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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

A crónica desta sexta-feira leva o título «O carro que mais dura»:

 

Ao entrar nos quarenta, onze de casado, ao fim da tarde veio para uma conversa. Feitos os comentários sobre o tempo, calor demais, ouvidas as queixas sobre o novo chefe, pergunto-lhe como vai da pontada. Assim-assim. Da urgência mandaram-no para o hospital e esteve lá a soro quase três horas. Disseram-lhe que felizmente não tinha febre, receitaram-lhe uns comprimidos azuis, se calhar são esses que agora lhe dão tonturas. Oiço o desabafo com a ideia de que não foi para aquilo que veio. Não foi. Lá em casa as coisas vão de mal a pior, porque já não é só a sogra, é também a mulher. Pegou-se-lhe o feitio da mãe, e ambas, de manhã à noite, é queixa pegada: dor deste lado, aflição daquele, as pernas que incham, a cabeça que zumbe, as dores nas costas, o reumatismo, as agonias, os joelhos, a vista, os calos, a boca amarga... Conta pelos dedos e vai nos onze achaques quando decide parar: - Se não fosse o miúdo, não me importava que o diabo as levasse. Aceno o meu acordo e involuntariamente sorrio do provérbio que me vem à lembrança: "Carro que chia é o que mais dura."

Para ler na íntegra todas as sexta-feiras.

 

Para João Maurício Brás, este livro reconciliou-o «com o romance em língua portuguesa de Portugal, porque é simples, compreensível, mas simultaneamente tem várias camadas, níveis de profundidade e possibilidades de leitura.» Este livro é muitas coisas. «Céu Nublado com Boas Abertas» podia ser uma epígrafe da existência.

 

 Texto de João Maurício Brás, na sessão de lançamento que decorreu em Setúbal, na Livraria Culsete:

 

Céu Nublado com Boas Abertas publicado pela editora Quetzal em 2016 é o primeiro romance de Nuno Costa Santos, mas não é o seu primeiro livro. Nascido em 1974, açoriano, da ilha de São Miguel, mudou-se para Lisboa aos 18 anos, para estudar Direito, e foi viver para casa dos avós maternos, no bairro daEstefânia. Foi nessa casa, ao procurar livros para ler, que descobriu um livro escrito pelo avô, que viria a influenciar este seu primeiro romance.A avó contou-lheque nesse livro o avô relatava principalmente a sua experiência no Caramulo, onde esteve a tratar-se de tuberculose. «Ele nos anos 40 do século passado saiu da ilha de S. Miguel para vir para o Caramulo e conta essa sua experiência de luta, de combate, de vontade de se curar de uma doença que contraiu enquanto militar na ilha de S. Miguel,”

Alguns dos seus trabalhos: Um livro de contos: Dez Regressos,(2003), o programa televisivo Zapping, os livros de poesia. Os Dias Não Estão Para Isso (2005), Às Vezes é um Insecto que faz Disparar o Alarme (poesia), O Inferno do Condomínio (2006). O importante Melancómico (livro de aforismo, programa de televisão e blogue), o livro sobreFernando Assis Pacheco: Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco (2012) e em 2014, a vez das crónicas, com o livro Vou Emigrar para o Meu País.

 

*

Numa das primeiras conversas com o Nuno, dizia-me ele que só devemos falar de livros que gostamos (ainda este livro não estava publicado). Afirmação simples, mas contêm quase um programa de vida e tem toda a razão. O tempo é precioso demais para o perdermos, a não ser por motivos profissionais, com o que não gostamos.

Podemos até regressar a algo mais básico e decisivo e perguntar porque lemos um livro? O que procuramos nesse objeto é uma questão decisiva. Eu procuro várias coisas. Uma boa história que me faça pensar e sentir. Um livro é uma concessão que fazemos à nossa inteligência. Uma pausa no frenesim da vida, mas que funciona se ao lermos nos esquecemos daquilo que estamos a fazer, e nos sentimos vivos, a viver outras vidas e até a confrontar a nossa própria existência.

Este livro, pessoalmente, reconciliou-me com o romance em língua portuguesa de Portugal, porque é simples, compreensível, mas simultaneamente tem várias camadas, níveis de profundidade e possibilidades de leitura. Este livro é muitas coisas.

Céu Nublado com Boas Abertas é o seu título e podia ser uma epígrafe da existência.

