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Romaria profana

04.05.16

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«Nuno Costa Santos é debutante na perigosa arte do primeiro romance com este Céu Nublado com Boas Abertas, mas é um veterano numa lide com várias frentes nas letras em geral. Poeta e cronista dos costumes portugueses; biógrafo de escritas alheias como é o caso de Fernando Assis Pacheco; blogger em vários projectos incluindo o :Ilhas; melómano com passagem pela rádio e sketcher com experiência televisiva; humorista de produções fictícias e dono de um humor com marca registada: o melancómico. Tudo isto são dimensões de um autor multifacetado que tem ainda outras três valências a destacar: a de dramaturgo e encenador engajado socialmente, com destaque para o Condomínio da Rua, que esteve em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, ou para a mais recente e notável peça I Don't Belong Here, um projecto sobre deportação partilhado com Dinarte Branco; a de jornalista com uma marcante colaboração com o Açoriano Oriental, especialmente com uma arqueologia completa e imparcial dos acontecimentos do 6 de Junho e do Verão Quente de 75 que, pelo seu valor histórico, documental e jornalístico, devia ser compilada e editada; a de cinéfilo e cineasta com uma das joias do seu currículo: Noite de Festa, um filme que permanece na memória de quem viu e que tem muitas pontes de contacto com a linguagem e planos de imagem desenrolados neste Céu Nublado com Boas Abertas.

Há ainda uma outra dimensão da obra do Nuno Costa Santos que quem o conhece ou se cruzou de alguma forma com a mesma não pode omitir: o Nuno é um exímio cinto negro e praticante regular da arte do aforismo. A propósito repesco um aforismo: “Never Judge a Book by the Cover”, uma falácia hipócrita para quem gosta de livros, impossível de contornar, quando nos deparamos com esta primorosa edição, onde todos os pormenores e protocolos de leitura são de irrepreensível funcionalidade e bom gosto, da gramagem do papel, ao lettering e espaçamento de texto que respeita o leitor, até ao cuidado do design de cada vinheta que adorna a abertura dos diversos capítulos. As expectativas que se oferecem no espaço opinativo da contracapa e das badanas, bem como a autoridade da crítica publicamente reconhecida, orientam o leitor no bom caminho para dentro da obra que tem em mãos. O autor não esquece uma nota de agradecimentos típica de quem tem a humildade e generosidade de evocar familiares e amigos. De referir que Nuno Costa Santos cresceu num círculo intelectualmente curioso e criativo que influenciou e pelo qual foi influenciado. Um círculo excepcional, com interesses comuns, incluindo a Arte, que ainda hoje o acompanha e no qual têm lugar honorário Alexandre Pascoal, Bernardo Rodrigues, André Almeida e Sousa, Pedro Arruda, Zé Bernardo Rodrigues, os irmãos Albergaria e os irmãos Decq.

Em Céu Nublado com Boas Abertas um desafio vindo do passado em escrito do Avô é a casa de partida de um regresso à Ilha. Numa nota que cai, ao acaso ou talvez não, de um volume da Biblioteca na casa de Lisboa de João Pereira da Costa, é lançada a demanda: “Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da Ilha”. E isto com um conselho do além: “não se fatigue demasiado. Viva a vida que não consegui viver”. Com este bilhete de um remetente do passado a um destinatário futuro, Nuno Costa Santos retorna a São Miguel, onde se faz “romeiro profano” numa “jornada insular”. Nesta obra a dois tempos há um permanente diálogo com o livro que o Avô quis escrever e editar, deixado em herança ao Nuno, e outro livro que no presente o autor vai escrevendo num coito ininterrupto entre a realidade e a ficção, sendo que aquela, nas ilhas, supera frequentemente a ficção e é pasto fértil para narrativas próximas do realismo fantástico. No debulhar da história de João Pereira da Costa, o autor segue um fio de sangue que o liga geneticamente à história do Avô. Há uma Montanha Mágica replicada no Caramulo, enquanto vasto sanatório para “lesados” da tuberculose, onde João Pereira da Costa é obrigado a exilar-se da sua ilha. Mas, para lá do “purgatório” do sanatório, há também memórias do “Éden” da ilha. O retrato a sépia e a preto e branco de outro tempo, suspenso no Caramulo ou em andamento na ilha, é um trilho paralelo que se vai construindo em Céu Nublado com Boas Abertas, no meio da flora e da fauna local, sendo que o deslumbre com a ilha-jardim é, para Nuno Costa Santos “uma visão mitificada que esconde as angústias e os medos da caminhada adolescente”.

