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Quetzal

Na companhia dos livros.

«Em demanda das cores originais», por Frederico Lourenço

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Neste texto, Frederico Lourenço fala do seu trabalho de tradução da Bíblia como uma operação de restauro. «Quando se limpa um quadro antigo, surgem cores que surpreendem e até chocam. Há uma mudança de percepção: em termos estéticos, há uma nova realidade.»

 

Cada língua tem o seu perfume, a sua tacteabilidade, a sua música, as suas cores. E estas são qualidades que na língua grega, com a sua longa história (de Homero ao jornal de domingo publicado hoje de manhã em Atenas), estão presentes de forma superlativa, como sabem todas as pessoas que alguma vez estudaram grego. Numa demonstração admirável de sensibilidade poética, quis o destino (ou Quem o controla) que uma nova religião, nascida no século I da nossa era, recebesse como documento fundacional um conjunto de 27 livros escritos em grego – essa colectânea de textos extraordinários a que chamamos «Novo Testamento».
Logo os primeiros tradutores que verteram esses 27 livros para latim, copta e outras línguas faladas entre os primeiros cristãos devem ter sentido uma frustração enorme: como fazer passar todo o perfume das palavras, toda a sua tacteabilidade, a sua música, as suas cores? Como transmitir a flexibilidade das frases gregas? Como emular a simplicidade transparente dos Evangelhos, a fraseologia rica e densa de Paulo, a pirotecnia verbal quase barroca da Carta aos Hebreus?
Restituir (na medida em que a língua portuguesa o permite) as cores originais ao Novo Testamento foi a minha tarefa nos últimos anos. Palavra a palavra, o que fiz foi limpar o que obscurecia as palavras, o que lhes retirava os contornos nítidos, as cores vivas. Guiei-me pelo espírito dos restauradores que, em Madrid, fizeram o magnífico trabalho de restauro da Crucificação de Rogier van der Weyden.
Entre as coisas que estavam obscurecidas, restituí todos os tempos originais dos verbos, para manter o jogo que encontramos nos textos entre passado e presente. Isso permite-nos voltar ao imediatismo do espírito com que os Evangelhos foram escritos: eles trazem-nos, por meio do constante recurso ao presente («Jesus diz», misturado com «Jesus disse»), Cristo a falar e a agir como se fosse hoje. Procurei manter a ordem das palavras tão próxima quanto possível das frases originais, para ajudar as pessoas que, sabendo um bocadinho de grego (mas não grego suficiente para ler o texto original sem nenhuma ajuda), queiram fazer a experiência de ler, lado a lado, o texto grego e a tradução portuguesa: facilmente encontram todas as palavras gregas no texto português, quase sempre pela ordem com que elas surgem em grego.
Outro trabalho de restauro incidiu sobre o rigor vocabular. Por exemplo, a palavra «escravo», que ocorre mais de 120 vezes no Novo Testamento, disfarçada em traduções anteriores, voltou a estar visível no texto (porventura demasiado visível, para o gosto de alguns). Mas não vale a pena fingir que ela não está presente no Novo Testamento, porque toda e qualquer pessoa que lê o texto em grego sabe que está. Frases incómodas de Jesus (como Lucas 14:26, 17:21, 19:27) não foram reescritas e adaptadas para suavizar a controvérsia que lhes é inerente. Por outro lado, todas as palavras que estão subentendidas no texto original mas não explícitas (porque o grego é uma língua por vezes mais sintética do que o português) estão claramente indicadas pelo uso de parênteses angulares, sistema que (tanto quanto sei) ainda não tinha sido utilizado em nenhuma tradução portuguesa do Novo Testamento (nas anteriores as palavras reais e subentendidas estão todas misturadas, sem que o leitor desconhecedor de grego possa distinguir entre elas). Para dar este exemplo (Mateus 24:40-41): «Então dois <homens> estarão no campo: um será levado e um será deixado. Duas <mulheres> estarão a moer no moinho: uma será levada e uma será deixada».
Depois há outros pormenores em que incidiu o trabalho de «restauro». Compatibilizar todas as palavras e expressões iguais em Mateus, Marcos e Lucas, por um lado. E, por outro, distinguir as subtis diferenças. Por exemplo, em Mateus 24:2 («não deve ser aqui deixada pedra sobre pedra que não será desmoronada»), encontramos uma frase que é subtilmente diferente em Mateus, Marcos (13:2) e Lucas (21:6). É este último que dá a formulação mais compreensível que, por isso, é aplicada por muitos tradutores (mesmo internacionalmente) de forma uniformizada às passagens referidas dos três evangelistas. O meu trabalho de «restauro» passou por diferenciar as passagens, conforme o original.
É claro que, quando se limpa um quadro antigo, surgem cores que surpreendem e até chocam. Há uma mudança de percepção: em termos estéticos, há uma nova realidade. No entanto, em termos reais, a essência da obra continua a ser a mesma. Um Novo Testamento com as cores mais «garridas» continua a ser o livro mais extraordinário que alguma vez se compilou.

[Texto publicado originalmente — no passado domingo — na página de Facebook de Frederico Lourenço.]

Às sextas-feiras: um quetzal na nossa vida (7)

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Esta semana, uma foto de Juan Carlos Vindas, publicada originalmente no site da National Geographic. O fotógrafo explica como obteve a fotografia, num dos parques naturais da Costa Rica: «I got up the morning I made this image. I have seen these birds flying to catch fruit from a local tree but the light was not the best. The next morning I drove to the same area but the birds where perching very high in the branches. Suddently, this male quetzal flew to this epiphyte-rich branch and started to preen itself while keeping an eye on me. The light levels were very low as it was still early in that cold morning, eventually it started to rain and the bird flew away.»

À sexta-feira: crónica de J. Rentes de Carvalho: «Uma forma de desprezo»

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Vive em grande luxo num dos canais nobres de Amesterdão, dentro em pouco fará noventa anos, de si próprio diz com desinteresse: "É estranho como continuo a ter tão boa memória." De facto tem. Gosta de recordar que do Ártico à Patagónia, de Portugal à China, trabalhou em todas as partes do mundo e, belo homem que foi, não faltaram mulheres exóticas na sua vida. Dessas casou com três, a que realmente amou faleceu há pouco, as restantes e os filhos aborrecem-no com exigências de dinheiro. Conhecemo-nos desde os anos sessenta, e a simpatia permanece. Une-nos também o interesse por computadores e pela internet, talvez porque ambos somos do tempo em que mesmo a rádio era maravilha. Hábito de décadas, encontramo-nos de mês a mês no nosso café e, cavaqueando, bebe ele duas ou três genebras, fico eu pelo copo de tinto. Ontem, rememorando uma tumultuosa peripécia dos seus amores, surpreendeu-me o modo como em certo momento disse: "No passado, quando me zangava com alguém, havia nessa zanga um certo respeito. Actualmente recuso zangar-me com quem quer que seja. Creio que é uma forma de desprezo."

Ler na edição original, aqui.

Frederico Lourenço: “As pessoas tendem a querer as respostas todas da Bíblia”

O ensaísta Frederico Lourenço decidiu traduzir a Bíblia Grega e dá-la a conhecer, no seu todo, pela primeira vez, em português. Chega hoje às livrarias o primeiro volume de seis, que serão publicados até 2020. É um dos livros mais lidos do mundo e, no entanto, é sempre possível fazer novas leituras. Encontra-se nele tudo o que é humano e tudo o que é transcendente. Continuar a ler aqui, na edição de fim de semana do Jornal de Negócios, um texto de Susana Moreira Marques.

Frederico Lourenço: “A palavra escrita é demasiado limitada para nos dar a dimensão de Deus”

Não se chega à tradução da Bíblia sem um caminho percorrido. Nem, provavelmente, sem um dom. Frederico Lourenço, que em criança chegou a pensar em ser teólogo, e ao longo da vida adquiriu conhecimento em várias línguas é afinal, e sobretudo, o helenista que, nos últimos anos, mais contribuiu para a uma compreensão alargada das raízes gregas da nossa civilização, ao traduzir e explicar os seus textos fundadores, a “Ilíada” e a “Odisseia”. É também um pianista, cravista que convive bem com o professor universitário (Universidade de Coimbra), o homem das letras escritor, poeta e cronista que, com delicadeza e generosidade, elege sempre a verdade em detrimento de uma confortável ocultação.

Entrevista de CRISTINA MARGATO, no semanário Expresso.

Foto de MARCOS BORGA

 

 

 

Está a traduzir a Bíblia a partir da Septuaginta, traduzida por 72 rabinos...
Os rabinos traduziram [do hebraico para o grego] os cinco primeiros livros, o Pentateuco, no século III a.C. Eu estou a traduzir a Bíblia Grega, que é o Antigo Testamento todo, no qual se inclui essa tradução do Pentateuco, e o Novo Testamento, escrito originalmente em grego. É confuso porque o manuscrito mais antigo da Bíblia Grega é do século IV d.C., logo mais antigo do que o manuscrito do Antigo Testamento em hebraico, que data do século XI d.C. Eu estou a traduzir a Bíblia Grega para publicar em seis volumes. Comecei pelo Novo Testamento, que terá dois volumes. O primeiro é lançado este mês. É preciso trabalhar com muita antecedência.

Quantas horas por dia?
Muitas. Uma média de doze.

Sozinho?
Sim. Normalmente começo às seis e meia da manhã e fico até às oito da noite.

Não sai da sua secretária?
Só para ir dar aulas. Tenho também os fins de semana e as férias. Um professor universitário, apesar de tudo, não tem tantas aulas como um professor do ensino secundário... Tenho tempo, mas é precisa muita disciplina.

Calculo que fique com muito pouco tempo para descansar.
Vou descansar depois de acabar.

E quando acaba?
2020.

Isso quer dizer que se casou (em maio passado) e não foi de lua de mel?
Não fui, não. E também não tirei férias. Não fui um dia à praia nem este ano nem no ano passado.

Como é que o seu marido aceita?
Ele tem muita paciência. Quando eu acabar a Bíblia, pensamos ir a Israel ou a outro sítio.

Era contra o casamento?
Nunca fui contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas nunca pensei que o casamento fosse para mim. Pode ser bom se encontrarmos a pessoa certa. Foi uma decisão madura e está a correr muito bem.

Têm os dois a mesma posição perante a fé?
Temos a mesma posição heterodoxa. Temos o mesmo fascínio pelo judaísmo, pelo cristianismo, mas de um ponto de vista não participativo. Não somos membros de nenhuma Igreja. Preferimos estar de fora e não nos envolvermos nos lados mais negativos da religião. Ficar com o que a religião tem de bom. Acho que sou um homem religioso, e o André [Nassife] também.

Religioso mas não crente, neste momento, numa religião específica.
Acredito em Deus. Não acredito em nenhuma religião que me queira transmitir Deus. Interesso-me pelas religiões, pela sua literatura, cultura e história. Com muito respeito pelo cristianismo e pelo judaísmo, não sinto sinceramente dentro de mim aquela fé ou aquela maneira como Deus nos é dado a entender. Claro que há outras religiões que não conheço e pelas quais nunca tive qualquer interesse....

