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Quetzal

Na companhia dos livros.

«Hoje Estarás Comigo no Paraíso», uma fronteira móvel entre a biografia e a fantasia

 

Hoje estarás comigo no paraíso.jpg

 

O jornalista João Gobern aproveitou a apresentação de Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral, na Livraria Lello, no Porto, para uma retrospectiva da carreira do escritor. Um livro que lhe trouxe de volta o prazer de ler «frases escorreitas», transportando-o por caminhos, «nem sempre fáceis, ou planos, ou multicoloridos», onde «vamos percebendo quem somos à medida que nos descobrimos nos outros».

 

 Texto de João Jobern, na sessão de apresentação que decorreu no Porto, na Livraria Lello:

 

«Muito boa tarde a todos.

Mandariam as regras da boa educação que aqui fosse seguindo alguns preceitos, algumas regras prescritas ou, ao menos, sugeridas pelo autor. Ora há uma passagem de Hoje Estarás Comigo No Paraíso, o segundo andamento de Bruno Vieira Amaral na ficção, o seu terceiro envolvimento em forma de livro com a Literatura Portuguesa, cujo conselho cai por terra desde já – falo daquela em que o escritor defende, convicta e sabiamente, que as histórias não devem compadecer-se, as mais das vezes com a síntese, com a contenção forçada, com a escrita por medida, antes precisam de espaço e de horizontes, de surpresas e de discorrências livres. De resto, faz questão de demonstrar isso mesmo neste romance em que a fronteira entre a biografia (auto ou alheia) e a liberdade da fantasia vai mudando de acordo com os apetites de quem escreve, mais do que seguindo as necessidades de quem também transcreve. Se assim não procedesse, seria fácil, rudimentar e primária qualquer apresentação deste livro – bastaria dizer: trata da violenta morte de João Jorge, primo do escritor, vindo de Angola, assassinado na sequência de malandrices, zaragatas, desconfianças, lutas de poder e vendettas ao nível do bairro, entidade que Bruno Vieira Amaral volta a resgatar a um inusitado ostracismo se olharmos a maioria da Literatura que por cá se faz nos nossos dias.

Ora é esta liberdade autoral que não me permito sequer tentar seguir – não por mau feitio ou por prescrever alguma recusa epidérmica ou de reflexo condicionado face às instruções. Ou, como se diz agora, diante das cartilhas. Nada disso: se escolho a síntese é por acreditar que o talento – como outros bens essenciais – não foi justamente distribuído pelos seres humanos, pelos cidadãos, por aqueles que gostariam de, ao menos no que diz respeito aos méritos, viver mais desafogadamente e, quem sabe?, poder até investir no futuro. Neste paralelo, o talento fica claramente do lado do escritor e a mim cabe-me uma via de abordagem, uma chave, um código de acesso. Será quanto baste para considerar cumprida a missão de empurrar mais leitores, suave mas entusiasmadamente, com mais ímpeto sedutor do que força impositiva, para este livro que é, entre outras coisas, um extraordinário jogo de espelhos. Já lá vamos. Para já, resumindo: acredito que, antes de discutir, é sempre melhor ler, ver, ouvir. E, nesse quadro, não pretendo vir aqui para fazer a papinha toda, não tenho ilusões de poder ser um chef, com ou sem estrelinha. Limito-me a sublinhar, mais do que a enumerar, os ingredientes, os temperos, a forma de ir traçando o refogado ou, como já a aprendi a dizer – sempre são doze anos de compenetradas e voluntárias vivências a Norte –, o estrugido.

Deixem-me começar por defender que este livro está longe de cair do céu aos trambolhões: julgo saber que levou anos de preparação, de crescimento, de maturação – o que não é sinónimo de engorda, se bem me faço entender. Bruno Vieira Amaral teve o bom-senso e a sagacidade de aprender primeiro, só começando depois a ensinar – e pela prática. Como fazem os que não nascem com a ilusão, tantas vezes frustrada e frustrante, de que a respectiva presença vai mudar o mundo só porque chegaram, começou por ler para só depois escrever, pelo menos com destino expresso para terceiros.

