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Pequeno Génesis

24.11.11

Texto lido pelo poeta Luís Quintais na apresentação do livro Poesia Reunida, de João Luís Barreto Guimarães, em Coimbra. Agradecemos a Luís Quintais a possibilidade de dar a conhecer o texto aos nossos leitores:

 

"A primeira coisa que me parece de assinalar é o espírito de jogo e de ironia que se reúne em Poesia Reunida (2011).

 

Mas antes, gostaria de recordar os idos anos oitenta, em que, muito jovem ainda, frequentava as estantes da Livraria Buchholz em Lisboa, cidade na qual descobri essa belíssima criatura a que chamamos de poesia.

 

Antes de me deslocar para o Largo de Camões onde, numa rua próxima, a Rua do Loreto, trabalhava então (no escritório do senhor Fernando Costa Quintais, meu tio, que me oferecia assim uma existência vagamente pessoana), era costume percorrer as estantes da Buchholz. E num desses princípios de tarde descobri a primeira edição de Há Violinos na Tribo, uma edição que já não guardo, pois devo-a ter emprestado a alguém que não ma devolveu.  O livro foi publicado em 1989, e durante esses anos – descubro-o hoje – eu e o João Luís, que só viria a conhecer depois, líamos os mesmos livros.

 

Por exemplo, João Miguel Fernandes Jorge, mas também os modernistas anglo-americanos, com quem temos uma afinidade profunda e de digestão nem sempre fácil. Afinal, somos poetas cultos, e não enjeitamos uma medida de ambição e de amor à arte que se encontra quase sempre afastada de muita gente que raramente se interroga sobre o que faz e que raramente se confronta com os melhores.

Eu, de João Miguel Fernandes Jorge retenho uma certa reflexão em torno da história e dos seus equívocos e ciladas. O João Luís parece privilegiar declinações discretas e secretas do quotidiano – e não é por acaso que cita (uma das suas citações preferidas, ao que julgo) o belíssimo Porto Batel de 1972 em que Jorge escreve: «O quotidiano / é ainda um discurso (Rodrigues & Rodrigues Alfaiates)». Os dois versos citados apelam a essa escrupulosa atenção ao quotidiano enquanto fala e gramática que percorre Poesia Reunida a que se soma a perda da aura que a comodificação do fazer, representada pelo «Rodrigues & Rodrigues Alfaiates, prenuncia.

 

Mas seja como for, o que eu aprecio é a ironia do João Luís quando volta a estes dois versos. É a ironia moderna: um compromisso deslocado (complicado, e não nos esqueçamos que o alfaiate, tal como o poeta, é o mestre das plicas, das dobras) com uma metafísica (secular) em que os pequenos gestos e os prosaísmos do quotidiano se revelam profundamente significativos, ritualmente decisivos. Sem ênfase, o melhor é cultivarmos a prosa do mundo, dir-nos-á o poeta que se limita a anotar pacientemente os ritmos, fugas e armadilhas do pulsar dos dias urbanos (sim, porque aqui a cidade é o seu espaço de eleição e mesmo a intimidade é uma figuração da cidade, da sua epiderme).

 

A ironia está também em fazer encenar uma certa noção de revelação profana feita de instantes e de coloquialismos que poderão, eventualmente, ser recortados sobre o pano de fundo da tradição. É isso que acontece com o João Luís quando, desde o inicío, toma certas formas e metrificações como um lugar de jogo, brincadeira, leveza.

 

O espírito de jogo parece assim ser a melhor forma de nos confrontarmos com a tradição. Não é por acaso que ele toma nos seus primeiros livros o soneto como uma emblematização do percurso e recursividade que vai de Giacomo da Lentini a E.E. Cummings, como se, de algum modo, procurasse, a nível mais superficial, unir peças desirmanadas, e, a um nível mais profundo, recodificar essa aporia moderna entre contrução e destruição que está em Wallace Stevens e também em E.E. Cummings, poetas contra os quais o João Luís escreve.

 

Assim, líamos ambos João Miguel Fernandes Jorge, mas provavelmente descobrimos também, durante esses anos, e com assombro comum, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Ezra Pound, E. E. Cummings, Marianne Moore, Elisabeth Bishop, William Carlos Williams, sendo Williams uma das suas referências mais decisivas.

 

Para o João Luís, também para ele, muita coisa dependerá de um carrinho de mão vermelho abandonado à chuva. Toda a percepção do real é intransigentemente poética.  E não me referiro aqui a esse «regresso ao real» de que tanto se fala hoje (e que, via Joaquim Manuel Magalhães, parece ter traumatizado a nossa geração), mas ao real ele mesmo: não ideias sobre as coisas, mas as coisas elas mesmas: a poesia, justamente, na sua concretude e intensidade são o real, e  Stevens e Williams estão na génese da poesia de João Luís, e, quero querer, na génese da minha.

 

Esta declinação por uma objectividade programada, por uma transparência capaz de derrotar as ideias e de nos lançar numa espécie de confronto com evidências de que nos apartámos através de uma intelectualização desmedida da linguagem e dos seus usos, é uma das insistências da sua poesia. Linguagem e subjectividade são aqui o lugar de um encontro e de um enlace que denuncia a realidade do poema, essa materialização do irrepresentável.