O Islão, por exemplo...
Sim, nunca me interessei pelo Islão. Mas pelo hinduísmo sim, que será a religião que conheço melhor depois do cristianismo e do judaísmo. Tive alguma curiosidade.

Que começou na adolescência e durou um verão?
Sim. Acho que durou um ano.

O que ficou?
Um grande fascínio pelos textos do hinduísmo: os “Upanishads”, os “Vedas”, o texto maravilhoso que é o “Bhagavad Gita”. Por ser um homem de letras são os textos das religiões que me interessam, com a consciência de que a palavra escrita é demasiado limitada para nos dar a dimensão de Deus. Por isso é que não consigo dizer que sou cristão ou judeu. A sensação que tenho ao acreditar na existência de Deus — seja lá o que for Deus, porque não sei o que é, mas sinto que existe — não é nada daquilo que ali está, e que é muito limitado. Deus é mais do que a soma das partes.

2020. É a data em que Frederico Lourenço prevê acabar a tradução da Bíblia Grega, projeto no qual trabalha diariamente cerca de 12 horas

2020. É a data em que Frederico Lourenço prevê acabar a tradução da Bíblia Grega, projeto no qual trabalha diariamente cerca de 12 horas

Foto de MARCOS BORGA

 

 

Pega no instrumento da razão para abordar a religião. Fá-lo claramente em “O Livro Aberto: Leituras da Bíblia” (Edições Cotovia, 2015). Usar a razão não é uma forma impossível de chegar à fé? A fé não tem de ser um milagre? Um mistério? Algo que acontece fora do campo da razão?
Sim, quando digo que acredito em Deus estou fora do campo da razão. Se me perguntar porque acredito em Deus não saberei responder. É irracional, intuitivo, subjetivo. Agora, no estudo dos textos faço valer a minha formação de homem de letras e também a de alguém que pensa que a melhor maneira de entendê-los passa por não projetar coisas neles; mas por tentar perceber o que é que eles são. A minha intenção em “O Livro Aberto” foi tentar ler algumas passagens da Bíblia de uma forma mais distanciada, não querendo à força que os textos digam aquilo que nós queremos que digam. Ficar aberto a que os textos possam até dizer coisas diferentes, contraditórias também.

Acredita que é possível eliminar de todo a subjetividade? Que é possível afastarmo-nos ao ponto de que só o texto sobreviva?
Podemos fazer esse esforço. Não sei se o conseguimos a cem por cento. Mas é um esforço já de si válido. Mais válido do que partir do pensamento de que a Bíblia é a palavra inspirada, infalível de Deus, que tudo faz sentido e que não há nenhuma contradição nela. Isso é que me parece subjetivo. Na tentativa, porém, de se ser objetivo, o gato pode sempre ficar com o rabo de fora e a subjetividade espreitar.

Mesmo que insista nesse distanciamento acaba sempre por nunca se ausentar. Quando diz, por exemplo, que Cristo nunca fala sobre ou contra a homossexualidade parece que procura no texto bíblico a saída para sua contradição, entre aquilo que é a sua homossexualidade afirmada publicamente e aquilo que as Igrejas costumam aconselhar, ou seja, a castidade ou a ocultação. Aí, diz: “Eu não o faço. Eu quero a verdade”.
A afirmação de que Cristo nunca disse nada contra a homossexualidade não é uma tentativa minha de justificação. Estou apenas a constatar. De facto, nas palavras que são atribuídas a Jesus nos quatro evangelhos não encontramos essa condenação. Mas encontramo-la noutros textos. No Antigo Testamento aparecem dois versículos que condenam a homossexualidade... Não é muito num universo de 53 livros, alguns com mais de 40 mil palavras. Agora no evangelho que mais difundiu o cristianismo, o de Paulo, a condenação não merece contemplação. Os homossexuais são merecedores de morte. Está lá claríssimo, em dois textos fundamentais. Não há como dar a volta. No século VI, quando se começou a fazer um código legal consentâneo com a doutrina cristã e com a Bíblia, apareceu, pela primeira vez, a pena de morte para a homossexualidade, com esse apoio bíblico. Há muitas coisas que são atribuídas a Jesus, muitas que ele terá dito ou não... Só temos aqueles quatro relatos e fico muito feliz por não ouvir da boca de Cristo essa condenação. Claro que Cristo poderá voltar agora à Terra para dizer que o tinha dito e que não registaram todas as suas palavras. Não sei.

Em “O Livro Aberto: Leituras sobre a Bíblia” já fala de algumas questões que a tradução lhe levanta como a questão do pecado ser afinal o erro...
Emprego os dois termos. Erro e pecado. Há passagens em que criaria muita confusão semântica usar erro em vez de pecado.

Como fez em “O Cordeiro de Deus: o que tira todo o pecado do mundo”?
Nessa passagem opto por erro, “todo o erro do mundo”. No primeiro volume escrevo uma introdução em que falo dos critérios. A minha tradução tem muitas notas e comentários, sobretudo linguísticos e históricos.

Faz comparação com outras traduções?
Não. Se o fizesse o volume seria muito grande e pouco interessante para os leitores. É mais interessante explorar a literalidade linguística.

Quando acabou de traduzir a “Ilíada” disse que é um erro pensar que temos o direito de ser felizes, porque a vida é feita de sofrimento..
Essa é a mensagem da “Ilíada”...

Com a qual concorda...
Sim. Basta olhar à nossa volta. O sofrimento faz parte da experiência humana e da vida de todos os seres vivos que connosco partilham o planeta.

Numa das crónicas faz uma correção a uma citação do realizador Woody Allen dizendo que a natureza não é um restaurante, como ele afirma, mas um matadouro.
Sim, sim. É um matadouro. E a realidade humana é em muitos sítios do planeta um autêntico matadouro. Esse é um aspeto muito assustador que o texto sublime que é a “Ilíada” nos dá a ver de uma forma profunda, ao não banalizar a questão do sofrimento e da morte. A “Ilíada” tenta enquadrar isso na realidade humana, deixando espaço para que também nesse contexto as pessoas possam encontrar um sentido para si próprias. Se não a vida não vale a pena. Atiramo-nos todos do oitavo andar. Temos, por isso, de aceitar que o sofrimento faz parte da vida e, ao mesmo tempo, que a vida vale a pena com sofrimento.

Na procura do sentido da vida, e até por gostar e citar tanto Schopenhauer, podia ter optado pela contemplação, em vez de se colocar a traduzir a Bíblia...
Sim, e acho que sou até bastante contemplativo. Ainda assim acho que tenho de fazer coisas. Schopenhauer também era contraditório. Essa ideia de abdicar de tudo, da vontade, do querer, foi algo que ele não pôs em prática. Passou a vida a escrever um livro com mais de mil páginas que teve três edições, cada uma maior do que a anterior [“O Mundo como Vontade e Representação”].

É mais importante para si dizer não ao desejo, uma vez que gera desgosto?
Sim, o desejo e a carência, por definição, geram desgosto e são essas coisas que temos de aprender a aceitar na vida. Essa é a grande vantagem de se ter 53 anos e não 19. Depois vamos vivendo, fazendo das derrotas vitórias. Vamos crescendo. Se ao longo da vida só tivéssemos experiências positivas não crescíamos, não mudávamos nada. Seria tudo maravilhoso. Se somos sempre felizes, vamos mudar para quê? A mudança para melhor ou mesmo para pior — mas vejo mais para melhor — tem origem nessas experiências negativas. Houve sempre um percurso que começou graças a uma derrota, a um desgosto, a um sofrimento. Sou um grande adepto do trabalho interior.

A satisfação é que nos encurta os dias, como escreve. A felicidade faz com que a vida corra rápido.
Sim, a infelicidade faz o tempo passar mais devagar. Quando escrevi sobre o assunto tentei perceber se não existirá um mecanismo de defesa no nosso cérebro para nos obrigar a ser infelizes de vez em quando; para podermos ter a sensação de que estamos a parar os ponteiros do relógio, de modo a não caminharmos tão precipitadamente para o momento final, em que teremos de morrer. Quando somos felizes ficamos mais perto desse momento.

Foi a idade que lhe trouxe esse pensamento; apagando-lhe o tal desiderius mortis de que chegou a ser acusado?
Sim. Ainda tenho isso, embora muito menos. E já não tenho de todo o pensamento: ‘Mais valia morrer!’

Deve ter havido momentos em que a sua fé em Deus foi violentamente abalada, perante, por exemplo, a morte inesperada de pessoas que lhe eram próximas, às vezes muito jovens...
Não. As várias mortes com que já lidei ao longo da minha vida não tiveram esse efeito em mim. O que abala mais a minha fé é pensar na maneira como a vida está estruturada: as aranhas comem as moscas, os leões as gazelas, e na Síria as pessoas morrem por obra e graça da crueldade humana, que é algo tão congénito ao ser vivo. Se Deus existe porque é que o mundo e a vida estão organizados em cima do sofrimento? É isso que a abala a minha fé. Considero normal que as pessoas tenham de morrer.

Mas não têm de morrer aos 20 anos...
Sim, mas isso são exceções. São situações que nos colocam perante o inexplicável. Tenho uma amiga a quem lhe morreram subitamente três filhos no berço. Esses casos colocam-nos tantas perguntas...

De que forma pesa a orfandade?
Tive a experiência de duas maneiras muito diferentes. Uma morte foi muito inesperada, e a outra foi esperada ao longo de nove meses; e essa foi de facto a situação mais difícil da minha vida. Eu tinha 35 anos quando a minha mãe morreu. Foi um acontecimento fulminante, traumático. Mas a morte do meu pai [o professor de Filosofia, poeta e ensaísta M. S. Lourenço], em 2009, foi ainda mais traumática. Vivi sempre em função do meu pai sem que o soubesse. Os meus pais separam-se quando eu tinha onze anos e a partir desse momento nunca mais vivi com ele. Não tinha, por isso, a noção de que o meu pai era uma pessoa tão central na minha vida. E também não o percebi nos primeiros meses após a morte dele... Estava anestesiado. Quando a ficha caiu, tive de recorrer a psicoterapias, tomar antidepressivos. Levei uns dois anos a ultrapassar.

Foi nessa altura que se pôs a questão: ‘Para que serve a minha vida?’
Sim. Para que serve a minha vida se o meu pai não está cá para eu lhe mostrar que faço isto e aquilo? Perdi o meu público. Numa sessão de psicoterapia dei por mim a dizer que, de repente, estava a representar num palco para uma plateia vazia. Antes, tinha o meu pai e era para ele que eu fazia a representação da minha vida. E agora que morreu, para quê fazer um espetáculo para cadeiras vazias?

Tem pena de que ele não o veja agora?
Sim, que ele não me veja como tradutor da Bíblia.