Não falarei da trama do romance, fica esse enorme prazer para o leitor, apenas que se trata de um inteligente dispositivo em que se cruzam duas histórias, que dialogam entre si, a partir de épocas e personagens distintas. O narrador, que confessadamente é o autor, está, no inico do romance, na casa dos seus avós no bairro Lisboeta da Estefânia e regressa a um livro escrito pelo seu avô. Nesse livro em registo diarístico sobre a sua vida e com vários volumes, João Pereira Santos descreve especialmente a sua doença, a tuberculose, e os anos dramáticos de tratamento,a sua partida para o continente (Caramulo) em busca de uma cura após poucos meses de casamento e sempre sob o espectro da morte e da vontade viver.

Recordemos que a tuberculose matou alguém em praticamente todas as famílias portuguesas, era uma doença temível da primeira metade do século XX.

O narrador ao percorrer os livros que o seu avô tinha na sua biblioteca e ao guardar alguns dos volumes dentro da sua mochila, vê cair um papel de um deles, onde está escrito: «Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha» e um conselho: «que não se afadigue demasiado e que viva a vida que ele não conseguiu viver».

Neste romance estabelece-se assim um diálogo entre a narrativa da vida do avô (principalmente nos anos 40 do século XX) e a viagem do autor aos Açores na segunda metade do século XXI, seguindo o repto de procurar um conjunto de histórias.

Destaco a descrição rigorosa dos anos 40, das músicas aos filmes que passavam no cinema, das ruas de São Miguel a Lisboa e ao sanatório do Caramulo, as relação sociais, a mentalidade, a presença tutelar de um certo modo de viver a religião e os Açores em 2014, o cruzamento com traficantes de droga, strippers, massagistas, um émulo de Kafka e um chinês que é mordomo de uma festa religiosa, do espírito Santo.

Confuso? Pelo contrário, nem num único momento duvidei da coerência e verosimilhança de tudo o que é contado. Neste plano, é um livro de ficção absolutamente realista, e narra uma realidade que é na sua maior parte ficcional. Se não é tudo verdadeiro, poderia muito bem ser.

A fusão entre a realidade e a ficção é uma das grandes características de um grande romance. Ou não? Podemos afirmar que há vários critérios de gosto, várias regras para estabelecer a diferença entre a boa e má literatura, até cairmos no estafado debate da subjetividade do gosto e da relatividade dos critérios.

Simplifiquemos. Cada época valoriza critérios em detrimento de outros. Já foi decretado o fim do romance, a importância da ausência de narrativa ou mesmo de personagens ou história. Não nos metemos em caminhos que não levam a parte nenhuma. Regressemos ao simples e ao que permanece. Os seres humanos contam histórias desde sempre, para entreter, mas também para dar um sentido ao medo, à fragilidade e ao aparente caos e acaso da vida. Somos carentes de significados e de explicações. Uma boa história não tem preço.

O que leva à distinção entre os ouvintes (e leitores) de uma história e os narradores? Certamente alguns de nós contam melhor as histórias, têm mais para contar e sabem contar melhor, mas também porque sentem uma maior necessidade de contarem essas histórias. As palavras são meios modestos para explicarmos a existência, mas é dos mais eficazes que dispomos. Ora esta é uma boa história de um bom narrador. Nesta viagem imaginária encontramos certamente muito do que é o Nuno Costa Santos, do que pensa, do que o angustia, do que necessita, do que não encontra. A pessoa do Nuno e o escritor também se misturam e tornam inapreensível a distinção, embora ela exista.

Uma das dimensões centrais do livro, a homenagem ao seu avô, fez-me lembrar as palavras de um grande escritor, Sebald. Este falava-nos de um tempo, ainda recente, em que não se podia prescindir de ninguém, mesmo de um morto, e como este continuava a viver no meio dos vivos com a mesma ou maior importância.

Numa entrevista outro grande escritor, Thomas Bernhardt, era questionado se a escrita sobre lembranças e coisas pessoais era uma espécie de auto-libertação. Bernhardt respondeu que sim, que essas coisas estão dentro de nós, e queremos que elas saiam. Mas uma pessoa, escreve, e elas continuam lá. Tal como uma criança que tem dores, grita e é atendida ou leva uma bofetada e fica bem outra vez. Escrever, libertar essas lembranças e coisas pessoais é parecido. É como se a pessoa se esbofeteasse ao longo desse tempo e depois acalmasse um pouco.