Haverá quem defenda que começou ao contrário do que é a norma de substrato político, que recomenda que se pense localmente para agir globalmente. Aqui, o noviço – passe a expressão e fique a ideia – arrancou logo a mostrar ambição e conhecimento. Muniu-se de um agregado muito especial, quando se apresentou, disfarçado de cicerone, com um vigoroso mapa de personalidades e seus contextos chamado Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, aberto com duas citações lapidares: uma, reflexiva, de Iris Murdoch; outra, intempestiva, de Gustave Flaubert. Ao longo desse catálogo em que só não cabiam a vulgaridade e a cinzentice – já agora, atrevo-me a acrescentar nem a chatice da santidade, apesar das presenças de uma camiliana Teresa de Albuquerque, de um herculano Eurico Presbítero, de um Padre Amaro, das meninas Madalena e Jenny, afilhadas de Júlio Dinis, e da Joaninha de Garrett – Bruno Vieira Amaral foi-se fazendo amigo e cúmplice dessas figuras. Suspeitei, e depois tive a certeza, de que esta disponibilidade para iluminar com precisão alguns, para tirar o pó a outros e – aqui entre nós – para ajudar a ressuscitar uns quantos, estava longe de ser um acto solidário e desinteressado. Nunca se diga, até por exemplos como este, que o fascínio vive uma incompatibilidade irresolúvel com o sentido de oportunidade. Aqui, o desfecho pode ter sido apenas este: ao travar relações de afecto numa política de proximidade, como também se diz agora, com toda aquela gente, burgueses e criadas, fidalgos e marialvas, heróis e vigaristas, galegos e lusitanos, todos escolhidos a dedo, o futuro ficcionista começou – por inerência – a lapidar as suas próprias personagens. Acima de tudo, por contraste.

Para quem ponha em causa esta sentença, sugiro que nos apressemos na direcção de As Primeiras Coisas, estreia grande na grande ficção, mesmo que o ecossistema adoptado possa parecer anacrónico hoje, nos dias em que ameaçamos fechar-nos em casa a deleitar-nos com as sempre novas maravilhas tecnológicas, na época em que passamos mais horas diante de um computador em contactos com intermediação electrónica do que em diálogos directos, com interlocutores de carne e osso. E, como tal, emitimos mais juízos em tom definitivo do que opiniões à procura de melhorias. Bruno Vieira Amaral traz de volta um habitat chamado bairro, com a particularidade de aquele em que nos deixa à solta não ser um daqueles castiços e tradicionais, nem dos outros, modernaços e impessoais. Um a um, sem figurantes entre tantos protagonistas, sem hierarquizar artificialmente as relações de forças, dá-nos a conhecer homens, mulheres e almas que, como pode ler-se acertadamente na contracapa do livro, “raramente aparecem na nossa literatura”. Com esse livro, As Primeiras Coisas, entram e instalam-se. A atitude mais inútil é mesmo a instalação da dúvida sobre a realidade de uns ou outros, sobre a invenção destes ou daqueles. Mais do que procurar aí a conclusão, importa senti-los. São muitos, muito diferentes, muito intensos, e hoje partilham com Bruno Vieira Amaral nada menos de cinco prémios. E nem vale a pena convocar para aqui as frases entusiasmadas que esta escrita fez escrever a quem julga.