Fazer a crítica de qualquer obra, incluindo, a literária “(...) não é ciência, mas, na melhor das hipóteses, diálogo, encontro de vozes e respectivas mundividências”, disse José Martins Garcia. Dialogar com este livro de Nuno Costa Santos é também viajar para um mundo com um tempo de eterno Verão Azul numa adolescência que não quer acabar. É o mapa para um paraíso perdido que, nas palavras resgatadas a José Martins Garcia, é a chave para a “mundividência de uma existência num estado paradisíaco, inicial, harmonioso, como que isento do desgaste do tempo” e nessa “nostalgia das origens”, o mito antigo do paraíso perdido, aquele que ecoa na obra de Milton,enquanto “idade da ventura ou inocência”, desloca-se para a infância e adolescência. Essa visão romantizada, ou mitificada, como escreve o autor, que marca o livro, não esconde o recorrente e típico sentimento insular de que a ilha é uma prisão. Será por acaso que um dos capítulos se desenrola sob a epígrafe Prison Blues? Creio que aqui nada é por acaso e que o Nuno Costa Santos, autor que se confunde com o narrador, na demanda do “romance definitivo sobre as questões essenciais da existência: o amor, a morte e a água azeda”, tenta na literatura a fuga artística de uma “ilha que tanto apaixona como oprime”. Uma ilha-prisão em forma de rotunda numa longa circular, hoje dispensada dos enjoos de má memória, pois as novas gerações vivem “uma pavimentada existência em linha recta”. E é também em linha recta, em fuga desse cárcere em forma de ataúde suspenso no mar, que recorrentemente o autor/narrador, com a mesma pulsão natural que o impele a escrever, sente o apelo da evasão em passo de corrida, de se atirar a um longo jogging, e de caminhar sobre as águas como um atleta bíblico. Ao longo de toda a deambulação pela ilha grande fechada há esse recorrente ponto de fuga que nos lembra o Estranho Mundo de Garp, pois, no livro de John Irving, Garp, a excêntrica personagem principal, por tudo e por nada, sem saber porquê, saía disparado porta fora para correr. Talvez seja porque correr é um manifesto libertário que une “os nossos dois impulsos mais primários: o medo e o prazer”, como bem escreveu Christopher Mcdougall em Nascidos para Correr: “Corremos quando estamos assustados, corremos quando estamos em êxtase, corremos em fuga dos nossos problemas e corremos para nos divertirmos. E é quando as coisas parecem piores que mais corremos.” Ora, perante a opressão e o “stress insularis” diagnosticado por Nuno Costa Santos, o mesmo prescreve, em automedicação a essa condição, longas caminhadas e penitentes corridas numa romaria profana pela Ilha. Céu Nublado com Boas Abertas é um querido diário desses dias de deambulação, em que a partida se confunde com a chegada (veja-se o eterno retorno que liga o princípio ao fim do livro), num registo de enamoramento com a Ilha. É um diário sem roteiro, como o filme de Moretti, só que em vez de lambretar pela cidade eterna, sob a luz dourada de Roma, temos o registo pedestre de Nuno Costa Santos sob um céu muito nublado, intervalado com as boas abertas que compensam o negrume da insularidade. Essa mesma Insularidade que no livro e na vida real é o equilíbrio instável das variações de humor entre só estar bem aonde não se está e o querer ir aonde não se vai. A Insularidade é uma inquietude definida assim na lição de José Almeida Pavão: “O nascer ou viver numa Ilha. O ser sempre Ilha. O ter corpo e alma de Ilha, mesmo fora dela. O ter presente uma ausência perene. Uma perpétua saudade que identifica a ânsia da partida com o desejo de retorno. O cárcere que se transporta dentro de nós”. Como essa inquietude é constitucional ao micaelense, a presença do Divino, como amparo perante forças maiores do que o indivíduo, é uma marca de um temor reverencial aos desígnios de Deus. Tal como noutras obras de Nuno Costa Santos – em especial no filme Noite de Festa - a presença do Divino e da religiosidade telúrica dos micaelenses é marcante no autor e na obra. Conclui Nuno Costa Santos que os Açorianos são um “povo herdeiro de um cristianismo penitente”, acentuado nos micaelenses, o que no livro se venera com recorrentes passagens de romeiros e romarias ao longo da ilha. Apesar de afirmar: “O Deus da minha geração não existe” é com o fervor de quem lamenta a perda dessa fé “de um povo de aflitos” que descreve os romeiros envoltos na bruma referida como “a barba de um Deus do absurdo”. Quase no final do livro e da sua “jornada insular de romeiro profano” encontra, porque procura, um Irmão Romeiro, deliberadamente sem nome ou qualquer traço identitário excepto o de possuir o “sorriso de Deus se Deus existir”. Esse Irmão Romeiro, que reza por todos os aflitos, encerra, com a sua oração, uma das mais marcantes páginas de Açorianidade deste livro. Escreve Nuno Costa Santos, com brilhantismo, que “este sempre foi um povo de aflitos – é daí que vem a religião, socorro para quem suportou, sem ajudas, intempéries e humores meteorológicos. Um povo aflito que habita em ilhas de vulcões, terramotos, pilhadas por piratas, feita de gente que desbravou uma terra agreste e que, no meio de tanta aflição, rezou, implorou uma prece aflita, dominada pelo medo das intempéries, numa terra que tem tanto de belo como tenebroso”. Para lá dessa tipologia antropológica, tão atavicamente ligada à natureza da ilha-jardim ou ilha-prisão, “que tem tanto de belo como tenebroso”, Nuno Costa Santos, em Céu Nublado com Boas Abertas, colecciona vários espécimes da flora e fauna locais.