A boa literatura provem de um desassossego, ninguém tranquilo, escreve. Cada auto-esbofeteamento é um livro, por vezes são necessários dois, três ou mesmo mais, para minorar essa dor. A dor não desaparece mas acalma. Penso que estes dois autores permitem compreender uma parte significativa do “espírito” que animou esta viagem.

Não entrarei em detalhes sobre a dor, ela está bem presente nas personagens do romance de modo latente. Essa dor é a manifestação aguda perante a perplexidade do que nos acontece enquanto seres vivos. Como seres conscientes não vivemos em total aceitação de tudo o que acontece. Encontramos até vários estados que poderíamos rotular de psicossomáticos, como a asma, a ansiedade, a insónia. Mas esta dor não é só mal-estar físico ou psicológico, tem uma origem mais funda, consequências da nossa inadequação constitutiva com o real, modo de estar próprio de seres conscientes, uns mais impressivos que outros. Nuno transforma também esse sobressalto de estar vivo e ser consciente em literatura.

Este livro é um relatório sobre a procura de uma resposta à questão “quem sou eu?” , ”que faço eu aqui”, respostas que bem podem ter um ponto substancial de partida, doloroso. Nada. Viver é uma agitação que muito deve a acasos e golpes de sorte e azar que modelamos de acordo com um acumular de experiências, mas também do modo como as enquadramos.

Quando as experiências singulares das personagens são também nossas, quando o particular se universaliza estamos novamente perante literatura da boa.

Pertencemos todos mais cedo ou mais tarde, a uma grande família, a dos vencidos, para os mais resilientes, ganhamos algo de significativo, o que vivemos. O importante é encontrar um equilíbrio, o equilíbrio dos vencidos, a vida, na melhor das hipóteses, é uma lição sobre o engano e o desengano.

O nosso narrador desloca-se ao sabor dos acontecimentos. Sabe que estes têm um poder sobre nós que só ilusoriamente conseguimos dominar. Há alguns recursos para ludibriar essas evidências, viajar no tempo e no espaço, estar disponível, procurar, mesmo que não se saiba bem o quê.

O Nuno regressa ao passado para compreender o presente, talvez ao procurar um sentido para a existência, descubra que ele radica, em nos tornarmos senhores dos nossos desajustamentos. A vida surge como uma figuração de um Deus cínico e cruel perante a nossa fragilidade. Estabelecemos os nossos hábitos e percursos, mais ou menos seguros, mas somos frequentemente abalados por pequenos e grandes problemas, acasos, golpes que tudo fazem ruir.

O desenganado não foge do mundo, não se esconde mas também não recorre à transcendência ou à imanência de uma qualquer sabedoria sem deus, antes transforma as suas deceções num manual de sobrevivência existencial, aceita as suas derrotas e apega-se às suas enfermidades. Nós somos as nossas doenças.

Podemos não acreditar na literatura, ela não salva, mas os livros que expressam o estado de ânimo de quem escreve e a necessidade profunda de nos libertarmos de algo, são poderosos interlocutores.

Este livro fez-me pensar numa importante posição filosófica sobre um dos temas mais acutilantes sobre o humano. “Quem sou?” não é apenas uma pergunta sobre uma pertença geográfica ou cultural. Alguns filósofos falam-nos da ilusão que temos uma identidade e um eu. Para David Hume não passamos de um feixe de perceções que se sucedem umas às outras, estando num fluxo e movimento perpétuos. A identidade é apenas uma representação de continuidades, um aglomerado de sensações. Estamos programados para nos apercebermos da identidade em nós próprios, mas apenas a mudança existe. Estamos configurados pela ilusão do Eu. Se só olhássemos para este mundo momentâneo, não agíamos. A individualidade é apenas um efeito secundário da natureza íntima da consciência e a vida interior é demasiado subtil para ser conhecida. A linguagem tem neste domínio um papel importante, conseguimos através dela olhar retrospetivamente para as nossas vidas, invocando assim um eu virtual. A ilusão de uma individualidade persistente emerge com a palavra.

