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O que tem Maradona a ver com Susan Sontag e pugilismo com Chateaubriand? E sexo anal com transportes públicos ou com os suicídios de Werther ou Bovary? São vinte e seis textos dispersos que agora se reúnem em livro e que, na sua variedade, erudição e humor, ilustram o extraordinário talento de Bruno Vieira Amaral. «Manobras de Guerrilha» sai na próxima sexta-feira. Aqui está um extracto.

 

Viver não dá direito a medalhas

Quando tinha sete ou oito anos participei numa daquelas caóticas corridas de sacas com que os organizadores das festas do meu bairro julgavam abrilhantar o evento. Após breves segundos na liderança, em que já me imaginava no lugar mais alto do pódio, tropecei, caí e fiquei no chão, a boca cheia de farinha com água e um rebuçado de laranja preso pelos dentes. Os restantes concorrentes, insensíveis à minha má sorte, prosseguiram a prova e eu, muito naturalmente, acabei em último.

 O pior de tudo é que, de acordo com as regras peregrinas daquela competição, todos tinham direito a medalhas, menos o último classificado. Voltei para casa em circunstâncias penosas, roendo tristemente o rebuçado mas, desde esse dia, criei com as derrotas – e em particular com as minhas derrotas – uma relação intensa que dura até hoje. Confesso, não sem algum exagero sentimental, que tudo o que aprendi na vida, devo-o às minhas derrotas.

Há dias, ao folhear o jornal desportivo no sábado de manhã, ritual acompanhado de sucessivos apelos para que os meus filhos se calassem – apelos sucessivamente ignorados, diga-se – deparei-me com uma fotografia de Fernando Mamede, esse eterno derrotado. Mamede, como habitualmente, chorava.

Para quem não sabe, Fernando Mamede foi um dos maiores atletas portugueses de sempre, recordista mundial dos 10 mil metros nos anos 80, mas que, nas grandes competições, bloqueava invariavelmente. Não em todas as competições, apenas naquelas que garantem a imortalidade e referências menos envergonhadas ou ostensivamente celebratórias (se nenhum jogador do Sport Lisboa e Benfica tiver caspa) nas capas dos jornais desportivos: campeonatos da Europa e do mundo, Jogos Olímpicos. Intratável nos meetings, Mamede chegava aos grandes eventos num estado que nem o Super-Homem depois de cair num poço de kriptonite. Arrancava devagar, dava umas voltas contrariadas à pista, arrastava-se e, por fim, desistia, fugindo pela saída mais próxima.

Dobrei o jornal e, nos dias seguintes, Mamede continuou ao meu lado, derrotado, choroso, a reviver os momentos de angústia, o pavor de andar na frente, no lugar que era dele. No dia 1 de novembro, o Expresso entrevistou-o a propósito do seu sexagésimo-quinto aniversário. Uma vez mais, Mamede repisou as memórias dolorosas, relatou os momentos de frustração, algumas alegrias, a ligação íntima, quase filial, com o professor Moniz Pereira, falou brevemente da relação complicada com Carlos Lopes. De certeza que chorou. A certa altura, recordando episódios longínquos na noite algarvia, disse isto: «Fiz muitos amigos na Albufeira velha, que ainda hoje são meus amigos. E a minha filha tinha um dia especial para ela, que era o domingo. Íamos jantar e depois levava-a para ver as «bolinhas». Era a bola de espelhos a rodar e as bolinhas no chão. Íamos à discoteca ao domingo. Não estava lá ninguém, mas os donos conheciam-me. Ela entrava e estávamos ali um bocadinho e depois vínhamos para casa.» Ao falar sobre aquele momento de intimidade, Mamede readquiriu a leveza simples e luminosa do homem que voava nas pistas de tartan: o ritual do jantar, depois a ida a uma discoteca vazia, as «bolinhas» no chão, o regresso a casa. Sem pressão, sem a obrigação de vencer, sem a necessidade de estar à altura do que dele se esperava. Um momento triunfal e, no entanto, silencioso, sem testemunhas, sem aplausos, sem cobranças. Apenas dois seres humanos, pai e filha, num instante no final de um domingo, àquela hora em que o vislumbre da semana seguinte nos torna presas fáceis do tédio.

No filme Mystic River, a personagem de Sean Penn recorda a noite em que a mulher morreu e em que ele ficou sozinho com a filha: «os dois sentados na cozinha naquela noite era como se fôssemos as últimas pessoas na terra. Esquecidos. Indesejados.» Ao ler aquele excerto da entrevista de Fernando Mamede, foi assim que os imaginei, a ele e à filha, as duas últimas pessoas na terra, esquecidas, indesejadas, cheias de amor e solidão.

Na vida real, os últimos não têm direito a medalha e o pior é que até os triunfos são muitas vezes obscuros, vividos na solidão, numa discoteca vazia, num domingo deserto, sem direito a medalhas. «Estávamos ali um bocadinho», disse o homem que, por vezes, parece enclausurado nos seus piores momentos. Quanto tempo demorava aquele bocadinho? A vida toda.

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AVISO AO LEITOR. ESTE LIVRO CONTÉM OS SEGUINTES CONTEÚDOS SENSÍVEIS: «Capitalismo, o fedor tenebroso dos homens, anacronismos históricos, ameaças de morte, violência, servidão humana, cultura popular da moda, desespero, escárnio desbragado dos ricos, ameaças de violação, débeis iterações do pensamento epicurista, a ind.stria dos comics, a morte do intelectualismo, ser-se mulher numa sociedade que odeia as mulheres, populismo, um trocadilho pavoroso, a vida sexual do Thomas Jefferson, genocídio, celebridade, a filosofia objetivista da Ayn Rand, análises sobre ra.a, ficção científica, anarquismo com um fraquinho pela democracia, as pessoas que vão morrer para a Califórnia, a afetação dos millennials, páginas e mais páginas de explicações condescendentes e machistas, paganismo neo-helénico, casamento inter-racial, hippies com nomes intricados a cometerem atos de crueldade animal com cabras, guerras injustas no Médio Oriente, o 11 de Setembro, ver o perfil do Facebook de uma pessoa que conhecíamos quando éramos novos e julgávamos que toda a gente iria levar uma vida gratificante.» Sai em Janeiro.

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Ou seja, «agora que acabou o Natal, voltamos aos livros da Quetzal», como nós gostamos de dizer, porque gostamos de coisas com rima. Logo nos primeiros dias de janeiro – dia 3 – a Livraria Ler Devagar (Lx Factory, em Alcântara, Lisboa) foi palco da primeira atividade da Quetzal neste novo ano: uma conversa com Jorge Carrión, autor de Livrarias, um dos bons livros de 2017.

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Com o Jorge estivemos eu e o José Pinho, o homem das várias aventuras Ler Devagar — e foi uma alegria ouvi-lo falar sobre a forma como escreveu o livro, sobre as viagens que o levaram à descoberta de livrarias pelo mundo fora (lembro que o The Guardian escolheu o livro de Jorge Carrión como um dos melhores títulos de literatura de viagem de 2016) e, claro, sobre as suas preocupações acerca do futuro do livro ou das livrarias. Escolhemos este livro para começar o novo ano – pelo que ele diz de nós, pelo que ele diz da nossa vida e da nossa melancolia. «Uma história de paixão, comércio e melancolia», precisamente, é o subtítulo português do livro de Carrión; um subtítulo que guardamos para nós e que adaptamos para o nosso trabalho. Os nossos leitores sabem que esse é o caminho da Quetzal.

F. J. Viegas

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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