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Quetzal

Na companhia dos livros.

Remédios Literários: inspiração para o guarda-roupa

Em «Remédios Literários», de Ella Berthoud e Susan Elderkin (as autoras estarão no último fim de semana de Setembro no Folio, festival literário de Óbidos), explicam o que é a biblioterapia, que começaram por experimentar em si próprias. Chamaram-lhe biblioterapia, ciência muito pouco exata mas que tem mostrado resultados. Veja-se o sucesso do livro em que a resumiram, agora editado em português. Para uma lista infindável de problemas, outras tantas soluções. Insónias, crises de identidade, depressões, pelos vistos tudo se cura com David Foster Wallace, Tosltoi, Saramago, Kafka, Garcia Márquez ou Camus. E também se trata do guarda-roupa. Para inspiração escolhe-se, veja bem, Os Maias, de Eça de Queirós:

 

A extravagante cena das corridas de cavalos não é importante apenas pela descrição da vitória de «Vladimiro» e de Carlos da Maia, que apostou «na pileca»; além da crónica de costumes, do encontro de Carlos e da Sra. Condessa de Gouvarinho («uma toilette inglesa, justa e simples, toda de casimira branca, de um branco creme, onde as grandes luvas negras à mosqueteira punham um contraste audaz»), da cena de pancadaria, das observações (em sentido contrário, naturalmente) de Dâmaso e de Craft sobre o temperamento nacional, há uma descrição exigente do guarda-roupa dos personagens principais (El-rei aparece «de quinzena de veludo e chapéu branco», não muito longe de senhoras que usavam «grandes chapéus emplumados à Gainsborough»). Naturalmente, ninguém hoje usaria o véu de Dâmaso de Salcede num cenário semelhante, acrescentado a uma sobrecasaca branca, nem o fato de «cheviote claro» e «luvas de gris-perle» de Alencar, mas ao longo do livro Eça mostra como o vestuário é um drama e deixa de sê-lo com o seu talento. João da Ega, que aparece em Lisboa em pleno Verão com uma peliça destinada a «épater le bourgeois», é um guarda-roupa completo («casaca de botões amarelos sobre colete de cetim branco» ou sentado a «contemplar algum tempo as suas meias de seda, escarlates como as de um prelado»), e a roupa de Carlos constitui uma paleta de elegância, desenhada em Paris e Londres; os personagens ora buscam conforto (a roupa de Afonso da Maia), ora sofrem incómodos brutais (o maestro Cruges), ora se vestem de acordo com códigos muito precisos (o banqueiro Cohen, o poeta Alencar, o procurador Vilaça, o par do Reino Gouvarinho, de sobrecasaca), ora sugerem um mundo de erotismo (a entrevista lingerie de Raquel Cohen ou o corpete da Condessa de Gouvarinho – «relembrou as toilettes com que ela ali estivera»), dandismo (o «brasileiro» Gomes) ou até opções políticas (o tio de Dâmaso, Guimarães, redator do Rappel). Para não mencionar a primeira vez que Carlos da Maia vê Maria Eduarda, «com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea»: «Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas.»

Por vezes, o melhor remédio para tratar a crise ou o medo do guarda-roupa é a descrição deste mundo extremamente bem vestido – embora seja em A Cidade e as Serras, o outro romance de Eça, que tudo aparece resolvido: despojado de malas, longe da angústia vivida diante do seu guarda-roupa parisiense, Jacinto sente-se finalmente bem vestido em Tormes, ajudado pela água de rosas da tia de Zé Fernandes. Um mundo de simplicidade.