John Gray em Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals refere como adquirimos o sentimento de nós próprios através do modo como na infância os nossos pais nos falaram, improvisamos histórias sobre nós, num monólogo interior intermitente e utilizamos a linguagem para construir uma série de futuros possíveis. É através da linguagem que inventamos esse eu fictício, que projetamos no passado e no futuro: Mas esse eu é problemático porque é fictício, e é uma frágil construção. Apesar do eu ser algo momentâneo e mesmo inapreensível a não ser como ficção, na consciência normal do momento presente, o sentimento da individualidade é inabalável (ao contrário da vivência de estados limite ou experiências que nos projetam para lá dos padrões da normalidade).

A escrita dá-nos o relato desse fracasso da identidade. Não acredito que algum escritor tenha morrido feliz. Queremos saber quem somos e consideramos importante dar noticias das nossas pesquisas. Transformamos as nossas necessidades numa ilusão sobre a nossa importância. E em alguns casos, ainda bem. É o caso do Nuno.

Num plano menos filosófico, se este este livro tem subjacente a procura dos fios que tecem as existências, as ligações e os fundamentos que sustentam a vida, tem como pano de fundo um poderosa personagem, os Açores. Não é um livro de literatura açoriana, seria redutor essa catalogação, mas é também um livro sobre os Açores (mesmo nas várias dimensões temporais, presente e passado, que se tornam contínuos neste livro). As ilhas são seres vivos.

A questão da identidade é de novo fundamental. O narrador, viveu até aos sete anos em Lisboa, depois vai para os Açores até à adolescência e regressa a Lisboa. Em Lisboa não se sente totalmente Lisboeta, mas quando regressa aos Açores, que ganha uma força quase mítica, também não se sente Açoriano, não é visto como tal, é um outro. O pano de fundo, Continente e ilhas, poderia aplicar-se a outros contextos sobre a importância e instabilidade de pertencer a algum lugar ou alguma coisa. Quando deixamos de pertencer totalmente a um lugar, acabamos por não ser de lugar nenhum. Voltamos invariavelmente a esse lugar, à procura de algo que já não existe e provavelmente nunca existiu. O Nuno é um português com aspas. “Este é o meu povo e ele não quer saber de mim”. Na verdade acabamos por pertencer apenas a nós próprios, e mesmo a percepção de continuidades que permitem essa certeza, destabilizam-se com frequência.

De qualquer modo, na questão significativa da literatura e dos autores açorianos, este é incontornavelmente um livro marcante, se este livro é literatura da boa, no caso especifico da literatura açoriana, esta não poderá passar sem ele.

O modo de estar, as relações entre homens e mulheres, a imigração, a grande guerra, os que partiram e os que voltaram, os sucessos e os fracassos, as romarias, uma descrição minuciosa da topografia, ruas lugares, as pessoas da ilha de São Miguel, a caça à baleia, a rivalidade entre ilhas, a sua flora, o clima, a geografia, os sismos, as expressões regionais, a vivência da fé e de deus, a pedofilia, a relação com o continente, a miséria dos camponeses, os escritores açorianos (Emanuel Félix, Eduíno Jesus, Antero, Manuel Ferreira) atravessam de modo incisivo todo o livro, revelando um trabalho de uma minúcia extrema. A passagem dos Açores do século XX dos anos 40 para o século XXI está neste livro. Como também Portugal.Esse trabalho de pesquisa está também presenta na questão da doença do avô.

Duvido que exista descrição mais precisa sobre a tuberculose, e até me atrevo a dizer mais, não conheço na literatura portuguesa a abordagem da questão da doença (seja ela qual for) como o Nuno a trata. A sua minúcia dá também a todas as personagens uma densidade que as torna reais e humanas, e não apenas caricaturas.

A vida, a morte, o amor e a doença são os grandes temas da literatura e estão em todas as páginas deste livro. Assim como o egoísmo, o ressentimento, o medo de nós próprios, o rancor, tão viscerais com as enfermidades físicas. Este é um livro suave mas duro. Perpassa-o uma tristeza amena mas profunda que é uma espécie de metabolismo intelectual do narrador, modo dele conhecer e se relacionar com o mundo.

O Nuno é um grande observador, tem uma sensibilidade extrema e escreve muito bem, tem na sua escrita o boletim da sua meteorologia sentimental, afetiva, psicológica e filosófica. Um grande autor.

