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Quetzal

Na companhia dos livros.

E outra crónica de J. Rentes de Carvalho: «É tudo namoro.»

 

Anos atrás, um poeta holandês que ia radicar-se em Portugal quis saber de mim se o ambiente seria hostil à sua preferência pelo amor grego. Assegurei-lhe que era infundado o receio, pois a Revolução dos Cravos, fora ter assegurado as liberdades, como que rebentara também as barreiras ao deboche. Pediu ele então que lhe escrevesse as palavras que na nossa língua referiam o homossexual.

Maricas, panasca, larilas, bicha, os derivados de azeite, de panela, vali-me de Gil Vicente, dos dicionários de calão, e à medida que eu escrevia soletrava ele, preocupado com a pronúncia, mas dizendo-se maravilhado, pois tal abundância vocabular contrastava com a escassez da da sua língua-mãe, em que as palavras nicht e flikker quase cobriam o assunto.

Mas se um outro poeta de igual preferência me fizesse hoje a mesma pergunta, a questão de abundância seria descabida, pois as palavras vão morrendo com a anemia do politicamente correcto, gay e namorado/a são o cânone.

Dá-se o caso de que o país inteiro namora. Desapareceram nele as amantes, as teúdas e manteúdas, as amásias, as concubinas, os cornos, os gigolôs. Anda tudo asséptico, mole, escovadinho, valem os crimes passionais para irmos manten-do algum sentido da realidade.

 

Ler a publicação original no CM.

Sobre a Bíblia, por Frederico Lourenço: «Com Cristo na estrada de Emaús.»

Havia, em Jerusalém, um homem chamado Cleópatro (o nome é capicua do nome homérico «Pátroclo»), a quem os amigos tratavam pela alcunha «Cléopas». Este Cleópatro era discípulo de Jesus, Mestre a quem ele chamava «profeta poderoso na acção e na palavra» (Lucas 24:19). Após a crucificação e sepultura de Jesus – e decerto para limpar as ideias depois de tão traumático episódio – Cleópatro pôs-se a caminho, na companhia de um amigo (cujo nome nunca é referido), e fez a distância de 12 km que separava a cidade de Jerusalém de uma aldeia cujo nome apelaria, desde logo, a quem estava a precisar de limpar as ideias: Emaús (palavra que significa «fonte» ou «nascente»). No entanto, acabou por não ser o elemento líquido a limpar as ideias de Cleópatro, mas sim uma estranha ardência cardíaca.

A história de como Cleópatro ficou com as ideias bem limpas é contada no Capítulo 24 do Evangelho de Lucas e pode ser considerada das coisas mais arrepiantemente belas que alguma vez se escreveram.

Os dois amigos saem de Jerusalém e, como fazemos entre amigos, procuram digerir tudo o que tinha acontecido a Jesus falando sobre o assunto. Não sabemos quais foram as palavras que eles trocaram (pois não são explicitadas por Lucas), mas podemos imaginar o tom. Podemos imaginar a tristeza (ou mesmo a revolta) com que eles se debatiam. Seria possível terem pregado numa cruz Aquele homem? Seria possível que, mais uma vez, um profeta inocente tivesse sido cruelmente abatido? Seria possível que, mais uma vez, os ouvidos humanos tivessem reagido ao incómodo de palavras carregadas de Verdade com o gesto brutal de calar quem os incomodava ao proferi-las? Sim, era possível. Cleópatro e o amigo sabiam isso. Sabiam que, mais uma vez, o ser humano se tinha mostrado em toda a vileza da sua vulgaridade e pusera a nu a mesquinhez ordinária da sua alma. Não é difícil imaginarmos, de facto: a morte de Jesus deve ter deixado uma dor insuportável aos dois amigos que caminhavam na estrada de Emaús.

No meio da conversa, um homem estranho junta-se ao par que caminhava. Põe-se a ouvir a conversa deles e estranha, ao que parece, as suas palavras. Pelos vistos, este homem estranho é única pessoa das redondezas que não ouviu falar no que acontecera a Jesus. Os amigos ficam de imediato desconfiados (a palavra grega usada por Lucas também significa «amuados»; da única vez que ela surge no Novo Testamento além desta passagem, significa «macambúzio» ou «cara de caso» em Mateus 6:16).

Cleópatro mal consegue acreditar: «serás tu o único a visitar Jerusalém que ignora os acontecimentos que lá se passaram nestes dias?» (Lucas 24:18). O homem estranho pergunta: «que acontecimentos?»

