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Quetzal

Na companhia dos livros.

Traduzir os Evangelhos: uma experiência de confronto

Mais um texto sobre o processo de tradução dos evangelhos: «Uma pergunta que me está a chegar por vários meios nos últimos dias é: “Como foi o processo de traduzir os Evangelhos? Começou no primeiro versículo de Mateus e acabou no último de João?”» Frederico Lourenço responde:


A verdade é que o meu processo de tradução não aconteceu com essa linearidade. Comecei com o Evangelho de Marcos, baseado na ideia, hoje incontestada, de que este é o mais antigo dos Evangelhos, portanto um texto verdadeiramente basilar (que, além do mais, serviu de inspiração a Mateus e a Lucas).

Traduzi os primeiros dez capítulos de Marcos, como que numa tentativa de «tomar o pulso» ao texto; mas, traduzidos esses dez capítulos, decidi que não gostei da minha tradução e optei por passar a outro Evangelho, tencionando voltar mais tarde a Marcos para ver se o meu desagrado se mantinha.

Comecei então a traduzir o Evangelho de João, o que foi uma experiência das mais exaltantes de sempre da minha vida: só que o ritmo de tradução, trabalhando o dia inteiro, era mais ou menos o de um versículo por dia (por causa da complexidade das notas explicativas e da dificuldade das opções de tradução). Quando vi o tempo desmesurado que me levara a traduzir o Capítulo 1 de João, optei por deixar esse Evangelho e dedicar-me ao Evangelho de Mateus, do qual traduzi os primeiros dez capítulos (como no caso de Marcos), mas sempre com um ligeiro calafrio em relação à minha tradução: havia qualquer coisa na tradução e nas notas de que eu não estava a gostar.

Foi então que, numa tarde de chuva torrencial, o destino (ou Outra Entidade Superior) decidiu tirar-me as rédeas das mãos. Eu estava sentado no meu pequeno escritório a olhar para o ecrã do computador, onde estava aberto o documento único chamado «Evangelho de Mateus» com todas as respectivas notas. E eis que devo ter feito qualquer disparate - que já não sei reconstituir - que levou o texto primeiro a desconfigurar-se todo e depois a desaparecer do ecrã. Em pânico, em vez de sair do documento sem salvar, premi o comando para salvar o documento. Eu estava descansado porque pensei que na chamada Dropbox o texto estaria incólume. Mas o que aconteceu foi que perdi, para sempre, os primeiros dez capítulos de Mateus, com mais de cem notas de rodapé.

Fiquei em estado de choque durante uns minutos, mas depois percebi que a única maneira de lidar com a situação era de recomeçar imediatamente, enquanto ainda tinha as notas mais ou menos presentes na cabeça.

Recomeçando, depois deste safanão, o Evangelho de Mateus, deu-se um clique que me permitiu encontrar o registo certo de que eu estava à procura, e que até aí me tinha fugido. Daí em diante, fiz sem percalços os 28 capítulos de Mateus (mantendo cada capítulo num documento separado) e devo dizer que foi uma experiência extraordinária. A emoção de traduzir a Paixão de Cristo foi algo que senti à flor da pele - algo que senti mesmo como uma Graça.

Depois deste estado maravilhoso, veio um acordar bem amargo: o processo de traduzir Marcos e Lucas de modo a que todas as palavras iguais em grego nos três Evangelhos ficassem exactamente iguais em português na minha tradução. Devo dizer que alguns tradutores antes de mim (não direi quem...) não se deram a essa estafa: tendo eu sofrido esse processo arrastado e inglório, percebo bem porquê.

Voltando ao Evangelho de Marcos, os dez capítulos inicialmente traduzidos foram todos para o lixo, não por acidente informático, mas porque eu tivera razão ao perceber antes que não estava a gostar da minha tradução. Recomecei Marcos do zero, depois continuei com Lucas (o único Evangelho que consegui traduzir calmamente sem percalços nem estados de choque) e, finalmente, terminei com João.

Em termos de balanço: sem dúvida alguma, o Evangelho que mais me exaltou espiritualmente foi o de João, mas também senti uma emoção fortíssima ao traduzir o Evangelho de Mateus. O prazer de traduzir Marcos e Lucas ficou comprometido por causa da minúcia enlouquecedora, que é necessário respeitar, para que todas as palavras, expressões e frases comuns em grego fiquem rigorosamente iguais na tradução portuguesa. Mas também tenho de dizer que o Evangelho onde mais encontrei surpresas bem fascinantes foi o de Lucas.

Mas disso falarei noutra ocasião

 

Página de Frederico Lourenço no Facebook.

