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«Como de uma mulher nasce outra», uma das curiosidades que move Patrícia Müller, que fala sobre a si, sobre a sua escrita e o novo romance no programa 'Baseado Numa História Verídica', de Aurélio Gomes.

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Dia 14 estivemos na Arquivo, com a Helena Vasconcelos e 'Não Há Tantos Homens Ricos Como Mulheres Bonitas Que os Mereçam'. Amanhã, estaremos com Nuno Costa Santos (o escritor Hugo Gonçalves fará a apresentação).

 

 





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 «Com os seus vinte e dois capítulos, e portanto a um capítulo de ser perfeito, o Céu Nublado com Boas Abertas entrou na minha vida numa noite de Snob. Eu creio que o Alexandre já tinha chegado - não tenho a certeza - e estávamos derramados pela mesa em torno de uns copos, quando o Nuno me falou do seu romance. Houve ali um momento de choque ao aperceber-me que seria o primeiro romance do Nuno. Quer dizer, para mim o Nuno sempre fora escritor e, por isso, em qualquer altura do Nuno um romance seria algo natural, mas eis que ali estava ele, o romance, na iminência de ser uma realidade, como um produto dos 40 e poucos anos. Uma boa idade para um primeiro romance. Tomei como nota mental comprá-lo quando saísse e estava longe de pensar que estaria aqui hoje a apresentá-lo.»

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Domingos Farinho sobre Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos. Para ler na íntegra aqui

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Ver as montras

29.04.16




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Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos, Oculta, de Héctor Abad Faciolince e Uma Senhora Nunca, de Patrícia Müller, representam a Quetzal na montra da Livraria Ler em Campo de Ourique. 

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Um livro de viagens, ou para ser mais exato, um livro em viagem. 


Carlos Vaz Marques sobre Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães, quando o livro foi o Livro do Dia. 

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O dom da escrita

28.04.16

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Fernando Sobral sobre a Senhora de Patrícia Müller no Jornal de Negócios. 

 

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Neste número da revista Blimunda (publicada pela Fundação José Saramago), Andréa Zamorano escreve na página 51. Uma colaboração a seguir nos números que aí vêm. 

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«Só o retornado vê e vive a ilha verdadeiramente. É uma questão de visão; daquela paralaxe que cabe ao viajante, ao combatente, ao emigrante, ao estudante, enfim, a quem coraja voltar sabendo que nada será o mesmo e que o passado se fará, de ora em diante, da falsa memória e da selecção. O autor e o personagem de Céu Nublado com Boas Abertas toma pulso e impulso e percorre o trilho terapêutico neste regresso com múnus, com um propósito herdado cujo destino circular é uma aproximação ao passado através de um presente desconforme e até mesmo insólito. Mas rápido se apercebe o leitor que o insólito não é coisa nupérrima, não é sequer moderno, mas sim uma viga transversal ao tecto humano, uma natural vértebra kafkiana. Quem se gruda e descola da tradição de Joyce ou Beckett trará sempre no lombo a marca de formidáveis personagens e da sensação de jornada feita dentro e fora. Munido de todas as referências que o alicerçam, Nuno Costa Santos consegue ser intrépido na audaz facada que desfere no lugar-comum que é muitas vezes dado às ilhas. E é essa facada correspondente a uma clínica sangradura que é correctiva ao corpo. Um trabalho que se aventura a apontar um céu dividido, metade azul, metade cinzento (…) por mais que passe a imagem de soturno e castigador. É, assim, descrita a verdadeira dicotomia insular, que não é mais que a imagem do próprio Homem e da vida, na sua visão mitificada (…) que esconde… Que esconde sempre a sua origem eruptiva e violenta, e um final prometido, feito do mesmo.

