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Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.
© Fotografia de Enric Vives Rubio / Público
A Quetzal fica feliz com a notícia de que António Lobo Antunes é o novo autor a entrar na Bibliothèque de la Pléiade — a prestigiada coleção criada em 1931 por Jacques Schiffrin com o objectivo de publicar as obras completas de autores clássicos franceses em edições cuidadas, de papel bíblia e capa dura. A Pléiade passou, depois de entrar no grupo Gallimard, a publicar autores não franceses; a sua inclusão representa uma raríssima honra no mundo da literatura.
António Lobo Antunes é um bom amigo e leitor da Quetzal — e esta decisão da Pléiade vem reconhecer a importância da obra do autor de Os Cus de Judas, que em maio passado foi seleccionado pelo Ministério da Educação francês para as provas de agregação de professores, em conjunto com O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e de L’Acacia, de Claude Simon. Parabéns, António.

Luís Aguiar-Conraria escreve esta semana um notável artigo no Observador sobre o «caso Serena Williams», sexismo, racismo e feminismo — tudo começando com a leitura de Mulheres Livres, Homens Livres, de Camille Paglia.

[HORDA]
Poetas de Espanha e da América Latina, o mais infame
Da literatura, surgiram como ratazanas do fundo do meu sonho
E transformaram os seus guinchos num coro de vozes brancas:
Não te preocupes, Roberto, disseram, nós nos encarregaremos
De fazer-te desaparecer, nem os teus ossos imaculados
Nem os teus escritos que cuspimos e plagiamos habilmente
Emergirão do naufrágio. Nem os teus olhos, nem os teus tomates,
Se salvarão deste ensaio geral de afogamento. E vi
As suas carinhas satisfeitas, graves adidos culturais e rosados
Directores de revistas, leitores de editoras, e pobres
Revisores, os poetas de língua espanhola, cujo nome é
Horda, os melhores, as ratazanas fedorentas, banhos
Na dura arte de sobreviver em troca de excrementos,
De exercícios públicos de terror, os Neruda
E os Octavio Paz de bolso, os porcos insensíveis, abside
Ou arranhão no grande edifício do Poder.
Horda que detém o sonho do adolescente e a escrita.
Meu Deus! Debaixo deste sol gordo e seboso que nos mata
E nos diminui.
[Tradução de Francisco José Viegas]


Esta é a primeira página da ficha de Susan Sontag no FBI, que considerava «subversiva» a autora de Olhando o Sofrimento dos Outros. Tudo se deve à participação de Sontag na campanha contra a guerra do Vietname – o nome da escritora chamou a atenção de J. Edgar Hoover, o que é uma prova magnífica da sua intuição e inteligência, não há que negar. Os documentos foram agora divulgados num livro intitulado Writers Under Surveillance: The FBI Files, organizado por J Pat Brown, B.C.D. Lipton e Michael Morisy, publicado pela MIT Press.
Outras páginas de interesse:


Susan Sontag na Quetzal: O Amante do Vulcão, A Doença como Metáfora, Ensaios sobre Fotografia, Ao Mesmo Tempo, Renascer, Olhando o Sofrimento dos Outros.
Entrevista ao vivo na série Writers in Conversation, na Universidade de Southampton – sobre A Praia de Manhattan, que a Quetzal publica nesta sexta-feira, 14 de setembro.
Veja também, aqui, Jennifer Egan entrevistada por Christianne Amanpour na CNN quando A Praia de Manhattan foi escolhido como leitura do New York’s City Book Club.

Com este livro de fados inéditos, o génio poético de Vasco Graça Moura é recordado quatro anos após a sua morte. Na obra de Vasco Graça Moura, que escreveu vários ensaios sobre a origem deste género musical, há muitas incursões no fado e, inclusive, um livro que lhe é inteiramente dedicado: Letras do Fado Vulgar. O poeta escreveu alguns fados para as vozes de intérpretes como Mísia, Kátia Guerreiro ou Carminho.
A Puxar ao Sentimento inclui um bom número de fados inéditos de Vasco Graça Moura, marcados pelo seu génio melancólico e pleno de ironia — são poemas maravilhosos que, só por si, constituem uma homenagem ao fado e uma contribuição literária para abrir (ainda mais) as suas portas.
Quatro anos depois da morte de Vasco Graça Moura, esta é uma forma de continuar a recordar uma das grandes vozes da poesia e da literatura portuguesas do nosso tempo.
O livro sai para as livrarias a 21 de setembro.
Rainbirds, «Love Is a Better Word (White City Of Light)»

Leia aqui uma entrevista no The Village Voice — Jennifer Egam, autora do romance A Praia de Manhattan, que chega esta sexta-feira às livrarias, foi considerada um dos dez melhores autores de sempre sobre Nova Iorque.
[O ENTARDECER]
O pai de Lisa viu passar esse entardecer
até lá em baixo
até México D.F..
O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas
antes do seu último combate.
O pai de Carolina viu esse entardecer
derrotado e doente depois da guerra. O mesmo
entardecer sem braços
e com os lábios
delgados como um queixume.
O que o pai de Lola viu trabalhando numa
fábrica de Bilbau e o que
o pai de Edna viu procurando as palavras
exactas da sua prece.
Esse entardecer fantástico!
Aquele que o pai de Jennifer contemplou
num barco no Pacífico
durante a Segunda Guerra Mundial
e o que o pai de Margarita contemplou
à saída de uma taberna
sem nome.
Esse entardecer corajoso e trémulo, indivisível
Como uma seta lançada ao coração.
[Tradução de Francisco José Viegas]
NOTA: «O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas antes do seu último combate» Léon Bolaño, pai de Roberto Bolaño, foi boxeur e condutor de camiões. Chegou a ganhar o titulo de campeão de pesos pesados antes de conhecer a professora primária Victoria Avalos, com quem casou e com quem se mudou para Quilpué. Léon e Victoria separaram-se em 1973. Léon e Roberto Bolaño não se viram durante 22 anos – o encontro entre os dois deu-se em Madrid, em 2000, quando o escritor trabalhava no romance 2666. «Matou-se por causa desse livro. Quase não dormia, era uma obsessão», declarou Léon Bolaño em 2006. O pai soube da morte de Roberto apenas dois dias depois.
Leia o que o The Guardian escreve sobre o novo livro de Jennifer Egan, A Praia de Manhattan, que a Quetzal publica a 14 de setembro: «Remarkable cinematic scope.»
Leia ainda as críticas do The Irish Times («complex characters and sentences so luminous...»), do Chicago Tribune e do The Boston Globe.
Jennifer Egan na Quetzal: O Circo Invisível (2014), A Visita do Brutamontes (2012, Prémio Pulitzer).