No portefólio deste Céu Nublado com Boas Abertas a flora é um registo que emoldura a verde a fauna da ficção, desde a Planthatera Azorica (uma orquídea única dos Açores), passando pela Araucaria Heterophylla (uma árvore natural das ilhas do Sul no Pacífico e replicada no meio do Atlântico numa mata no Livramento), até ao Jasmin Grandiflorum e à Malva Vacciones (sementes da indústria de transformação do chá), tudo acrescido de um largo "etc" num jardim silvestre de Urze, Pau-Branco, Cedro, Louro, Sanguinho, Mogno, Acácia, Criptoméria, Camélias, Hortênsias e Azáleas. É nesse cenário que se move a fauna com que nos cruzamos sob um Céu Nublado com Boas Abertas: Laureano Veneno, pedreiro e traficante acidental de cocaína; Neuza - a ruiva do Pico -, stripper profissional e, nas horas vagas ,amante de Laureano; Marinho de Mississauga, um repatriado do Canadá com um ressentimento que remonta aos anos 80 por ter sido barrado à porta de uma boîte; um sósia de Céline que disfarça um pescador de São Roque; Étienne Bouchiére, velejador francês e traficante profissional com sotaque brasileiro; o Sr. Zhang improvável mordomo chinês de um Império do Divino Espírito Santo; um Inspector da Polícia Judiciária, espécie de polícia secreta de uma ilha com segredos sombrios, que se alivia da sua existência com doses letais de stand-up comedy sueca e que, sem perceber a piada, tem uma cadela labrador de nome "Blika", que usa para fossar no ofício de detectar estupefacientes; um juiz de lábios mortos, de fácies lombrosiano à la Buster Keaton, e discípulo daquela Faculdade de Direito que sepulta a eito a melhor juventude da adolescência; um poeta por obrigação, cheio de borbotos no traje de representar para turistas o repertório de clichês do postal-poético da bruma, emoldurando gaivotas sobre o basalto negro; um imitador de Kafka com sotaque micaelense perdido nos castelos de fumarolas das Furnas e possível agrimensor dos labirintos curtos da sociedade micaelense; um James Joyce que sonha com os Açores e um burguês, Henrique, arquétipo de “amigo de infância” a quem nada se tem a dizer na distância que a idade cria entre os cúmplices da adolescência.

Sobre a Literatura escreveu António Cândido, um dos maiores críticos literários da Língua Portuguesa, que “(...) é uma actividade sem sossego. Não só os homens práticos, mas também os pensadores e moralistas questionam a sua validade, concluindo que não se justifica: porque nos afasta de tarefas sérias, perturba a paz da alma, ou porque cria maus hábitos de devaneio. Isto faz com que a literatura quase nunca tenha a consciência tranquila e manifeste desassossego com tudo o que é reprimido ou contestado: tem dramas morais, renuncia, agride, exagera a própria dignidade, bate no peito e justifica-se sem parar. Logo, não é raro vermos os escritores envergonhados do que fazem, como se estivessem praticando um acto reprovável ou desertando de uma função mais digna e burguesa. Então, enxertam na sua obra um máximo de não-literatura, sobrecarregando-a de moral ou política, de religião ou sociologia, pensando justificá-la deste modo, não apenas perante os tribunais da opinião pública, mas ante os tribunais interiores da própria consciência”.

