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Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.
Lá em casa viviam dez mulheres, um menino e um senhor. As mulheres eram a Tatá, que fora ama da minha avó, tinha quase cem anos e estava meio surda e meio cega; duas criadas - a Emma e a Teresa; as minhas cinco irmãs - a Maryluz, a Clara, a Eva, a Marta e a Sol; a minha mãe e uma freira. O menino, eu, amava o senhor, seu pai, acima de todas as coisas. Amava-o mais do que a Deus. Um dia, tive de escolher entre Deus e o meu pai, e escolhi o meu pai. Foi a primeira discussão teológica da minha vida e travei-a com a irmã Josefa, a freira que tomava conta de mim e da Sol, os irmãos mais novos. Se fechar os olhos, ainda consigo ouvir a sua voz áspera, grossa, comparada com a minha voz infantil. Era uma manhã luminosa e estávamos no pátio, ao sol, a olhar para uns colibris que faziam o percurso das flores. Sem mais nem menos, a irmã esperou-me:
- O seu pai vai para o Inferno.
Começar pelo princípio: os dois primeiros parágrafos de Somos o Esquecimento que Seremos, de Héctor Abad Faciolince.
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