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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

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O escritor Mário de Carvalho apresentou, em Lisboa (na Casa do Alentejo), o novo romance de Álvaro Laborinho Lúcio, “O Homem Que Escrevia Ezulejos". É o seu texto de apresentação que publicamos a seguir:

Eu poderia começar por dizer como me sinto honrado por me ter sido concedido o privilégio de fazer este lançamento de O HOMEM QUE ESCREVIA AZULEJOS do escritor Álvaro Laborinho Lúcio. No entanto, isso poderia soar como uma fórmula de cortesia, recebida distraidamente, no jeito das banalidades estereotipadas dos discursos solenes.

Mas não posso eximir-me, logo à partida, a declarar a extrema admiração que desde há muitos anos sinto pelo autor, pelo seu discorrer célere, o vocabulário apropriado, o pensamento sustentado, arguto e cristalino. Pela sagacidade do jurista. Pela figura exemplar de cidadania que representa.

Tenho de acrescentar que subjaz a estas palavras alguma incomodidade. É que eu faço parte daquele grupo de pessoas que cultivam (ou para si, ou para uma selecção restrita e íntima) os seus apreços especiais e únicos, que guardam e preservam em privado as suas descobertas, as suas estimações (e também, abone-se a verdade, de passagem, as suas reticências).

Neste caso, todavia, tenho de reconhecer que me vejo obrigado a partilhar, não com meio mundo, mas parece que com TODO O MUNDO a minha simpatia. Pessoas das mais diversas origens, dos mais distanciados horizontes, coincidem na admiração pelas qualidades e pela personalidade do Dr. Laborinho Lúcio. É, ao que creio (e arrisco), o primeiro caso comprovado de unanimismo nacional.

II

Impõe-se-me também uma muito especial e carinhosa saudação à casa do Alentejo, ao seu insistente e vigoroso trabalho, marcando o trilho duma forte e, não raro, belíssima, identidade cultural. Não pode deixar de me vir à memória o denodo e o empenho com que o meu pai, Domingos Martins Carvalho, acompanhou estas iniciativas e a homenagem que lhe foi justamente prestada pelos corpos gerentes desta casa.

 

III

Eram absolutamente inevitáveis (enfatizo o superlativo pleonástico) as breves, incompletas e banais considerações sobre o doutor Laborinho Lúcio que ficaram atrás. Mas nós encontramo-nos aqui hoje para falar, não do jurista distinto, não do cidadão assinalado, mas do escritor Álvaro Laborinho Lúcio e do seu romance (o segundo) O HOMEM QUE ESCREVIA AZULEJOS.

Comecemos pelo título, que o autor/narrador, num pequeno prólogo, desvenda ter resultado do contraste entre a nudez branca dos modestos azulejos de cozinha de casa dos avós e o sumpto dos azulejos da Igreja mais próxima. É a primeira oposição de contrários (para usar a expressão hegeliana) dos muitos que encontraremos no livro. Gosto de pensar, adverte, desde logo o autor. E esse gosto está em permanente escuta e inquirição, durante todo o percurso que perfaz a leitura do romance. Entretece-se, não em divagação sonolenta, sobre esta ou aquela temática, mas na textura das próprias acções, à medida que elas se desenrolam, numa cadência que, sem embargo da sua imbricada estruturação, evita derivações e pontos mortos,

 

A brevidade e a clareza são, com efeito, uma característica de cada um dos 45 pequenos textos que enformam a sequência deste romance. Assim breve quereria eu ser, não fosse a extrema riqueza e variedade dos quadros no seu, por vezes, complexo relacionamento (a clareza e a concisão não excluem a complexidade…), apelando constantemente para desenvolvimentos sucessivos. A mera enunciação dos itens merecedores de aprofundamento, esgotaria o nosso tempo. Esto brevis, diziam os antigos. Pois farei o possível, a bem da vossa paciência e a mal da minha inépcia…

IV

O autor opta pelo seccionamento do texto não em capítulos, não em quadros, não em cenas, não em cantos, nem em alguma dasem azulejos, que no seu conjunto contam uma história. Remete para os belos e por vezes estranhos embutidos vidrados que encantam os ambientes, e valem cada um por si, mas relevando, no conjunto um sentido que alcança mais que a soma dos seus elementos.