Ao contrário da nebulosidade dos dias, a consciência de Nuno Costa Santos perante este livro só pode estar imaculada e do mesmo só pode exibir orgulho, partilhando-o com os seus leitores, amigos, e família que tanto preza. No resto, amanhã, sem surpresas, a previsão meteorológica é de céu nublado com eventuais boas abertas.»

Texto de João Nuno Almeida e Sousa, lido na apresentação de Céu Nublado com Boas Abertas em Ponta Delgada, no Teatro Micaelense.

 

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Os livros são coisas polifacéticas, têm muitos lados por onde se podem pegar, o que quer dizer que têm abrangências que acabam por conseguir tocar em partes distintas de pessoas distintas com as mesmas frases, as mesmas letras. Os significados, ou mais rigorosamente a combinação de significados num livro, é o livro em aberto, aquele que cada um de nós encontra. E digo livro, e não romance ou novela, porque reconhecendo o ofício há aqui um objecto, um objecto-livro que para Nuno Costa Santos e boa parte dos que estão metidos na mesma furna onde se cozinha um caldo de coisas distintas, significa uma manifestação por uma cultura, pop se assim a quisermos chamar. Será sempre uma definição redutora, pop tornou-se demasiado grande e demasiado pequeno, mas passou por todos nós como a expansão violenta do ar pelo espaço depois de uma explosão, passou pelos nossos corpos deixando neles estilhaços de tudo o que antes era sólido. É nisso que há aqui pop.

Este livro contém também uma paisagem, a de São Miguel, e é essencialmente sobre essa paisagem. Acontecem coisas e vivem pessoas nessa paisagem, o livro é disso um registo. É um registo em sobressalto, em confronto e até em violência. É por isso que não se ouve em nenhum momento uma música dos Cocteau Twins. Essas pertencem ao aconchego húmido dos regressos à ilha pelo Natal, quando tudo é melancólico e doce. Quando não há ruído nem sobressalto. Não há confronto. Falarei de três coisas deste livro: de um ofício, de uma paisagem e de um autor.

 

I

 

Já dei por mim a pensar sobre contiguidades entre a literatura e a arquitectura, o meu defeito profissional, e na forma como dentro da cabeça de um autor as coisas se formam. Julgo que funcionamos ambos por imagens alargadas, como se diz agora, que contêm cheiros, sons, tactos, a que antecipamos o sabor no momento em que lhes estamos a dar forma. Tanto disto está neste livro.

(Esta paisagem presta-se a isto, quem esteve em São Miguel sente nela o cheiro do jogging no Pópulo tanto como nas digressões de carro pelo interior da ilha pelo meio dos pastos com a música como contexto e como tempero).

Mas aqui interessa-me a formulação das imagens. Elas não são estáticas, são cenas em movimento com pessoas e objectos, aproximam-se mais do cinema do que da fotografia, e são fugidias. O esforço da escrita é dar-lhes texto, fixá-las, nomeá-las. Dar-lhes lugar, ambiente, acção. Viver nelas. As cenas combinadas criam um corpo, uma narrativa se dela o corpo precisar. Escrever é um ofício de construção. A realidade do livro é tão válida como as outras. Viveremos aquilo que queremos viver se formos aquilo que quisermos ser. Uma quimera obviamente. Viver, como construir, é uma quimera.

Na literatura vive-se o que se quer escrever. Na arquitectura vive-se o que se quer construir. A arquitectura como a literatura empapa-se do que vê, escolhe do que vê o bem e o mal que lá está e faz. Partem da memória, uma desenha outra escreve, mas procuram no corpo do autor uma coisa qualquer que possa vir a ser forma. Esta coisa da captura do que está em nós sem forma física ou representada faz delas semelhantes mesmo que com ofícios diferentes.

O ofício é uma coisa difícil porque ser-se laborioso e preciso pode significar ser-se indistinto, ser impressivo pode significar ser-se retórico, ser generoso ser porreiro e sentir pode ser lamechas. Escrever, escrever bem, não é um acto de nudez, um striptease com ou sem varão. É o contrário, é escolher o que se quer vestir e o cenário onde se quer ser visto. Pela parte que me toca tenho sempre uma predilecção pelos autores que se deixam ver como na cena final da Dama de Xangai de Orson Welles, numa sala de espelhos com o centro vazio. Nuno Costa Santos há-de andar por ali, de copo na mão, observando. Ouvimos a sua banda sonora e o espaço onde nos faz ouvi-la, reconhecemos os cheiros que nos faz lembrar. Sem reticências nem pontos de exclamação. Comovemo-nos como a Ruiva do Pico conduzida pelas veredas ao som de Paul Buchanan quando já longe da utopia finalista da luta da vaca com as moscas junto à janela da casa onde no interior o seu corpo picante e os peitos bonitos ofereciam uma massagem grátis. Tudo nas calminhas.

