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A propósito da publicação de Mentiras & Diamantes, que chega às livrarias a 12 de abril, desafiámos o nosso autor J. Rentes de Carvalho a responder a algumas perguntas, uma das quais de um leitor. O escritor aceitou amavalemente o desafio e aqui ficam as perguntas e as respostas para todos os nossos leitores:

 

Passaram dez anos desde a publicação do seu último romance, A Amante Holandesa. Porquê um hiato tão longo até este Mentiras & Diamantes?

R: Hiato relativo, porque entretanto escrevi outras coisas, um segundo guia de Portugal, um guia de Lisboa e um estudo político social, A Ira de Deus sobre a Holanda, artigos aqui e ali, um ou outro ensaio. Mas acontece que no respeitante à escrita de ficção sou extremamente vagaroso, levanto-me dificuldades, problemas que só na minha cabeça existem. Fora isso sou um crítico embirrento de mim mesmo, o que hoje me parece satisfatório desagrada-me amanhã, emendo sem fim, recomeço não sei quantas vezes. E não vou falar dos romances deixados a meio, nem dos que ficam pelo esqueleto. Felizmente o meu pão-nosso de cada dia não depende da escrita, caso contrário teria um sério problema.

 

Pode descrever-nos, sucintamente, este romance?

R: É um relato em que entram personagens de natureza muito diferente, nalguns casos diria até oposta, e acontecimentos que decorrem num enquadramento peculiar. Numa trama normal teriam poucas probabilidades de se encontrar e influenciar. Mas como a vida é cheia de surpresas acabam por, voluntária ou acidentalmente, interferir nas acções mútuas e dar ao enredo as reviravoltas que, quanto a mim, são indispensáveis para "prender" o leitor e, em certas alturas, perguntar-se se é ficção ou, pelo menos em parte, realmente aconteceu. Acrescente-se que aqui e ali de facto aconteceu, e estou grato às pessoas que me forneceram algumas peças do puzzle.

 

Mentiras & Diamantes, que se pode considerar um thriller, pode surpreender os leitores quer pela temática, quer pelo estilo. Houve uma intenção deliberada de se aventurar por outros caminhos ou foi escrevendo sem pensar muito nessa mudança?

R: Era um desejo antigo, inconscientemente talvez date da minha infância, porque desde menino sempre fui e continuo a ser um leitor guloso de thrillers. Acontece que não me via capaz de fabricar um enredo complicado e a movimentar tantos personagens, o que a uns parecerá simples, mas se aproxima do malabarismo. Com o perigo de por um pequeno descuido segurar mal a vara e fazer cair a pratalhada.

 

Já citou como influências ou pelo menos, como escritores que lê com muito agrado, John LeCarré e Elmore Leonard. O que é que estes dois escritores têm que desperta a sua admiração? Deteta-se neste livro a influência destes autores?

R: Os quatro ou cinco primeiros romances de John LeCarré foram para mim uma revelação. Pelo enredo, o conhecimento dos ambientes e, sobretudo, a naturalidade do diálogo. Li-os algumas vezes com a mesma intenção de quem estuda um manual. Elmore Leonard foi uma descoberta posterior, e então já era demasiado velho para aprender, apenas saboreio e invejo. No que respeita este género, na minha formação pesam ainda de maneira variada muitos outros escritores, mas por agora fico-me por: Téophile Gautier,  Lawrence Durrell, Graham Greene, Somerset Maugham, Simenon, um esquecido John D. MacDonald.

 

Os seus livros, que a Quetzal tem vindo a publicar, têm tido um reconhecimento crescente por parte dos leitores e da crítica. Vê esse reconhecimento com gratidão ou com a sensação de ter chegado tarde demais?

R: Nunca se chega tarde demais, quando se chega. Claro que me sinto grato, mas para além de  um sentimento de gratidão, o que de facto me toma é um pasmo real, um sentimento de descrença. Não é impunemente que um indivíduo anda na escrita há mais de  sessenta anos, tem algum nome no país que o adoptou, mas por razões várias é ignorado  naquele em que nasceu e em cuja língua insiste em escrever.

A reviravolta causa uma certa perplexidade, mas nada que a tarimba da minha longa vida não ajude a resolver.

 

Pergunta do leitor Hugo Carlos Silva: No caso de existir, qual o livro que funciona como o centro da sua obra, a a partir do qual os outros irradiam (mesmo que de formas pouco óbvias), aquele em que sentiu estar mais próximo da plenitude (estética e moral)?

R: Um livro que funcione assim, que possa ser considerado centro de uma obra, deve ser raro e privilégio daqueles poucos escritores que, de longe a longe nos séculos, merecem o título de grandes. No meu caso não há centro, apenas dispersão, e planeamento nenhum. O que tenho escrito ou o que vou escrevendo resulta, ora de acidentes, ora de coincidências, às vezes é “disparado” por uma simples frase numa conversa, uma recordação, uma notícia.

A respeito de plenitude, e peço desculpa da banalidade, a única atingível é a do estômago. Pessoa a quem se meter na cabeça que anda em busca, ou está prestes a alcançar uma plenitude, seja ela estética, moral ou outra – com exceção da acima citada – tem em mãos um problema sério.

 

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2 comentários

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De Elmiro Ferreira a 07.04.2013 às 23:30

Estimado José Rentes de Carvalho,

Sou leitor interessado dos seus livros e apreciador da sua escrita, limpa, sem os excessos abundantes noutros... mas este "AO" que nos serve "exceções" e outras barbaridades deixa-me desagradado. Claro que não estou a responsabilizá-lo... Talvez a responsabilidade seja minha, teimoso e pouco elástico.

Grato pela atenção, queira aceitar os meus melhores cumprimentos

Elmiro Ferreira

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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