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[HORDA] 

Poetas de Espanha e da América Latina, o mais infame
Da literatura, surgiram como ratazanas do fundo do meu sonho
E transformaram os seus guinchos num coro de vozes brancas: 
Não te preocupes, Roberto, disseram, nós nos encarregaremos
De fazer-te desaparecer, nem os teus ossos imaculados
Nem os teus escritos que cuspimos e plagiamos habilmente
Emergirão do naufrágio. Nem os teus olhos, nem os teus tomates,
Se salvarão deste ensaio geral de afogamento. E vi
As suas carinhas satisfeitas, graves adidos culturais e rosados 
Directores de revistas, leitores de editoras, e pobres
Revisores, os poetas de língua espanhola, cujo nome é
Horda, os melhores, as ratazanas fedorentas, banhos
Na dura arte de sobreviver em troca de excrementos,
De exercícios públicos de terror, os Neruda
E os Octavio Paz de bolso, os porcos insensíveis, abside
Ou arranhão no grande edifício do Poder.
Horda que detém o sonho do adolescente e a escrita.
Meu Deus! Debaixo deste sol gordo e seboso que nos mata
E nos diminui. 

[Tradução de Francisco José Viegas]

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Esta é a primeira página da ficha de Susan Sontag no FBI, que considerava «subversiva» a autora de Olhando o Sofrimento dos Outros. Tudo se deve à participação de Sontag na campanha contra a guerra do Vietname – o nome da escritora chamou a atenção de J. Edgar Hoover, o que é uma prova magnífica da sua intuição e inteligência, não há que negar. Os documentos foram agora divulgados num livro intitulado Writers Under Surveillance: The FBI Files, organizado por J Pat Brown, B.C.D. Lipton e Michael Morisy, publicado pela MIT Press.

Outras páginas de interesse:

 Susan Sontag na Quetzal: O Amante do Vulcão, A Doença como Metáfora, Ensaios sobre Fotografia, Ao Mesmo Tempo, Renascer, Olhando o Sofrimento dos Outros.

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Entrevista ao vivo na série Writers in Conversation, na Universidade de Southampton – sobre A Praia de Manhattan, que a Quetzal publica nesta sexta-feira, 14 de setembro. 

Veja também, aqui, Jennifer Egan entrevistada por Christianne Amanpour na CNN quando A Praia de Manhattan foi escolhido como leitura do New York’s City Book Club.

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 Com este livro de fados inéditos, o génio poético de Vasco Graça Moura é recordado quatro anos após a sua morte. Na obra de Vasco Graça Moura, que escreveu vários ensaios sobre a origem deste género musical, há muitas incursões no fado e, inclusive, um livro que lhe é inteiramente dedicado: Letras do Fado Vulgar. O poeta escreveu alguns fados para as vozes de intérpretes como Mísia, Kátia Guerreiro ou Carminho. 

A Puxar ao Sentimento inclui um bom número de fados inéditos de Vasco Graça Moura, marcados pelo seu génio melancólico e pleno de ironia — são poemas maravilhosos que, só por si, constituem uma homenagem ao fado e uma contribuição literária para abrir (ainda mais) as suas portas.
Quatro anos depois da morte de Vasco Graça Moura, esta é uma forma de continuar a recordar uma das grandes vozes da poesia e da literatura portuguesas do nosso tempo.

O livro sai para as livrarias a 21 de setembro.

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Rainbirds, «Love Is a Better Word (White City Of Light)»

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Leia aqui uma entrevista no The Village Voice — Jennifer Egam, autora do romance A Praia de Manhattan, que chega esta sexta-feira às livrarias, foi considerada um dos dez melhores autores de sempre sobre Nova Iorque.

 

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[O ENTARDECER]

 
O pai de Lisa viu passar esse entardecer
até lá em baixo
até México D.F..
O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas
antes do seu último combate.
O pai de Carolina viu esse entardecer
derrotado e doente depois da guerra. O mesmo
entardecer sem braços
e com os lábios
delgados como um queixume.
O que o pai de Lola viu trabalhando numa
fábrica de Bilbau e o que
o pai de Edna viu procurando as palavras
exactas da sua prece.
Esse entardecer fantástico!
Aquele que o pai de Jennifer contemplou
num barco no Pacífico
durante a Segunda Guerra Mundial
e o que o pai de Margarita contemplou
à saída de uma taberna
sem nome.
Esse entardecer corajoso e trémulo, indivisível
Como uma seta lançada ao coração.