 

II

 

A paisagem é um postal tão belo, tão totalitariamente belo que pode com facilidade engolir os seus habitantes.

 

A paisagem de São Miguel é o centro do livro. O que não significa que ele seja uma sua descrição, é muito mais uma condição. É uma condição tão poderosa que nenhum dos personagens lhe escapa. Chegar a uma ilha dos Açores é uma experiência física transformadora. Literalmente. Sai-se do avião, do ar condensado do avião, para o exterior e sentimos que perdemos centímetros. A pressão do ar comprime-nos de tal forma que não temos dúvidas logo ao início de que entramos num território diferente. Não reconhecemos de imediato o cheiro que mais tarde não nos sairá da memória. O resto já intuímos do ar, a quantidade de mar e o que há de terra. E o céu que é, mais do que a terra, o que determina cada ilha. Não é a terra que caracteriza as ilhas mas o céu que paira sobre elas e para cada uma há um céu distinto. A isso também se refere o título do livro. A terra faz as pessoas mas o céu molda-lhes o carácter. O livro vai fazendo uma transição na descrição da paisagem, à medida que vai avançando vai-se perdendo o céu que é na realidade a âncora do narrador que, por ele, preferia ter aí os pés.

(Quando aí estou recordo-me vezes sem conta de Jorn Utzon, o arquitecto da Ópera de Sidney, que farto de desenhar as formas sólidas da terra dedicou cadernos à procura das formas que existem nas nuvens do céu. E em São Miguel convém ser rápido porque tudo muda de forma a desafiar a nossa atenção).

É curiosa a forma como o céu vai desparecendo no livro. Praticamente deixa de existir depois da noite que o narrador passa na prisão sem ele, ou melhor, quando o vê representado no tecto escalavrado de uma cela. Como é eficaz o desvanecimento ao longo da narrativa da sua confiança científica à medida que a taxonomia das espécies vai deixando de poder compreender tudo o que lhe vai acontecendo.

 

Bernardo Soares fala-me ao ouvido: ”Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. Se me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço. Se vejo a vida passar, sonho qualquer coisa”.

 

Reconheci das minhas visitas frequentes à ilha muitos dos factos que vão existindo pelo livro, a mais evidente terá sido a sua invasão por pacotes de cocaína quase pura que tanto tremor causou. Mas a história das ilhas dos Açores tem estes relativismos que nos vêm do que nelas se vê. O que permite que os poetas de serviço, como aqui um aparece, pareçam ser cronistas de uma realidade que se vive bem assim, de forma difusa. E é uma tradição esta de contar o que se soube de todas as criaturas que ao longo do tempo foram passando por este lugar - ele próprio difuso - para quem o vê de fora ou só o conhece pelo anticiclone. Há uma tradição de personagens pitorescas que se mantém viva e elas parecem sobreviver na paisagem. Como uma espécie de homem santo que vagueia pela ilha de terço na mão rezando por todos, uma possível representação de uma fé genuína distinta da instituída, dos colégios, conventos, seminários e procissões.

 

Chega o homem. É ele, só pode ser ele. Reza, reza num tom de voz nem alto nem baixo o credo – sem vergonha, sem medo, sem pressas, sem calendário. Os cabelos, brancos, longos, demasiado longos para os padrões de uma freguesia rural micaelense. Presença tão extravagante como enquadrada na arquitectura da rua. Excepção aceite pela paisagem.

 

Mas há também aqui uma ilha que Nuno Costa Santos traz para a sala de espelhos e que não é tão fácil de ver. Os Açores são ainda uma sociedade altamente segregada e de enormes clivagens sociais. Entre classes, entre as cidades e as freguesias, entre o mundo visível e o que está submergido pela pura recusa de o ver. Os repatriados que cumpriram pena nos Estados Unidos e no Canadá que regressam para as comunidades que, fora das suas famílias, não podem admitir um resultado tão indigno de uma emigração que é tão grande como as ilhas todas juntas. Este estar separado por que todas as famílias passam, os açorianos de cá e os de lá e que fazem dos Açores em Agosto uma espécie de fusão de ambos os lados do Atlântico. A América, tão forte como o céu, volta sazonalmente para a celebração do Espírito Santo que só a condição de ilhéu, um ser com uma tolerância particular, parece poder tornar resolúvel. Talvez ao som do Wish you were here dos Pink Floyd, aqui uma espécie de música plenipotenciária que cruza coisas incompatíveis.

