tirei-lhes o empate que bem mereciam.

 

Agora, concluindo: soube que a rapaziada vencida ficara muito triste (custara-lhes imenso o golo no último minuto) e que o velho treinador (estou a vê-lo com muito futebol nos olhos e na cabeça, vastas leituras e informações sobre o jogo e uma «vontade de conjunto») chorou. O clube desapareceu, nem sabendo nós se a partida que fizemos com eles teve alguma influência nisso. Espero (e creio) que não. Lembro-me disto porque, às vezes, um golpe duro numa motivação algo ingénua e susceptível pode causar efeitos bastante sofredores. Mas o clube, que recordo aqui com a maior simpatia, deve ter acabado como acabavam todos – e o velho treinador nunca mais entrou nas nossas conversas (ou entrou episodicamente), deixando, contudo, lugar para um fugaz pensamento entristecido e distante.

 

Porque (é fácil calcular) se tratava de uma personagem inteligente e poética; e porque chorar (mesmo quando parece despropositado) é bem humano; e porque orientou um grupo de jovens talentosos, combativos e leais: por razões de futebol no que tem de positivo, feliz e imaginoso, de entendimento e de entreajuda, evoco um possível Chapman, Herrera ou Otto Glória (para citar de passagem) nunca realizado, talvez antecipador (para actualizar e localizar a circunstância) de, por exemplo, um Artur Jorge ou um Carlos Queiroz, e outros – todos os que fazem a pedagogia possível para segurar o futebol no rumo da vocação e de virtudes bem saudáveis, que o jogaram ou não e o leccionam com desvelo, envolvendo o jeito e o raciocínio na alegria de praticar e de competir.

 

E pronto. Se algum desses antigos miúdos me estiver a ler, que saiba (se for preciso dizer-lhe) que jogaram como gente grande. E que espero não tenha esquecido (e porque havia de esquecer?) o velho treinador sentimental que sonhou o sonho que lhe foi possível, talvez preenchendo o vazio da reforma com esse espaço de construção, já na luz fraca do outono da vida: individual, colectivo, harmonioso – e tão admiravelmente precário.»

 

Esta é uma das magníficas crónicas incluídas no livro A Liberdade do Drible, de Dinis Machado, que chega esta semana às livrarias.

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Chega esta semana às livrarias, esta recolha de crónicas (da responsabilidade de Marta Navarro) de Dinis Machado sobre futebol. Inédito e imperdível.

 

«A Liberdade do Drible é jogo sublime feito por Dinis Machado»

A Bola

«Há em certas páginas deste livro sobre a bola algo de O Que Diz Molero»

Diário de Notícias

«Um hino à escrita (e ao futebol). Dinis Machado dá espectáculo. Ao todo, 23 crónicas. Ou 46, caso lhe apeteça relê-las no mesmo dia.»

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«O olhar de um adepto, de um fã do futebol, e especialmente da sua beleza, que pode ser exemplificada por um drible.»

Jornal de Negócios

 

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Dinis Ramos Machado nasceu em Março de 1930 em Lisboa, onde viveu no Bairro Alto até ao fim da sua juventude. Foi jornalista desportivo no Record, no Norte Desportivo, no Diário Ilustrado e no Diário de Lisboa e publicou crítica de cinema na revista Filme. Praticou de tudo um pouco, do poema à entrevista, e escreveu três livros policiais, com o pseudónimo Dennis MacSchade para a colecção «Rififi» que então dirigia na editora Íbis. Morreu em Outubro de 2008.

 

 

«Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe. «Molero Diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava , muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva».

 
Publicado pela primeira vez em 1977 e agora pela Quetzal na 22ª edição, O Que Diz Molero constitui um êxito estrondoso junto da crítica e do público e vendeu mais de cem mil exemplares. Foi ainda traduzido para espanhol, búlgaro, romeno e alemão, estando actualmente em preparação as edições em itália e República Checa. Luiz Pacheco disse dele: «É um livro-bomba, uma obra de arromba». Esta edição tem um posfácio de Nuno Artur Silva e a ilustração da capa e é de António Jorge Gonçalves.

 

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