E Cleópatro conta-lhe o que acontecera. Fala-lhe de Jesus de Nazaré, esse «profeta poderoso na acção e na palavra». Fala da esperança de que ele viesse «resgatar» Israel. Para quem lê o Novo Testamento em grego, é supremamente interessante esta ocorrência do verbo «lutróô» («resgatar»), já que mais nenhum evangelista o utiliza e, na verdade, em todo o Novo Testamento, ele só ocorre aqui e em duas passagens raramente lidas (Tito 2:14; 1 Pedro 1:18). O helenista é logo levado a pensar no título antigo do Canto 24 da Ilíada, «Héktoros Lútra» («O resgate de Heitor», que foi também o título de uma tragédia perdida de Ésquilo), até porque, mesmo no grego da época clássica, não encontramos muitas vezes palavras relacionadas com este campo semântico. A palavra fica bem na boca deste Cleópatro (nome, como referi, que é capicua de «Pátroclo»), homem que sabe o que está a dizer. E fica bem num episódio em que, como no Canto 24 da Ilíada, um ser divino intervém na vida humana e desaparece logo no momento em que é reconhecido. Lucas (quantas pessoas ainda não perceberam o alcance disto) é mesmo muito grego.

Cleópatro continua a contar ao homem estranho tudo aquilo que aconteceu: conta como as mulheres foram ao sepulcro de Jesus e encontraram «anjos» (o que é curioso, já que, justamente, no Evangelho de Lucas as mulheres vão ao túmulo e NÃO encontram anjos, ao contrário do que acontece noutros evangelhos). Esses anjos teriam afirmado que Jesus estava vivo. No entanto, segundo Cleópatro, ninguém o tinha ainda visto.

Neste momento, nós, leitores do Evangelho de Lucas, já estamos por dentro da fina ironia a que o evangelista está a recorrer. Nós sabemos (desde o versículo 15) que o homem estranho é Jesus. Cleópatro e o amigo, no versículo 25, ainda não perceberam.
Jesus dá-lhes uma resposta cheia de ressonâncias filosóficas («Ó homens sem inteligência e lentos no coração!»), que mais uma vez nos chama a atenção pelo vocabulário. Mais nenhum evangelista usa a palavra «anóêtos» («sem inteligência», «sem capacidade de pensamento») e mais nenhum emprega a palavra aqui usada para «lento» («bradús»). A palavra «anóêtos» (que na literatura grega ocorre praticamente só em Platão, Paulo e Plotino) tem no seu cerne a palavra «nous» («mente», «inteligência»), o que nos coloca perante a evidência de que Jesus está a falar em dois alicerces da fé: a inteligência e o coração. Este Jesus na estrada de Emaús, que sabe empregar uma palavra como «anóêtos», concilia o lado intelectual da crença com o lado emocional.

(na imagem: Jesus e os dois amigos, imaginados pelo pintor renascentista italiano Altobello Melone)

 

De seguida, Jesus «interpreta-lhes» a Escritura «começando desde Moisés». Essa interpretação, no Capítulo 24 de Lucas (ver também v. 44), centra-se na ideia questionável, porém já plenamente cristã, de que a chave de interpretação do Antigo Testamento seria a própria figura de Jesus. Mas, mesmo assim, Cleópatro e o seu amigo ainda não percebem quem têm ali ao seu lado. Chegam, por fim, à aldeia de Emaús e Jesus, talvez exasperado por eles serem tão broncos, quer deixá-los e seguir caminho. Mas eles insistem com ele para que fique: «é quase de noite e o dia já está no fim».
A narração de Lucas entra agora em modo ultra-sintético: «Ele entrou para ficar com eles». Não se diz onde entraram, mas partimos do princípio de que é a casa de alguém. «E aconteceu que, quando se pôs à mesa com eles, ele tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, deu <o pão> para eles <comerem>. Abriram-se os olhos deles e reconheceram-no. E ele tornou-se invisível <à vista> deles».

É agora que eles percebem porque lhes «ardia o coração quando ele nos falava pelo caminho» (24:32). E é agora que, graças a essa ardência cardíaca, tudo lhes faz sentido. Não foi, portanto, com água que, após a crucificação de Jesus, Cleópatro e o amigo limparam as ideias na aldeia que significa «fonte». Foi a caminho da aldeia, com o coração a arder. Foi com Cristo, na estrada de Emaús.

 

Ver o original, publicado na página de Frederico Lourenço no Facebook.