Partir de um diário de um familiar e transformá-lo em matéria literária, transformar a procura do que sou em matéria ficcional, transfigurar experiências particulares em aspetos em que todos nos podemos reconhecer, é trabalho apenas acessível a um grande escritor.

Numa passagem do livro descobrimos que se o narrador tivesse aprendido a surfar, não teríamos escritor. Neste caso, ainda bem que não aprendeu a surfar.

 

 Depois de traduzir a “Odisseia” e a “Ilíada”, de Homero, Frederico Lourenço assume um desafio ainda maior: a tradução da Bíblia, a mais completa jamais publicada em português. São 80 livros, organizados em seis volumes, que só estarão completos em 2019. O primeiro tomo, com os quatros Evangelhos, chega às livrarias em Setembro, com chancela da Quetzal.

 

Leia aqui o texto de José Mário Silva, na edição diária do Expresso.

 

“Esta aventura é uma espécie de milagre e o Frederico Lourenço, sem o qual nada disto seria possível, é o alquimista desse milagre”, afirmou Francisco José Viegas. “Estamos diante de alguém capaz de transformar um sopro num relâmpago.”

É então sob o signo de Gutenberg, ou da sua herança, que se anuncia aquela que promete ser a versão mais completa da “Bíblia” alguma vez editada na nossa língua. Feita a partir da “Bíblia” grega, ou “Bíblia dos Setenta” (“Septuaginta”), inclui os 27 livros do ‘Novo Testamento’ (iguais em todas as Bíblias) e 53 livros do ‘Antigo Testamento’ – mais sete do que os abrangidos pelo cânone católico, e mais 14 do que os das edições protestantes. Entre os livros que não costumam ser traduzidos estão os “Salmos de Salomão”, o “Livro de Susana”, e a “Epístola de Jeremías”.

 

© Fotografia de Paulo Cunha, Expresso.

 

A Quetzal vai começar a publicar em Setembro uma nova tradução da Bíblia. É feita a partir do grego por Frederico Lourenço e sairá em seis volumes, até 2019. Está a ser apresentada como a mais completa jamais feita em português – leia aqui o artigo de Lucinda Candeias, na edição online do diário Público.

 

Frederico Lourenço quis com esta abordagem pôr à disposição uma edição para todos: “Falta uma versão da Bíblia para crentes e não-crentes”, disse ao jornalistas, uma versão não-apologética daquele que é “talvez o livro mais importante de toda a tradição ocidental”. Para o tradutor, a Bíblia não devia ser um exclusivo das faculdades de Teologia, mas presença obrigatória em todos os cursos de Humanidades. “Esta edição tem uma intencionalidade linguístico-histórica, não teológica. (…) As notas tentam explicar a materialidade do texto, que muitas vezes não se entende.”

 

© Fotografia de Miguel Manso. Público.

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A Quetzal irá lançar a partir de setembro uma tradução da Bíblia, feita por Frederico Lourenço – com mais sete livros do que a edição canónica. O projeto foi apresentado esta quarta-feira. A 23 de setembro sai o primeiro dos seis volumes, dois dedicados ao Novo Testamento, 4 para o Antigo.

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 Na Cinemateca Portugesa, em Lisboa, esta manhã.

 

 

Do texto das jornalistas Rita Cipriano e Rita Neves Costa, do Observador:

 

A editora Quetzal vai publicar, a partir de setembro, uma nova tradução da Bíblia, da autoria do romancista, poeta e tradutor Frederico Lourenço. Composta por 80 livros (em vez de 73), distribuídos por seis volumes, esta nova edição será a primeira do género a ser lançada em Portugal e “a mais completa jamais publicada em português”, assegura o editor.

A 23 de setembro sai o primeiro dos seis volumes, dois dedicados ao Novo Testamento, 4 para o Antigo. O último volume será publicado no início de 2019. E fica o aviso: não está prevista edição digital em e-book. Francisco José Viegas, na apresentação desta nova edição, afirmou que “é o sonho de qualquer editor publicar uma nova versão da Bíblia, um texto que nos ultrapassa em todas as dimensões e que é a invenção do romance moderno”.

 

A edição, que a Quetzal apresentou esta quarta-feira na Cinemateca em Lisboa, foi feita a partir da chamada Bíblia Grega, também conhecida por Septuaginta ou Bíblia dos Setenta. Mais extensa do que as edições convencionais, é composta por mais sete livros do que o cânone católico: os terceiro e quarto Livro dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, Livro de Susana, Bel e o Dragão e Epístola de Jeremias, que fazem parte do Antigo Testamento.