 

[Tradução de Francisco José Viegas]
 
NOTA: «O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas antes do seu último combate»  Léon Bolaño, pai de Roberto Bolaño, foi boxeur e condutor de camiões. Chegou a ganhar o titulo de campeão de pesos pesados antes de conhecer a professora primária Victoria Avalos, com quem casou e com quem se mudou para Quilpué. Léon e Victoria separaram-se em 1973. Léon e Roberto Bolaño não se viram durante 22 anos – o encontro entre os dois deu-se em Madrid, em 2000, quando o escritor trabalhava no romance 2666. «Matou-se por causa desse livro. Quase não dormia, era uma obsessão», declarou Léon Bolaño em 2006. O pai soube da morte de Roberto apenas dois dias depois.

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Leia o que o The Guardian escreve sobre o novo livro de Jennifer EganA Praia de Manhattan, que a Quetzal publica a 14 de setembro: «Remarkable cinematic scope.»

Leia ainda as críticas do The Irish Times («complex characters and sentences so luminous...»), do Chicago Tribune e do The Boston Globe.

 

Jennifer Egan na Quetzal: O Circo Invisível (2014), A Visita do Brutamontes (2012, Prémio Pulitzer).

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«A prosa irrepreensível de Rachel Cusk transfigura o quotidiano no tipo de narrativa que prende o leitor da primeira à última página.» Na Sábado.

Leia a crítica de Isabel Lucas no Público: «Tremenda capacidade de Rachel Cusk escrever sobre a banalidade fazendo disso grande literatura. Como se nada fosse.»

Leia a entrevista que Rita Betrand fez com Rachel no ano passado, durante o Festival Literatura em Viagem, de Matosinhos.

Leia a entrevista de Isabel Lucas, igualmente no ano passado, por ocasião da publicação do primeiro livro de Rachel no catálogo da Quetzal, A Contraluz.

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Leia aqui a crítica de Amor Towles, no The New York Times, ao livro A Praia de Manhattan, de Jennifer Egan, que a Quetzal publica a 14 de setembro.

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 Leia aqui a entrevista de Camille Paglia, a autora de Mulheres Livres, Homens Livres, a Fernanda Cachão, na revista Domingo, do Correio da Manhã.

Alguns extractos:

 

«As mulheres ocidentais estão obcecadas com um sistema profissional ambicioso e competitivo, acreditam que não existe mais nada para além disso. Menosprezam a maternidade e são hostis à religião. Esta visão limitada tem impedido que o feminismo se torne num movimento mundial. Acredito que a missão do feminismo é remover barreiras às mulheres no domínio social e religioso. A existência humana vai muito além do escritório e das competências profissionais. Além disso, as regras que se devem aplicar ao nosso comportamento sexual no local de trabalho não devem ser decalcadas da esfera privada, onde as coisas são mais complicadas e ambíguas.»

«É excelente que as mulheres condenem comportamentos pouco profissionais de patrões e colegas de trabalho. Em 1986, depois de ter discutido o assunto na minha aula de estudos femininos, instiguei a universidade a adotar diretrizes moderadas no que toca ao assédio sexual. No entanto, o #MeToo vai longe de mais quando faz acusações em público que se referem a incidentes com muitos anos e sobre os quais já não existem provas. As democracias modernas não podem funcionar como a polícia de Estaline. Os homens também têm direitos legais. As mulheres devem enfrentar o assédio sexual quando ele acontece – e não meses, anos depois dos factos. Há trabalhadoras impotentes na sua defesa porque a manutenção dos seus postos de trabalho lhes é vital mas isso não é de todo desculpa que deva ser usada por mulheres com estudos superiores e de estrato social elevado, pois não estão oprimidas pela necessidade do silêncio. As mulheres devem pôr o amor-próprio e a dignidade acima das suas carreiras.»

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Saiba, por este texto de António Marujo, no Público, como são e o que são os Arquivos Secretos e a Biblioteca do Vaticano que passam a ser dirigidos a partir de agora por José Tolentino Mendonça: «Arquivo e Biblioteca do Vaticano são pela primeira vez dirigidos por um português, mas poucos investigadores nacionais utilizam aqueles fundos para as suas pesquisas.»

Tolentino na Quetzal: Elogio da Sede (2018) e O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas (2017).

