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«Sendo a minha juventude jogada entre balizas de interesses variados e ocupando nela o futebol, como prática física, um dos lugares de intensidade e prazer, não surpreenderá o leitor que venha dar nesta secção, de vez em quando, testemunho dessa forma de festa e de conhecimento. e dos factores humanos nela implícitos, do factor humano.

 

Estava eu a cumprir serviço militar no Regimento de Artilharia 3, quando parceiros do futebol me chamaram para participar num prélio de importância histórica (passe a megalomania). E apresentei-me, num domingo de folga militar, já não me lembro em que rectângulo nem o nome do adversário, para jogar numa equipa que reunia gente do bairro, da escola – e mais um ou outro, convocado ali ou além. uma selecção a martelo, digamos, com jogadores de várias idades, um certo curriculum – e até alguns bem seniores, na casa dos trinta. Tinha eu 20 anos, era dos mais novos.

 

Notícias esparsas, dadas por este ou por aquele, transmitiam-me o seguinte: o nosso adversário era um time de miúdos abaixo dos 20 anos e tinha um treinador a tempo inteiro, com trabalho de campo e aulas teóricas. Parece que treinavam todos os dias, ou quase, nas horas livres que a escola ou o emprego permitiam. Desfrutavam de um certo estatuto nos meios populares e não receavam qualquer adversário. Eram «tácticos», comentava-se.

 

Dado o pontapé de saída e vamos lá ver como é, percebi logo que tínhamos novidades. Agora, relembrando, ainda percebo melhor. Eram jogadores «naturais», habilidosos, trocando a bola quase de olhos fechados, cobrindo-a com uma naturalidade surpreendente – e avançando no terreno, fazendo e desfazendo triângulos, variando os flancos com muitos lances ao primeiro toque, de passe curto. Um dos vértices do triângulo desfazia, de repente, a figura geométrica, iniciando outra, logo ao lado, ou mais à frente, com aceleração súbita, obedecendo a movimentações estudadas e mudanças de ritmo. Criavam assim, permanentemente, bolsas de três jogadores tecendo uma rede de passes repetidos e rasteiros. Atiravam, muitas vezes, inesperadamente, a bola para trás, solicitando a peça livre para iniciar novo triângulo. Para nós, mais habilidosos a jogar o que o jogo desse, o processo deixava-nos, às vezes, desencaixados nessa espécie de sucessivos coletes-de-forças falsamente soltos. Tinham iniciativa e mecanização. Dois ou três deles, menos amarrados ao esquema, improvisavam bem, até com brilho, eram o sal da receita.

 

E como acabou isso?, perguntará o leitor. Sempre lhe digo que nós, os mais velhos e experientes, ganhámos por 5-4 – mas também lhe digo (de resto, como o resultado indica) que tivemos de fazer a sério pela vida para evitar o descontrolo. No que me diz respeito, estava numa excelente forma física, porque tinha saído de uma recruta intensa, de quatro meses, cheio de ginástica, com uma saúde de ferro, integrado (embora contrariado, convenhamos, por alguma indisciplina e preguiça congénitas em relação a certas obrigações, mas tropa é tropa) no grupo especial do quartel que acabara de participar no campeonato militar. Esfalfei-me durante os noventa minutos (tinha forças para o fazer, é isso), corri o campo todo – e até marquei um golo, no limite do tempo e do esforço (fazendo o 5-4), depois de ganhar a bola, próximo da grande área deles, em takles teimosos e felizes. Tirei-lhes o empate que bem mereciam.

 

Agora, concluindo: soube que a rapaziada vencida ficara muito triste (custara-lhes imenso o golo no último minuto) e que o velho treinador (estou a vê-lo com muito futebol nos olhos e na cabeça, vastas leituras e informações sobre o jogo e uma «vontade de conjunto») chorou. O clube desapareceu, nem sabendo nós se a partida que fizemos com eles teve alguma influência nisso. Espero (e creio) que não. Lembro-me disto porque, às vezes, um golpe duro numa motivação algo ingénua e susceptível pode causar efeitos bastante sofredores. Mas o clube, que recordo aqui com a maior simpatia, deve ter acabado como acabavam todos – e o velho treinador nunca mais entrou nas nossas conversas (ou entrou episodicamente), deixando, contudo, lugar para um fugaz pensamento entristecido e distante.

 

Porque (é fácil calcular) se tratava de uma personagem inteligente e poética; e porque chorar (mesmo quando parece despropositado) é bem humano; e porque orientou um grupo de jovens talentosos, combativos e leais: por razões de futebol no que tem de positivo, feliz e imaginoso, de entendimento e de entreajuda, evoco um possível Chapman, Herrera ou Otto Glória (para citar de passagem) nunca realizado, talvez antecipador (para actualizar e localizar a circunstância) de, por exemplo, um Artur Jorge ou um Carlos Queiroz, e outros – todos os que fazem a pedagogia possível para segurar o futebol no rumo da vocação e de virtudes bem saudáveis, que o jogaram ou não e o leccionam com desvelo, envolvendo o jeito e o raciocínio na alegria de praticar e de competir.

 

E pronto. Se algum desses antigos miúdos me estiver a ler, que saiba (se for preciso dizer-lhe) que jogaram como gente grande. E que espero não tenha esquecido (e porque havia de esquecer?) o velho treinador sentimental que sonhou o sonho que lhe foi possível, talvez preenchendo o vazio da reforma com esse espaço de construção, já na luz fraca do outono da vida: individual, colectivo, harmonioso – e tão admiravelmente precário.»

 

Esta é uma das magníficas crónicas incluídas no livro A Liberdade do Drible, de Dinis Machado, que chega esta semana às livrarias.

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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