Não me foi difícil encontrar madeira a que lançar cabo de abordagem neste livro. Há uns anos estive aqui nesta casa [dos Açores], e o Eduíno [de Jesus] deu-me a oportunidade de tomar assento na mesa, no lugar que, na altura, se destinava ao Fernando Aires. Mal sabia eu que o plano era uma mais complexa substituição. Ali estaria para falar pelo meu Avô, Fernando de Lima. Um plano bem urdido, pelo seu irmão de armas, que nos sabia muito próximos. Esse diálogo, surpreendentemente, também não me foi difícil. Esta herança geracional, este acto de profunda ligação com um Avô é, precisamente, o que inaugura Céu Nublado com Boas Abertas. Inicia-se a viagem literal com uma descoberta, a de uma obra inédita do avô do protagonista-narrador: Exílio na Montanha, uma referência titular deveras evocativa de um conhecido livro de Thomas Mann, que não incidentalmente, coloca o seu herói no topo de uma montanha, em convalescença e na perfeita oportunidade de se rever existencialmente. Em crise existencial, o palco deverá ser território neutro, ou a casa, ou ambos. Em qualquer dos casos, dita a circunstância que nos vejamos como estrangeiros, em sítio conhecido ou num que devíamos conhecer. Será sempre o estrangeirado que mede a sua ambiguidade identitária, as suas dialéticas, procurando a identificação derradeira, procurando talvez aquele sentir de pertença que nos remete ao berço e a tempos em que os deuses verdadeiramente existiam, pairando, cuidando, alimentando, sempre neste gerúndio tão nosso. Este reencontro será sempre uma utopia cumprida na odisseia e no desterro. O Homem soube disso quando criou o Olimpo para os seus deuses, e quando lançou os dados a Ulisses, dando-lhe a sacola de Éolo, senhor de todos os ventos e direcções. Aqui [em Céu Nublado com Boas Abertas], o nosso protagonista é, não tanto instalado quanto levado por sirenas, a um outro sítio de isolamento: à ilha. Ora, com o avô na montanha e o neto na ilha, temos construídas as duas pontas do fio condutor para um dialogo literário sem tempo, e com um espaço perfeitamente inerte, não fosse essa a natureza lenta comum às ilhas e às montanhas. Quem não se lentifica nesses lugares de perdição e de encontro, são as personagens. Essas, ricas em metáfora, por vezes esbarrando em arquétipos, noutras fugindo deles com despudor quanto baste, são talvez, e cada uma, pingos destilados da metis, ou argúcia do autor, característica , aliás, partilhada com o mesmo Ulisses feito navegador e explorador existencial. A orgânica inteligente do livro é feita de muitos órgãos, com diferentes funções, assim deve ser qualquer corpo. O uso de cartas, não desigual ao de Olivier Rolin no seu O Meteorologista, faz do leitor mirone e massaja a glândula da empatia. Esse influxo da polifonia vívida num dialogismo de forma e ferramenta, constrói personagens que enchem o espaço da linguagem e circulam nele com todas as cores e iluminuras, mesmo que, por vezes, estas sejam na escala cromática do cinzento, apontando ao negro. E, mesmo aí, urge considerar a propriedade que dita que o negro assim o seja porque absorve toda a luz que nele se incide. Neste prisma, o chumbo insular seria nada mais que um todo absorvido de luz. Um nublado da ordem do melancólico que se espraie em momentos eutímicos, em abertas, e essas, boas.