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 © Foto Michael Lionstar


Crítica de
Eduardo Pitta na Sábado (cinco estrelas) a Mulheres Livres, Homens Livres, da grande Camille Paglia:

«Oriunda do feminismo radical e dos círculos académicos mais exigentes, Paglia nunca evitou chocar de frente com o establishment: "Permanece um mistério a razão pela qual um psicanalista trapaceiro, cínico e verborreico como [acques Lacan [...] se tornou o ídolo de tantas feministas anglo-americanas." Com o sarcasmo de regra, os temas abordados reportam à crise do sistema de ensino universitário americano, ao retrato que Mapplethorpe fez de Patti Smith, a sexo nas escolas, à violação, ao aborto, aos equívocos da candidatura presidencial de Hillary Clinton, à série de televisão The Real Housewives, à cirurgia plástica, à prática do masoquismo por parte das classes médias educadas, à "mistela bafienta" do pós-estruturalismo, à regressão dos grupos feministas, etc. Paglia nunca desilude. A desenvoltura da sua escrita, empenhada, envolvente, apoiada numa vasta erudição e num desprezo total pela mentalidade dominante, fazem de cada livro uma provocação.»  

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© Mafalda Gomes / Sol

 

Leia aqui a entrevista a José Riço Direitinho no semanário Sol deste fim-de-semana. Tudo sobre O Escuro Que Te Ilumina, de que acaba de ser lançada a segunda edição: «A nova literatura portuguesa também é muito bem comportadinha, eles são todos muito certinhos. E eu às tantas achei: ‘Não tenho nada a perder’.»

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O que tem Maradona a ver com Susan Sontag e pugilismo com Chateaubriand? E sexo anal com transportes públicos ou com os suicídios de Werther ou Bovary? São vinte e seis textos dispersos que agora se reúnem em livro e que, na sua variedade, erudição e humor, ilustram o extraordinário talento de Bruno Vieira Amaral. «Manobras de Guerrilha» sai na próxima sexta-feira. Aqui está um extracto.

 

Viver não dá direito a medalhas

Quando tinha sete ou oito anos participei numa daquelas caóticas corridas de sacas com que os organizadores das festas do meu bairro julgavam abrilhantar o evento. Após breves segundos na liderança, em que já me imaginava no lugar mais alto do pódio, tropecei, caí e fiquei no chão, a boca cheia de farinha com água e um rebuçado de laranja preso pelos dentes. Os restantes concorrentes, insensíveis à minha má sorte, prosseguiram a prova e eu, muito naturalmente, acabei em último.

 O pior de tudo é que, de acordo com as regras peregrinas daquela competição, todos tinham direito a medalhas, menos o último classificado. Voltei para casa em circunstâncias penosas, roendo tristemente o rebuçado mas, desde esse dia, criei com as derrotas – e em particular com as minhas derrotas – uma relação intensa que dura até hoje. Confesso, não sem algum exagero sentimental, que tudo o que aprendi na vida, devo-o às minhas derrotas.

Há dias, ao folhear o jornal desportivo no sábado de manhã, ritual acompanhado de sucessivos apelos para que os meus filhos se calassem – apelos sucessivamente ignorados, diga-se – deparei-me com uma fotografia de Fernando Mamede, esse eterno derrotado. Mamede, como habitualmente, chorava.

Para quem não sabe, Fernando Mamede foi um dos maiores atletas portugueses de sempre, recordista mundial dos 10 mil metros nos anos 80, mas que, nas grandes competições, bloqueava invariavelmente. Não em todas as competições, apenas naquelas que garantem a imortalidade e referências menos envergonhadas ou ostensivamente celebratórias (se nenhum jogador do Sport Lisboa e Benfica tiver caspa) nas capas dos jornais desportivos: campeonatos da Europa e do mundo, Jogos Olímpicos. Intratável nos meetings, Mamede chegava aos grandes eventos num estado que nem o Super-Homem depois de cair num poço de kriptonite. Arrancava devagar, dava umas voltas contrariadas à pista, arrastava-se e, por fim, desistia, fugindo pela saída mais próxima.