Dois painéis de azulejos constituem então esta narrativa, focalizados cada qual, em seu espaço, seu tempo e seu feixe de interrelações. Nos primeiros 32 azulejos sobreleva uma amizade profunda e antiga entre dois homens bem diferentes um do outro (Norberto e Marcel), (ambos grandes bebedores de cerveja) numa localização bem delimitada, um bar, algum mistério, reflexões sobre o mundo, a história e a vida, e certos enigmas que permanecem, provindos do fundo da própria literatura. Aquele espaço, o bar, é um centro de irradiação e de confluência, que vemos concluir e mobilar («coisas velhas, para imprimir carácter») e encontra-se tão fisicamente presente, que quase arriscaria conferir-lhe o estatuto de personagem. Cruzam-no muitos outros espaços, gente, memórias, gestos. Atrás do balcão, Marcel. Para cá, o lugar de Norberto. Aquele lugar e não outro. O «centro», a «periferia», nova oposição de contrários, aliás recorrente.

Marcel, a personagem mais reflexiva, porventura a mais perspicaz, considerará que o centro é sempre o lugar do poder e que à periferia compete a liberdade. «A liberdade, -- diz Marcel (o que o autor pensa não sabemos, nem vem ao caso) dá-se melhor na periferia e só na margem se encontra com a sua raiz».

E o assumido gosto de pensar do narrador vai interpelando os grandes autores, sempre na busca de um mundo mais humano. O humanismo, aliás, reportando-se por exemplo a Erasmo, é como que uma melodia cuja toada vamos reconhecendo, à medida que o livro avança.

A partir do espaço do bar confluem os tempos, as lembranças, as vozes transmudam-se, há um vai e vem entre a primeira a terceira pessoa, que ora distancia, ora aproxima, ora lembra, ora comenta, ora observa, ora interroga.

O bar é o centro do mundo, em que são evocadas, se encontram, ou vão surgindo as diversas personagens, abrindo para apontamentos ternos, irónicos, ou movimentados. Desde Maria Eugénia, a velha mundana, iniciadora de rapazes (cada ruga seu rapaz) ao violinista e professor de Música João Francisco da Silva, (dito Corelli e muito mais nomes), o avô, que é, porventura, a figura central do romance, Desde Jacqueline, a irmã de Marcel, a quem falta um urso de peluche na sua colecção, (interrogamo-nos porquê), desde a Jovem Otília, prostrada por um desgosto que saberemos qual foi, até Zulmira, encontrada mais tarde, feita avó, até ao alcunhado Tumor Anarquista, desafiando a doença com brio ou ao Poeta Póstumo, projectando no futuro a sua altivez criativa, sem esquecer dois simpáticos cachorros, que a muito assistem, lá de cima, numa galeria do bar, --- é-nos trazida, em girândola, um crepitar de perfis e comportamentos que bem exprimem a vertiginosa capacidade de observação e de confabulação do autor, repassada incidências intertextuais que convocam muitas leituras e reflexão sobre elas.

Gostaria de destacar, como traço forte de originalidade, a maneira como jovens casais se encontram pela primeira vez e que confundiria os apaniguados da escrita argumentária anglo-saxónica, sempre à procura de novas ocasiões de BMG (boy meets girl) [ou girl mets boy, GMB]. – para dar um sinal de politicamente correcto-- Por exemplo: num concerto, entre palco de orquestra e plateia, e numa bicha de voto, em certas eleições de 1975.

Duas menções também para o que me parece ser uma certa nostalgia da clandestinidade que, de certo modo, modela as personagens: o copiógrafo, mencionado, aliás, no livro em antelóquio, sobre fundo escuro, o bem fadado stencil, relance luminoso, mau grado as suas imperfeições, nos tempos acinzentados das nossas juventudes; dele saíam, assim hierarquizados por Álvaro Laborinho Lúcio, o panfleto, o comunicado, o manifesto que iluminavam a nossa luta. A senha e contra-senha para um encontro na gare de Austerlitz (a partir duma canção célebre de Charles Trenet), o uso de pseudónimos convocam outrossim atitudes e códigos da resistência de então.

São inúmeras as referências culturais presentes no texto. Umas expressamente declaradas pelo autor em nota, outras avocadas, en passant, durante a sequência, outras tecendo a malha da prosa, reflexo das leituras do autor que responde aos desafios colocados por uma ancestral Literatura, donde provém e aonde imerge.

