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Quetzal

Na companhia dos livros. O blog da Quetzal Editores.

Em 2003 e 2004, no Verão, grande parte da floresta da minha terra foi destruída pelo fogo. Tanto num ano como no outro as chamas andaram à solta pela serra de Monchique, e até bem para lá dos seus limites. Lembro-me de que na altura alguém me disse que eu poderia escrever sobre esses tempos terríveis. Logo pareceu-me que não, que era tudo ainda muito recente. Mas ao mesmo tempo senti que mais tarde talvez acabasse por fazê-lo. Foi já em 2008 que comecei a escrever, primeiro sem saber bem por que caminhos seguir, depois eu próprio a espantar-me com uma descoberta que fazia, a de que o romance estava a ser escrito dentro da minha cabeça desde uma noite terrível do Verão de 2004.

 

António Manuel Venda criou um blogue para o livro que acabamos de publicar, onde se pode ler este e outras notas.

 

 Na sala de jantar da minha avó havia um aparador com portas de vidro e dentro desse aparador um pedaço de pele. Era apenas um bocadinho, mas espesse e coriáceo, com manchas de pêlo avermelhado e rijo. Estava preso por um alfinete enferrujado a um postal onde mal se distinguia qualquer coisa escrita a tinta preta, mas, nessa época, eu era demasiado miúdo para saber ler. 

- O que é aquilo?

- Um pedaço de brontossauro. 

 

Começar pelo princípio: os três primeiros parágrafos de Na Patagónia, de Bruce Chatwin. 

«O detective Remo Bellini (teve um rimão chamado Rómulo, que morreu duas semanas após o parto, e desde então isso ainda afecta Remo) trabalha para uma agência comandada pela melómana Dora Lobo (adora música clássica, e Bellini perde-se ouvindo "blues" e não tem paciência para Mozart, Vivaldi e quejandos). Remo Bellini é divorciado, incomoda-o ter começado a perder cabelo, tem uma amante fogosa, Cris, que é casada com um fazendeiro rico; é um romântico solitário, quase um anti-herói.»

 

José Riço Direitinho no Ípsilon, a propósito de Um Caso de Espíritos, o primeiro livro da série Bellini a foi publicado em Portugal com a chancela da Bertrand em Abril de 2008.

 

A remota Patagónia, uma terra «no fim do mundo», que Chatwin encontra numa visita de seis meses, é habitada por figuras errantes e exiladas, de gaúchos soltários a salteadores e foragidos, de mineiros abandonados aos índios da Terra do Fogo. fascinado por este sítio desde a infância, o autor atravessa toda a região, desde Buenos Aires e Rio Negro até Ushuaia, a cidade no extremo sul, captando o espírito da terra, da sua história e da sua solidão, e conferindo-lhe uma dimensão poética, mágica e intensa. 

 

Numa escrita prodigiosa, cheia de descrições maravilhosas e histórias intrigantes, Na Patagónia narra as viagens de Chatwin por um lugar remoto à procura de um estranho animal e os seus encontros com outras pessoas, cujas histórias fascinantes o vão atrasando no seu caminho paraum dos territórios mais fascinantes do mapa. 

 


  

Remo Bellini é um detective paulista - um solitário que ouve blues, bebe cerveja, gosta de comida italiana e às vezes tem pena de si próprio. É encarregue de procurar um manuscrito perdido de Dashiell Hammett, o que o leva a um Rio de Janeiro misterioso, cheio de figuras da alta sociedade, antiquários, jockeys e personagens que desaparecem ou mudam de identidade. Mas, enquanto percorre a capital carioca, não esquece um crime recente, cometido em São Paulo: uma jovem adolescente baleada num colégio de classe média. A imagem dessa jovem, perversa, inocente e quase pornográfica, leva-o a outra investigação onde encontra uma jornalista irrequieta e sensual , traficantes de droga, as estradas do interior do Brasil -

e o Demónio.

 

Nasceu em Lisboa, em 1980. Passou depois por outros sítios , mas teve sempre o cuidado de não fazer barulho nem incomodar as pessoas. Já fez muito na vida, mas arrepende-se de quase tudo e pede imensa desculpa. Tem uma vasta obra, nomeadamente. Colabora com o semanário Expresso; colabora com a revista Ler; colabora lá em casa no âmbito da louça e da roupa. Diga-se o que se disser sobre Rogério Casanova, a verdade é que ele gosta imenso de si. 

 

(retrato da autoria de Pedro Vieira)

 

 


 

O fogo. Sempre à solta nos montes. Podíamos vê-lo de onde estávamos, praticamente à mesma altura da estrada de alcatrão. Via-se  bem a zona de onde eu e o meu irmão tínhamos saído. O fogo já nem estava apenas no medronhal, tinha também chegado aos montes em que havia sobreiros. Os sobreiros seculares daquele monte, muitos, dezenas, centenas, e os mais novos, até os que ainda tinham apenas cortiça brava. Talvez alguns dos mais pequenos escapassem, porque o que nós víamos, eu, o meu irmão, os meus pais, o que nós víamos era o avanço voraz das chamas pelas copas das árvores maiores, que invariavelmente se tocavam. Se no medronhal, e antes nas estevas, o avanço era do chão até toda a altura da vegetação, naquele montado bem antigo era por cima, pelas copas. Parecia inclusive mais rápido.

 

 

«Banquetes reais, orgias anónimas, crises de bastidores, turismo pansexual, socialismo socialite, adultério, fetichismo, recriminação, propaganda, clisteres de vodca russo, poemas em latim e name-dropping numa escala industrial: aqui está uma leitura de férias para toda a família»


Pastoral Portuguesa, de Rogério Casanova 

textos breves | 261 páginas

Fevereiro 2009


um livro sobre um homem que segue as chamas que vê na televisão até à sua aldeia abandonada diante da linha de fogo;

um livro que transcreve uma flash interview
a James Joyce feita depois de autor de Ulisses ter concluído mais um parágrafo da sua obra;

um livro policial que deu origem a um filme que será exibido no Fantasporto, no próximo domingo;

um dos mais belos livros de literatura de viagem de sempre. 

 

Tony Belloto nasceu em São Paulo em Junho de 1960 e é guitarrista da banda de rock Titãs desde a sua formação. Além de músico, Belloto escreveu três romances policiais com o detective Remo Bellini como personagem principal: Bellini e os Espíritos (Um Caso de Espíritos, na edição portuguesa), Bellini e a Esfinge e Bellini e o Demônio, que se publica agora na Quetzal com o título Um Caso com o Demónio, tendo sido os dois últimos adaptados ao cinema. É também autor de O Livro do Guitarrista, de BR163: Duas Histórias na Estrada, e de Os Insones. Tony Bellotto mora no Rio, com a mulher, a actriz Malu Mader, e os dois filhos, e escreve regularmente no blogue Cenas Urbanas da Revista Veja. 

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