Acontece que, por concessão de Bruno Vieira Amaral, devida menos a súbitas generosidades do que a pessoalíssimas necessidades, um dos participantes deste elenco conseguiu caminhar para uma nova dimensão: o Joãozinho Treme-Treme de As Primeiras Coisas é, agora, em Hoje Estarás Comigo No Paraíso, o João Jorge, o primo morto precocemente, na vida como no livro, mas catalisador de uma longa e múltipla busca, insusceptível de poder manter cadência uniforme. Talvez o paralelo não seja o mais feliz, mas – tal como avisei lá atrás, se fizerem o favor de se lembrar – o talento é, para mim, um bem escasso. Por isso, cá vai: se quisermos voltar a sentar-nos à mesa (em sentido figurado, claro), eu diria que o autor passou das tapas (bem confeccionadas, complementares para alguns, alternativas para outros) para o prato principal, aquele que precisa de tempo de forno, de lenha, claro, depois do delicado e melindroso manuseamento da matéria-prima. Ainda por cima, tratando-se de uma receita familiar, de algo a que nem os mais próximos reconhecerão legitimidade se não estiver no ponto.

Será necessariamente um erro estatístico, um atropelo interpretativo, mas não deixa de valer uma saborosa coincidência: três dos melhores livros que li este ano partem da morte. Que é investigada, reconstituída, aprofundada, contextualizada, até se perceber que, até para os diferentes autores, assumiu – passe a redundância – o perfil de uma situação de vida ou morte, ao menos artística. Estou a referir-me a A Forma das Ruínas, do colombiano Juan Gabriel Vasquez, a El Monarca de Las Sombras, do espanhol Javier Cercas (que, por sinal, tem direito a citação no começo da segunda parte do livro que aqui temos no centro das atenções) e, naturalmente, a Hoje Estarás Comigo No Paraíso. Da América Latina, chega um crime público e político, muito semelhante a outro concretizado décadas antes em circunstâncias semelhantes, e toda a expedição acaba por traçar o retrato de um povo que não consegue mostrar indiferença à violência mas que parece condenado a viver com ela. Pequeno aparte: no livro de Bruno Vieira Amaral, também se cruzam as letras colombianas, com um toca-e-foge efectivo à morte anunciada de Santiago Nasar, um dos mais célebres, rápidos e perenes abatidos pela pena de Gabriel Garcia Marquez. De Espanha, com o homem que dissecou a Anatomia de Um Instante, a excursão oscila entre a dimensão familiar – o morto é tio-avô de Javier Cercas – e o peso da Guerra Civil espanhola. Sem coincidências, os dois não se mostram relutantes a confessar todas as dúvidas que os assaltaram face à concretização dos respectivos livros. Esse mesmo processo, que acaba por ser levado adiante por força da teimosia e não de uma qualquer  tentativa de mitigar os danos colaterais, que questiona muito o papel, a legitimidade, o alcance desejável para um autor que – em nome da autenticidade da escrita, não confundir com a absoluta fidelidade nas reconstituições – se vê obrigado a reviver uma história que não lhe é agradável, nem leve, mas se lhe torna indispensável, este processo, dizia, é explicitamente vivido por Bruno Vieira Amaral. Diria mesmo que, para um determinado tipo de julgamento, é ele quem mais arrisca neste trio: Vasquez tem entre mãos a morte bárbara de um notável; Cercas segue as pisadas de alguém que morreu na pele de um herói de guerra; João Jorge, o primo assassinado do escritor português, é, numa primeira instância, esfaqueado até ao fim por alegadamente andar a roubar porcos. As diferenças são evidentes – no caso português, mesmo com um homem que veio de Angola, mais propriamente de Luanda, o que faz toda a diferença, não há biombos nem filtros nem fardas. E João Jorge desempenha primorosamente o papel de um morto que se torna vital.

