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Quetzal

Na companhia dos livros.

À sexta-feira, a crónica de José Rentes de Carvalho

A crónica desta sexta-feira leva o título «O carro que mais dura»:

 

Ao entrar nos quarenta, onze de casado, ao fim da tarde veio para uma conversa. Feitos os comentários sobre o tempo, calor demais, ouvidas as queixas sobre o novo chefe, pergunto-lhe como vai da pontada. Assim-assim. Da urgência mandaram-no para o hospital e esteve lá a soro quase três horas. Disseram-lhe que felizmente não tinha febre, receitaram-lhe uns comprimidos azuis, se calhar são esses que agora lhe dão tonturas. Oiço o desabafo com a ideia de que não foi para aquilo que veio. Não foi. Lá em casa as coisas vão de mal a pior, porque já não é só a sogra, é também a mulher. Pegou-se-lhe o feitio da mãe, e ambas, de manhã à noite, é queixa pegada: dor deste lado, aflição daquele, as pernas que incham, a cabeça que zumbe, as dores nas costas, o reumatismo, as agonias, os joelhos, a vista, os calos, a boca amarga... Conta pelos dedos e vai nos onze achaques quando decide parar: - Se não fosse o miúdo, não me importava que o diabo as levasse. Aceno o meu acordo e involuntariamente sorrio do provérbio que me vem à lembrança: "Carro que chia é o que mais dura."

Para ler na íntegra todas as sexta-feiras.

«Céu Nublado com Boas Abertas» podia ser uma epígrafe da existência

 

Para João Maurício Brás, este livro reconciliou-o «com o romance em língua portuguesa de Portugal, porque é simples, compreensível, mas simultaneamente tem várias camadas, níveis de profundidade e possibilidades de leitura.» Este livro é muitas coisas. «Céu Nublado com Boas Abertas» podia ser uma epígrafe da existência.

 

 Texto de João Maurício Brás, na sessão de lançamento que decorreu em Setúbal, na Livraria Culsete:

 

Céu Nublado com Boas Abertas publicado pela editora Quetzal em 2016 é o primeiro romance de Nuno Costa Santos, mas não é o seu primeiro livro. Nascido em 1974, açoriano, da ilha de São Miguel, mudou-se para Lisboa aos 18 anos, para estudar Direito, e foi viver para casa dos avós maternos, no bairro daEstefânia. Foi nessa casa, ao procurar livros para ler, que descobriu um livro escrito pelo avô, que viria a influenciar este seu primeiro romance.A avó contou-lheque nesse livro o avô relatava principalmente a sua experiência no Caramulo, onde esteve a tratar-se de tuberculose. «Ele nos anos 40 do século passado saiu da ilha de S. Miguel para vir para o Caramulo e conta essa sua experiência de luta, de combate, de vontade de se curar de uma doença que contraiu enquanto militar na ilha de S. Miguel,”

Alguns dos seus trabalhos: Um livro de contos: Dez Regressos,(2003), o programa televisivo Zapping, os livros de poesia. Os Dias Não Estão Para Isso (2005), Às Vezes é um Insecto que faz Disparar o Alarme (poesia), O Inferno do Condomínio (2006). O importante Melancómico (livro de aforismo, programa de televisão e blogue), o livro sobreFernando Assis Pacheco: Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco (2012) e em 2014, a vez das crónicas, com o livro Vou Emigrar para o Meu País.

 

*

Numa das primeiras conversas com o Nuno, dizia-me ele que só devemos falar de livros que gostamos (ainda este livro não estava publicado). Afirmação simples, mas contêm quase um programa de vida e tem toda a razão. O tempo é precioso demais para o perdermos, a não ser por motivos profissionais, com o que não gostamos.

Podemos até regressar a algo mais básico e decisivo e perguntar porque lemos um livro? O que procuramos nesse objeto é uma questão decisiva. Eu procuro várias coisas. Uma boa história que me faça pensar e sentir. Um livro é uma concessão que fazemos à nossa inteligência. Uma pausa no frenesim da vida, mas que funciona se ao lermos nos esquecemos daquilo que estamos a fazer, e nos sentimos vivos, a viver outras vidas e até a confrontar a nossa própria existência.

Este livro, pessoalmente, reconciliou-me com o romance em língua portuguesa de Portugal, porque é simples, compreensível, mas simultaneamente tem várias camadas, níveis de profundidade e possibilidades de leitura. Este livro é muitas coisas.

Céu Nublado com Boas Abertas é o seu título e podia ser uma epígrafe da existência.