 

Durante a descolagem espreito pela janela. As tonalidades do verde das pastagens e das matas, a ilha cercada por uma muralha de basalto que a rodeia e protege. E a bruma, barba de um Deus do absurdo. Vejo as casas, cada uma delas. As pessoas lá dentro, pequenas, muito pequenas perante uma paisagem alheia a qualquer olhar humano, a qualquer dicionário.

 

A minha experiência enquanto ilhéu de empréstimo recorda-me muitas vezes o nenúfar que cresce no interior do peito de Chloë na Espuma dos Dias de Boris Vian. Respirando aquele ar durante tempo suficiente, estar torna-se tão difícil como partir.

 

Em São Miguel o absurdo pode ser tanto uma condição existencial como uma cerveja com camarão no Cais 20. Uma alergia desconhecida.

 

III

 

Céu Nublado com Boas Abertas tem um motivo, o relato da experiência de um avô do autor e dos seus seis anos de coexistência com uma tuberculose que o afastou recém-casado da sua ilha para um Caramulo próximo da Montanha Mágica de Thomas Männ. Do estranhamento que a distância e a condição precária causou. Na realidade são duas histórias que coexistem no mesmo livro, uma factual, documentada com imagens, e uma outra que se desloca da anterior. Uma que está desesperadamente fora da ilha e outra desesperadamente nela. Uma fala da perda de um pulmão a outra de asfixia. Ambas falam de como se transporta um lugar dentro do corpo.

Revejo-me bem na narrativa deslocada de Nuno Costa Santos, tanto que me sinto parte da mesma panela e da mesma furna onde está o cozido que referi no início desta apresentação. Pegando numa ideia de Bernardo Rodrigues, um amigo comum com singulares capacidade plenipotenciárias (como a música dos Pink Floyd), há um lugar onde nos encontramos comprimidos entre tempos distintos a que parece difícil uma noção de escala e de pertença. Quero dizer a explosão pop que atrás referi não fez do autor deste livro parte de uma visão nostálgica de um passado recente que se revolve perante o futuro que se apresenta. Nem faz dele uma sonda do que está por vir porque da memória há um lastro profundo e nenhuma vontade de se livrar dele. Há sim um desajuste ou uma deslocação. Não há uma moralidade no conflito religioso que está latente em todo o livro, nem uma amoralidade na confrontação com as formulações que se lhe apresentam. Nem um relativismo desculpador de ambas.

Por um acaso encontrei finalmente um livro que procurava há alguns anos enquanto escrevia este texto, Homo Ludens de Johan Huizinga. Fala sobre o jogo, sobre a dimensão lúdica nas relações humanas e do quanto essa dimensão se torna perturbadora das relações estabilizadas de poder e de autoritarismo. Ao mesmo tempo fala das regras do jogo, do seu estabelecimento e da aceitação da sua condição improdutiva. Fala por isso da liberdade do jogo, de o aceitarmos e de compreendermos a necessidade de perceber formas não estabelecidas de representação do real. O jogo que no início do livro anuncia Nuno Costa Santos através da citação que faz de Enrique Vila-Matas:

 

Talvez a literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa.

 

Texto de Bruno Baldaia, na apresentação de Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos,
no dia 29 de março, na Fnac de Santa Catarina, no Porto. 

