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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

«[Vergílio Ferreira] estava a preparar o espólio para o futuro. Tinha essa noção de que era necessário conhecer tudo o que um escritor faz para substanciar a apreciação que fazemos dele», Professor Hélder Godinho, da equipa envolvida nas recentes edições do espólio de Vergílio Ferreira, em declarações ao Ípsilon que hoje dedica duas páginas aos inéditos do autor de Aparição.

«Sem nunca perder o rigor da forma do relato verídico, Eggers não deixa de usar o seu talento de romancista nas descrições que faz, como a da citação anterior. Toda a história, apesar de seguir uma ordem cronológica com enumeração das datas, está repleta de analepses, de lembranças da infância e juventude de ambos, de pormenores laterais que fazem desta grande narrativa não-ficcional um romance (no sentido mais lato da palavra).» José Riço Direitinho sobre Zeitoun, de Dave Eggers, no Ípsilon de hoje.

«O estilo aqui é vital. Imaginem a dificuldade técnica de escrever uma história em que uma ave mal embalsamada, com um nome ridículo, acaba por representar uma das pessoas da Santíssima Trindade, em que a intenção não é satírica, nem sentimental, nem blasfema. Imaginem, além disso, contar tal história do ponto de vista de uma velha ignorante, sem a fazer parecer depreciativa ou modesta.»

 

«Emily tinha já visto qua mãe com ares sedutores em frente de outros homens, mas nunca de uma forma tão aberta como o fazia com Geoffrey Wilson. "Oh, isso é maravilhoso!", exclamava ao meno gracejo dele, e depois dissolvia-se em pérolas de gargalhadas, enquanto sedutoramente colocava o dedo médio sobre o lábio superior, para esconder o facto de que as suas gengivas tinham mirrado e que os seus dentes estavam estragados.

 

E Emily pensou que o homem era engraçado - não era tanto o que ele dizia, observou ela, mas a forma como o dizia - mas sentia-se envergonhada com o entusiasmo de Pookie. Além disso, muito do humor de Geoffrey Wilson dependia da estranha maneira como comunicava, pelo que o seu pesado sotaque inglês parecia combinado com um defeito da fala: pronunciava as palavras como se tivesse uma bola de bilhar na boca. A sua mulher, Edna, era agradável, gorducha e bebia bastante xerez.


Emily era sempre incluida nas tardes que a sua mãe passava com os Wilsons - sentava-se sossegadamente a mordiscar bolachas de água e sal enquanto eles se riam e conversavam - ainda que na verdade ela tivesse preferido sair com Sarah e Tony, andar naquele carro esplêndido com o cabelo graciosamente impelido pelo vento, passear com eles praias desertas, depois de voltar a Manhattan pela meia-noite e sentar-se com eles na mesa reservada do Anatole's enquanto o pianista tocava a sua canção favorita.»

 

Excerto de Desfile de Primavera, de Richard Yates.

«O brasileiro Sérgio Rodrigues cruza investigação jornalística e ficção partindo de um caso verídico: o assassínio, nos anos 30, da amante do secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro por decisão da cúpula partidária. O sensacionalismo fica todo no subtítulo, “a história da jovem comunista que o Partido matou”. A história de Elza e as circunstâncias macabras da sua morte são o chamariz que nos atrai para os territórios mais complexos da verdade histórica, da construção dos mitos e de como os homens se servem da memória para expiarem os seus pecados. Não é por acaso que a citação que abre o livro é retirada de Expiação, de Ian McEwan.»


Bruno Vieira Amaral leu Elza, a Garota, escreveu sobre o livro no i, no sábado passado, e publicou o texto n'A Douta Ignorância.

 

 

Considerado o grande romance de Richard Yates, a par de Revolutionary Road, O Desfile da Primavera conta a história de duas irmãs, Sarah e Emily Grimes. Conhecêmo-las quando ainda são pequenas, com os pais recém-divorciados. E ao longo de quarenta anos, acompanhamos os caminhos que as tornam mulheres muito diferentes, embora  ambas tentando lidar com um mesmo passado difícil. Sarah, a estável, a determinada, vai para Long Island,  vive um casamento infeliz, e acaba por sucumbir ao seu desespero silencioso; Emily, a precoce, a independente, fica em Nova Iorque, percorre vários empregos sem interesse, dorme com vários homens, perde a carreira e perde-se no álcool.

 

Neste sombrio e magistral romance, e com mestria que caracteriza toda a sua obra, Richard Yates reforça a ideia de que não existe aquilo a que se chama uma vida normal.

 

 

«Extraordinariamente bom… Escrito com a força e a simplicidade da verdade absoluta.»

The San Francisco Sunday Examiner & Chronicle

 

«Um romance elegante, comovente, silenciosamente pungente.»

The Washington Post

 

«O efeito é simultaneamente doce e cruel, devastador e brutal.»

The Boston Book Review

 

«Cada palavra trabalha no silêncio, para inspirar a ilusão de que as coisas estão a acontecer por si só. Uma conquista literária.»

 

O Desfile de Primavera - The Easter Parade, de Richard Yates

serpente emplumada | Richard Yates

 

Tradução de Nuno Guerreiro Josué.

 

«Em Assuão, Hammad viu o Nilo correr denso e inchado como um pequeno mar em fúria, rodeado de planaltos, campos de silvas e rochedos. Seguiu o rio que desfilava, desabrido, na sua viagem para norte. Como se a sua memória ao reencontrar-se com uma civilização de gostos refinados e beleza luxuriante, se recusasse a acolher um tesouro que não vê porque não o conhece. Face àqueles templos, esculturas e pinturas, Hammad compreendeu que a viagem ao Egipto não fora só o fruto de um desejo de contemplar um quadro do qual já conheceria alguns traços, mas também uma viagem em direcção a um desconhecido cuja presença ele recriaria, um desconhecido carregado de questões essenciais que o homem formula junto às margens do Nilo, à sombra da história.

 

Nada nos é dado previamente. Ao aproximarmo-nos daquilo que julgamos ser a verdade, outras coisas se nos revelam que põem em causa a fórmula inicial das nossas interrogações. A memória, também, longe de ser unívoca, é como esse Verão de 1956 que não se repetirá na vida de Hammad. Melhor ainda, a memória possui múltiplas pátrias e espaços. É por isso que vivemos, como se diz, entre dois fogos: a utopia da lembrança e a utopia do desejo. Sempre que recordamos, o desejo insinua-se e vem dar cor à nossa memória; e sempre que nos abandonamos ao desejo, a memória apodera-se dele.»

 

Excerto de Como Um verão Que Não Voltará, de Mohamed Berrada, um livro da série mediterrâneo.

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