Neste ponto na ordem de trabalhos a que se sujeita um livro quando se torna físico, já muito foi dito sobre Céu Nublado com Boas Abertas. Muitos olhos fizeram os seus processos especializados e ecléticos de dissecação in vitae; todos, adianta-se, com as melhores considerações. Fazer um exercício de não pisar dedos é difícil nesta maravilhosa circunstância, mas há uma nota não menos importante a escrevinhar-se nestas margens: O título do livro é um diagnóstico, todo ele clínico na sua metáfora. Céu Nublado aponta o melancólico, Boas Abertas, a mania. Mania, pelo adjectivo que eleva a condição da abertura luminosa, aqui incandescente, no mínimo. A polarização não é novidade na condição humana, senão parte integrante desta, algo cíclico a que são sujeitos os ilhéus talvez mais do que muitos. Dita a melancolia que o seu dínamo seja permanentemente alimentado a desilusão e angústia. São essas as duas Erínias do nublado. Mas no movimento ascendente, antes do precipício, fazem-se as boas abertas, muitas vezes mantidas pelo impulso, pelo prazer. Assim é a própria vida, quer o vejamos, quer não. Do mesmo modo, é na perda e no recuperar da saúde, que ela própria é apreciada. Saber viver com esse dínamo alojado no peito será, talvez, atingir a verdadeira liberdade. Saber traçar limites nesta vivência: o desafio. E é nesse desafio, nessa corda bamba, que fazem travessia as personagens, empurradas para a deslimitação, para o crime, essa fuga rente à própria morte por não se suportar a vida tão em cerco. E o que é uma ilha que não um cerco? O que é uma pessoa que não um cerco de si mesma? Não nos enganemos, no entanto, no diagnóstico. Não é este um que rotule o ilhéu de maníaco depressivo. Existirá, sim, uma depressividade, uma melancolia, furada de quando em quando por momentos de melhoria. A gravidade aqui, terá que ser imposta sobre a melancolia tornada crónica, indício sempre de perda precoce, de vazio. Para esse vazio bastará um sentimento de estrangeirismo, de singularidade cercada pelos mais castradores elementos, do Mar ao Céu, antigas moradas dos deuses. Céu Nublado com Boas Abertas é, portanto, e também, um tratado clínico. E não creio que em total contra-narrativa com outras gerações. Afinal, através do realismo mágico, muito foi traçado a grafite, escura também. Mas é tendência no Autor, como deve ser em todo o mudar-da-guarda, o lancetar edipiano. o desafio feito ao Pai, aos deuses, ao sistema, ao Mar, ao passado. Tenta-se sempre, falha-se e consegue-se, e assim se restaura o próprio fabrico do Tempo e as dinâmicas que dele dependem. Faz-se, no combate, a homenagem. O Autor é vencedor nisto, sempre. Aqui, com a justa húbris de quem sabe o que faz. De quem tem bagagem quanto baste para sobreviver a qualquer viagem que se proponha fazer. Será ele, o Autor narrador, também, um melancólico inconstante, como nós todos, como o tempo. A sua solução final é sempre vencer através do sofrimento. Até mesmo o Avô extirpa o pulmão para salvaguardar a sua filha da contaminação. É respirando, enfim, vivendo, que se morre. Apenas na obra valorosa nos libertamos da lei da morte. Avô sabia disso, o neto também.

Estamos já em escalada suficiente para termos boa vista sobre o impacto deste romance no nosso tecido literário. Fez vinco, dobra; acepilhou, nivelou, inaugurou, brindou. E tudo isto em presente histórico, também.

Entretanto, olha-se o mar, do regresso que abre a narrativa ao que a encerra, e sonha-se, do voo que inaugura a viagem até à página final. É esse o derradeiro positivismo humanista, a derradeira aberta luminosa num céu nublado e carregado, sonhar sobre o abismo e, fatalmente, vencer.»

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Texto de João Pedro Porto, na apresentação de Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos, na Casa dos Açores em Lisboa, na semana passada.

 

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Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges a caminho da Biblioteca Vergílio Ferreira, em Gouveia.

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Rebecca Solnit escreve contra o ultraje - PÚBLICO “Acho sempre que quando escrevo o faço contra alguma coisa, em vez de a favor de algo. Quando escrevi Esta Distante Proximidade estava a reagir contra a ideia de que a empatia é apenas um sentimento. É também um acto imaginativo, como nos imaginamos na vida de outra pessoa. É por isso que a empatia um é tremendo acto criativo, muito ligado à habilidade de contar histórias, de entender histórias. Uma falha de empatia é sempre uma falha da capacidade imaginativa. Por exemplo, nesta pré-campanha vemos as pessoas à volta de [Donald] Trump e da sua falta de imaginação sobre o que é ser negro, o que é ser pobre, o que é ser imigrante, como é ser todas essas categorias de pessoas e encorajar a violência em relação a eles. É quase como um acto ritual, linchar todo o velho sul, um acto de não empatia. Empatia é o sentido de que não estamos separados; eu sinto por ti o que acontece contigo. Isso torna-nos vulneráveis e por isso as pessoas tentam de tantas formas não ser empáticas.”