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«Para quem gosta de falar do tempo e toma consciência da importância que ele tem, os Açores são o lugar ideal. Falar do tempo aqui não é uma banalidade. Nos Açores o tempo é idealmente meteorológico, ou seja, uma abstracção. A pressão atmosférica, a orientação e velocidade do vento, a quantidade de humidade que há no ar, a influência que a saturação do ar tem sobre o corpo, logo sobre os humores, logo sobre o espírito humano, tornam-nos a todos meteorologistas amadores. Fala-se do tempo como se a nossa vida dependesse disso. Mas não há propriamente tempo, vai havendo tempo, há atmosferas. Há ambientes, há processos, tudo está em permanente mutação. De um momento para o outro cai uma chuvada, produz lama, cai-se na ravina e ali se fica, morto ou vivo. Escoteiro ou não escoteiro. A ideia de desamparo midatlântico permeia toda a experiência humana. Aquilo que somos depende do que vemos e o que vemos depende da luz com que o vemos, do verde fundo ao verde dourado, conforme a velocidade e a qualidade da dissipação da nuvem no ar. Não há como os Açores para nuvens. Providenciam uma espécie de cinema natural. Falo das nuvens porque são uma referência no céu, nesse céu onde, segundo o narrador, devemos ter bens assentes os pés. É um chão mutável, que nos foge, mas enquadra e organiza a paisagem. Angustiante é um céu absolutamente limpo numa ilha. Assentes nas nuvens vamos fugindo. Não temos centro. O que está fora está dentro, a paisagem é toda interior, ficamos permeáveis como amibas. A mutabilidade traduz-se numa suspensão do tempo histórico. Ele é todo clima. Idealmente, o tempo histórico quer terminar. Aqui, a História já se comporta como se tivesse chegado ao fim. A mutabilidade traduz-se, também, num permanente devaneio, convida à fantasia, à deambulação, à dolência, à dormência, que têm a ver com a memória sem projecto, a memória vaga, fluida, em que passado e presente muitas vezes se sobrepõem como em sobreexposição fotográfica; e convida à saudade e às suas invenções, sobretudo a invenção de tudo o que não foi, o ressentimento pelo que podia ter sido e a abertura à depressão. É o triângulo dos Açores: devaneio sobre o que não foi, ressentimento pelo que podia ter sido, depressão cavernosa ou inacção.

Ao turista esta, chamemos-lhe assim, realidade, provoca a apoteose do olhar deslumbrado, mas sem o esforço, sem a actividade crítica do deslumbramento. Subjuga-nos e deixa-nos sem palavras, incluindo a palavra deslumbramento. É uma beleza que nos cala. Não é particularmente acolhedora. Dirige-se a zonas que em nós não se exprimem, mas sofrem da beleza: o temor e o tremor, a pele, a comoção. E este deslumbramento é actividade a tempo inteiro no arquipélago. Para os nativos, acaba por ser uma espécie de condenação. É como viver num paraíso para onde ninguém quer ir. Mas o narrador é turista na própria terra, vem visitar a memória de um avô e a sua própria, de infância e de adolescência. Emigrante, por assim dizer, já com o trabalho da distância feito dentro de si.

Nos Açores, fora o olhar, diga-se que não há felizmente muito mais distracções. Em rigor, não há nada para fazer. O torpor açoriano impõe-se como modo de ser. É um mercado pouco atraente para as drogas leves: a ilha já é um opiáceo. Para a cocaína é que deve haver procura. As minhas fotografias de férias em Santa Maria são de bichos: galinhas, cavalos, vacas. Era o que havia. A falta de distracções torna-nos extremamente concentrados e atentos a tudo o que existe, sem a fadiga de estarmos realmente extremamente atentos. É um minimalismo em que todas as coisas valem e são belas, as rochas, as águas-vivas semi-mortas,  todo o espectro do visível, da inocência da vaca ao veneno da pelágia, é toda a vida da ilha que está neste romance. Nele se tematiza essa relação necessária com o que há à nossa volta, as árvores cujos nomes se conhece bem (“carvalhos, metrosíderos, faias, plátanos, incensos”, araucárias, azáleas, hortênsias,  criptomérias), nomeação de carácter sedutor e quase circense, e também com os lugares das primeiras experiências, dos primeiros amores, uma história à qual já se é afinal quase indiferente. Há algo de simultaneamente insone e sonâmbulo neste deambular, nota-se o esforço anímico da deslocação de A para B; o que parece natural no narrador é estar parado com o mundo a aparecer e a desaparecer à sua frente: os romeiros, as romeiras, as sopas do Espírito Santo, os antigos colegas de escola, o traficante Laureano, a stripper do Pico, o cicerone chinês, o homem que reza por todos os aflitos do mundo. Visões, aparições, assombrações. Não é por acaso invocada a sombra de Kafka, o episódio em que Beckett apanha um murro inexplicável. Para este narrador, a pelágia real e o pesadelo da pelágia do tamanho de um cachalote são as duas faces dessa mesma moeda insular: não são sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, é um estado em que não se consegue dormir e não se está nunca bem acordado. Esse é o torpor açoriano, que pode ser vivido com a angústia de quem quer acordar e não consegue, ou com a aceitação de quem se deixa embalar pelo mar que é belo e venenoso, sem esperança de se conseguir afogar de vez. É um subreptício, submarinho, subterrâneo basso continuo. Como diz o Paulo Varela Gomes, a ilha tem horizonte, mas não tem saída.