Quando publica os primeiros livros, a que chama “psicográficos” [“Amar Não Acaba”, 2004, “A Máquina do Arcanjo”, 2006,), o seu pai ainda está vivo...
Sim. Ofereci-lhe os livros. Não faço ideia se os leu. Nunca falou comigo sobre eles. Só me disse que não tinha gostado de “Pode Um Desejo Imenso” [romance]. Gostou de “Grécia Revisitada” [ensaio].

Parece que quer ser mais do que ele. Mas não igual a ele.
É um processo inconsciente. Quando era vivo queria que ele me reconhecesse.

E foi reconhecido?
Acho que sim.

Foto de MARCOS BORGA

 

 

No seu livro “A Máquina do Arcanjo” conta a história de como troca a sua carreira de pianista pela de helenista, e é num verso de Sophia de Mello Breyner Andresen que tudo se decide...

Sim, e continuo a ter essa grande paixão pela Sophia. Diz o verso: “Aqui despi meu vestido de exílio/ E sacudi de meus passos a poeira do desencontro”.

Qual foi o desencontro?
Talvez o piano tenha sido o desencontro. Mas ainda tenho muitas saudades de tocar piano.

Aliás, diz que foi nos cinco anos em que não tocou nem piano nem cravo que foi mais infeliz...
Sim, sim, e agora, enquanto não acabar a tradução da Bíblia, não vou poder tocar cravo. Mas é um dos meus planos para 2020. É bom ter algum tempo para tocar todos os dias.

Voltando ao helenista, mais tarde, porém, diz que é por causa do seu pai que muda de vida. Afinal, foi a Sophia ou o seu pai que o fez fechar-se em casa durante meses a estudar grego para poder fazer os exames de admissão?
A Sophia faz parte dessa realidade a que chamo meu pai. A realidade das letras, da poesia, da música... a realidade imaterial de coisas... Foi o meu pai que me deu a conhecer uma coisa chamada grego. E a Sophia era alguém que se interessava muito por essa cultura, que ela própria tinha estudado, penso que durante três anos, no mesmo curso que fiz.

Aliás, conhece-a antes de ir para o curso...
Sim, em abril de 1984, porque tinha feito a tradução de uns poemas dela para inglês, e encontrei-me com ela no Grémio Literário. Depois, ela convidou-me para ir a sua casa, na Travessa das Mónicas. Foi uma tarde inesquecível. Eu tinha por ela uma veneração total. A partir daí nunca mais lhe falei. Uma vez, via-a na rua a apanhar um táxi... mas ela estava longe e tive medo de que já não se lembrasse de mim. Senti vergonha de lhe falar. Foi a única vez que a voltei a ver depois daquele dia em casa dela...

Em que ela lhe diz “espero que não se arrependa”. Arrependeu-se?
De ter estudado grego? Não.

Nos seus textos dá a ideia de que teria gostado de fazer mais coisas com o alemão...
Sim, teria. Resolvi essa questão agora. Não poderia estar a fazer este trabalho se não tivesse facilidade em ler alemão. Para o projeto de traduzir a Bíblia o alemão tem sido fundamental, porque é nesta língua que, no século XIX, são escritos os primeiros textos que fazem uma abordagem mais crítica e objetiva à Bíblia. Atualmente, as bibliotecas digitalizam e disponibilizam esses documentos. Posso baixar livros do século XIX e lê-los em casa, sem sair de Portugal. É legal, gratuito.

Os protestantes foram muito importantes no estudo da Bíblia...
Sim. No final do século XVIII abriu a época, por assim dizer, ao estudo crítico e histórico sobre a Bíblia no meio protestante. Começaram a escrever-se coisas fundamentais sobre os evangelhos, sobre São Paulo, que nos dão uma abordagem histórica que não encontramos na mesma época em ambiente católico, e que só virá a aparecer no século XX, e sobretudo a seguir ao Vaticano II. Porque esse tipo de estudo até aí não estava autorizado nas universidades católicas.

Durante a Idade Média e até depois não se podia ter a Bíblia em casa...
Sim. A partir da introdução da Inquisição em Portugal penso que era permitido tê-la em latim, mas não noutras línguas. E isso aconteceu provavelmente até ao final do reinado D. José I. Embora já no fim, o marquês de Pombal tenha permitido alguma liberdade por embirrar com algumas secções da Igreja. A primeira tradução católica da Bíblia para o português foi feita por um padre católico [António Pereira de Figueiredo] no final do século XVIII, precisamente na transição do reinado de D. José I para o de D. Maria I.

Não existiu um tradutor português anterior, que morreu na Indonésia?
Sim, mas esse teve de sair de Portugal. Foi João Ferreira de Almeida [1628-1691]. Não sei se começou a tradução antes de sair de Portugal. Penso que terá nascido católico, até porque é de Mangualde, e que, ao contactar com outras realidades, se terá convertido ao protestantismo. Fez essa tradução da Bíblia com base na Bíblia protestante. Ou seja, partindo grego e do hebraico. É no século XVIII que esse padre, António Pereira de Figueiredo, irá fazer uma tradução da Bíblia que será lançada como a minha em seis volumes, a partir da vulgata latina que era a Bíblia autorizada aos católicos até 1943. Foi Pio XII que permitiu pela primeira vez que os católicos pudessem ter acesso a traduções feitas por católicos a partir do grego e do hebraico. Essa ideia de que a Bíblia católica pode derivar das linguagens originais é muito recente. Ou seja, acontece apenas 20 anos antes de eu nascer.

Qual foi a maior revelação que teve até agora?
Todos os dias tenho várias, mas até agora não encontrei nada de que não estivesse à espera de encontrar, até porque já conhecia bem o texto.

Com que idade é que começou a ler a Bíblia?
Com oito ou nove anos.

Porque era obrigado?
Não. Porque me interessava. Quis ser teólogo numa fase anterior àquela em que queria ser hindu. E os meus pais, atendendo a essa minha vontade, deram-me vários livros. O exemplar da Bíblia mais antigo que tenho é de 1973 e é em inglês.

É uma Bíblia para crianças?
Não. Cheguei de facto a ter uma Bíblia adaptada para crianças, antes dessa de 1973 que é mais difícil de ler. Na escolaridade inglesa, que fiz [em Oxford], havia uma disciplina de que gostava muito chamada Scriptures, ou seja, Escrituras, na qual se estudavam histórias da Bíblia. Era muito bom aluno, ao contrário do que acontecia noutras disciplinas, como Ciências.

Teve um padrinho católico, João Bénard da Costa. A sua mãe insistiu que tivesse Maria no nome, numa alusão à Virgem, e o seu pai escolheu chamar-lhe Cristiano. Ficou Frederico Maria Cristiano. Os seus pais eram de facto católicos praticantes?
Sim, eram. Quando eu nasci, e a minha irmã dois anos depois, eram ambos católicos praticantes, e continuaram a sê-lo durante o tempo em que vivemos juntos, até eles se separarem definitivamente em 1974. Não sei qual foi o momento da vida deles em que deixaram de ser assim tão católicos.

Tenho ideia de que dizia que a sua mãe era muito alternativa?
Sim, mas é-o mais tarde. Depois da separação começa à procura de uma identidade diferente. Até eu fazer a primeira comunhão era tudo muito normal.

Conta que o primeiro estranhamento da sua mãe em relação ao seu pai acontece no casamento em Luanda, no início da guerra. Quando lá chega encontra um homem alterado...
Sim, se bem que ela terá sentido isso mais profundamente nos anos seguintes, depois da ida para Inglaterra. Ela dizia que a experiência da guerra o tinha tornado, de facto, uma pessoa muito diferente do que era antes. A minha mãe achava que aquela escolha da Lógica e da Matemática em detrimento de outras áreas da Filosofia tinha que ver com a vontade de o meu pai se fechar num mundo muito lógico, abstrato e matemático.

Para se refugiar da emoção?
Sim. Era a maneira de ele lidar com a experiência que tivera. O meu pai nunca nos falou da guerra em Angola. Só sabíamos que tinha lá estado.

Alguma vez o confrontaram?
Não sei. O meu pai sabia como criar uma barreira para não falar sobre o que não queria. Essa era uma das características dele. Ele era o homem sem passado. Nunca falava do passado. Falava apenas do presente, do agora, o que tornava o diálogo com ele um bocadinho irritante.

Achou-o sempre hermético, e tentou sempre ser o contrário dele, derrubando paredes, barreiras. Quando começa a escrever também quer ser o contrário da Agustina, que, no entanto, admira...
O objetivo da minha escrita sempre foi a clareza. Não quero ser incompreensível. Procuro a maneira mais clara, mais nítida de exprimir as minhas ideias, e dá muito trabalho. Os meus modelos anglo-saxónicos e germânicos obedecem ao mesmo objetivo, mesmo na escrita ensaística. Não me interessa nada escrever um livro de ensaios sobre a Bíblia que ninguém entenda. Faço o maior esforço de que sou capaz para tornar a escrita clara, para que não fiquem dúvidas sobre o que estou a tentar dizer. A Agustina, por exemplo, escreve como se tivesse acesso a uma verdade superior a ela, e ela fosse a transmissão dessa verdade. Não escrevo assim. Eu prezo muito o lado do argumentativo, expondo um ponto de vista.

Apesar de ser professor universitário não esconde a vida pessoal. Fala sempre de si. Porque o faz?
Faço-o como estratégia discursiva, para arranjar uma armação em cima da qual posso pôr os meus pensamentos, em vez de optar por os colocar em abstrato. Na universidade ensinamos os alunos a evitar o mais possível o eu, a usar o impessoal e o nós majestático. Aplico essa regra na minha escrita universitária; mas fora dela posso usar todos os recursos e vantagens que me advêm da utilização da primeira pessoa do singular. Parto da minha experiência, das minhas dificuldades, da minha perceção da verdade, individual e subjetiva, que é o mais próximo daquilo que uma pessoa pode chegar. A minha escrita é sobretudo argumentativa, não é sibilina, profética. “O Lugar Supraceleste” é um livro que está cheio de argumentos, mas fá-lo de uma maneira muito mais acessível pelo facto de estes terem esse ponto de vista pessoal.

A escrita não tem um tom arrogante nem pretensioso, mas concentra-se no ego, é egocêntrica...
Mas isso é o que toda gente faz embora disfarce. À face da Terra todas as pessoas são egocêntricas, e também acho que o devem ser. O egocentrismo não significa sobrepor o nosso ego a todos os que estão à nossa volta. É uma maneira de pôr o ego em diálogo com outros egos.

Neste processo de exposição e partilha nunca teve nenhum grande dissabor?
Não. Tenho tido muita sorte. Nunca senti a mínima antipatia nas universidades em que tenho trabalhado, a de Lisboa e a da Coimbra. Há muita gente que me diz: “OK, uma universidade não é um quartel... No quartel seria diferente”. Não sei. Ainda agora algumas funcionárias da universidade de Coimbra com quem não tinha muita proximidade vieram dar-me os parabéns pelo casamento.