A edição da Quetzal será também mais extensa do que as Bíblias protestantes — incluirá mais 14 livros. Esta última não inclui nenhum Livro dos Macabeus, por exemplo, enquanto a católica inclui apenas os dois primeiros.”

Sobre o trabalho de tradução, Francisco José Viegas garante que é resultado de “uma enorme coragem do Frederico [Lourenço], que transformou um sopro num relâmpago”. Acrescentou ainda que “este não é o trabalho de uma equipa, é o trabalho de um homem solitário”.

Estes sete livros, assim como os 27 que compõem o Novo Testamento (iguais para as edições católicas e protestantes), foram traduzidos diretamente do grego clássico por Frederico Lourenço, que procurou “restituir ao texto a sua beleza original”. “O texto não foi modificado com vista a ser religiosamente correto”, explicou ao Observador Francisco José Viegas, editor da Quetzal, o que permite deixar a descoberto alguns pormenores que as outras edições ocultaram.

A edição canónica da Bíblica é composta por 73 livros — 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento.

A preocupação com a linguagem, que será visível nas centenas de notas de rodapé que esta edição incluirá, permitiu criar uma edição que, na opinião de Francisco José Viegas, é “duplamente literária”. “É literária porque respeita o grego — não foi feita para se encontrar nela uma revelação. É literal porque é um texto que é belo no grego e que agora é belo no português.”

Os seis volumes da nova tradução serão publicados “mais ou menos” de seis em seis meses numa ordem diferente do convencional, que pretende ajudar os leitores a compreenderem melhor a Bíblia.

“Concentração e entrega”

Frederico Lourenço comprou uma edição do Novo Testamento em grego na Feira do Livro de Lisboa, em 1984 e leu-a várias vezes. “Tive até de a fotocopiar porque estava cheia de apontamentos, feitos ao longo dos anos”. “O Novo testamento em grego dá a sensação de ser uma coisa nova, seja hoje ou amanhã. É intemporal”, acrescentou.

A mesma versão da segunda parte da Bíblia foi lida por Oscar Wilde, enquanto o escritor britânico esteve preso. Frederico Lourenço admite que já foi um “católico crente e praticante”, que hoje já não é “tanto” e que se interessa por “mais coisas”. Mas não tem dúvidas: “Sei que há qualquer coisa acima de nós, mas não sei dizer o que é ou quem é”.

Sobre este trabalho de tradução, diz que surgiu depois de ter descoberto que não existia uma versão completa da Bíblia grega disponível em português. Foi incentivado por amigos padres e fazê-lo. “E os amigos padres vão aumentando de ano para ano, não entendo muito bem porquê.” “Concentração e entrega” são os ingredientes fundamentais para esta empreitada, a mesma que o levou a recusar todos os trabalhos que lhe foram propostos entretanto.

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A Quetzal vai publicar em setembro o primeiro de seis volumes da Bíblia traduzidos por Frederico Lourenço. O professor, tradutor, poeta e ensaísta Frederico Lourenço junta-se à Quetzal para o mais importante dos seus projetos: a tradução da Bíblia.

 

Do Diário de Notícias:

«Não é, explica o editor da Quetzal, Francisco José Viegas, apenas uma nova tradução do que já existe disponível mas sim uma tradução até hoje nunca feita em Portugal: a Bíblia Grega, Septuaginta, também conhecida por Bíblia dos Setenta.

A edição tem a particularidade de ser dividida em seis volumes, com o Antigo (quatro volumes) e Novo Testamento (2 volumes), e o último chegará às livrarias em 2019. Segundo Frederico Lourenço, esta será a Bíblia mais completa que os portugueses alguma vez tiveram para ler e destina-se "tanto a crentes como a não crentes". Entre as particularidades desta sua tradução está a de não ser organizada conforme é habitual nos volumes existentes, com uma ordem cronológica que tem início no Génesis.

No total serão 80 livros, ou seja, mais catorze do que as Bíblias protestantes e mais sete do que a tradução do cânone católico. A nova edição em seis volumes conterá os 27 livros do Novo Testamento, mas no Antigo Testamento acrescem sete aos 46 livros da Bíblia católica: o 3º e 4.º Livro dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, Livro de Susana, Bel e o Dragão e Epístola de Jeremias.