Frederico Lourenço: «a polifonia da Bíblia»

Na sua página de Facebook, Frederico Lourenço tem vindo a abordar vários aspectos da sua tradução — e questões colocadas pelos leitores. Esta semana, o tema é a figura histórica de Jesus: «Caro Frederico Lourenço: se você afirma que a perspectiva do seu trabalho sobre a Bíblia é HISTÓRICA, porque é que não discute a historicidade da figura de Jesus? Porque não toma partido na discussão sobre se Jesus realmente existiu?»

Nas últimas semanas, esta pergunta já me foi feita de várias maneiras e por vias diversas. E é absolutamente verdade que, no meu trabalho sobre o Novo Testamento, não entro nunca na discussão sobre a historicidade da figura de Jesus. Isto por duas razões. 

Uma é subjectiva e tem que ver com a minha convicção de que Jesus de Nazaré realmente existiu (e digo isto apesar de já não me considerar formalmente cristão). Acredito que Jesus interveio publicamente na Galileia e na Judeia, de uma forma que terá sido surpreendente e inovadora no contexto do judaísmo da época; acredito que isso terá mudado a vida de muitas pessoas que ouviram o som real da voz dele; e acredito que Jesus foi crucificado em Jerusalém na década de 30 do século I.

A outra razão é objectiva: a metodologia histórica que escolhi seguir não me obriga a discutir se Ezequiel, Jesus ou Paulo foram pessoas históricas (permitindo-me, porém, admitir que sim). O historicismo da minha metodologia incide na atitude perante os textos: obriga-me a considerar cada livro da Bíblia como entidade histórica própria, que existiu com identidade independente antes de se ter formado aquilo que veio a ser a Bíblia. Por outras palavras, não leio o Antigo Testamento pelo filtro do Novo Testamento, porque os livros do Antigo Testamento foram escritos antes de existir Novo Testamento. Não leio a Escritura judaica pelo filtro do cristianismo pela mesma razão histórica: para mim, o Antigo Testamento não é um «prelúdio» nem um «prenúncio» do Novo Testamento. Também não leio as cartas de Paulo pelo filtro dos Evangelhos, porque quando Paulo escreveu as suas cartas os Evangelhos ainda não tinham sido escritos. Nem leio os Actos dos Apóstolos pelo filtro das cartas de Paulo, porque o autor dos Actos mostra claramente nunca ter lido uma única linha que Paulo escreveu (apesar de ele eleger Paulo como herói da sua narrativa e ser considerado pela tradição da Igreja alguém que conheceu pessoalmente Paulo, tradição em relação à qual o teólogo e o historiador terão necessariamente de discordar).

Mesmo dentro do grupo constituído pelas cartas autênticas de Paulo, não as leio como bloco monolítico, mas como textos que mostram Paulo a mudar e a evoluir na abordagem às mesmas problemáticas. Na Carta aos Romanos, são abordados temas que já tinham sido tratados na Carta aos Gálatas; mas a Carta aos Romanos mostra-nos como Paulo pensou mais e melhor sobre os mesmos assuntos e encontrou uma maneira mais satisfatória, mais lógica e mais convincente de os abordar.

Em vez de encarar a Bíblia como um bloco monolítico escrito pela mesma pessoa ou por pessoas diferentes que afinaram todas pelo mesmo diapasão (diapasão esse que, em termos teológicos, será a «inspiração do Espírito Santo»), a metodologia histórica reconhece que os livros da Bíblia tiveram muitos autores; autores que escreveram em contextos cronológicos, históricos, geográficos e até teológicos muito diferentes. Por isso, o Antigo Testamento não nos dá a ver um só judaísmo, mas vários judaísmos. Todos sabemos como, nos livros de Levítico e Deuteronómio, os sacrifícios de animais são apresentados como absolutamente obrigatórios aos olhos de Deus. E todos reparamos como, nalguns livros proféticos (Isaías e outros), os sacrifícios são apresentados como absolutamente irrelevantes aos olhos do mesmo Deus. Aquilo que Deus alegadamente «quer» de nós muda radicalmente no Antigo Testamento, quer estejamos a ler o Pentateuco, os Profetas ou o meu livro predilecto, Eclesiastes. São muitas vozes acerca de Deus; são muitas vozes atribuídas a Deus. E porque não hão-de ser muitas? Deus, existindo, não será mais do que a soma das 600 000 palavras que compõem a Bíblia Hebraica?

Se, sob o prisma da leitura histórica, o Antigo Testamento nos dá a ler judaísmoS (e não um só judaísmo), o mesmo diremos dos cristianismoS veiculados pelo Novo Testamento. A teologia implícita do Evangelho de Marcos é diferente da do Evangelho de João; a Carta de Tiago dá-nos uma voz contrária à de Paulo; dentro dos textos atribuídos a Paulo, há divergências maiores e menores na forma de o(s) epistológrafo(s) paulino(s) encarar(em) a questão de como ser cristão (palavra, já agora, que só ocorre três vezes em todo o Novo Testamento e que Paulo nunca emprega). 