«A prosa irrepreensível de Rachel Cusk transfigura o quotidiano no tipo de narrativa que prende o leitor da primeira à última página.» Na Sábado.
Leia a crítica de Isabel Lucas no Público: «Tremenda capacidade de Rachel Cusk escrever sobre a banalidade fazendo disso grande literatura. Como se nada fosse.»
Leia a entrevista que Rita Betrand fez com Rachel no ano passado, durante o Festival Literatura em Viagem, de Matosinhos.
Leia a entrevista de Isabel Lucas, igualmente no ano passado, por ocasião da publicação do primeiro livro de Rachel no catálogo da Quetzal, A Contraluz.

Leia aqui a crítica de Amor Towles, no The New York Times, ao livro A Praia de Manhattan, de Jennifer Egan, que a Quetzal publica a 14 de setembro.
Leia aqui a entrevista de Camille Paglia, a autora de Mulheres Livres, Homens Livres, a Fernanda Cachão, na revista Domingo, do Correio da Manhã.
Alguns extractos:
«As mulheres ocidentais estão obcecadas com um sistema profissional ambicioso e competitivo, acreditam que não existe mais nada para além disso. Menosprezam a maternidade e são hostis à religião. Esta visão limitada tem impedido que o feminismo se torne num movimento mundial. Acredito que a missão do feminismo é remover barreiras às mulheres no domínio social e religioso. A existência humana vai muito além do escritório e das competências profissionais. Além disso, as regras que se devem aplicar ao nosso comportamento sexual no local de trabalho não devem ser decalcadas da esfera privada, onde as coisas são mais complicadas e ambíguas.»
«É excelente que as mulheres condenem comportamentos pouco profissionais de patrões e colegas de trabalho. Em 1986, depois de ter discutido o assunto na minha aula de estudos femininos, instiguei a universidade a adotar diretrizes moderadas no que toca ao assédio sexual. No entanto, o #MeToo vai longe de mais quando faz acusações em público que se referem a incidentes com muitos anos e sobre os quais já não existem provas. As democracias modernas não podem funcionar como a polícia de Estaline. Os homens também têm direitos legais. As mulheres devem enfrentar o assédio sexual quando ele acontece – e não meses, anos depois dos factos. Há trabalhadoras impotentes na sua defesa porque a manutenção dos seus postos de trabalho lhes é vital mas isso não é de todo desculpa que deva ser usada por mulheres com estudos superiores e de estrato social elevado, pois não estão oprimidas pela necessidade do silêncio. As mulheres devem pôr o amor-próprio e a dignidade acima das suas carreiras.»
Saiba, por este texto de António Marujo, no Público, como são e o que são os Arquivos Secretos e a Biblioteca do Vaticano que passam a ser dirigidos a partir de agora por José Tolentino Mendonça: «Arquivo e Biblioteca do Vaticano são pela primeira vez dirigidos por um português, mas poucos investigadores nacionais utilizam aqueles fundos para as suas pesquisas.»
Tolentino na Quetzal: Elogio da Sede (2018) e O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas (2017).
© Foto Michael Lionstar
Crítica de Eduardo Pitta na Sábado (cinco estrelas) a Mulheres Livres, Homens Livres, da grande Camille Paglia:
«Oriunda do feminismo radical e dos círculos académicos mais exigentes, Paglia nunca evitou chocar de frente com o establishment: "Permanece um mistério a razão pela qual um psicanalista trapaceiro, cínico e verborreico como [acques Lacan [...] se tornou o ídolo de tantas feministas anglo-americanas." Com o sarcasmo de regra, os temas abordados reportam à crise do sistema de ensino universitário americano, ao retrato que Mapplethorpe fez de Patti Smith, a sexo nas escolas, à violação, ao aborto, aos equívocos da candidatura presidencial de Hillary Clinton, à série de televisão The Real Housewives, à cirurgia plástica, à prática do masoquismo por parte das classes médias educadas, à "mistela bafienta" do pós-estruturalismo, à regressão dos grupos feministas, etc. Paglia nunca desilude. A desenvoltura da sua escrita, empenhada, envolvente, apoiada numa vasta erudição e num desprezo total pela mentalidade dominante, fazem de cada livro uma provocação.»

© Mafalda Gomes / Sol
Leia aqui a entrevista a José Riço Direitinho no semanário Sol deste fim-de-semana. Tudo sobre O Escuro Que Te Ilumina, de que acaba de ser lançada a segunda edição: «A nova literatura portuguesa também é muito bem comportadinha, eles são todos muito certinhos. E eu às tantas achei: ‘Não tenho nada a perder’.»
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