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«HÁ UMA LIGAÇÃO SECRETA entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento», escreve Milan Kundera, no seu romance A Lentidão. Ao ler esta frase, identifico-me com o seu texto. Kundera descreve um homem que caminha por uma rua, tentando lembrar-se de algo que esqueceu. Nesse momento, diminui automaticamente a velocidade. Um outro homem, que está a tentar esquecer-se de uma experiência desagradável que acabou de ter, faz precisamente o oposto, aumenta o ritmo da sua passada sem pensar duas vezes, como se quisesse fugir daquilo que acabou de sentir.» Erling Kagge.

Também na Quetzal: O Silêncio na Era do Ruído.

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Radiohead, «2+2=5»,

do álbum Hail to the Thief (2003).

Inspirado em 1984, de George Orwell. 

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«TUDO SE MOVE MAIS DEVAGAR quando caminho, o mundo torna-se mais suave e, durante um curto espaço de tempo, não me encontro a realizar tarefas domésticas, nem numa reunião, nem a ler manuscritos. Um homem livre tem tempo. As reuniões, as expectativas e os estados de espírito da família, colegas e amigos, tudo isso deixa de ter importância durante alguns minutos ou algumas horas. Ao caminhar, torno-me o centro da minha própria vida, mas mas pouco depois esqueço-me completamente de mim.» Erling Kagge

Também na Quetzal: O Silêncio na Era do Ruído.

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Lana Del Rey, «Off to the Races»,

álbum Born to Die (2012).

Inspirado em Lolita, de Vladimir Nabokov.

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José Mário Silva no Expresso sobre Roberto Bolaño:

«Ao contrário do que sucede com outros ficcionistas, os inéditos póstumos de Bolaño nunca são acontecimentos menores ou marginais. Na verdade, emergem de uma torrente criativa extraordinária (materializada em milhares de páginas) que só não nos esmagou mais cedo devido aos condicionalismos do mundo editorial, incapaz de dar vazão a tanta verve. Além do gargantuesco 2666, essa obra-prima crepuscular, foram trazidos sucessivamente à luz volumes de textos aparentemente díspares mas que remetem, na maior parte dos casos, para situações e personagens de obras anteriores, funcionando assim como peças perdidas de um puzzle — a grande visão bolañiana do mundo — que nunca deixou de se expandir, em círculos cada vez mais amplos, e por isso estava destinado à incompletude.

Volta a ser o caso com este Sepulcros de Cowboys, composto por três narrativas resgatadas pela viúva de Bolaño, Carolina Hernández, no disco duro do computador da família e em disquetes.»

Texto completo aqui.

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A Arte de Caminhar. Um Passo de Cada Vez tem a ver com olharmos para nós próprios, com amarmos a Terra e permitirmos que o nosso corpo viaje à mesma velocidade da nossa alma. Se nos deslocarmos demasiado depressa não poderemos acompanhar a nossa passada interior. Aquele que caminha é mais saudável, vive mais tempo, tem melhor memória, maior criatividade, tensão arterial mais baixa, menos padecimentos físicos - é, sobretudo, mais feliz. Além de que desgasta menos o planeta Terra. 

Muito na senda de O Silêncio na Era do Ruído, o norueguês Erling Kagge explora a caminhada, prática que ganhou relevância nos tempos recentes, deixando de ser apenas uma atividade desportiva para se tornar uma atitude mais abrangente e rica perante a vida: um modo de reencontrarmos a nossa verdadeira essência – a de exploradores atentos e conscientes de nós próprios e do que nos rodeia.

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Neste livro, Onésimo Teotónio Almeida presta especial atenção aos séculos XV e XVI, afastando-se de qualquer perspectiva nacionalista, na qual alguns historiadores portugueses incorrem, ora pecando por excesso, ao exagerarem as nossas pretensões em matéria de ciência, ora por defeito ao ignorarem o papel que de facto tivemos. Ao mesmo tempo, tenta corrigir a historiografia anglo-americana que não prestou a devida atenção ao ocorrido em Portugal nesse período. Com efeito, durante o final da Idade Média foram surgindo em Portugal sinais de um inovador interesse pela natureza e pelo conhecimento empírico dela, assim liderando um dos grandes momentos de viragem na História da Ciência. Este livro é uma revisitação dos anos de ouro da história portuguesa: O Século dos Prodígios é a revelação de como no nosso país, durante o chamado período da Expansão, surgiu e cresceu um núcleo duro de pensamento e trabalho científico verdadeiramente pioneiro, sem o qual as viagens desses séculos teriam sido impossíveis.

 

Onésimo Teotónio de Almeida na Quetzal:

 

 

 

 

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Rolling Stones, «Sympathy for de Devil»,

álbum Beggars Banquet, de 1968.

