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«A Balada de Johnny Sosa é um desses exemplos pequenos da arte de bem soltar um manguito literário contra ditaduras e ditames e dar ao fraco e oprimido o seu saboroso momento de vingança. Um gesto ínfimo de consolo enorme, nomeadamente nestes tempos de tristeza civilizacional que prolongam o descontentamento muito para lá de qualquer Inverno.»

 

António Rodrigues, Ípsilon

 

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Hoje, no Ípsilon, destaque para a entrevista ao escritor uruguaio Mario Delgado Aparaín, autor de A Balada de Johnny Sosa, romance reeditado recentemente pela Quetzal.

 

«Em entrevista ao diário argentino Página/12 afirmou: “Sou de uma geração que perdeu o sorriso” e, no entanto, o humor é parte importante da sua obra.

 

A Balada de Johnny Sosa foi, entre outras coisas, uma reacção sã e natural – e até, diria, um tanto ingénua – à explosão da literatura panfletária dos anos 70. Uma literatura carregada de dramatismo, de personagens torturadas e de niilismos vários que atentavam contra a esperança e que afectou sectores importantes da literatura latino-americana. Alfredo Zitarrosa, maravilhoso cantor, poeta e narrador da minha terra, disse-me um dia que tinha gostado muito de A Balada de Johnny Sosa porque tinha a virtude de “destragediar” a vida – ele tinha inventado o verbo destragediar. Segundo ele, a única forma de retirar o potencial degradante que a tragédia costuma dispersar sobre os seres humanos é nunca perder o sentido de humor. Uma parte importante da minha geração pode ter perdido, por imperativo da dor, a capacidade de sorrir. Mas eu não.»

 

 Fotografia de Daniel Mordzinski

 

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Ponto de partida

14.02.13

«Agora editado pela chancela da Quetzal, “A Balada de Johnny Sosa”, livro integrado na série américas, faz jus aos muitos elogios que a obra recebeu ao longo dos anos por parte do público e crítica – tendo sido galardoada com o Prémio da Literatura de Montevideu em 1988 -, e é um excelente ponto de partida para explorar a obra de Mario Delgado Aparaín.»

 

Carlos Augusto, Rua de Baixo

 

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«O maior dos poetas latino-americanos, o brasileiro Guimarães Rosa, escreveu: «As estórias não se desprendem apenas do narrador, sim o performam; narrar é resistir.» E tal afirmação assenta como uma luva à nova geração de escritores uruguaios, entre cujos nomes se destacam Carlos Liscano, Leonardo Rossiello e Mario Delgado Aparaín.

Se houve um país da América Latina em que as botas militares se encarniçaram contra a literatura e os escritores durante o obscuro decénio das ditaduras, foi o Uruguai. Praticamente todos os escritores uruguaios passaram pela prisão, pelas torturas e pelo exílio. Foram muito poucos, escassíssimos, os que conseguiram sobreviver no Uruguai à barbárie fardada, mas sem a menor hipótese de publicarem uma só sílaba: para a ditadura, escrever era sinónimo de subversão.

Mario Benedetti, Cristina Peri Rossi, Eduardo Galeano, Marta Traba, Ángel Rama, Leonardo Rossiello, tiveram de partir para o exílio. Outros, como Mauricio Rosencoff e Carlos Liscano, permaneceram durante treze anos em prisões da ditadura. Mario Delgado Aparaín deambulou pelo país à procura de trabalho como jornalista e acumulando

as matérias-primas da sua narrativa. Entre todos, mantiveram viva a literatura uruguaia, e não só: fizeram dela uma das literaturas mais sugestivas da América Latina.

Em outubro de 1993 eu ainda só tinha lido um livro de Mario Delgado Aparaín, o romance El día del cometa, e o seu nome era ainda matéria pendente para mim. No entanto, por mais obras do autor que procurasse, não conseguia encontrar nenhuma. Até que um dia, estava eu de viagem num comboio de Frankfurt para Hamburgo, se sentou à minha frente um casal de desconhecidos. Mal se instalaram, pegaram num livro que começaram a ler a quatro

olhos. Liam-no com aquele tipo de avidez e prazer que provoca inveja, que supera qualquer pudor e nos impele a esticar o pescoço para ver se conseguimos descortinar o título do livro, pelo menos. Isto no caso de os leitores que tivermos diante de nós não serem como os que eu tinha: tão cuidadosos que forram os livros. Via-os fruir da leitura enquanto me esforçava por me concentrar numa pavorosa biografia de Heidegger que alguém me ofereceu não sei se

para alimentar a minha exangue cultura geral, se por vingança.

Liam, ficavam sérios, riam. De repente, alguém anunciou o bar ambulante e ouvi-os falar um com o outro no doce espanhol dos uruguaios acerca do que deveriam pedir.

A mulher queria café e o homem assentiu.

— Os senhores são uruguaios? — perguntei.

Apresentámo-nos. O casal de uruguaios atravessava a Alemanha rumo a Estocolmo. Após trocarmos algumas frases, descobrimos que tínhamos amigos comuns na Suécia,

e então esquecemos o café e pedimos uma garrafa de vinho.

— Nunca pensei que fosses latino-americano. Tens uma cara tão séria — disse a mulher.

— Pois é. Estavas a olhar para nós com cara de gastroenterite. Como um alemão — precisou o homem.

Então, expliquei-lhes que o que eu tinha era uma curiosidade imensa em relação ao que estavam a ler com tanto interesse. Foi assim que me veio parar às mãos, pela primeira vez, A Balada de Johnny Sosa

 

Do prefácio de Luis Sepúlveda

 

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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