Há também a questão da verdade e do valor que lhe dá. Há um lado de ativista em si? A vontade de poder dizer que é homossexual e, se calhar, no futuro, católico?
Não sei. Não tenho esse lado de ativista. Isso seria um elogio. Tenho amigos que convivem bem no papel de católicos homossexuais. Eu ainda não sei se isso é possível, ou se isso não é viver na fantasia. Ainda não sei se é possível ser as duas coisas, gay e católico.

Não pode o Papa Francisco ter-nos aproximado dessa possibilidade?
Não. Este Papa, por premeditação ou por espontaneidade, tem tido o efeito de levar as pessoas a pensar nisso, mas não há nenhum dado ou decisão concreta que nos tenha aproximado dessa situação.

É um comportamento de fachada? De marketing?
Não. Acredito até que este Papa seja sincero e espontâneo. Mas uma coisa é dizer as coisas que ele diz... Outra coisa é fazer alguma coisa de concreto, em que as palavras passam a ser válidas, coerentes, aceites.

Não acredita que as palavras se possam tornar consequentes?
Não. Mas já acho que a Igreja Católica é das menos conservadoras no panorama de todas as Igrejas cristãs evangélicas de inspiração política de direita que pululam às centenas no mundo e vemos no Brasil. A Católica não está no extremo do conservadorismo mas também ainda não deu nenhum passo concreto em relação a nenhum deste temas, divorciados, recasados, gays, e nem acredito que vá dar.

É a palavra que o liberta?
Sim, enquanto verbalização do pensamento. O pensamento é uma gravidez difícil antes de vir a palavra que é necessária ao parto. Não é uma gravidez eterna. Só vejo outra forma de verbalizar o pensamento, a música.

O que é feito do “cismador meditabundo” que produziu as crónicas que publicou no Facebook e que deram lugar ao livro “O Lugar Supraceleste” (Edições Cotovia, 2015)?
Agora só vejo a Bíblia à minha frente, 12 horas por dia. As coisas que queria concretizar estão muito dentro das ideias que vão surgindo a partir do trabalho que estou a fazer. Gostava de escrever um livro sobre Jesus, e outro sobre os primeiros cem anos do cristianismo. Este conhecimento mais direto da Bíblia leva-me a pensar muitas coisas que não têm lugar no comentário à tradução e que gostaria de desenvolver. São coisas também em relação às quais ainda preciso de tempo para pensar. Ainda não acabei a minha reflexão sobre se sou cristão ou não. Neste momento acho que não sou. Ainda preciso de repensar estas coisas todas. O meu debate interior com o cristianismo ainda não acabou.

No encontro com Frei Bento Domingues ele diz-lhe que muitas das questões que coloca foram feitas ao longo de anos. Já foi ver quais as respostas encontradas dentro da própria Igreja...
Muito sistematicamente não. Interessa-me chegar lá por mim, porque penso que não se consegue ser membro de nenhuma religião por intermédio de outrem. Não é por alguém lhe dizer que o judaísmo, o cristianismo ou o hinduísmo são a solução para a sua vida que vai acreditar nisso, pelo menos enquanto as peças não couberem, dentro de si, no sítio certo. Essas coisas têm de ser trabalhadas interiormente. Haverá pessoas que acreditam desde o momento em que foram batizadas, e aos oitenta anos nunca sentiram nem por um segundo uma dúvida.

Inveja-as?
É uma boa pergunta. Acho que não. Duvido até que haja alguém que escolhendo a vida religiosa nunca, em nenhum momento, se tenha interrogado. A própria mensagem do cristianismo coloca-nos muitas perguntas sem respostas.

O que é o deixava feliz além de acabar de traduzir a Bíblia?
Não sei se acabar vai ser um momento feliz. A felicidade está em fazer. Está no caminho. Na viagem. Nesta descoberta. De tudo aquilo que fiz na minha vida, isto é aquilo que me está a dar mais prazer, satisfação, realização. É um privilégio sentir que me foi dada a possibilidade de fazê-lo. Sinto como um dom o facto de ter reunido as condições necessárias para o fazer e de ter conquistado alguma maturidade e serenidade interior.

Disse sempre que a poesia do seu pai lhe é incompreensível pelo seu hermetismo. Mas eu encontrei este poema, em “Nada Brahma” [1991], e achei que lhe assentava bem: “No Céu as Estrelas movem-se/ Uma a uma, até que soam/ De cristal as cadências da noite./ A chuva canta ao meio, lenta & longa. A mim só me resta,/ Numa polifonia que tudo contém,/ Puro, um deus que cresça,/ A aproximar-se, por degraus, da Morte.”
Esse poema é extraordinário.

E não tem tanto de si aqui?
Tem, tem mesmo. Tenho de reler esse livro. É um poema muito bonito e até se entende.

Frederico Lourenço: “Estranham o pai-nosso não ser igual ao da missa”

O primeiro dos seis volumes da Bíblia traduzida do grego por Frederico Lourenço chegou hoje às livrarias. Nesta entrevista clarifica o que será a «sua» Bíblia e adianta as reações que poderão existir na sociedade portuguesa. Garante que ocupar-se desta tarefa ao longo de mais de seis anos da sua vida, estes não são perdidos: «Pelo contrário, são anos ganhos. Cada ano a traduzir a Bíblia vale por uma década.» Quanto a alterações na sua vida pessoal também lhes nega importância: «A dedicação ao estudo é o sentido da minha vida. Sempre foi.» Uma entrevista de João Céu e Silva no Diário de Notícias:

 

A Bíblia é quase como o romance Ulisses de James Joyce, um livro muito vendido mas nem sempre lido. Uma situação que pode mudar em Portugal nos próximos anos devido à nova tradução dos Evangelhos a partir do grego por Frederico Lourenço, a edição mais completa até hoje feita no nosso país.

O tradutor é conhecido pelas suas versões também a partir do grego de Homero, A Ilíada e a Odisseia, a que sucederam edições de ambas as obras para os leitores mais novos, mas a notícia desta empreitada de seis volumes com os 80 evangelhos surpreendeu.

Nesta entrevista clarifica o que será a "sua" Bíblia e adianta as reações que poderão existir na sociedade portuguesa. Garante que ocupar-se desta tarefa ao longo de mais de seis anos da sua vida, estes não são perdidos: "Pelo contrário, são anos ganhos. Cada ano a traduzir a Bíblia vale por uma década." Quanto a alterações na sua vida pessoal também lhes nega importância: "A dedicação ao estudo é o sentido da minha vida. Sempre foi."

O ensaísta e tradutor nega uma preferência entre o Antigo ou o Novo Testamento porque tem "paixão igual por ambos", mas considera que ao ler os originais sentiu "cada vez mais que Deus é inexprimível." Avisa que o facto de ter deixado de ser um católico praticante há uns anos não prejudica a tradução: "Confirmo a minha crença em Deus, confirmo a minha identidade como "seguidor" do judeu chamado Jesus de Nazaré, mas confirmo também a necessidade de independência da religião formal."

A empresa em que está envolvido, a que os leitores terão acesso a partir de sexta-feira, teve início em em 1984, quando compra um Novo Testamento em grego na Feira do Livro de Lisboa. Recorda: "Tudo começou aí: com a compra de um livro que eu não conseguia ler e que, trinta anos depois, traduzi."

 

Leio na sua biografia no primeiro volume o seu percurso: ficcionista, ensaísta, poeta e tradutor. São credenciais para convencer os católicos a ler a "sua" Bíblia?

Não tinha pensado nisso! Mas pensando agora até faz todo o sentido. A Bíblia é um repositório de narrativas belíssimas e bem contadas, contém poesia sublime e está cheia de momentos que podemos considerar ensaísticos: basta pensar no mais extraordinário de todos os ensaios, que é o livro de Eclesiastes.

É uma leitura para católicos ou esta versão irá alargar o espectro de leitores?

Fiz o trabalho para leitores de todas as proveniências e convicções. Os comentários que faço ao texto e as introduções a cada livro estão pensados para ser úteis quer a pessoas que se interessam pela Bíblia como grande monumento da cultura, quer a pessoas que têm uma ligação íntima com as duas religiões que estão implicadas nesta grande biblioteca de livros. Sim, porque uma questão que me pareceu logo à partida importante em relação à secção que denominamos, em contexto cristão, "Antigo Testamento" foi salvaguardar, em termos históricos, o valor desses livros enquanto Escritura judaica. Mas a minha intenção é dar a ler uma Bíblia neutra em termos confessionais. Não é uma Bíblia especificamente para católicos nem para protestantes nem para ateus, embora esteja convicto de que todos encontrarão na minha abordagem qualquer porta de entrada que lhes estimule a curiosidade em saber mais sobre o texto em si.

É esse o seu objetivo?

É disso que se trata neste projeto: focar as atenções no texto propriamente dito, nas palavras que dão corpo a esse texto. Não é tanto uma Bíblia para fins teológicos (mas acho que haverá aspetos que interessarão a estudantes de Teologia), antes uma Bíblia para quem quer ver as palavras da Bíblia à lupa.

Que género de desígnio espiritual é para si esta imensa tradução?

Tenho pensado muitas vezes como a Bíblia nos enriquece espiritualmente de formas tantas vezes inesperadas, pois é um livro que dá respostas, se bem que dê origem a ainda mais perguntas na nossa relação com Deus. Parece-me cada vez mais que a leitura da Bíblia é um processo interativo no diálogo com Deus. Há momentos em se tem a sensação de não sermos só nós a dirigir perguntas a Deus. Ele também nos devolve uma série delas.

A Bíblia em um único volume está desvirtuada?

Não diria isso. Vemos pelos manuscritos mais antigos da Bíblia completa (um deles está no Museu Britânico de Londres e o outro está na Biblioteca Vaticana) que já no século IV se produziam volumes contendo o Antigo e o Novo Testamentos. Mas também temos milhares de manuscritos do Novo Testamento feitos antes da invenção da imprensa no século XV, em que os livros estão separados por volumes. Normalmente, os quatro Evangelhos formam um só volume. A vantagem de dar a ler a Bíblia em seis volumes é que permite mais aparato de notas e comentários. Também permite maior concentração dos leitores naqueles textos específicos. Muitas pessoas confrontadas com a Bíblia num só volume não sabem por onde começar. A nova Bíblia da Quetzal propõe um itinerário de leitura.

Como foi o trabalho preparatório de escolha dos vários volumes? Partiu de um consenso já existente ou fez uma escolha própria?

Parti de um consenso em termos do entendimento da Bíblia segundo parâmetros cristãos. Por isso dividi o Antigo Testamento em quatro volumes. Se estivesse a fazer uma tradução do texto hebraico, essa divisão seria em três volumes: Lei, Profetas e Escritos. Mas o próprio facto de a Bíblia Grega conter o Novo Testamento leva à partida a que o conceito seja cristão.

Qual tem sido a reação da Igreja portuguesa a esta sua tradução?

A maior parte das pessoas ainda não leu! No círculo mais próximo de padres católicos meus amigos a quem ofereci o livro, a reação tem sido positiva. A Igreja Católica não tem nada a temer com a tradução portuguesa da Bíblia Grega feita sob perspetiva histórica, não-confessional. O mesmo não direi de algumas denominações fundamentalistas em contexto protestante.