Claro que a leitura teológica tentou (e, na opinião de muitos crentes ao longo dos séculos, conseguiu) a quadratura do círculo que é compatibilizar todas estas vozes diferentes que nos falam a partir das páginas da Bíblia, como se a Bíblia tivesse uma mensagem coesa e unitária. Essa quadratura do círculo, embelezada pela patine de uma tradição teológica secular, parece-me perfeitamente legítima em contexto religioso e afigurar-se-á, acima de tudo, espiritualmente válida. O círculo pode tornar-se (porque não?) num belo quadrado aos olhos do crente; se o não-crente olha para o mesmo círculo e continua a ver um círculo, não há problema nisso.
Seja como for, a leitura histórica, que é a minha, ocupa-se somente da realidade objectiva dos textos. Por isso, pode posicionar-se fora da necessidade teológica de compatibilização. Não precisa das seculares metodologias exegéticas para mostrar que o círculo pode ser visto como quadrado, porque a leitura histórica valoriza e aceita, como coisa maravilhosa, a fascinante e discrepante polifonia da Bíblia.

 

Página de Frederico Lourenço no Facebook.

 

 

À sexta-feira: crónica de J. Rentes de Carvalho: «Ares de leão»

É interessante vê-lo quando chega ao café: a porta abre-se e durante dois ou três segundos nada acontece, a pausa teatral antes do galã aparecer no palco.

Surge então, grande, pesado, a cabeça leonina erguida, os olhos flamejantes. Entra, roda sobre si mesmo a fechar a porta, cumprimenta este, acena a outro, a passos medidos procura uma mesa.
Escreve, pinta, canta, representa, esculpe, compõe, é pianista talentoso, realiza performances, vê-se com frequência na televisão, ouve-se com frequência na rádio. 
Raro passa semana sem que num ou noutro jornal não apareça escrito seu, ou não se fale das suas muitas actividades.

Verdadeiro furacão que é causa ciúmes, e já me tenho perdido a sonhar sobre que extraordinário poder possui quem realiza tanto, no mesmo tempo em que eu tão pouco faço. 
A minha inveja, porém, vai menos para o que ele faz, do que para o modo como se mostra. 
Eu francamente gostaria de saber entrar assim no café, vestido de preto, o grande cachecol vermelho enrolado no pescoço, cabeça ao alto, e aquela esplêndida segurança de si mesmo.
 
 

Pode ler a crónica na sua versão original aqui..

Vargas Llosa no CCB

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Sala cheia na apresentação de Cinco Esquinas — uma conversa com o jornalista Luís Caetano (Antena 2), com divertimentos pelo meio. Vargas Llosa improvisou e deu autógrafos, o que é raro acontecer. Diz que, enquanto falava, ficou inspirado com a visão dos Jerónimos através da janela.

No próximo ano há mais.

Não disfarçou as frases incómodas, não limou as arestas, nem as passagens misóginas e homofóbicas

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Frederico Lourenço passou dos clássicos gregos para a Bíblia grega, tarefa grandiosa que faz emergir uma série de questões. Lançou-se sozinho num empreendimento que, pela sua grandeza, foi muitas vezes resultado de um trabalho de equipa: a tradução, do grego, dos 80 livros da Bíblia, o Velho e o Novo Testamento, oferecendo a mais completa tradução da Bíblia que alguma vez foi feita em língua portuguesa. Diz que não disfarçou as frases incómodas, não limou as arestas, nem as passagens misóginas e homofóbicas. Leia o texto de António Guerreiro no Público.

Um domingo em Óbidos

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Bela tarde de domingo no Folio, Festival Literário Internacional de Óbidos – Frederico Lourenço (à conversa com Anabela Mota Ribeiro sobre a tradução da Bíblia) encheu a tenda Vip na sessão das 15h00, com o público a aplaudir, de pé. Depois, como a foto ilustra, uma sessão de autógrafos improvisada, com o sol e as árvores à volta.

Sobre a tradução da Bíblia, a opinião de Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça escreve sobre a nova tradução da Bíblia a partir do grego, de Frederico Lourenço, que apresenta uma "dimensão pedagógica que pode ser útil para chegar a novos leitores".

«Uma vez perguntaram ao irrequieto Bertolt Brecht de onde retirava ele inspiração para o seu teatro. E ele respondeu ao jornalista atónito: “Não se espante, é mesmo da Bíblia”. “A Bíblia” foi curiosamente o título e o argumento do primeiro texto dramático de Brecht, publicado no jornal estudantil “Die Ernte”, em 1914, tinha ele apenas quinze anos. O pai católico e, sobretudo, a mãe protestante foram decisivos para a sua imersão no universo bíblico. Em relação à Bíblia há uma infinidade de histórias e de surpresas assim.» Continuar a ler o texto original.