O autor continua a ter o seu epicentro no Bairro, agora com as vistas mais alargadas e com uma perspectiva quase oposta à do primeiro livro. Aí, ele era o curioso que nos levava pela mão a descobrir os bizarros, os viscerais, os singulares vizinhos que preenchiam uma envolvente caderneta de cromos. Aqui, agora, o escritor aplica as regras de uma tabuleta de que todos nos lembramos e que parece ter saído de circulação. Dizia só isto: reservado o direito de admissão. Ou seja, deixou de haver entrada livre, salvo-conduto automático para tomar assento nas páginas deste livro. Há menos gente, ainda assim não tão pouca como isso, mas é olhada com muito maior profundidade – talvez agora se perceba melhor aquela ideia, eventualmente infeliz, das tapas e do prato principal. São convocados, sobretudo, os que podem – nem que seja pela relutância ou pelo esquecimento – ajudar a perceber João Jorge. Mas, ainda outra vez, não se pense num percurso de sentido único, sem escalas, sem desvios, sem portagens. Bem pelo contrário: Bruno Vieira Amaral parece, cruzes canhoto!, peço mais uma vez desconto para esta linguagem nada literal, parece utilizar algo de semelhante a uma máxima atribuída a Lenine: se não consegues a maioria, contenta-te com a unanimidade. No que aqui está em causa, isso traduz-se por uma vontade de, sem antecipar onde vai parar mas sabendo quem será o seu último companheiro no livro, dar a volta ao mundo do primo com quem terá estado algumas vezes, sem disso conseguir recordar-se, por ser demasiado pequeno. Acontece, e isto é a cereja no topo do bolo, que esse universo de João Jorge, distante no tempo, longínquo nas companhias, muito afastado nos comportamentos, vai ficando cada vez mais nítido e, nessa medida, acaba por aproximar-se – e nalguns momentos confundir-se – com a dimensão de quem escreve.

Mais uma imagem só para me facilitar o trabalho: outro dos elementos que me atrai decisivamente neste livro passa pelo facto de, a partir de João Jorge, o autor cozinhar uma genuína e perfumada sopa da pedra, em que os elementos se vão justapondo, sem atropelos nem barrigadas, mas com um equilíbrio que parece cobrir sem défices toda a roda dos alimentos. Com uma ressalva: ao contrário do que acontecia com o frade que dava o corpo ao manifesto na lenda da citada sopa, a pedra (ou João Jorge) está longe de ser inútil ou apenas decorativa. Pelo contrário, é indispensável e orientadora, até por percebermos (esqueçam o trocadilho, que não é o meu forte) que se transforma na verdadeira pedra do sapato do autor, que acaba – salvo melhor opinião – por resolver o problema de forma superior. E isso passa por entrar no jogo, em vez de se limitar a assistir.

Para fechar, um sinal de gratidão, pelo reencontro de memórias que – apesar da idade que nos separa, e não é pouca – ressaltam comuns: a canção «Sete Mares» da Sétima Legião, as tardes de domingo com a Fórmula 1, o ar ameaçador de Cavaco, neste caso o Faustino, o filme O Exorcista, as edições d’Os Amigos do Livro, as bicicletas e os ténis (aqui vamos chamar-lhe sapatilhas) de marca, o Bruce Lee ou os jornais Tal & Qual ou Crime, a Dona Branca, as caixas de Nestum, o Nelson Ned, a Tonicha mas, sobretudo, a Suzi Quatro voltaram a desfilar, independentemente de todas as promessas de não me deixar cair na tentação da nostalgia. E, mais esta, de um neto para outro: aquilo que te foi sendo ensinado, Dom Bruno do Vale da Amoreira (penso que é assim) sobre Silva Porto pelo teu avô, não se afasta muito do que passei com o meu e com Mouzinho de Albuquerque. É caso para dizer: a cada um o seu parente africanista. Até eles fazem parte deste percurso em que, de preferência com o prazer da escrita de frases escorreitas que volta a levar-nos por bons caminhos, nem sempre fáceis, ou planos, ou multicoloridos, vamos percebendo quem somos à medida que nos descobrimos nos outros. Não, Bruno, a única coisa que renego no teu irresistível livro é mesmo o imperativo do título: não, hoje não estarei contigo no paraíso. Mas espero que, ao longo deste ensaio de síntese talvez pouco sintética, não te tenhas sentido numa qualquer variante do purgatório. Não era essa a intenção, se bem que – como sabemos todos – de boas intenções está o inferno cheio.

Muitos parabéns. Muito obrigado.

 

João Gobern, Abril de 2017»