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A Tia Benedita não gostava de cavalos – suponho que por pensar que o país se perdeu naquele período de convalescença do senhor D. Miguel a seguir ao acidente de carruagem em que partiu uma perna em Novembro de 1828. A senhora, matriarca dos Homem de várias gerações, atribuía aos cavalos a responsabilidade pelo acontecimento que o reteve no leito e entregou o país aos desmandos, abusos e horrores que se seguiram. Eis como o acaso intervém na história. De resto, a família, como se sabe, conserva o retrato do príncipe proscrito entre as sombras e poeiras do velho casarão de Ponte de Lima. Manter os retratos é uma coisa; outra, inteiramente diferente, é viver como se o país não tivesse atravessado duzentos anos de patifarias e de sucessos. A família, por isso, limita-se a visitar o retrato uma vez por ano, disciplinada e silenciosa. E, evidentemente, continuou a usar cavalos, tendo um tio dos Arcos de Valdevez, inclusivamente, raptado uma noiva à porta de uma igreja – levando-a a trote pelas veredas do Gerês, para depois se casarem no Lugo, na Galiza.
 
Não fosse a Doutora Filomena Mónica, que alimentou a vaidade de um velho sem pudor (prefaciando-lhe um livro), e eu não recordaria esta história que, a falar verdade, é apenas a descrição de uma birra famosa na nossa família, onde a Tia Benedita é a grande figura tutelar, conservando não só os retratos mas também os ressentimentos, os anacronismos, os momentos de fé e os episódios de glória. Quando, empurrada pelo velho Doutor Homem, meu pai, entrava nas discussões mais profundas sobre o antigo regime, a República, os costumes e a devassidão, a senhora encolhia os ombros e limitava-se a murmurar que «os livros do Eça lá pintam o que há para pintar». Ela referia-se ao Primo Basílio e ao Crime do Padre Amaro, que evidentemente nunca leu, mas onde detectaria – se quisesse – os sinais da decadência da Pátria, que ela atribuía aos jacobinos, à maçonaria, ao dr. Afonso Costa e à falta de religião. O velho Doutor Homem, meu pai, concordava acenando com a cabeça, recordando que também ele – educado por viagens a Londres, pela leitura do Telegraph, e pela embirração com o dr. Salazar – era filho de Eça. Como nós somos filhos de Eça. O que quer dizer, de largo, que todos os lemos às escondidas ou às claras.

 

(Continua...)

 

Texto de Dr. António Sousa Homem, escrito para a apresentação da biografia de Eça de Queirós, de Maria Filomena Mónica.
 

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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