Dobrei o jornal e, nos dias seguintes, Mamede continuou ao meu lado, derrotado, choroso, a reviver os momentos de angústia, o pavor de andar na frente, no lugar que era dele. No dia 1 de novembro, o Expresso entrevistou-o a propósito do seu sexagésimo-quinto aniversário. Uma vez mais, Mamede repisou as memórias dolorosas, relatou os momentos de frustração, algumas alegrias, a ligação íntima, quase filial, com o professor Moniz Pereira, falou brevemente da relação complicada com Carlos Lopes. De certeza que chorou. A certa altura, recordando episódios longínquos na noite algarvia, disse isto: «Fiz muitos amigos na Albufeira velha, que ainda hoje são meus amigos. E a minha filha tinha um dia especial para ela, que era o domingo. Íamos jantar e depois levava-a para ver as «bolinhas». Era a bola de espelhos a rodar e as bolinhas no chão. Íamos à discoteca ao domingo. Não estava lá ninguém, mas os donos conheciam-me. Ela entrava e estávamos ali um bocadinho e depois vínhamos para casa.» Ao falar sobre aquele momento de intimidade, Mamede readquiriu a leveza simples e luminosa do homem que voava nas pistas de tartan: o ritual do jantar, depois a ida a uma discoteca vazia, as «bolinhas» no chão, o regresso a casa. Sem pressão, sem a obrigação de vencer, sem a necessidade de estar à altura do que dele se esperava. Um momento triunfal e, no entanto, silencioso, sem testemunhas, sem aplausos, sem cobranças. Apenas dois seres humanos, pai e filha, num instante no final de um domingo, àquela hora em que o vislumbre da semana seguinte nos torna presas fáceis do tédio.

No filme Mystic River, a personagem de Sean Penn recorda a noite em que a mulher morreu e em que ele ficou sozinho com a filha: «os dois sentados na cozinha naquela noite era como se fôssemos as últimas pessoas na terra. Esquecidos. Indesejados.» Ao ler aquele excerto da entrevista de Fernando Mamede, foi assim que os imaginei, a ele e à filha, as duas últimas pessoas na terra, esquecidas, indesejadas, cheias de amor e solidão.

Na vida real, os últimos não têm direito a medalha e o pior é que até os triunfos são muitas vezes obscuros, vividos na solidão, numa discoteca vazia, num domingo deserto, sem direito a medalhas. «Estávamos ali um bocadinho», disse o homem que, por vezes, parece enclausurado nos seus piores momentos. Quanto tempo demorava aquele bocadinho? A vida toda.

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AVISO AO LEITOR. ESTE LIVRO CONTÉM OS SEGUINTES CONTEÚDOS SENSÍVEIS: «Capitalismo, o fedor tenebroso dos homens, anacronismos históricos, ameaças de morte, violência, servidão humana, cultura popular da moda, desespero, escárnio desbragado dos ricos, ameaças de violação, débeis iterações do pensamento epicurista, a ind.stria dos comics, a morte do intelectualismo, ser-se mulher numa sociedade que odeia as mulheres, populismo, um trocadilho pavoroso, a vida sexual do Thomas Jefferson, genocídio, celebridade, a filosofia objetivista da Ayn Rand, análises sobre ra.a, ficção científica, anarquismo com um fraquinho pela democracia, as pessoas que vão morrer para a Califórnia, a afetação dos millennials, páginas e mais páginas de explicações condescendentes e machistas, paganismo neo-helénico, casamento inter-racial, hippies com nomes intricados a cometerem atos de crueldade animal com cabras, guerras injustas no Médio Oriente, o 11 de Setembro, ver o perfil do Facebook de uma pessoa que conhecíamos quando éramos novos e julgávamos que toda a gente iria levar uma vida gratificante.» Sai em Janeiro.

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Ou seja, «agora que acabou o Natal, voltamos aos livros da Quetzal», como nós gostamos de dizer, porque gostamos de coisas com rima. Logo nos primeiros dias de janeiro – dia 3 – a Livraria Ler Devagar (Lx Factory, em Alcântara, Lisboa) foi palco da primeira atividade da Quetzal neste novo ano: uma conversa com Jorge Carrión, autor de Livrarias, um dos bons livros de 2017.

