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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

 Quatro pregos

 

    «A campainha tocou uma, duas, três vezes. À quarta, Pete praguejou, desceu do escadote, pousou o martelo na mesa da sala e foi abrir a porta das traseiras. Entre os lábios, com a ponta afiada para fora, quatro pregos.

    Mal o viu, reconheceu imediatamente o rosto atrás da rede. Era Carver, Raymond Carver, o vizinho escritor e alcoólico. Um homem metido para dentro, pouco falador. Sabia que ele tinha publicado dois ou três livros de histórias curtas, mas não lera nenhum. Olivia, com o cinismo velhaco que usava contra tudo e contra todos, costumava dizer que se ele fosse um grande escritor, dos verdadeiramente bons, não viveria decerto naquele bairro.

    «Desculpe incomodá-lo, mas pode oferecer-me alguma coisa que se beba?», perguntou Carver, coçando a barba mal feita. Saliva nos cantos da boca seca, olhos semicerrados por causa da luz forte do meio-dia. «Não sei onde meti as chaves de casa e a minha mulher só deve estar de volta daqui a umas horas.» Pete abriu a porta de rede, guardou os pregos no bolso e foi buscar gin, copos, duas cadeiras, um balde de plástico com gelo.

    Daí a muitos anos, pensou, aquele desgraçado de mãos trémulas talvez viesse a inclui-lo, a ele, Pete, com outro nome mas os mesmos gestos, num conto qualquer. Tinha quase a certeza de que o faria. E meia garrafa de gin era um preço perfeitamente aceitável para aceder a essa espécie de eternidade.»

 

 

 

 

  

Um conto de José Mário Silva, com Raymond Carver como protagonista.

(Do livro Efeito Borboleta, Oficina do Livro, 2008)

«O Que Sabemos do Amor é a versão original dos dezassete contos escritos por Raymond Carver e publicados, num formato alterado pelo editor, com o titulo De Que Falamos Quando Falamos de Amor pela Alfred A. Knopf, em Abril de 1981.


A fonte dessa edição - o seu texto base - é o manuscrito que Carver entregou a Gordon Lish, à altura o seu editor Knopf, na Primavera de 1980. O manuscrito, que Lish cortou em em amis de cinquenta por cento após duas reescritas linhas por linha, encontra-se preservado na Biblioteca Lilly da Universidade do Indiana. Os contos originais de Carver foram recuperados transcrevendo as palavras que este bateu à maquina e que est\ao escondidas debaixo das alterações e cortes que Lish fez à mão.»

 

Do prefácio do editor americano a O Que Sabemos do Amor, de Raymonf Craver. A versão portuguesa de Begginers, traduzida por João Tordo. Nas livrarias a 5 de Fevereiro.

 

Um editor que exerce a edição e corta por vezes quase oitenta por cento do texto.

Um clássico do conto americano - que, segundo The Guardian, teve em 2009 o seu ano.

Raymond Carver em writer's cut traduzido por um escritor português recentemente premiado.

 

Begginers - O Que Sabemos do Amor, de Raymond Carver, traduzido por João Tordo.

 

A versão de Carver de What We Talk When We Talk About Love. Brevemente, pela Quetzal.  

 

 

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