Diz o narrador a certa altura: “Se tivesse aprendido a surfar não me dedicava ao ofício da escrita”. Identifico o problema, sinto empatia. Quem se deslumbra com ondas gigantes sabe muito bem qual é o seu lugar no mundo. Há os que ficam em terra e os que se fazem ao mar; todo o escritor lamenta ter imaginação suficiente para se ver surfista e não se fazer ao mar; é uma culpa que todos carregamos, considerar a escrita uma espécie de incapacidade para a vida verdadeira. Há no escritor qualquer coisa de ilhéu; mas ele vive o seu isolamento de uma forma produtiva, sempre à beira-mar, nessa distância íntima, vivendo a fantasia; a imaginação que tudo nos permite é a mesma que não nos permite fazer o que imaginamos; não só pelo medo, porque o medo conquista-se, há técnicas que permitem conquistá-lo em segurança; mas porque a actividade de surfar, para ser bem feita, impede a outra vida que é a da escrita, a nossa vida verdadeira.

A sombra do assassino Merseault, o “Estrangeiro”, de Camus, pousa sobre o romance com mais peso que outras sombras mais nomeadas.  As duas linhas narrativas – a da tuberculose e penoso tratamento de seis anos de João Pereira da Costa, o avô do narrador, e a da vivência abstrusa de um envolvimento não-envolvido com improváveis traficantes de droga em São Miguel – relacionam-se de forma aleatória, à boa maneira da vaga ondulação que por todo o lado nos cerca. A realidade social da ilha é menos interessante do que a sua atmosfera. E a sua realidade inclui traficantes que são sempre e necessariamente personagens de ficção. A passagem de uma linha narrativa a outra é por vezes puxada por antagonismos, outras vezes chamada a despropósito e em virtude do despropósito, outras por contaminação, ou por identificação, ou por contiguidade, paralelismos vários e formas diversas de associação.

Todos nós temos pelo menos um avô. Esse avô pede atenção, pede rememoração. Desde tempos imemoriais, netos voltam a ilhas para investigarem avôs com quem se identificam e em que procuram raízes. O meu ainda espera, há muito pulverizado, a homenagem desta relapsa neta. A viagem sentimental à Sterne, ele próprio tuberculoso em romagem terapêutica, dobra-se aqui de romance existencialista e deambulação romântica. Se este narrador caminhasse, em vez de correr com os meniscos a ranger, e caminhasse rijamente por montes e vales, seria um homem do Romantismo, subiria montanhas mágicas e deixar-se-ia retratar nos cumes pelo Caspar David Friedrich. Teria crises e nevroses, clamaria por um Deus que fizesse sentido. Mas o avô e o neto são homens sérios, nitidamente não-surfistas, sendo o neto assumidamente um melancólico da variedade aérea. A aventura maior do avô foi sofrer e sobreviver. Esta é a epopeia do homem que sofreu, se curou, trabalhou, escreveu a experiência da tuberculose, teve três filhos e acabou sentado na companhia de uma garrafa de oxigénio. O biógrafo veio-lhe por via genealógica. É ele o anti-herói por excelência.  “tinha duas doenças”, diz o narrador, “a tuberculose e o rancor”. Aparentemente curou as duas. Porque o tempo tudo cura. Não lhe podemos pedir mais.

 

Luísa Costa Gomes, sobre CÉU NUBLADO COM BOAS ABERTAS de Nuno Costa Santos (na apresentação do livro a 3 de março, em Lisboa). 

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Fotografia de Vitorino Coragem: Luísa Costa Gomes lê este texto.  

 

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SÉRGIO GODINHO – APRESENTAÇÃO DO LIVRO “VIDADUPLA” E CONVERSA COM O AUTOR. 28 de março. 16h00. Biblioteca Municipal Abade Correia da Serra. Organização: Câmara Municipal de Serpa.

 

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 «“Vidadupla”, uma série de contos, feitos de histórias a partir de impressões do que se vê e do que se imagina, marca a estreia de Sérgio Godinho na ficção para adultos.


Apesar de ser a sua primeira incursão na ficção literária, Sérgio Godinho já publicou um total de 11 livros. Obras de géneros muito diferentes: Guiões de cinema (como "Kilas, o mau da fita”), poesia ("Sangue por um fio"), histórias para a infância ("O pequeno livro dos medos"), peças de teatro ("Eu tu ele nós vós eles") ou crónicas ("Caríssimas quarenta canções") são disso apenas alguns exemplos.» Aqui.

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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