E da sociedade civil?

Alguém já me disse que estranhou o facto de o pai-nosso que leu na minha tradução não ser igual ao pai--nosso que se diz na missa. Eu respondi que existem duas versões do pai-nosso no Novo Testamento, a de Mateus e a de Lucas: ambas são diferentes uma da outra e nenhuma delas corresponde ao que se diz na missa. É por isso que os católicos têm tanto a ganhar em conhecer a fundo o Novo Testamento. Regressar à origem, à fonte.

Como é que o leitor pode entender as diferenças entre, por exemplo, o Antigo Testamento grego ter 53 livros e o católico 46?

Os sete livros "a mais" que encontramos no Antigo Testamento grego resultam de dois fatores: livros mesmo originais (como é o caso do terceiro e do quarto livro dos Macabeus ou dos Salmos de Salomão) e livros que resultam de uma reorganização diferente de livros existentes no Antigo Testamento do cânone católico.

Disse que será a Bíblia mais completa em português. Como se justifica a inexistência da versão total?

A história da tradução da Bíblia em Portugal é muito curiosa e está muito bem estudada pelo frei Herculano Alves em várias publicações. Temos de pensar que somos um país que foi dominado pela Inquisição, que desincentivou ao máximo a leitura da Bíblia, ao contrário do que acontecia nos países protestantes. Foi só no final do século XVIII que finalmente saiu em Portugal uma tradução completa da Bíblia em português, feita pelo padre António Pereira de Figueiredo a partir da versão latina da Vulgata, a única que tinha autoridade teológica no catolicismo. Antes do padre Figueiredo, tinha sido feita a célebre tradução de João Ferreira de Almeida, mas ele fê--la fora de Portugal e, por obedecer a uma conceção protestante, estava proibida de circular no nosso país. Quando a partir de 1943 o papa Pio XII começou a estimular a feitura de traduções para católicos a partir do hebraico e do grego, afigurou-se naturalmente mais prioritário traduzir o Antigo Testamento hebraico. A versão grega do Antigo Testamento acabou por ficar esquecida. Mas é importante sublinhar que, para os judeus que a elaboraram nos séculos III-I antes de Cristo e para os cristãos que a receberam como Escritura Sagrada nos primeiros séculos do cristianismo, a versão grega tinha uma autoridade equivalente à da versão hebraica.

Como foi lidar com o significado diferente daquele que tem sido convencionado para certas palavras nas Bíblias publicadas?

À partida pareceu-me evidente que o meu posicionamento fora do contexto eclesiástico me dava liberdade para explorar sentidos mais exatos das palavras do Novo Testamento, mesmo que daí resulte um texto diferente daquele que se ouve na missa. Uma questão para mim alarmante na metodologia atual de tradução do Novo Testamento é a obsessão por facilitar o texto, de modo a torná-lo acessível. O problema é que muitos livros do Novo Testamento, sobretudo as cartas de São Paulo, não estão redigidos de forma fácil nem acessível. São textos dotados de extraordinária complexidade, muito difíceis de ler. Às vezes pasmo com as traduções de São Paulo que se fazem por esse mundo fora, que dão uma imagem totalmente distorcida do texto do apóstolo. Quem consegue ler São Paulo em grego sabe que o texto é denso, complexo e muitas vezes obscuro. A minha tradução respeita o caráter de cada livro do Novo Testamento e não nivela todos pelo diapasão do facilitismo. Dou a ler o São Paulo real, como ele é. E garanto que é uma leitura desafiante, mas ao mesmo tempo compensadora. Se me dessem a ler uma tradução "facilitada" das Elegias de Duíno de Rilke, consideraria uma menorização do leitor. Porque é que os leitores de língua portuguesa não hão de ter a oportunidade de se confrontarem com o texto real do Novo Testamento? Penso que é o momento de o fazerem.

Esta tradução poderá levar em Portugal a novos estudos sobre o judaísmo e o cristianismo?

As minhas notas e comentários são de cariz histórico e linguístico e penso que aí reside um campo que poderá ser desenvolvido em Portugal no estudo da Bíblia. Um aspeto muito importante é perceber quão difícil é ver a Bíblia como a palavra imutável de Deus, porque existem tantos manuscritos e todos eles nos dão a ler um texto com pequenas (por vezes grandes) diferenças. Aplicar o pensamento crítico ao estudo da história do judaísmo e do cristianismo continua a ser tarefa prioritária. Direi o mesmo em relação à compreensão histórica da feitura da Bíblia, com os seus 80 livros (na versão grega) compostos ao longo de vários séculos, em contextos autorais e geográficos diferentes. Foi um pouco assustador ver alguns candidatos presidenciais à eleição nos EUA afirmar em 2016 que Deus criou o mundo em seis dias e que a Terra tem 6000 anos, só porque esse é o cômputo da Bíblia, que é a Palavra de Deus e, por conseguinte, infalível. Mas a Bíblia levanta perguntas incómodas para a história do judaísmo, como se vê logo na questão de hoje haver historiadores e arqueólogos em Israel que afirmam a impossibilidade histórica do Êxodo e da própria escravidão dos judeus no Egito. Que choca muitos judeus hoje.

 

 

Frederico Lourenço: Ler a Bíblia como quem entra numa “sala rearranjada”

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Primeiro volume da tradução “não confessional” da Bíblia feita por Frederico Lourenço chega esta sexta-feira às livrarias. Lê-la é como “quem entra numa sala que conhece e que foi rearranjada”, com alguma “dose de excentricidade”. A jornalista Maria João Costa fez, para a Rádio Renascença, a reportagem do lançamento da Bíblia, que decorreu na quinta-feira, ao final da tarde, na Sala Sophia de Mello Breyner, Centro Cultural de Belém:

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Ler a tradução da Bíblia feita por Frederico Lourenço é como “quem entra numa sala que conhece e que foi rearranjada”, com alguma “dose de excentricidade”. A descrição é de Miguel Tamen, professor catedrático de Letras e um dos convidados para apresentação do primeiro volume da tradução da Bíblia grega editada pela Quetzal e que chega esta sexta-feira às livrarias.

Este primeiro volume tem apenas os Quatro Evangelhos e é o início de um projecto que junta Frederico Lourenço, especialista em línguas clássicas, e a editora Quetzal, liderado por Francisco José Viegas. O projecto vai prolongar-se até 2019 e consiste em traduzir do grego 80 livros, ou seja mais sete do que o cânone da Igreja Católica e mais 14 que os livros admitidos pelos protestantes.

Na apresentação, esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Frederico Lourenço explicou que quis fazer uma tradução com uma “perspectiva não confessional”, ou seja não se comprometendo com as interpretações feitas por qualquer confissão religiosa. Frederico Lourenço pretende ter perante a Bíblia uma “atitude meramente universitária”, mas os seus convidados para a apresentação duvidam que seja possível ter essa atitude.

Miguel Tamen disse que os portugueses que não são famosos por lerem a Bíblia “nunca a lerão independentemente das suas crenças”, ou seja daquilo em que acreditam ou não. Qual é, então, a diferença que esta tradução pode fazer?, perguntou o professor universitário . E respondeu: “É que muitos, pela primeira vez, vão lê-la fora de um contexto litúrgico. É como ler ‘Os Maias’ fora da aula de Português.”

Miguel Tamen disse que traduzir a Bíblia não é como traduzir qualquer outro livro e considerou mesmo “esquisita” a ideia do tradutor de que é possível admirar a Bíblia só pelo seu valor literário. “Admirar sem acreditar é como conhecer alguém só pela fotografia”, afirmou.

Nova tradução na forja

Numa apresentação que também poderia ter sido um debate entre as figuras convidadas para a apresentação e o tradutor, o padre Tolentino Mendonça disse que aquilo que a Miguel Tamen pode parecer excentricidades existe noutras traduções. E salientou a “coragem” de Frederico Lourenço em lançar-se numa tradução solitária quando as grandes traduções da Bíblia que se fizeram no século XX foram sempre trabalhos de equipa.

O padre Tolentino anunciou, aliás, que a Conferência Episcopal Portuguesa está a patrocinar uma nova tradução da Bíblia e que, par ao efeito, já reuniu uma equipa de biblistas e exegetas.

Quanto à tradução de Frederico Lourenço, este padre e poeta católico considera que “não altera nada do original”, que o grande contributo que traz é para a língua.

Também Pedro Mexia salientou a continuidade que esta tradução traz ao essencial da Bíblia que, para si, é o acontecimento da Ressurreição. “Ao fazer uma nova tradução, o Frederico Lourenço deu continuidade a esse acontecimento, não no sentido editorial, mas no sentido existencial”, afirmou este poeta e ensaísta, que, ainda assim, estranhou e discordou de alguns pormenores da tradução. Nomeadamente, o uso da palavra “erro” em vez de “pecado”.

Contudo, para Mexia há uma dimensão muito importante: a da beleza. “Não sou capaz de ler uma Bíblia que não parece bem escrita. Esta versão garante que essa dimensão não está esquecida”, afirmou.

V.S. Naipaul: “Quero sempre acabar um livro. É como defino a minha carreira: acabo livros”

 

O Nobel da Literatura fechou a primeira noite do FOLIO, o festival literário de Óbidos. Numa entrevista conduzida por José Mário Silva, Naipaul falou do sofrimento que muitas vezes a escrita envolve. Esta é a reportagem de Rita Cipriano para o jornal Observador. (Na foto, de André Marques), VS Naipaul conversa com José Mário Silva.

 

“Não sei se era isto que querias saber…”

A resposta foi dada vezes sem conta. Aos 84 anos, V.S. Naipaul não ganhou um novo amor pelas entrevistas, muito pelo contrário. Continua a detestá-las tanto quanto detestava há 59 anos, quando lançou o primeiro livro, The Mystic Masseur. E o jornalista José Mário Silva, a quem coube conduzir a entrevista desta quinta-feira no FOLIO, sabia disso. Sentado na ponta de uma mesa estreita, parecia inseguro e a voz saia-lhe trémula. Não é que tivesse “feito um voto de silêncio” como o pai de Willie Somerset, personagem do romance de Naipaul Uma Vida PelaMetade, que fez questão de lembrar. Não, José Mário Silva estava apenas “sem palavras” por estar perante uma “figura como Vidiadhar Surajprasad Naipaul”.

V.S. Naipaul nasceu em 1932 em Trinidad e Tobago. Ansioso por se libertar da prisão que considerava ser a sua própria família, saiu de Trinidad assim que pôde, instalando-se em Inglaterra. Estudou em Oxford e trabalhou como jornalista para a BBC. Foi nos estúdios do canal de televisão que começou a escrever o primeiro livro, The Mystic Masseur, lançado em 1957, quando tinha 25 anos. Foi armado cavaleiro pela Rainha Isabel II em 1999 e recebeu o Prémio Nobel da Literatura dois anos depois, em 2001. Escreveu 30 livros de ficção, não-ficção e ensaios, muitas vezes sobre personagens isoladas, residentes num país que lhes é estranho.