Crónica de José Luís Peixoto: «O último olhar antes de sair para sempre»

Os quartos de hotel albergam memórias de muitas pessoas desconhecidas entre si. Aquelas paredes são testemunhas silenciosas de histórias que só conseguimos imaginar. Na hora de sair do quarto de hotel, não pensamos nisso. Os lençóis estão ainda mexidos pela agitação ou pela tranquilidade do nosso sono, mantêm ainda os contornos e o cheiro do nosso corpo. Durante o tempo que ali estivemos, um dia, dois dias, talvez um pouco mais, tivemos uma vida entre aquelas paredes.

 

Leia aqui o texto integral da crónica de José Luís Peixoto na revista Volta ao Mundo.

A crónica de J. Rentes de Carvalho: «O que penso de Trump?»

Foi daquelas paixões a que os românticos chamam avassaladoras. Casaram-se num país onde as palmeiras se curvam à brisa, a areia das praias é branca, o sol brilha sem falta, os indígenas sorriem como quando ainda havia Paraíso.


Surpresa na noite de núpcias: ela, virgem, pediu-lhe que esperasse. Esperou. Depois semanas, meses, torturado pelas forças contrárias do desejo, do amor, da decepção. Ela finalmente cedeu, mas a ocasião deixou em ambos má lembrança, o sexo viria a ser esporádico, sem alegria nem gozo.

Parecerá bizarro, mas esses são os mistérios da alma, viviam em paz. Depois a meia-idade veio, e um dia, por uma futilidade, a tempestade rebentou, gritaram-se os desesperos, as raivas, as ilusões perdidas, as culpas mútuas, a recordação do amor que os devorara.

Conta que nesse momento a poderia ter matado, mas à noite, na cama, quando os corpos por acaso se tocaram, amaram-se como tinham sonhado e nunca acontecera: com fúria, com paixão, acendendo todos os lumes, queimando neles o passado.

- É estranho, não é? – diz ele, parecendo estonteado pela confidência. Olha o relógio, e numa inesperada mudança pergunta-me o que penso de Trump.

 

Ler a versão original publicada no CM.

«2666», de Roberto Bolaño, eleito melhor livro dos últimos 25 anos

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Um júri que reuniu críticos, escritores e livreiros de ambos os lados do Atlântico, escolheu 2666, de Roberto Bolaño (publicado pela Quetzal em 2009), como o melhor livro de língua espanhola dos últimos 25 anos. A lista, publicada pelo suplemento literário do jornal El País, inclui 100 títulos desse período e coloca Detetives Selvagens, também de Roberto Bolaño, em terceiro lugar.

2017 vai ser o ano Bolãno para a Quetzal. A primeira grande novidade chega já em abril, mês em que será publicado o livro inédito O Espírito da Ficção Científica – que será brevemente apresentado na Feira do Livro de Guadalajara, no México, considerada a mais importante feira do livro de língua espanhola do mundo. 
A tradução deste livro inédito póstumo, que já se encontra finalizada, ficou a cargo de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, a dupla de tradutores que já havia traduzido obras anteriores do mesmo escritor.

Também em 2017 será lançado outro inédito, Patria, volume que reúne três novelas (além da que dá o título ao livro, «Sepulcros de Vaqueros» e «La Comedia de Horror de Francia») A edição portuguesa de Patria acompanhará a primeira edição mundial do livro. Pela primeira vez em língua portuguesa será publicado – no final do ano – Putas Assassinas, que reúne narrativas centrais na obra de Roberto Bolaño.

Ainda em 2017, a Quetzal publicará uma nova tradução de Detetives Selvagens, bem como uma edição especial de 2666 – o mais importante dos seus romances, e que constituirá uma grande surpresa do ponto de vista gráfico, um objeto de grande beleza, desde a escolha do papel até à tipografia, à capa e ao número de páginas.

 

Ver aqui a notícia do Público.

Veja aqui a lista dos livros de Roberto Bolaño publicados pela Quetzal.

Inédito de Bolaño vai ser publicado pela Quetzal em Abril de 2017

Chama-se El Espíritu de la Ciencia-Ficción [O Espírito da Ficção Científica] e vai ser publicado pela Quetzal em Abril do próximo ano – que vai trazer muitas novidades. Romance saiu directamente do arquivo pessoal do autor chileno e a sua apresentação é o grande acontecimento da maior feira do livro de língua espanhola, a de Guadalajara, no México. A tradução portuguesa é de Cristina Rodriguez e Artur Guerra.

 

Veja aqui a notícia do Público.

Veja aqui a lista dos livros de Roberto Bolaño publicados pela Quetzal.