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Com o Jorge estivemos eu e o José Pinho, o homem das várias aventuras Ler Devagar — e foi uma alegria ouvi-lo falar sobre a forma como escreveu o livro, sobre as viagens que o levaram à descoberta de livrarias pelo mundo fora (lembro que o The Guardian escolheu o livro de Jorge Carrión como um dos melhores títulos de literatura de viagem de 2016) e, claro, sobre as suas preocupações acerca do futuro do livro ou das livrarias. Escolhemos este livro para começar o novo ano – pelo que ele diz de nós, pelo que ele diz da nossa vida e da nossa melancolia. «Uma história de paixão, comércio e melancolia», precisamente, é o subtítulo português do livro de Carrión; um subtítulo que guardamos para nós e que adaptamos para o nosso trabalho. Os nossos leitores sabem que esse é o caminho da Quetzal.

F. J. Viegas

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Mediterrâneo, o nono livro de originais do autor, foi a obra premiada

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João Luís Barreto Guimarães foi o vencedor da VI edição do Prémio de Poesia António Ramos Rosa, com o livro Mediterrâneo.  O júri, do qual fizeram parte Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça e Adriana Nogueira, decidiu galardoar este ano o nono livro de poemas originais do poeta portuense. Publicado em março de 2016, Mediterrâneo é uma deambulação pela história e pela cultura europeia e mediterrânica, atravessando a paisagem física e espiritual, bem como o tempo entre a Antiguidade clássica e a contemporaneidade.

 

O Prémio de Poesia António Ramos Rosa, instituído pelo município de Faro, destina-se a galardoar um livro de poesia escrito em português, publicado integralmente em 1ª edição. Este prémio, do qual já se realizaram cinco edições, em 1999, 2001, 2007, 2009 e 2015, procura promover o aparecimento de novos poetas, mas também reconhecer o trabalho dos já consagrados. Em todas as edições teve mais de 50 obras a concurso, tendo sido atribuído a poetas de reconhecida excelência literária como Fernando Echevarria, Fernando Guimarães, Nuno Júdice, João Rui de Sousa e Luís Quintais e tem o valor de €5.000 (cinco mil euros).

 

Segundo o júri, a decisão fundamentou-se pelo facto de «o livro Mediterrâneo se ter destacado do conjunto das mais de cem obras apresentadas a concurso, pela sua coerência temática, ligada ao tema da viagem, pela originalidade de um universo que não se limita à descrição, mas capta, em cada apontamento, o pormenor essencial em que a História e a cultura europeias se projetam.

Transportando para o presente a antiguidade greco-latina, este livro marcante de João Luís Barreto Guimarães, no entender do júri, celebra o encontro da sua poética com este mundo de memórias, de correspondências e de vozes, e vem na sequência de uma obra que se tem vindo a impor ao longo dos anos, em lugar de destaque da nossa poesia contemporânea, fazendo dele merecedor do Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa.»

João Luís Barreto Guimarães junta-se a Fernando Echevarria, Fernando Guimarães, Nuno Júdice, João Rui de Sousa e Luís Quintais, figuras de relevo no panorama da poética nacional, que foram distinguidos nas anteriores edições do Prémio.
 

 

Mediterrâneo é precedido por Você Está Aqui (2013) e Poesia Reunida (2011), publicados pela Quetzal Editores.

 

A cerimónia de entrega do prémio realizar-se-á no dia 9 de setembro, às 17h em Faro, em cerimónia pública

 

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, em junho de 1967. É poeta, cirurgião plástico e vive em Leça da Palmeira com a mulher e a filha. É um dos poetas mais prolíficos e empenhados na causa poética – viver através e para a poesia. Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro (1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006) e A Parte pelo Todo(2009). Poesia Reunida (2011) aproximou os primeiros sete livros que constituem a sua obra editada até ao momento. Em 2013 publica Você Está Aqui, o balanço poético e pessoal do homem e do poeta, aos 40 anos, a procura e reafirmação do seu lugar, e da sua poesia, no mundo.

 

 

Notas de imprensa sobre João Luís Barreto Guimarães:

«Em JLBG, o humor é um sentido extra, um assumir do desconcerto do mundo, uma fuga em frente.» Pedro Eiras, Colóquio/Letras

 

«Uma sensibilidade quase epidérmica das ocorrências da vida.» Fernando Guimarães, Jornal de Letras

«O nome de JLBG é absolutamente central no quadro da evolução da linguagem poética portuguesa.» António Carlos Cortez, Jornal de Letras

 

«… a verdade é que ele só sabe escrever “de dentro da vida” e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.» José Mário Silva, Expresso

 

«A primeira coisa que me parece de assinalar é o espírito de jogo e de ironia (…) Depois, a densa memória cultural que parece habitar esta poesia.»  Luís Quintais, Relâmpago

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Um dos maiores nomes da ficção contemporânea brasileira morreu aos 69 anos 

 

É com grande pesar que a Quetzal Editores anuncia a perda de uma das maiores escritoras da ficção contemporânea brasileira. Elvira Vigna, de 69 anos, morreu ontem em São Paulo, Brasil, vítima de doença prolongada. Apesar disso, os últimos anos foram de grande atividade, tendo publicado sete livros desde a trágica notícia da sua doença, em 2012.

