«Balas de Prata retrata uma certa face épica mexicana que agora não é mais do que uma narrativa crivada de balas onde "os assassinos são os únicos que não possuem aptidão para a tristeza"» Filipa Melo sobreBalas de Prata, de Élmer Mendoza, no Sol.
ilustração de Tiago Albuquerque
Um dos acontecimentos da reentrée destacados na edição ontem do í é a publicação de Jovens Corações em Lágrimas. Vamos lançar mais livros, é certo, mas Richard Yates é Richard Yates.
«Esta citação sugere não apenas o tom deste livro como algumas das razões pelas quais o seu autor não é um nome instantaneamente familar - e porque devia ser. Frustração inescapável, ocasionais brutalidades e a eterna sombra da falta de dinheiro constituem a realidade de milhões de pessoas numa sociedade competitiva, mas não serão o material ficcional mais atractivo para quem nela vive.»
Luís M. Faria leu Perto da Felicidade - Cold Spring Harbor, de Richard Yates, e escreveu sobre o livro na edição de 23 de Agosto, no Actual do Expresso.
Na língua original:
Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham os enlutados.
Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu.
No alvo colo das pombas ponham crepe de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.
Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.
Não quero agora estrelas: vão todos lá pra fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nada mais vale a pena agora do que resta.
Um poema de W. H. Auden escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)
Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)
Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso
Um poema de Ana Luísa Amaral escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.
Um poema de Fiama Hasse Pais Brandão escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
Ao jurar-me ela seu fiel amor,
palavra que acredito e sei que mente;
deve pensar-me um jovem sem tutor,
nos enganos do mundo inexperiente.
Assim, pensando em vão que me crê jovem,
saiba embora já fui melhor do que hoje,
as suas falas falsas me comovem
e a verdade de parte a parte foge.
Mas porque não dirá ser ela injusta?
Porque não digo minha idade avança?
No amor, idade e anos dizer custa
e é costume de amor fingir confiança.
Deitamo-nos, mentimos, mente, minto.
Mentir em culpa é-nos lisonja, sinto.
Um poema de William Shakespeare escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,
abandono. despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.
tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,
os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.
Um poema de Francisco José Viegas escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
Este viver comum
será nosso futuro
É nosso já presente
este amor que não temos
É nosso e nosso o tempo
que de tão longe somos
O pomo puro que negam
branco se fez no dia
Um poema de António Ramos Rosa escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
Como posso eu amar-te, se nem sei
como à porta te chamam os vizinhos,
nem visitei a rua onde nasceste,
nem a tua memória confessei.
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
Não deixes que te enganem os recados
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trompas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste.
Um poema de António Franco Alexandre escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
A incompreendida figura do amor
a céu descoberto sem que se exprima
rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis
e enchemos os livros da ardente ausência
de nós próprios
Ao entardecer corremos
ao pontão sobre o mar
e a vida só se parece
com alguma coisa que sabemos
Um poema de José Tolentino de Mendonça escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)
porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia
que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe
(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse
de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito
sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa
que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
Um poema de Manuel António Pina escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
com o logo da Quetzal.
O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar
ao longo das falésias, o que sempre
me traz a exaltação desses rapazes que circulam
por Lisboa no verão.
O mar está-lhes na pele. Partilho
com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas
a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista
da pedra onde o mar vem largar a pele.
Um poema de Luís Miguel Nava escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.
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