Isabel Lucas entrevistou Rebecca Solnit, autora de As Coisas Que os Homens me Explicam, em San Francisco.

 

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João Pereira Coutinho sobre 'Céu Nublado com Boas Abertas', de Nuno Costa Santos:

 

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Simone de Beauvoir está no site Capazes.pt, que fez uma ação comemorativa dos 30 anos da morte da escritora e filósofa francesa. São mais de uma dúzia de artigos, que procuram recordar uma das grandes precursoras do movimento feminista.

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Ana Cássia Rebelo, Bruno Vieira Amaral e Nuno Costa Santos estão no Funchal, no Festival Literário da Madeira, para pensar em voz alta sobre 'Falsidade e Verdade na Ficção Literária. Para ir sabendo o que se passa, seguir por aqui

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 O que o fez pensar que um bairro poderia ser profundamente literário?

As histórias das pessoas. Desde cedo senti que tinha ali matéria-prima que poderia resultar em matéria literária. Podemos conhecer histórias interessantíssimas na vida real e não conseguir encontrar forma de as transformar em matéria literária e, por vezes, histórias muito interessantes do ponto de vista humano dão má literatura... Mas havia uma coerência naquele ambiente, não só naquelas histórias reais que eu conhecia, mas noutras que eu pensei que poderiam encaixar ali, histórias inventadas, histórias que partiram de notícias que li em jornais e que cabiam naquele universo. O ponto de partida foi crescer ali, ouvir muitas histórias, e pensar porque é que haveria de ir à procura de outras histórias se tinha ali um ponto de partida. Mas por que não ir buscar histórias a outros lugares e trazê-las para aquele universo? A certa altura percebi que fazia mais sentido assim.

 

Bruno Vieira Amaral, sobre o Bairro Amélia, de As Primeiras Coisas, em entrevista a Vânia Maia, para a revista Visão, a propósito do projeto Um Bairro Melhor. 

 

 

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A 15 de abril nas livrarias. 

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Andrew Solomon escreveu este livro também para dar às pessoas as palavras que lhes servissem para falar sobre a doença. 'O Demónio da Depressão - O Grande Atlas da Doença' numa peça de Raquel Marinho, no Jornal da Noite da SIC.

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Sim, mas está sempre na fronteira. Não posso negar que este elemento real interessa-me muito. Há sempre um lado de ilusionismo, de ficção, de artifício. Estamos a assistir a um regresso artístico ao real – na literatura, na música, no cinema, na televisão. Eu não me considero um seguidor desse movimento, mas um praticante natural desse movimento. Quando li o livro-manifesto do David Shields, “Reality Hunger”, pensei que era aquilo que eu sentia e que já tinha intuído e até discutido com alguns amigos. Muitos trabalhos meus já têm isso: esse ilusionismo entre o real e o imaginário. Esse fingimento de algo que aconteceu. Há muita gente que julga que sou o melancómico.