 

Dotada de uma enorme lucidez e com um olhar minucioso, Elvira Vigna é autora de vários livros de ficção e, ao longo do seu percurso literário, foi distinguida várias vezes, nomeadamente com o prémio Machado de Assis em 2010 e o APCA em 2016, entre outros.

 

Em Portugal, está publicada pela Quetzal Editores com Nada a Dizer, um livro que permitiu à autora receber o prémio Machado de Assis, em 2010, e um dos maiores elogios do jornal Estado de São Paulo: “A melhor escritora brasileira viva.”

 

Com formação em Literatura pela Universidade de Nancy, em França, a escritora era também ilustradora e jornalista. Elvira Vigna deixa ainda três livros inéditos.

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Frederico Lourenço, em resposta a alguns reparos, explica por que razão optou por traduzir o tradicional «Filho do Homem» por «Filho da Humanidade».

 

«O FILHO DA HUMANIDADE» e «UM ESPÍRITO SANTO»


A contemporânea acessibilidade via Messenger e Email faz com que a minha experiência de traduzir a Bíblia seja muito diferente (julgo eu!) da de todos os meus antecessores. Nem São Jerónimo nem João Ferreira de Almeida passaram pela fascinante experiência de receber, quase todos os dias, no computador e no telemóvel, mensagens com dúvidas e perguntas sobre as soluções por mim encontradas para tantos e tantos problemas que a tradução da Bíblia inevitavelmente suscita.

 

Como já tive ocasião de dizer várias vezes, num mundo ideal todos nós leríamos o Antigo Testamento em hebraico e o Novo Testamento em grego – e assim resolvia-se da melhor forma a problemática levantada pela tradução da Bíblia. Não estamos, infelizmente, nesse mundo ideal. Assim, quem traduz a Bíblia tem de ter a consciência de estar a fazer algo em prol dos outros; no meu caso muito concreto, o que desejo proporcionar às pessoas que lêem a minha tradução do Novo Testamento é a experiência, tão aproximada quanto possível EM PORTUGUÊS, do deslumbramento de lermos o texto na sua língua original: grego.

 

Descontando pequenas perguntas e dúvidas que me chegam sobre aspectos muito específicos, eu diria que as duas perguntas a que respondi mais vezes são:

 

(1) Porque é que eu traduzi ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου (em latim «Filius Hominis» e tradicionalmente, em português, «o Filho do Homem») por «o Filho da Humanidade»?

 

(2) Porque é que uso, por vezes, o artigo indefinido para o Espírito Santo, isto é: «um espírito santo»?
Quanto à primeira questão, de resto explicada nas pp. 45-6 do 1º volume da minha tradução, importa referir que tem havido, no século XXI, uma progressiva aceitação de que nem sempre é exacto traduzir as palavras ἄνθρωπος em grego ou «homo» em latim por «homem» em línguas que não têm a distinção que o grego e o latim têm (e o alemão também tem – e o hebraico, já agora) entre «homem» por contraste com «mulher» (em grego ἀνήρ, em latim «vir», em alemão «Mann») e «homem» no sentido de «ser humano» (em grego ἄνθρωπος, em latim «homo», em alemão «Mensch»).

 

Assim, tem vindo a parecer mais rigoroso, a um crescente número de estudiosos, optar pela tradução «Son of Humanity» («Filho da Humanidade») para o termo usado no Novo Testamento (que é diferente, note-se, do que lemos em Daniel ou Ezequiel, por razões que não vou agora explicar, mas que estão explicadas no 3º volume da minha tradução, que sairá no final do ano). Mesmo noutros textos da literatura cristã, nomeadamente escritos em latim, tem-se notado a opção de traduzir «homo» por «humanity» em vez de «man»: veja-se a imagem reproduzida abaixo, do início das Confissões de Santo Agostinho, na nova tradução de Carolyn Hammond, publicada pela Harvard University Press (2016). Dir-se-á que esta tradução contraria a tradição teológica de traduzir «homo» por «man» («homem»): no entanto, a própria Carolyn Hammond, apesar de católica praticante, não teve problema em aceitar que é aconselhável manter questões de índole filológico-linguística separadas de questões de conveniência teológica. E assim não hesitou em traduzir «homo» por «humanity».