Inspiração em O Mestre e Margarita, de Mikhail Bulgákov.

 

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O Solilóquio do Rei Leopoldo é um pequeno livro publicado em 1905 por Mark Twain. Trata-se de um texto de sátira política, um monólogo do rei Leopoldo II, da Bélgica, que discursa para se defender das acusações de atrocidades cometidas entre 1885 e 1908 no chamado «Estado Livre do Congo», um grande território cuja administração foi exercida pessoalmente pelo rei belga – e não pela Coroa ou pelo Estado. Leopoldo II submeteu a população local a condições de vida e de trabalho degradantes e a uma repressão violenta e desumana, com o objetivo de aumentar os lucros da extração de diamantes, borracha e marfim. A partir de 1900 começaram a surgir denúncias sobre os crimes e o horror vividos no Estado Livre do Congo – e em 1899 é publicado O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, um retrato desse universo pavoroso.

Em 1904, Roger Casement (a personagem de O Sonho do Celta, de Mario Vargas Llosa), cônsul britânico no Congo, elabora um relatório sobre as atrocidades e a desumanidade da administração do rei Leopoldo - que levaria o Parlamento belga a anexar o território, retirando-o ao rei. E, nos Estados Unidos da América, Mark Twain associa-se a uma campanha internacional contra Leopoldo II. Por isso, o seu texto não é apenas um panfleto político: é também uma denúncia vigorosa, sarcástica e burlesca do colonialismo e do racismo.

 

Prefácio de António Araújo | Tradução de Salvato Telles de Menezes

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É ja nesta segunda-feira, 15 (às 18h30) que se realiza a sessão de lançamento de A Puxar ao Sentimento, o livro de inéditos de Vasco Graça Moura — no CCB, Sala Luís Freitas Branco, com apresentação de Rui Vieira Nery e ainda dois fados de VGM interpretados por Kátia Guerreiro.

Oiça «Até ao Fim», com Kátia Guerreiro. Maravilhoso.

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A frustração de Jorge Luis Borges (1899-1986) e dos seus admiradores, por nunca ter obtido o Nobel da Literatura, terminou hoje com a atribuição simbólica do prémio ao autor argentino, por um Comité Internacional de Escritores, em Buenos Aires.

«Não podendo sob qualquer pretexto permitir que este ano o Prémio seja declarado deserto por irresponsabilidade dos académicos que nos antecederam, um Comité Internacional de Escritores (CIE) assume a responsabilidade de entregar o Prémio Nobel da Literatura 2018 a Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedro», leu o poeta e ator Esteban Feune de Colombi, disfarçado de «académico sueco».

O artista argentino fez o anúncio hoje à noite, durante a inauguração do Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires (FILBA), numa resposta ao adiamento da atribuição do prémio, este ano, pela Academia Sueca, na sequência do escândalo de abusos sexuais e de fugas de informação, que levaram à demissão de sete membros do comité e à necessidade da sua reestruturação.

«O importante era o gesto, conseguir transmitir este gesto, de atribuir, mesmo que simbolicamente, o Nobel da Literatura ao autor de Aleph, e o desafio era concretizá-lo», disse Feune de Colombi.

«Se calhar ocorreu a muitos uma ou outra vez [fazê-lo], e o importante era conseguir concretizar a ideia e depois soltar esse gesto num evento literário», explicou o porta-voz do CIE.

Composto por representantes de França, Reino Unido, Espanha, Egipto, Argentina, Brasil, Uruguai, México e Venezuela, o CIE reuniu uma dezena de membros, como a autora francesa especialista em arte Catherine Millet, fundadora da Art Press, o escritor Irvine Welsh , o filósofo espanhol Fernando Savater e o autor de Livrarias Jorge Carrión, o argentino Alberto Manguel, o vencedor do Prémio Gouncourt Mathias Énard, o brasileiro João Paulo Cuenca, a mexicana Cristina Rivera Garza e o venezuelano Leo Felipe Campos.

Ver aqui e aqui — e também aqui.

 

Algumas das edições de Jorge Luis Borges na Quetzal:

  

  

  

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Fernando Sobral no Jornal de Negócios.

 

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Eduardo Pitta, na Sábado: «O penúltimo romance de Rachel Cusk (n. 1967), Trânsito, corresponde ao livro do meio da trilogia Outline, a história de uma escritora divorciada decidida a reformar uma casa em ruínas. A casa existe. Os amantes de parábolas têm aqui o relato escarolado do que seja reconstruir uma vida reduzida a cacos. A prosa irrepreensível de Cusk transfigura o quotidiano no tipo de narrativa que prende o leitor da primeira à última página. A acção decorre em Londres, numa zona isenta de glamour. A intriga salta com naturalidade de cenas da vida doméstica para reflexões sobre cães, formação de adolescentes, idiossincrasias literárias, responsabilidade social, trabalho precário, gentrificação, imigrantes, multiculturalismo, conjugalidade: "Não era propriamente a primeira vez que presenciara a homossexualidade: era a primeira vez que tinha presenciado amor." O fluxo da consciência nunca derrapa. Trânsito respeita a arquitectura da trilogia, mas tem vida própria.»