Com 84 anos, V.S. Naipaul é uma espécie de lobo-do-mar solitário, com muitas histórias e pensamentos que prefere guardar só para si. Com uma vontade cada vez maior de escrever, nos tempos livres costuma ler os grandes clássicos. Na mesa-de-cabeceira tem agora Virgílio e Horácio, “que gosta de ler em latim para manter a mente ativa”, como fez questão de contar à audiência Nadira Naipaul, mulher do escritor, depois de se ter sentado à beira do palco para a ajudar o marido a responder às questões colocadas pelo público.

Passaram muitos anos desde que começou a escrever — “escrevo há tanto tempo que não consigo responder a isso”, chegou a dizer — e a idade já pesa. E isso notou-se. Chegou a Óbidos numa cadeira de rodas e por vezes era difícil perceber o que dizia. Mas a ironia mordaz distinguia-se à distância. Implacável, sempre que não gostava da pergunta que ouvia dizia: “Tenta outra vez”, como que desafiando José Mário Silva a fazer mais e melhor. A ir mais longe, como ele. Quando respondia o que queria e não o que o jornalista lhe pedia, questionava: “Isto ajudou a responder à tua pergunta?”.

A conversa entre os dois, que decorreu na Tenda de Autores, arrancou com o mote deste ano do festival — utopia –, um conceito que o escritor de Trinidad começou desde logo por descartar. “Para mim não significa nada, nunca significou nada”, afirmou. “As pessoas falam muito sobre isso, mas eu nem sequer penso no assunto.” Contudo, Naipaul não hesita em dizer que o mundo não precisa de utopias: “Não precisamos de ideias para desfazer o mundo, mas que reforcem o afeto que temos pelo mundo.”

Questionado sobre a sua própria visão do mundo, Naipaul admitiu que tenta evitar esse tipo de “questões difíceis”. “Mas penso que a escrita torna o mundo simples, e espero ter conseguido fazer isso através da minha escrita.” “Escreve para entender o mundo?”, perguntou-lhe então o jornalista José Mário Silva. “Para perceber o que acontece do lado de fora. Tento fazer isso.”

Para V.S. Naipaul, um dos grandes “mistérios da escrita” é o processo de escolher um tema para ser retratado nas páginas de um livro. E também o mais difícil porque não se pode ser um escritor “e não ter nada do que falar”. “Escolher o tema é metade do trabalho”, explicou. “Isso é algo que não posso fazer por ti. Não posso dizer-te o que fazeres. Tens de continuar e começar a sentir, miraculosamente, que estás em paz com o teu trabalho. Isto ajudou a responder à tua pergunta?”

Ao longo de 59 anos de carreira literária, Naipaul nunca deixou um livro a meio, uma linha por escrever. Sempre que começou um novo livro, acabou-o. Porque, se assim não fosse, “não seria um escritor”. “Quero sempre acabar um livro. É como defino a minha carreira: acabo livros.” Os primeiros que terminou foram baseados na sua infância em Trinidad e Tobago e nas suas experiências familiares, mas nega que tenha recorrido “demasiado” a esse material.

“Tinha uma ideia do mundo em que vivia. O material estava por todo o lado, à minha volta. Bastava olhar à minha volta e estava ali. Não precisava de procurar dentro de mim, dentro da minha infância, da minha família.” Porque é preciso saber olhar para se ser escritor — com olhos de ver. Sentada no palco, Nadira Naipaul fez questão de frisar esse lado do escritor. “Quando ele estava a escrever The Masque of Africa, visitamos o Gabão, que é um país muito perigoso”, contou. “Arranjaram-lhe um helicóptero e do céu conseguia ver-se que a selva era tão densa que eu pedi-lhe para não irmos. E ele disse-me: ‘É por isso que eu sou escritor e tu não. Eu preciso de ver as coisas ou então não escrevo sobre elas’.”

 

Pode parecer fácil, mas Naipaul considera o processo de escrever, criar uma história, como muito “complexo” e até mesmo difícil de explicar. “Estou a descrever um processo complexo e não quero simplificá-lo. Não consigo dizer-te o quão difícil foi — foi tão difícil — no início escrever uma página. E se falar sobre isso desta forma casual, estou a ser injusto — injusto em relação ao meu trabalho, em relação a encontrar a minha própria voz. Não sei o que te dizer mais sobre isto. O que fiz, fiz a partir do instinto. Queria escrever um livro, e isso é um desejo importante.”

Questionado sobre o porquê de escrever sempre sobre personagens isoladas — outsiders –, o autor disse ter percebido, há já vários anos, que é esse o seu tema. “É o material com que lido, mas estou disposto a lidar com ele desta forma porque se pensar demasiado sobre isso vou sempre dizer mais qualquer coisa.” Sobre o facto de os países de que fala nos seus livros serem sempre imaginários e não reais, explicou que “para tornar um país real, é preciso estudar história, geografia”. “Não quero fazer isso, nunca quis fazer isso.”

Nadira Naipaul, que ajudou o marido com as perguntas que iam sendo colocadas, sentiu-se quase na obrigação de intervir quando o tema dos “países reais” veio à baila e partilhar como Naipaul ficou chocado com o que viu no mundo islâmico quando estava a escrever o livro de viagensAmong the Believers: An Islamic Journey. “Quando ele viaja, tem de ver. Os muçulmanos — todo o tipo de pessoas — querem contar-lhe as suas histórias. Ele precisa sempre de chegar perto da verdade“, frisou.

Depois de terminada a entrevista, Naipaul ainda assinou alguns livros da audiência. Calado, limitou-se a assinar os livros que lhe iam colocando em frente. No final, ficou a sensação de ser verdade o que disse a José Mário Silva em relação à idade. “A idade empurra-nos em direção ao silêncio. As pessoas querem que não faças nada. Tento evitar isso continuando em frente. A necessidade de escrever mais e mais é uma preocupação constante. Outra vez, outra vez e outra vez”, disse. “Mas é horrível dizer isto desta forma. Está bem assim para ti?

Laborinho Lúcio: um hábil romance, um toque geracional, diz Mário de Carvalho

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O escritor Mário de Carvalho apresentou, em Lisboa (na Casa do Alentejo), o novo romance de Álvaro Laborinho Lúcio, “O Homem Que Escrevia Ezulejos". É o seu texto de apresentação que publicamos a seguir:

Eu poderia começar por dizer como me sinto honrado por me ter sido concedido o privilégio de fazer este lançamento de O HOMEM QUE ESCREVIA AZULEJOS do escritor Álvaro Laborinho Lúcio. No entanto, isso poderia soar como uma fórmula de cortesia, recebida distraidamente, no jeito das banalidades estereotipadas dos discursos solenes.

Mas não posso eximir-me, logo à partida, a declarar a extrema admiração que desde há muitos anos sinto pelo autor, pelo seu discorrer célere, o vocabulário apropriado, o pensamento sustentado, arguto e cristalino. Pela sagacidade do jurista. Pela figura exemplar de cidadania que representa.

Tenho de acrescentar que subjaz a estas palavras alguma incomodidade. É que eu faço parte daquele grupo de pessoas que cultivam (ou para si, ou para uma selecção restrita e íntima) os seus apreços especiais e únicos, que guardam e preservam em privado as suas descobertas, as suas estimações (e também, abone-se a verdade, de passagem, as suas reticências).

Neste caso, todavia, tenho de reconhecer que me vejo obrigado a partilhar, não com meio mundo, mas parece que com TODO O MUNDO a minha simpatia. Pessoas das mais diversas origens, dos mais distanciados horizontes, coincidem na admiração pelas qualidades e pela personalidade do Dr. Laborinho Lúcio. É, ao que creio (e arrisco), o primeiro caso comprovado de unanimismo nacional.

II

Impõe-se-me também uma muito especial e carinhosa saudação à casa do Alentejo, ao seu insistente e vigoroso trabalho, marcando o trilho duma forte e, não raro, belíssima, identidade cultural. Não pode deixar de me vir à memória o denodo e o empenho com que o meu pai, Domingos Martins Carvalho, acompanhou estas iniciativas e a homenagem que lhe foi justamente prestada pelos corpos gerentes desta casa.

 

III

Eram absolutamente inevitáveis (enfatizo o superlativo pleonástico) as breves, incompletas e banais considerações sobre o doutor Laborinho Lúcio que ficaram atrás. Mas nós encontramo-nos aqui hoje para falar, não do jurista distinto, não do cidadão assinalado, mas do escritor Álvaro Laborinho Lúcio e do seu romance (o segundo) O HOMEM QUE ESCREVIA AZULEJOS.

Comecemos pelo título, que o autor/narrador, num pequeno prólogo, desvenda ter resultado do contraste entre a nudez branca dos modestos azulejos de cozinha de casa dos avós e o sumpto dos azulejos da Igreja mais próxima. É a primeira oposição de contrários (para usar a expressão hegeliana) dos muitos que encontraremos no livro. Gosto de pensar, adverte, desde logo o autor. E esse gosto está em permanente escuta e inquirição, durante todo o percurso que perfaz a leitura do romance. Entretece-se, não em divagação sonolenta, sobre esta ou aquela temática, mas na textura das próprias acções, à medida que elas se desenrolam, numa cadência que, sem embargo da sua imbricada estruturação, evita derivações e pontos mortos,

 

A brevidade e a clareza são, com efeito, uma característica de cada um dos 45 pequenos textos que enformam a sequência deste romance. Assim breve quereria eu ser, não fosse a extrema riqueza e variedade dos quadros no seu, por vezes, complexo relacionamento (a clareza e a concisão não excluem a complexidade…), apelando constantemente para desenvolvimentos sucessivos. A mera enunciação dos itens merecedores de aprofundamento, esgotaria o nosso tempo. Esto brevis, diziam os antigos. Pois farei o possível, a bem da vossa paciência e a mal da minha inépcia…

IV

O autor opta pelo seccionamento do texto não em capítulos, não em quadros, não em cenas, não em cantos, nem em alguma dasem azulejos, que no seu conjunto contam uma história. Remete para os belos e por vezes estranhos embutidos vidrados que encantam os ambientes, e valem cada um por si, mas relevando, no conjunto um sentido que alcança mais que a soma dos seus elementos.

Dois painéis de azulejos constituem então esta narrativa, focalizados cada qual, em seu espaço, seu tempo e seu feixe de interrelações. Nos primeiros 32 azulejos sobreleva uma amizade profunda e antiga entre dois homens bem diferentes um do outro (Norberto e Marcel), (ambos grandes bebedores de cerveja) numa localização bem delimitada, um bar, algum mistério, reflexões sobre o mundo, a história e a vida, e certos enigmas que permanecem, provindos do fundo da própria literatura. Aquele espaço, o bar, é um centro de irradiação e de confluência, que vemos concluir e mobilar («coisas velhas, para imprimir carácter») e encontra-se tão fisicamente presente, que quase arriscaria conferir-lhe o estatuto de personagem. Cruzam-no muitos outros espaços, gente, memórias, gestos. Atrás do balcão, Marcel. Para cá, o lugar de Norberto. Aquele lugar e não outro. O «centro», a «periferia», nova oposição de contrários, aliás recorrente.