 

Em Este Lado Para Cima (poemas dos anos 1991 a 1994), João Luís escrevia, por exemplo, esta magnífica reinvenção do soneto: «rodo a torneira da esquerda num curto / gesto aprendido aguardo de dedo / em riste que o molhe: água vermelha. // o f(r)io jorra seu frémito com quanta / força a prendeu (vai fugindo pelo ralo / em liberdade condicionada) não consigo / imaginar quantos corpos já tocou o meu // pedaço de água. Espalho espuma pela / face (descubro a face sob a espuma) / a lâmina deixa cair na cor da louça / de banho os meus últimos dias. / às vezes queria que a água lavasse / a culpa do rosto levasse de dentro / estilhaços (pensamentos:) impurezas» (Poesia reunida, p. 105).

 

A circunstância é, neste poema, colocada ao serviço de uma transposição de qualidades: o tempo é aqui espaço, extensão, matéria, e, finalmente, detrito. Os dias caem «na cor da louça» e, dir-se-ia, também, que a água, solvente universal, se instala radicalmente nesta transposição do tempo em espaço: quem dera que a água lavasse / levasse a culpa e com ela (num hábil exercício entre o exterior e o interior)  «estilhaços (pensamentos:) impurezas». Pensamentos como estilhaços, pensamentos como impurezas. Tanta coisa depende da circunstância e da materialidade do gesto, parece querer dizer-nos João Luís. Espírito de ironia. Espírito de jogo. Dobragem constante do circunstancial e do acidente. Aliás, o acidente (ou a sua procura) constitui uma das portas de entrada para esta poesia de singularidades, circunstâncias, coloquialismos repletos de um insuspeito lirismo. Quero querer que o João Luís reescreveu o mito genésico através de uma colecção de «movimentos imperceptíveis», de acidentes tornados significativos (isto é, ponderáveis e confortáveis, dispostos para uma ordem que só a atenção mais adestrada poderia descrever e celebrar).

 

Em Lugares Comuns (poemas de 1994 a 1995), João Luís faz remontar a origem do mundo a um «28 de Março» que é, mais uma vez, um lugar, uma transposição do tempo em espaço e uma acidental preparação para o acontecer do poema (no seu permanente movimento ente ordem e caos, construção e destruição): «Quando me sentei a esta mesa dispus o caderno onde escrevo, os óculos e a carteira, perfeitamente alinhados, ordenadamente ajustados ao espaço que o tampo da mesa coloca ao meu dispor. Corrigi a mão do empregado quando me trouxe o cinzeiro, o copo que enchi de água, o pacote de açúcar vermelho, tudo dispondo numa ordem nada menos que precisa, arranjo estético de formas que em nada feria o olhar. // Uma hora volvida, agora que olho a mesa, reparo que tudo ocupa lugar diferente do inicial. As mãos foram usando de gestos sobre a mesa, movendo-se imperceptíveis, a carteira mais distante depois de pagar a despesa, a chávena de café vazia afastada do caderno, o cinzeiro perto e visível ao mínimo esforço dos dedos, a água junto à mão esquerda, o mesmo é dizer junto aos lábios, o livro fechado e marcado na leitura interrompida. // Uma hora preenchida agora que olho a mesa, vejo-a desarrumada a meus olhos mas arrumadíssima a meu conforto.» (Poesia reunida, p. 148)

 

Entre olhar e pensamento se faz a poesia, parece dizer-nos João Luís. Entre olhar e pensamento, arrumação e desarrumação, se anuncia esse pequeno génesis que regressa aqui, hoje, nesta transposição de tempo em espaço a que nos brindou com Poesia Reunida.  Uma alegria íntima tornada extensão, livro."

 

Luís Quintais, Novembro de 2011 (lido em voz alta no dia 11 de Novembro na Livraria Almedina, Coimbra).

 

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Nas livrarias

31.10.11

O livro Poesia Reunida, de João Luís Barreto Guimarães, será apresentado no Porto, em Lisboa, em Coimbra e em Braga nas seguintes datas:

 

- 18/11, sexta-feira: Clube Literário do Porto, 21h30, por Vasco Graça Moura; leitura de poemas por Daniel Jonas

 

- 19/11, sábado: Livraria Bertrand Chiado, Lisboa, 18h30, por Pedro Mexia

 

- 20/11, domingo: Livraria Almedina Estádio, Coimbra, 16h00, por Luís Quintais

 

- 26/11, sábado: Livraria Capítulos Soltos, Braga, 18h30, Marta Peixoto

 

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Poesia Reunida

18.10.11

O blogue do poeta João Luís Barreto Guimarães já consta da lista de links. Aconselhamos os leitores a visitar o blogue e, a partir de dia 28, a descobrir a Poesia Reunida. Fica aqui um poema:

 

chegar até onde a luz se põe sem querer
saber porque se põe ser do céu uma das
cores e/ou pertencer ao quente ar do
crepúsculo sentindo que nenhum outro

exacto momento se repete assim. depois:
deixar sair os olhos em contínuos voos
espirais como aves do mar a cair na espera

ondulante das águas acreditar nas leis
do pensamento como quem mais não pode que
aceitar porque o homem é breve ainda para
se conseguir compreender. eis que tudo

quanto é sonho se torna real tudo quanto é
temporal ocorre agora dissipando eventuais
porquês perante a real forma das coisas


in "Rua Trinta e Um de Fevereiro" (1991)

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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