 

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 Nuno Costa Santos (aqui fotografado por Vitorino Coragem), em entrevista a Mário Rufino, para ler na íntegra no Diário Digital

 

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Os livros são coisas polifacéticas, têm muitos lados por onde se podem pegar, o que quer dizer que têm abrangências que acabam por conseguir tocar em partes distintas de pessoas distintas com as mesmas frases, as mesmas letras. Os significados, ou mais rigorosamente a combinação de significados num livro, é o livro em aberto, aquele que cada um de nós encontra. E digo livro, e não romance ou novela, porque reconhecendo o ofício há aqui um objecto, um objecto-livro que para Nuno Costa Santos e boa parte dos que estão metidos na mesma furna onde se cozinha um caldo de coisas distintas, significa uma manifestação por uma cultura, pop se assim a quisermos chamar. Será sempre uma definição redutora, pop tornou-se demasiado grande e demasiado pequeno, mas passou por todos nós como a expansão violenta do ar pelo espaço depois de uma explosão, passou pelos nossos corpos deixando neles estilhaços de tudo o que antes era sólido. É nisso que há aqui pop.

Este livro contém também uma paisagem, a de São Miguel, e é essencialmente sobre essa paisagem. Acontecem coisas e vivem pessoas nessa paisagem, o livro é disso um registo. É um registo em sobressalto, em confronto e até em violência. É por isso que não se ouve em nenhum momento uma música dos Cocteau Twins. Essas pertencem ao aconchego húmido dos regressos à ilha pelo Natal, quando tudo é melancólico e doce. Quando não há ruído nem sobressalto. Não há confronto. Falarei de três coisas deste livro: de um ofício, de uma paisagem e de um autor.

 

I

 

Já dei por mim a pensar sobre contiguidades entre a literatura e a arquitectura, o meu defeito profissional, e na forma como dentro da cabeça de um autor as coisas se formam. Julgo que funcionamos ambos por imagens alargadas, como se diz agora, que contêm cheiros, sons, tactos, a que antecipamos o sabor no momento em que lhes estamos a dar forma. Tanto disto está neste livro.

(Esta paisagem presta-se a isto, quem esteve em São Miguel sente nela o cheiro do jogging no Pópulo tanto como nas digressões de carro pelo interior da ilha pelo meio dos pastos com a música como contexto e como tempero).

Mas aqui interessa-me a formulação das imagens. Elas não são estáticas, são cenas em movimento com pessoas e objectos, aproximam-se mais do cinema do que da fotografia, e são fugidias. O esforço da escrita é dar-lhes texto, fixá-las, nomeá-las. Dar-lhes lugar, ambiente, acção. Viver nelas. As cenas combinadas criam um corpo, uma narrativa se dela o corpo precisar. Escrever é um ofício de construção. A realidade do livro é tão válida como as outras. Viveremos aquilo que queremos viver se formos aquilo que quisermos ser. Uma quimera obviamente. Viver, como construir, é uma quimera.

Na literatura vive-se o que se quer escrever. Na arquitectura vive-se o que se quer construir. A arquitectura como a literatura empapa-se do que vê, escolhe do que vê o bem e o mal que lá está e faz. Partem da memória, uma desenha outra escreve, mas procuram no corpo do autor uma coisa qualquer que possa vir a ser forma. Esta coisa da captura do que está em nós sem forma física ou representada faz delas semelhantes mesmo que com ofícios diferentes.

O ofício é uma coisa difícil porque ser-se laborioso e preciso pode significar ser-se indistinto, ser impressivo pode significar ser-se retórico, ser generoso ser porreiro e sentir pode ser lamechas. Escrever, escrever bem, não é um acto de nudez, um striptease com ou sem varão. É o contrário, é escolher o que se quer vestir e o cenário onde se quer ser visto. Pela parte que me toca tenho sempre uma predilecção pelos autores que se deixam ver como na cena final da Dama de Xangai de Orson Welles, numa sala de espelhos com o centro vazio. Nuno Costa Santos há-de andar por ali, de copo na mão, observando. Ouvimos a sua banda sonora e o espaço onde nos faz ouvi-la, reconhecemos os cheiros que nos faz lembrar. Sem reticências nem pontos de exclamação. Comovemo-nos como a Ruiva do Pico conduzida pelas veredas ao som de Paul Buchanan quando já longe da utopia finalista da luta da vaca com as moscas junto à janela da casa onde no interior o seu corpo picante e os peitos bonitos ofereciam uma massagem grátis. Tudo nas calminhas.