Marcel, a personagem mais reflexiva, porventura a mais perspicaz, considerará que o centro é sempre o lugar do poder e que à periferia compete a liberdade. «A liberdade, -- diz Marcel (o que o autor pensa não sabemos, nem vem ao caso) dá-se melhor na periferia e só na margem se encontra com a sua raiz».

E o assumido gosto de pensar do narrador vai interpelando os grandes autores, sempre na busca de um mundo mais humano. O humanismo, aliás, reportando-se por exemplo a Erasmo, é como que uma melodia cuja toada vamos reconhecendo, à medida que o livro avança.

A partir do espaço do bar confluem os tempos, as lembranças, as vozes transmudam-se, há um vai e vem entre a primeira a terceira pessoa, que ora distancia, ora aproxima, ora lembra, ora comenta, ora observa, ora interroga.

O bar é o centro do mundo, em que são evocadas, se encontram, ou vão surgindo as diversas personagens, abrindo para apontamentos ternos, irónicos, ou movimentados. Desde Maria Eugénia, a velha mundana, iniciadora de rapazes (cada ruga seu rapaz) ao violinista e professor de Música João Francisco da Silva, (dito Corelli e muito mais nomes), o avô, que é, porventura, a figura central do romance, Desde Jacqueline, a irmã de Marcel, a quem falta um urso de peluche na sua colecção, (interrogamo-nos porquê), desde a Jovem Otília, prostrada por um desgosto que saberemos qual foi, até Zulmira, encontrada mais tarde, feita avó, até ao alcunhado Tumor Anarquista, desafiando a doença com brio ou ao Poeta Póstumo, projectando no futuro a sua altivez criativa, sem esquecer dois simpáticos cachorros, que a muito assistem, lá de cima, numa galeria do bar, --- é-nos trazida, em girândola, um crepitar de perfis e comportamentos que bem exprimem a vertiginosa capacidade de observação e de confabulação do autor, repassada incidências intertextuais que convocam muitas leituras e reflexão sobre elas.

Gostaria de destacar, como traço forte de originalidade, a maneira como jovens casais se encontram pela primeira vez e que confundiria os apaniguados da escrita argumentária anglo-saxónica, sempre à procura de novas ocasiões de BMG (boy meets girl) [ou girl mets boy, GMB]. – para dar um sinal de politicamente correcto-- Por exemplo: num concerto, entre palco de orquestra e plateia, e numa bicha de voto, em certas eleições de 1975.

Duas menções também para o que me parece ser uma certa nostalgia da clandestinidade que, de certo modo, modela as personagens: o copiógrafo, mencionado, aliás, no livro em antelóquio, sobre fundo escuro, o bem fadado stencil, relance luminoso, mau grado as suas imperfeições, nos tempos acinzentados das nossas juventudes; dele saíam, assim hierarquizados por Álvaro Laborinho Lúcio, o panfleto, o comunicado, o manifesto que iluminavam a nossa luta. A senha e contra-senha para um encontro na gare de Austerlitz (a partir duma canção célebre de Charles Trenet), o uso de pseudónimos convocam outrossim atitudes e códigos da resistência de então.

São inúmeras as referências culturais presentes no texto. Umas expressamente declaradas pelo autor em nota, outras avocadas, en passant, durante a sequência, outras tecendo a malha da prosa, reflexo das leituras do autor que responde aos desafios colocados por uma ancestral Literatura, donde provém e aonde imerge.

Não é por acaso que, nas primeiras linhas, logo antes de se lembrar o Bartleby de Melville, encontramos o incipit: «Chamo-me Norberto», a lembrar o celebrado «Call me Ishmael» do mesmo enorme escritor.

Mas – e menciono a eito -- Vasco Pratolini, os Esteiros, a Seara de vento, A Noite e a Madrugada, Roger Garaudy, Jacques Brel, Daniel Baremboim, Ettore Scola, Hemingway, Barthes, Erasmo, através de Zweig, Bernard Shaw, Scarmeta, Thomaz da Fonseca (um querido autor que muito me apraz) Goethe e Flaubert, sobretudo e largamente, num exercício de intertextualidade que subjaz a toda a obra, e que liga ambos os painéis com a mesma argamassa. Um lugar especial para Júlio Cortázar, com o seu extraordinário conto «A Auto-estrada do Sul» que também, em tempos, tocou muito fundo, na minha sensibilidade.

Duas palavras ainda – muito mais abreviadas do que o texto mereceria – para assinalar aspectos estilísticos do escritor.

Antes de mais, a frase breve, concisa, quer se trate de escrita panorâmica, quer duma sugestão de pormenor. Mesmo nas descrições – em que tantas vezes os autores mais experimentados cedem ao expansionismo, António Laborinho Lúcio mantém domina o seu ritmo.

A palavra precisa e certeira é timbre do autor. Dois jogos que as personagens do romance praticam são, precisamente jogos de palavras (de adivinhação e aplicação). Devo-lhe o ter-me ensinado o caixotim e o componedor, embora não prometa que as vá utilizar na minha próxima refeição (private Joke). Fiquei a saber – e esta não me escapará – que, quando não há nada que dizer, deve ocorrer sempre um advérbio para salvar a situação. Também tive notícia duma santa irlandesa que a minha ignorância encobria, chamada Dimphna padroeira dos psiquiatras e seus clientes.

Passo por cima, por imperativos de brevitas, o dispositivo encontrado pelo autor, usando o delírio de uma personagem para nos pôr em contacto com os SEUS autores (que, curiosamente, são, em grande parte os meus), os variados e patentes efeitos de surpresa, de diferimento e de suspensão para apenas referir a destreza muito peculiar no tratamento do tempo.

Dirá, à janela, João Francisco, porventura o avô mais amado sobre que eu tenho lido -- «Vês estas pessoas na rua? Umas caminham devagar, outras apressadamente» (encurto), com a música acontece o mesmo, minha filha. Cada peça tem um caminho e um destino. Para lá chegar há o tempo de correr, o tempo de caminhar, o tempo para andar vagarosamente. Tanto ali fora, como na música, temos andamentos diferentes

E, poderia o autor acrescentar, no texto literário. Com efeito, o tempo recua, estabiliza, projecta-se, concentra-se, expande-se. Uma acção de poucos minutos é simultânea com a revisitação de centenas de anos, uma enunciação, brevíssima, pode anteceder um desvio em que se deambula por outras paragens, outros incidentes, outros pensamentos e falas. Este manuseio do tempo que se contrai e se dilata, de envolto com as mudanças de voz e os intercâmbios de pontos de vista, numa indisfarçada perícia, seriam, só por si uma evidência do domínio deste escritor sobre as categorias da narrativa.

Muito mais haveria a dizer acerca deste hábil romance, designadamente, o toque geracional ( Françoise Hardy, Anthony Perkins, o Bolero de Ravel, na versão de Frederico de Freitas)…, e, chegado a este ponto, eu diria, citando o escritor: «Qual foi o passo que ficou por dar? (…) Qual a palavra que não foi dita»?)

Tentei dar conta da exuberância, fecundidade, profusão, e alcance do livro que merecerá, porventura, análise mais estendida, competente e meticulosa. Mas também sei, por larga experiência, que os circunstantes aqui se encontram para ouvir e saudar o autor. Aproveito a prerrogativa de estar no uso da palavra para desde logo, e antes de todos o felicitar e desejar os maiores sucessos, de toda a ordem, para este sedutor e inteligente romance.

Mário de Carvalho

V.S. Naipaul em Óbidos: Nobel da Literatura tem “necessidade de escrever mais e mais”

Diz que com a idade o querem “empurrar para o silêncio”, por isso, mais do que nunca, tem a preocupação constante e necessidade de escrever. V.S.Naipaul, o Prémio Nobel da Literatura em 2001, esteve em Óbidos na segunda edição do Fólio onde explicou que escreve para compreender o mundo que o rodeia. Esta é a reportagem de Maria João Costa para a Rádio Renascença.

 

   

Sentado numa cadeira de rodas, V.S.Naipaul mostrou ser um homem de poucas palavras, mas com muito humor. Aos 84 anos, o Prémio Nobel da Literatura não quis responder à pergunta do jornalista José Mário Silva sobre como é que via o mundo de hoje, mas o escritor de origem indiana preferiu explicar que com a sua escrita tenta “tornar o mundo mais simples” e ao mesmo tempo “perceber o que está a acontecer lá fora.”

Convidado pelo organização do Fólio, o Festival Literário de Óbidos, o autor de “A curva do Rio” fala da escrita como uma missão. “Sempre pensei que iria ser um escritor”, afirma Naipaul que decidiu começar a escrever aos 11 anos.

Não consegue “evitar” a arte da escrita e explica à plateia que comprou bilhete para o ouvir que “um dos grandes mistérios da escrita” é encontrar um tema. “Uma vez encontrado o tema, metade do trabalho está feito”, confessa o escritor que conclui que às vezes é esperar por “um milagre”.

Sempre com a mulher sentada na primeira fila a servir de ponto para o ajudar nas respostas e a esclarecer alguns detalhes, Naipaul fala da escrita como “um momento feliz” e “algo maior”. Contudo, admite “dor” e sofrimento quando confrontado por José Mário Silva com algumas ideias dos seus livros, nomeadamente sobre o colonialismo.

Com cerca de três dezenas de livros publicados, o escritor com cidadania britânica gosta que a sua escrita se divida entre a ficção e a não-ficção.

E hoje sente uma espécie de urgência em escrever. Quanto questionado sobre o facto de não publicar há algum tempo, o Nobel afirma que “mais do que nunca” quer escrever. Na fragilidade dos seus 84 anos diz: ”O que acontece com a idade é que somos empurrados para o silêncio. Muitos empurram-nos a não fazermos nada. Dizem que já tenho tudo ou já fiz tudo. Isso é errado e eu tento evitar isso. É continuar. É uma preocupação constante, a necessidade de escrever mais e mais...”

Em Portugal, a Quetzal acaba de editar “Um Estado Livre”, romance de 1971, com que venceu o Booker Prize.

Na conferência noite dentro explicou que “sempre” o culparam por escrever “sobre países imaginários” e admitiu que não gosta de escrever sobre “países reais” porque isso implica por “História e Geografia” nos livros para os tornar “reais” e esse exercício não lhe interessa.

Naipaul, que aceitou dar autógrafos no final da sessão, quis ainda responder a respostas do público. Aos que o ouviam explicou que anda a ler os clássicos, que “não deixa livros inacabados” porque se o fizesse “não seria um escritor” e acrescenta: “É assim que me defino – acabo livros”.

O autor de “Uma vida pela metade” explica que escreve “com muito cuidado e com grande preocupação pela palavra” e conclui que não escreve e rescreve “como alguns fazem ou dizem que fazem”.