Não é por acaso que, nas primeiras linhas, logo antes de se lembrar o Bartleby de Melville, encontramos o incipit: «Chamo-me Norberto», a lembrar o celebrado «Call me Ishmael» do mesmo enorme escritor.

Mas – e menciono a eito -- Vasco Pratolini, os Esteiros, a Seara de vento, A Noite e a Madrugada, Roger Garaudy, Jacques Brel, Daniel Baremboim, Ettore Scola, Hemingway, Barthes, Erasmo, através de Zweig, Bernard Shaw, Scarmeta, Thomaz da Fonseca (um querido autor que muito me apraz) Goethe e Flaubert, sobretudo e largamente, num exercício de intertextualidade que subjaz a toda a obra, e que liga ambos os painéis com a mesma argamassa. Um lugar especial para Júlio Cortázar, com o seu extraordinário conto «A Auto-estrada do Sul» que também, em tempos, tocou muito fundo, na minha sensibilidade.

Duas palavras ainda – muito mais abreviadas do que o texto mereceria – para assinalar aspectos estilísticos do escritor.

Antes de mais, a frase breve, concisa, quer se trate de escrita panorâmica, quer duma sugestão de pormenor. Mesmo nas descrições – em que tantas vezes os autores mais experimentados cedem ao expansionismo, António Laborinho Lúcio mantém domina o seu ritmo.

A palavra precisa e certeira é timbre do autor. Dois jogos que as personagens do romance praticam são, precisamente jogos de palavras (de adivinhação e aplicação). Devo-lhe o ter-me ensinado o caixotim e o componedor, embora não prometa que as vá utilizar na minha próxima refeição (private Joke). Fiquei a saber – e esta não me escapará – que, quando não há nada que dizer, deve ocorrer sempre um advérbio para salvar a situação. Também tive notícia duma santa irlandesa que a minha ignorância encobria, chamada Dimphna padroeira dos psiquiatras e seus clientes.

Passo por cima, por imperativos de brevitas, o dispositivo encontrado pelo autor, usando o delírio de uma personagem para nos pôr em contacto com os SEUS autores (que, curiosamente, são, em grande parte os meus), os variados e patentes efeitos de surpresa, de diferimento e de suspensão para apenas referir a destreza muito peculiar no tratamento do tempo.

Dirá, à janela, João Francisco, porventura o avô mais amado sobre que eu tenho lido -- «Vês estas pessoas na rua? Umas caminham devagar, outras apressadamente» (encurto), com a música acontece o mesmo, minha filha. Cada peça tem um caminho e um destino. Para lá chegar há o tempo de correr, o tempo de caminhar, o tempo para andar vagarosamente. Tanto ali fora, como na música, temos andamentos diferentes

E, poderia o autor acrescentar, no texto literário. Com efeito, o tempo recua, estabiliza, projecta-se, concentra-se, expande-se. Uma acção de poucos minutos é simultânea com a revisitação de centenas de anos, uma enunciação, brevíssima, pode anteceder um desvio em que se deambula por outras paragens, outros incidentes, outros pensamentos e falas. Este manuseio do tempo que se contrai e se dilata, de envolto com as mudanças de voz e os intercâmbios de pontos de vista, numa indisfarçada perícia, seriam, só por si uma evidência do domínio deste escritor sobre as categorias da narrativa.

Muito mais haveria a dizer acerca deste hábil romance, designadamente, o toque geracional ( Françoise Hardy, Anthony Perkins, o Bolero de Ravel, na versão de Frederico de Freitas)…, e, chegado a este ponto, eu diria, citando o escritor: «Qual foi o passo que ficou por dar? (…) Qual a palavra que não foi dita»?)

Tentei dar conta da exuberância, fecundidade, profusão, e alcance do livro que merecerá, porventura, análise mais estendida, competente e meticulosa. Mas também sei, por larga experiência, que os circunstantes aqui se encontram para ouvir e saudar o autor. Aproveito a prerrogativa de estar no uso da palavra para desde logo, e antes de todos o felicitar e desejar os maiores sucessos, de toda a ordem, para este sedutor e inteligente romance.

Mário de Carvalho

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