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Luar na Lumbre, «Chove em Santiago»

«Chove en Santiago/ meu doce amor./ Camelia branca do ar/ brila entebrecida ô sol.»

Poema de Federico Garcia Lorca, «Seis Poemas Galegos», 1935

Álbum Cabo do Mundo, 1999

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Kenny Chesney, «Hemingway Whiskey»

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[AUTORRETRATO]

 
Cabecilha aos 8 anos, ninguém suspeitou
que aquele que tinha mais medo era eu.
O ruivo Barrientos e o louco Herrera
foram os meus capitães mais fiéis
naquelas manhãs rosadas de Quilpué
quando tudo se desmoronava à minha volta,
mas Bernardo Ugalde foi o meu amigo mais sábio.
Nas vésperas do Mundial de 62
Raúl Sánchez e Eladio Rojas apoiavam-nos
na defesa e no meio campo: os avançados
éramos nós.
Valentes e audazes, como se iludíssemos a morte,
a minha trupe continuava a lutar
enquanto os autocarros matavam os miúdos solitários.
Assim, sem nos darmos conta,
fomos perdendo tudo.

 

[Tradução de Francisco José Viegas]
 
NOTAS. «manhãs rosadas de Quilpué». Bolaño passou a sua infância em Valparaíso – foi em Quilpué que fez os seus primeiros estudos.
«vésperas do Mundial de 62» O campeonato mundial de futebol de 1962 realizaou-se no Chile e foi ganho pelo Brasil. Alguns dos jogos realizaram-se em Viña del Mar (no Estádio Sausalito), província de Valparaíso, não muito longe de Quilpué.
«Raúl Sánchez e Eladio Rojas». Eladio Rojas (1934-1991, médio, jogou no Everton (clube de Viña del Mar), no River Plate, da Argentina, e no Colo-Colo, de Santiago) e Raúl Sánchez (1933, defesa, jogador do Santiago Wanderers e do Colo-Colo), futebolistas chilenos.

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 Outro fado de Vasco Graça Moura cantado por Kátia Guerreiro, «Até ao Fim», que dá título ao seu álbum. A Puxar ao Sentimento foi lançado pela Quetzal na passada sexta-feira. Ora aqui está uma boa maneira de começar a semana – apesar da melancolia da canção –, recordando a poesia de Vasco Graça Moura.

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No Times Literary Supplement (TLS) um belo artigo de David Streitfeld em redor das suas memórias de David Foster Wallace. Começa desta maneira: «Eu era o pior amigo de David Foster Wallace.»

David Foster Wallace na Quetzal: O Rei Pálido, Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer, A Piada Infinita.

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Ryan Adams, «Sylvia Plath»

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[A POESIA LATINO-AMERICANA]

 
É horrível, cavalheiros. A vacuidade e o espanto.
Paisagem de formigas
No vazio. Mas no fundo, úteis.
Leiamos e contemplemos o seu fluir permanente:
Ali estão os poetas do México e da Argentina, do
Peru e da Colômbia, do Chile, Brasil
E Bolívia
Comprometidos com as suas parcelas de poder,
Em pé de guerra (permanentemente), dispostos a defender
Os seus castelos da investida do Nada
Ou dos jovens. Dispostos a pactuar, a ignorar,
A exercer a violência (verbal), a fazer desaparecer
Das antologias os elementos subversivos:
Alguns velhos fora de moda.
Uma atividade que é o fiel reflexo do nosso continente.
Pobres e débeis, são os nossos poetas
Quem melhor encenam essa contingência.
Pobres e débeis, nem europeus
Nem norteamericanos,
Pateticamente orgulhosos e pateticamente cultos
(Ainda que mais nos valeria aprender matemáticas ou mecânica,
mais nos valeria lavrar e semear! Mais nos valeria
fazer de maricas e de putas!)
Perus recheados de peidos dispostos a falar da morte
Em qualquer universidade, em qualquer balcão de bar.
Assim somos, vaidosos e lamentáveis,
Como a América Latina, estritamente hierárquicos, todos
Em linha, todos com as nossas obras completas
E um curso de inglês ou francês,
Fazendo fila nas portas
Do Desconhecido:
Um Prémio ou um pontapé
Nos nossos cus de cimento.

 

[Tradução de Francisco José Viegas]

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QUETZAL. Ave da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz da palavra Quetzalcoatl (serpente emplumada), divindade tolteca, cuja alma teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

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