 

“O Homem Que Escrevia Azulejos”, de Álvaro Laborinho Lúcio: quarta-feira em Lisboa, sexta-feira em Coimbra

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Foi na passada quarta-feira: o lançamento do novo romance de Álvaro Laborinho Lúcio publicado pela Quetzal. A festa decorreu na Casa do Alentejo, em Lisboa. O livro, conta a história de dois homens (Marcel e Norberto) que atravessam, juntos, todo o tempo de uma vida. Escolheram, para viver, a ficção – e é nela que são clandestinos. A eles se juntam João Francisco e Otília, avô e neta, ambos na busca incessante do sublime, igualmente recusados pela realidade. Um homem que escrevia azulejos – que reencontrou a utopia e gostava da sátira – reparou neles e pintou-os.

Hoje, sexta-feira, novo lançamento: às 18h30, no Museu Machado de Castro.

V.S. Naipaul. Um escritor à procura de uma terra

Nuno Costa Santos – também ele autor da Quetzal; publicou este ano “Céu Nublado com Boas Abertas” – lembra algumas dimensões da obra de V.S. Naipaul, esta semana convidado do Folio, Festival Literário de Óbidos. É o texto de Nuno Costa Santos  publicado pelo Observador.

 

O mundo de Vidiadhar Surajprasad é transfronteiriço. Nascido em 1932, em Trinidade, descendente de indianos, foi viver para Inglaterra no ano de 1950, vindo a frequentar a universidade em Oxford e a colaborar com a BBC. Começou por se sentir um estranho no país mas hoje admite que encontra aí algum conforto. Nos seus livros a confluência de geografias é permanente, criando uma complexidade de vivências e trilhos identitários. É como se estivesse sempre à procura de um lugar que possa dizer seu, sem nunca o conseguir encontrar.

Em A Curva do Rio, o protagonista, Salim, filho de comerciantes resolve ir fundar uma loja num país do interior de África e descreve assim o lugar de onde vem: “A costa não era verdadeiramente africana, ela era simultaneamente árabe, indiana, persa e portuguesa, e nós, que vivíamos na costa, éramos na realidade gente do Oceano Índico”. As suas múltiplas heranças culturais tornaram mais difícil aquilo que considera ser uma parte decisiva trabalho de quem escreve: o foco, a escolha dos temas sobre os quais faz mesmo sentido escrever. Encontrou uma voz emMiguel Street (1959), passado em Port of Spain, na sua terra-natal.

Naipaul começou a querer ser escritor por volta dos dez anos, inspirado pelo pai, jornalista e autor de pequenas histórias – e figura que inspirou um dos seus romances mais distintivos, Uma Casa para Mr. Biswas. Sabe que não há literatura, digna desse nome, sem fenda, sem um um conflito com os lugares, com as pessoas e com o próprio escritor, ainda que tudo possa ter uma espécie de uma redenção, mesmo que ferida.

Identificando-se com a vocação de viajante e o olhar agudo de Joseph Conrad e procurando uma prosa precisa, sem tentar o esforço de parecer virtuosa, a arte literária de Naipaul, feita de desassombro, de humor e de impertinência (correndo o perigo da gratuitidade), passa por géneros como o romance, o ensaio e a reportagem e começa por se distanciar do testamento cultural que a sua família enformada pelo hinduísmo lhe deixou. É reveladora de um perspectiva sem romantismo sobre as sociedades — indianas, indonésias, africanas — que retrata a seu modo e com as quais conviveu nas suas viagens e ainda de uma aversão radical a qualquer tipo de religiosidade ou espiritualidade extremas. Uma das suas imagens de marca são as suas generalizações, que motivam ou acusações de racismo ou riso. “Nunca quis ser porta-voz de ninguém”, afirma em sua defesa, destacando o carácter individual do seu ponto de vista e do seu trabalho.

Há um conselho sensato que diz que não se deve conhecer de perto os escritores que se admira. Naipaul é, para muitos, um deles, sendo conhecido, através de relatos biográficos, pela sua misoginia e crueldade, reveladas na forma como assumiu ter lidado com as mulheres com quem teve relacionamentos longos. E também pela sua irascibilidade, pela sua antipatia e pela sua vocação para o auto-elogio. Entrevistá-lo é muitas vezes um exercício penoso, que obra ao entrevistador a reformular as perguntas a pedido do entrevistado. Assume que não sabe propagandear os seus livros e diz que nada lhe interessam as opiniões alheias sobre o que escreve. Exagera, mais uma vez. O americano Paul Terroux emocionou-o quando, num festival literário em 2011, num movimento de reaproximação, depois de anos de guerra verbal, o elevou e comparou a Charles Dickens.

Em Portugal, depois de ser editado pela Dom Quixote, o Prémio Nobel de 2001 tem sido publicado pela Quetzal, com títulos como Num Estado LivreO Enigma da Chegada e A Curva do Rio. Dada a escolha dos mapas que percorre, não são raras as referências na sua obra aos portugueses enquanto povo colonizador. Uma Vida pela Metade passa-se em parte num país africano colonizado por Portugal, entre famílias com apelidos como Correia e Noronha. Agora está em Óbidos para conversar com o jornalista e crítico José Mário Silva.

A Bíblia traduzida por Frederico Lourenço: começa uma leitura nova

Na próxima quinta-feira, 22, às 18h30, no Centro Cultural de Belém (Sala Sophia de Mello Breyner) — estão todos convidados — lançamento do primeiro volume (Os Quatro Evangelhos) da nova tradução da Bíblia, por Frederico Lourenço.

Apresentação de Tolentino Mendonça, Miguel Tamen e Pedro Mexia.

 

Com a publicação do presente livro – contendo os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João – dá-se início a uma coleção em seis volumes que disponibilizará, pela primeira vez em língua portuguesa, a tradução integral da Bíblia Grega (Antigo e Novo Testamentos). Antes de descrever sinteticamente no que consiste a Bíblia Grega e quais são as diferenças que, no Antigo Testamento, ela apresenta relativamente à Bíblia Hebraica, convém desde já esclarecer de forma muito clara as línguas em que os livros da Bíblia foram originalmente escritos.

Em grego foram originalmente escritos todos os 27 livros que integram o Novo Testamento, assim como sete livros do Antigo Testamento que encontramos nas Bíblias organizadas segundo o cânone católico: Tobite, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Ben Sira), Baruc, 1º Livro dos Macabeus, 2º Livro dos Macabeus. Os restantes 39 livros do Antigo Testamento do cânone católico foram originalmente escritos em hebraico (com algumas frases desgarradas emaramaico nos livros de Génesis, Jeremias e Esdras, assim como uma secção mais relevante nesta língua no livro de Daniel).

O aspeto em que as diferentes versões da Bíblia mais divergem é no número de livros que compõem o Antigo Testamento. A Bíblia Hebraica propriamente dita (que, por razões óbvias, não tem Novo Testamento) contém 24 livros. Divididos e subdivididos de outra maneira, estes mesmos 24 livros em hebraico constituem os 39 livros do Antigo Testamento segundo o cânone protestante. Por outro lado, o Antigo Testamento segundo o cânone católico conta 46 livros (juntando aos 39 livros, originalmente escritos em hebraico, sete livros, originalmente escritos em grego). No entanto, a Bíblia Grega é ainda mais extensa do que a católica, uma vez que conta, no total, 53 livros: aos 46 livros do cânone católico juntam-se mais sete livros.

Em suma: a presente tradução dará a ler os 27 livros do Novo Testamento e os 53 livros do Antigo Testamento grego. Será, assim, a Bíblia mais completa que existe em português.

A Bíblia Grega terá nascido em Alexandria (Egipto), no século III antes de Cristo, com a adaptação para grego do Pentateuco (Torah). Segundo uma epístola helenística, preservada em vários manuscritos e alegadamente escrita por um tal de Arísteas a seu irmão, Filócrates (carta depois citada por Fílon de Alexandria, Flávio Josefo, Santo Agostinho, entre outros), a autoria da primeira redação grega do Pentateuco deve ser atribuída a 72 estudiosos judeus (daí a tradicional denominação Septuaginta ou Bíblia dos Setenta), reunidos no Egito para esse fim pelo rei Ptolemeu Filadelfo. Na verdade, este primeiro passo na constituição da Bíblia Grega reflete sobretudo a crescente helenização da cultura judaica da Diáspora no período helenístico (quando um número cada vez maior de judeus helenizados começou a precisar de ler as suas Escrituras naquela que era, para todos os efeitos, a sua língua – o grego).

Durante os séculos seguintes, a escritura judaica em versão helénica foi crescendo: aos Livros da Lei (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio) juntaram-se os restantes 34 livros que são comuns à Bíblia Hebraica (onde esses livros se encontram organizados de outra maneira, como já referimos, já que a Bíblia Hebraica só tem 24 livros), complementados, em fase posterior, por livros que nos chegaram em língua grega por uma de duas razões: ou porque nela foram originalmente redigidos; ou porque desses escritos se perderam as versões hebraicas, pelo que, hoje, só os podemos conhecer em grego. Note-se, ainda, que livros que fazem parte da Bíblia Hebraica – como Ester e Daniel – existem na Bíblia Grega em versões bem mais completas, com material suplementar de que não conhecemos qualquer versão em hebraico.

[Da “Introdução”, de Frederico Lourenço]

V.S. Naipaul em Portugal

É já no próximo dia 22 que V.S. Naipaul vai estar no Folio, Festival Literário de Óbidos, para uma conferência a que não podemos deixar de assistir. Do Nobel da Literatura (de 2001) a Quetzal lança este mês o livro Num Estado Livre, a que foi atribuído o Booker Prize de 1971.

 

Vidiadhar Surajprasad Naipaul nasceu em Trinidad (1932), filho de trabalhadores vindos da Índia, e cresceu com todo o tipo de privações. Uma bolsa permitiu-lhe estudar em Oxford, e a partir desse momento nada pôde deter a sua determinação em tornar-se escritor. Viajou durante longos períodos por África e pela Índia em tempos de descolonização, observando e estudando o significado desse momento histórico, sobre o qual escreveria mais tarde. Todos os seus livros debatem, de uma forma ou outra, as raízes culturais (não apenas as suas), a questão da liberdade e a da identidade, e, embora vá buscar as suas figuras centrais aos ofendidos e humilhados, nunca neles se vislumbra qualquer tipo de autocomiseração. «Naipaul é verdadeiramente um Homem Nobre num Estado Livre», declarou a Academia Sueca ao atribuir-lhe o Nobel em 2001: «Escreveu sobre a escravatura, revoluções, guerrilhas, políticos corruptos, os pobres e oprimidos, interpretando a raiva que está tão profundamente alicerçada nas nossas sociedades. Muito antes de outros, reportou o frenesi irracional da religião no mundo islâmico.» V.S. Naipaul é uma forte influência para uma nova geração de autores, de entre eles, Teju Cole ou Zia Haider Rahman.

 

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