 

II

 

A paisagem é um postal tão belo, tão totalitariamente belo que pode com facilidade engolir os seus habitantes.

 

A paisagem de São Miguel é o centro do livro. O que não significa que ele seja uma sua descrição, é muito mais uma condição. É uma condição tão poderosa que nenhum dos personagens lhe escapa. Chegar a uma ilha dos Açores é uma experiência física transformadora. Literalmente. Sai-se do avião, do ar condensado do avião, para o exterior e sentimos que perdemos centímetros. A pressão do ar comprime-nos de tal forma que não temos dúvidas logo ao início de que entramos num território diferente. Não reconhecemos de imediato o cheiro que mais tarde não nos sairá da memória. O resto já intuímos do ar, a quantidade de mar e o que há de terra. E o céu que é, mais do que a terra, o que determina cada ilha. Não é a terra que caracteriza as ilhas mas o céu que paira sobre elas e para cada uma há um céu distinto. A isso também se refere o título do livro. A terra faz as pessoas mas o céu molda-lhes o carácter. O livro vai fazendo uma transição na descrição da paisagem, à medida que vai avançando vai-se perdendo o céu que é na realidade a âncora do narrador que, por ele, preferia ter aí os pés.

(Quando aí estou recordo-me vezes sem conta de Jorn Utzon, o arquitecto da Ópera de Sidney, que farto de desenhar as formas sólidas da terra dedicou cadernos à procura das formas que existem nas nuvens do céu. E em São Miguel convém ser rápido porque tudo muda de forma a desafiar a nossa atenção).

É curiosa a forma como o céu vai desparecendo no livro. Praticamente deixa de existir depois da noite que o narrador passa na prisão sem ele, ou melhor, quando o vê representado no tecto escalavrado de uma cela. Como é eficaz o desvanecimento ao longo da narrativa da sua confiança científica à medida que a taxonomia das espécies vai deixando de poder compreender tudo o que lhe vai acontecendo.

 

Bernardo Soares fala-me ao ouvido: ”Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. Se me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço. Se vejo a vida passar, sonho qualquer coisa”.

 

Reconheci das minhas visitas frequentes à ilha muitos dos factos que vão existindo pelo livro, a mais evidente terá sido a sua invasão por pacotes de cocaína quase pura que tanto tremor causou. Mas a história das ilhas dos Açores tem estes relativismos que nos vêm do que nelas se vê. O que permite que os poetas de serviço, como aqui um aparece, pareçam ser cronistas de uma realidade que se vive bem assim, de forma difusa. E é uma tradição esta de contar o que se soube de todas as criaturas que ao longo do tempo foram passando por este lugar - ele próprio difuso - para quem o vê de fora ou só o conhece pelo anticiclone. Há uma tradição de personagens pitorescas que se mantém viva e elas parecem sobreviver na paisagem. Como uma espécie de homem santo que vagueia pela ilha de terço na mão rezando por todos, uma possível representação de uma fé genuína distinta da instituída, dos colégios, conventos, seminários e procissões.

 

Chega o homem. É ele, só pode ser ele. Reza, reza num tom de voz nem alto nem baixo o credo – sem vergonha, sem medo, sem pressas, sem calendário. Os cabelos, brancos, longos, demasiado longos para os padrões de uma freguesia rural micaelense. Presença tão extravagante como enquadrada na arquitectura da rua. Excepção aceite pela paisagem.

