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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

Martin Amis, em entrevista a José Mário Silva, publicada este fim-de-semana no Expresso/Actual:

 

«Como escritor, se um dia descobrir que perdeu a graça, o que fará?

Espero ter a coragem de abandonar a escrita. Há um pequeno segredo da literatura moderna que é este: todos os escritores acabam, mais tarde ou mais cedo, por perder algumas das suas melhores qualidades. Antigamente, ninguém dava por nada, porque os escritores morriam cedo. Shakespear morreu aos 54 anos, Jane Austen aos 41, etc. Entretanto, os progressos da medicina fizeram com que os escritores, agora, morram duas vezes: morrem quando morrem e, antes disso, morrem quando morre o seu talento. Felizmente, nos últimos anos não me tem faltado a energia. mas os escritores mais velhos tendem a aperceber-se de que mesmo os nossos clássicos preferidos não são suficientemente breves. Tchecov disse-o. Saul Bellow disse-o. (...)»

«"Os rapazes ganharam", disse a enteada dele, Silvia. "Outra vez."

"Detesto ouvir isso", disse Keith.

"Eu detesto dizê-lo."

Silvia cursara Sexo (no sentido de Género) na Universidade de Bristol. E era agora uma daquelas «crianças» jornalistas que, aos vinte e três anos, já escrevia uma muito discutida coluna semanal num dos grandes jornais. Leith conhecera-a quando ela tinha catorze - em 1994, quando ele vendera o seu grande duplex em Notting Hill e se mudara para a casa por cima do Health. Silvia tinha herdado a aparência da sua mãe, mas nenhuma da insana alegria desta; era um daqueles espíritos tórpidos que causavam riso a toda a gente menos a si mesma.

"Portanto, contrariamente ao teu melhor juízo", disse ela torpidamente, "dás por ti a passar a noite com um jovem. E são todos iguais. Não interessa quem. Um replicante com fato de quem trabalha na City. Um mal-cheiroso qualquer com uma camisola do Arsenal. E, na manhã seguinte, por hábito, tu dizes-lhe, sabes como é, quando puderes telefona-me. E ele fica a olhar para ti. Como se fosses uma leprosa que o tivesse acabado de pedir em casamento. Porque telefona-me é chantagem emocional, compreendes. E o compromisso não é permitido. Os rapazes ganharam. Outra vez."»

 

De A Viúva Grávida, de Martin Amis.

«Ele lembrou-se da descrição que Lily fizera da primeira vez dela, de Lily, com o estudante francês em Toulon, e de ela ir caminhar pela praia na manhã seguinte, e pensar, meu Deus, sou uma mulher... Despertar para a feminilidade. Era a isso que os psicólogos chamavam aniversário animal: um aniversário animal é quando o nosso corpo nos acontece. Não era assim para os rapazes, a primeira vez: a primeira vez era somente algo que se tirava do caminho. Foi percorrido por um grande desamparo, e procurou a mão de Lily.»

 

De A Viúva Grávida, de Martin Amis.

Hoje, o dia em que chega às livrarias A Viúva Grávida, de Martin Amis, o Ípsilon publica um texto de Helena Vasconcelos sobre o autor e o livro. Ali se diz que «Amis recria a arqueologia do corpo na sua trajectória de envelhecimento, sem esquecer as dores da alma, resultantes da inexorável passagem do tempo. Tudo isto poderia redundar numa narrativa sentimental e patética mas tratando-se de Martin Amis, mestre da farsa e desarvergonhado bufão, toda a história de A Viúva Grávida é contada como uma delirante comédia de costumes, na qual a melancolia e saudosismo são derrotados pela veemente afirmação da carnalidade, da lúxuria e da ironia, numa promiscuidade triunfantemente escatológica e com um sabor "kafkiano".» Ou ainda: «Há alguns mistérios mistérios em A Viúva Grávida: a voz de alguém que conhece bem Keith e que se interpõe na narrativa e certos apontamentos rápidos e aparentemente desconectados que marcam os temas centrais: a crescente solidão e incomunicabilidade e as ironias do amor e da intimidade que invadem, com crueldade, o quotidiano.»

 

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