 

Quanto à questão que se coloca em relação a «um espírito santo» onde se esperaria ler «o Espírito Santo»: quando os tradutores da Bíblia de King James (1611), tida como teologicamente incontestável em ambiente protestante, traduziram Lucas 1:35, traduziram do seguinte modo: «THE Holy Ghost shall come upon thee, and THE power of THE Highest shall overshadow thee; therefore also that Holy thing which shall be born of thee shall be called THE Son of God».

 

Repare-se nos artigos definidos que coloquei em maiúsculas. Nenhum deles está presente no texto grego, que não nos fala aqui em «o Espírito Santo» nem em «o Filho de Deus», visto que os artigos definidos estão ausentes da frase. É claro que, noutras passagens dos Evangelhos, lemos em grego «o Espírito Santo» e «o Filho de Deus»; mas nesta passagem não temos, no texto grego, os artigos definidos.

 

Qual é o problema de uma tradução como a da Bíblia de King James? É que transmite a quem não tem possibilidade de consultar o texto grego uma ideia errada daquilo que está, de facto, no texto. É indiferente a presença ou não do artigo definido? Teologicamente podemos dar como adquirido que não há diferença entre «o Espírito Santo» e «um Espírito Santo»? Não me compete a mim, como tradutor, partir desse princípio; mas apenas dar a ler o que está no texto. Idealmente, devíamos traduzir para português a passagem acima citada do seguinte modo: «Espírito Santo virá sobre ti e poder de <ente> altíssimo te sombreará. Por isso, também o concebido <é> santo e chamar-se-á filho de Deus».

 

Convenhamos que «Espírito Santo virá sobre ti» não é muito natural em português, já que para nós é natural «o espírito» ou «um espírito». Por isso, neste contexto, já que não seria correcto escrever «o Espírito Santo» e fica estranho escrever «Espírito Santo» sem qualquer artigo, a opção preferível será «um espírito santo».
No entanto, é preciso dizer que este dilema do que funciona ou não com/sem artigo definido levanta-se constantemente na tradução para português da Bíblia, desde logo numa palavra que surge muitas vezes sem artigo em grego, mas que em português fica estranha sem artigo. Na resposta de Maria ao anjo, ela diz em grego «eis a escrava DE Senhor» – e não «eis a escrava DO Senhor». Em latim – língua que não tem artigo definido ou indefinido – estas frases ficam sempre bem: «ecce ancilla Domini». Ao traduzirmos a frase a partir do latim sem conhecimento da frase grega, podemos subentender ambos os artigos: «eis a escrava do Senhor»; ou podíamos optar por «eis uma escrava do Senhor».

 

Mas o texto grego é que tem de funcionar como diapasão. E o texto grego diz-nos claramente que não se trata aqui de «uma escrava»; mas sim de «a escrava» de <um> Senhor. Senhor esse que é, obviamente, Deus.

 

Em resumo: com a minha tradução do Novo Testamento pretendo também confrontar as pessoas com o facto de as fórmulas tradicionais que temos nas nossas cabeças, depois de as termos ouvido uma vida inteira traduzidas com base noutros critérios, não corresponderem muitas vezes àquilo que está, de facto, no texto na sua língua original. Todos conhecemos «bem-aventurados os pobres de espírito»; ou «fazei isto em memória de mim»; ou «o Espírito Santo virá sobre ti». Mas não é isso que está realmente no Novo Testamento. E todos rezamos na missa um Pai Nosso que não reproduz as palavras que Jesus indicou que rezássemos. Mesmo que vocês não achem isso estranho, eu acho...

 

É preciso voltar a estudar e compreender o texto do Novo Testamento na sua língua original: o grego. O cristianismo do século XXI deve estar apto a aceitar que o rigor linguístico não é inimigo da teologia – muito menos da fé. Nem a Bíblia se torna menos santa por lermos nela o que realmente lá está escrito.

 

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 Post original aqui

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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