 

Mas há também aqui uma ilha que Nuno Costa Santos traz para a sala de espelhos e que não é tão fácil de ver. Os Açores são ainda uma sociedade altamente segregada e de enormes clivagens sociais. Entre classes, entre as cidades e as freguesias, entre o mundo visível e o que está submergido pela pura recusa de o ver. Os repatriados que cumpriram pena nos Estados Unidos e no Canadá que regressam para as comunidades que, fora das suas famílias, não podem admitir um resultado tão indigno de uma emigração que é tão grande como as ilhas todas juntas. Este estar separado por que todas as famílias passam, os açorianos de cá e os de lá e que fazem dos Açores em Agosto uma espécie de fusão de ambos os lados do Atlântico. A América, tão forte como o céu, volta sazonalmente para a celebração do Espírito Santo que só a condição de ilhéu, um ser com uma tolerância particular, parece poder tornar resolúvel. Talvez ao som do Wish you were here dos Pink Floyd, aqui uma espécie de música plenipotenciária que cruza coisas incompatíveis.

 

Durante a descolagem espreito pela janela. As tonalidades do verde das pastagens e das matas, a ilha cercada por uma muralha de basalto que a rodeia e protege. E a bruma, barba de um Deus do absurdo. Vejo as casas, cada uma delas. As pessoas lá dentro, pequenas, muito pequenas perante uma paisagem alheia a qualquer olhar humano, a qualquer dicionário.

 

A minha experiência enquanto ilhéu de empréstimo recorda-me muitas vezes o nenúfar que cresce no interior do peito de Chloë na Espuma dos Dias de Boris Vian. Respirando aquele ar durante tempo suficiente, estar torna-se tão difícil como partir.

 

Em São Miguel o absurdo pode ser tanto uma condição existencial como uma cerveja com camarão no Cais 20. Uma alergia desconhecida.

 

III

 

Céu Nublado com Boas Abertas tem um motivo, o relato da experiência de um avô do autor e dos seus seis anos de coexistência com uma tuberculose que o afastou recém-casado da sua ilha para um Caramulo próximo da Montanha Mágica de Thomas Männ. Do estranhamento que a distância e a condição precária causou. Na realidade são duas histórias que coexistem no mesmo livro, uma factual, documentada com imagens, e uma outra que se desloca da anterior. Uma que está desesperadamente fora da ilha e outra desesperadamente nela. Uma fala da perda de um pulmão a outra de asfixia. Ambas falam de como se transporta um lugar dentro do corpo.

Revejo-me bem na narrativa deslocada de Nuno Costa Santos, tanto que me sinto parte da mesma panela e da mesma furna onde está o cozido que referi no início desta apresentação. Pegando numa ideia de Bernardo Rodrigues, um amigo comum com singulares capacidade plenipotenciárias (como a música dos Pink Floyd), há um lugar onde nos encontramos comprimidos entre tempos distintos a que parece difícil uma noção de escala e de pertença. Quero dizer a explosão pop que atrás referi não fez do autor deste livro parte de uma visão nostálgica de um passado recente que se revolve perante o futuro que se apresenta. Nem faz dele uma sonda do que está por vir porque da memória há um lastro profundo e nenhuma vontade de se livrar dele. Há sim um desajuste ou uma deslocação. Não há uma moralidade no conflito religioso que está latente em todo o livro, nem uma amoralidade na confrontação com as formulações que se lhe apresentam. Nem um relativismo desculpador de ambas.

Por um acaso encontrei finalmente um livro que procurava há alguns anos enquanto escrevia este texto, Homo Ludens de Johan Huizinga. Fala sobre o jogo, sobre a dimensão lúdica nas relações humanas e do quanto essa dimensão se torna perturbadora das relações estabilizadas de poder e de autoritarismo. Ao mesmo tempo fala das regras do jogo, do seu estabelecimento e da aceitação da sua condição improdutiva. Fala por isso da liberdade do jogo, de o aceitarmos e de compreendermos a necessidade de perceber formas não estabelecidas de representação do real. O jogo que no início do livro anuncia Nuno Costa Santos através da citação que faz de Enrique Vila-Matas:

 

Talvez a literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa.

 

Texto de Bruno Baldaia, na apresentação de Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos,
no dia 29 de março, na Fnac de Santa Catarina, no Porto. 

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'Não Há Tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas Que os Mereçam' pela voz da sua autora, Helena Vasconcelos:

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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