Segundo Frederico Lourenço, este é um projeto que tem desde há muitos anos mas "que só agora senti maturidade e confiança para o executar".»

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 «Um romance perturbadoramente actual», é como João Morales classifica «Macaco Infirnito», o livro de Manuel Jorge Marmelo: o autor prossegue «as suas invenções literárias sobre ‘o livro por vir’, ao mesmo tempo que dá corpo a uma visão assaz crítica sobre o mundo. Aqui, cabem a crise dos refugiados, o racismo e a paradoxal relação (humana, absolutamente humana) entre o horror e a arte». A ler tudo, na edição desta semana da revista TimeOut.

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A autora do belíssimo ‘Ana de Amsterdam’ começou a vida de leitora com ‘As Gémeas no Colégio de Santa Clara’ – e lê ‘O Monte dos Vendavais’ todos os invernos. Ana Cássia Rebelo trabalha das nove às cinco, como jurista, em Lisboa, numa instituição pública. Às cinco da tarde inicia o segundo turno – cuidar dos filhos –, que se prolonga até por volta das onze da noite: dar banhos, ajudar com os deveres da escola, fazer o jantar. No dia seguinte, de manhã cedo, prepara-lhes o pequeno-almoço, leva-os à escola, regressa ao trabalho. Assim dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. A Madalena, o João e o Joaquim são a sua prioridade, a eles se dedica sem restrições e a eles se sacrifica inteiramente, com infinita disponibilidade e amor. Os filhos são os pontos de apoio que lhe regem a existência, é maravilhoso que existam, sente-se feliz quando os tem a seu lado, nada lhe dá mais força; a profissão, por outro lado, garante-lhe a subsistência, permite-lhe aplicar o diploma de licenciada em Direito pela Universidade Católica e dá-lhe um sentido prático da realidade.

 

 

Um exemplo de beleza.

A Simone de Beauvoir.

 

Um exemplo de elegância.

A Simone de Beauvoir.

 

Um exemplo de fealdade.

O Jean-Paul Sartre.

 

A música que nunca lhe sai da cabeça.

Nenhuma.

 

O lugar ideal para passar férias.

A aldeia onde o meu pai nasceu, em Goa.

 

Qual foi o primeiro livro que leu? O que se lembra dele?

“As Gémeas no Colégio de Santa Clara”. Recordo o início: quatro raparigas caprichosas jogam ténis e bebem limonada.

 

Que livro a obrigaram a ler na escola que achou insuportável?

“Eurico, o presbítero”.

 

Qual é a obra que releu mais vezes? Porquê?

“O Monte dos Vendavais”. Leio-o todos os invernos por rotina e superstição. O ano não pode terminar sem que volte a esse livro.

 

Vai parar a uma ilha deserta e encontra o pior livro imaginável. Como se chama?

Infelizmente, não é preciso ir para uma ilha deserta para encontrar o pior livro imaginável. Os escaparates das livrarias estão repletos de maus livros.

 

Qual é o melhor local para ler? E o pior?

Gosto de ler no refeitório do banco onde trabalho. Não gosto de ler em locais demasiado silenciosos. Preciso de algum ruído para me concentrar.

 

A bebida ideal para acompanhar uma boa leitura?

Nenhuma. Não bebo enquanto leio.

 

Costuma sublinhar livros ou escrever neles ou é daqueles que os mantém imaculados?

Sublinho, escrevo nas margens e nas entrelinhas. Faço listas de palavras na cartolina da capa.

 

Usa um marcador ou dobra as páginas?

Uso um clipe.

 

Em miúdo, sonhou em ser igual a que personagem literária? Porquê?

Em miúda, pouco ligava à literatura, queria era ser igual à Beatriz do “Verão Azul”, de longos cabelos loiros, disputada por Pancho e Xavi.

 

De que livro tirava o seu epitáfio, porquê? 

Tirava-o de um poema do Mário de Sá Carneiro: “Quando eu morrer batam em latas/ Rompam aos saltos e aos pinotes./Façam estalar no ar chicotes./ Chamem palhaços e acrobatas.”

 

O filme que gostaria de rever sempre.

“As asas do desejo”, do Wim Wenders.

 

 

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