Não falarei da trama do romance, fica esse enorme prazer para o leitor, apenas que se trata de um inteligente dispositivo em que se cruzam duas histórias, que dialogam entre si, a partir de épocas e personagens distintas. O narrador, que confessadamente é o autor, está, no inico do romance, na casa dos seus avós no bairro Lisboeta da Estefânia e regressa a um livro escrito pelo seu avô. Nesse livro em registo diarístico sobre a sua vida e com vários volumes, João Pereira Santos descreve especialmente a sua doença, a tuberculose, e os anos dramáticos de tratamento,a sua partida para o continente (Caramulo) em busca de uma cura após poucos meses de casamento e sempre sob o espectro da morte e da vontade viver.

Recordemos que a tuberculose matou alguém em praticamente todas as famílias portuguesas, era uma doença temível da primeira metade do século XX.

O narrador ao percorrer os livros que o seu avô tinha na sua biblioteca e ao guardar alguns dos volumes dentro da sua mochila, vê cair um papel de um deles, onde está escrito: «Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha» e um conselho: «que não se afadigue demasiado e que viva a vida que ele não conseguiu viver».

Neste romance estabelece-se assim um diálogo entre a narrativa da vida do avô (principalmente nos anos 40 do século XX) e a viagem do autor aos Açores na segunda metade do século XXI, seguindo o repto de procurar um conjunto de histórias.

Destaco a descrição rigorosa dos anos 40, das músicas aos filmes que passavam no cinema, das ruas de São Miguel a Lisboa e ao sanatório do Caramulo, as relação sociais, a mentalidade, a presença tutelar de um certo modo de viver a religião e os Açores em 2014, o cruzamento com traficantes de droga, strippers, massagistas, um émulo de Kafka e um chinês que é mordomo de uma festa religiosa, do espírito Santo.

Confuso? Pelo contrário, nem num único momento duvidei da coerência e verosimilhança de tudo o que é contado. Neste plano, é um livro de ficção absolutamente realista, e narra uma realidade que é na sua maior parte ficcional. Se não é tudo verdadeiro, poderia muito bem ser.

A fusão entre a realidade e a ficção é uma das grandes características de um grande romance. Ou não? Podemos afirmar que há vários critérios de gosto, várias regras para estabelecer a diferença entre a boa e má literatura, até cairmos no estafado debate da subjetividade do gosto e da relatividade dos critérios.

Simplifiquemos. Cada época valoriza critérios em detrimento de outros. Já foi decretado o fim do romance, a importância da ausência de narrativa ou mesmo de personagens ou história. Não nos metemos em caminhos que não levam a parte nenhuma. Regressemos ao simples e ao que permanece. Os seres humanos contam histórias desde sempre, para entreter, mas também para dar um sentido ao medo, à fragilidade e ao aparente caos e acaso da vida. Somos carentes de significados e de explicações. Uma boa história não tem preço.

O que leva à distinção entre os ouvintes (e leitores) de uma história e os narradores? Certamente alguns de nós contam melhor as histórias, têm mais para contar e sabem contar melhor, mas também porque sentem uma maior necessidade de contarem essas histórias. As palavras são meios modestos para explicarmos a existência, mas é dos mais eficazes que dispomos. Ora esta é uma boa história de um bom narrador. Nesta viagem imaginária encontramos certamente muito do que é o Nuno Costa Santos, do que pensa, do que o angustia, do que necessita, do que não encontra. A pessoa do Nuno e o escritor também se misturam e tornam inapreensível a distinção, embora ela exista.

Uma das dimensões centrais do livro, a homenagem ao seu avô, fez-me lembrar as palavras de um grande escritor, Sebald. Este falava-nos de um tempo, ainda recente, em que não se podia prescindir de ninguém, mesmo de um morto, e como este continuava a viver no meio dos vivos com a mesma ou maior importância.

Numa entrevista outro grande escritor, Thomas Bernhardt, era questionado se a escrita sobre lembranças e coisas pessoais era uma espécie de auto-libertação. Bernhardt respondeu que sim, que essas coisas estão dentro de nós, e queremos que elas saiam. Mas uma pessoa, escreve, e elas continuam lá. Tal como uma criança que tem dores, grita e é atendida ou leva uma bofetada e fica bem outra vez. Escrever, libertar essas lembranças e coisas pessoais é parecido. É como se a pessoa se esbofeteasse ao longo desse tempo e depois acalmasse um pouco.

A boa literatura provem de um desassossego, ninguém tranquilo, escreve. Cada auto-esbofeteamento é um livro, por vezes são necessários dois, três ou mesmo mais, para minorar essa dor. A dor não desaparece mas acalma. Penso que estes dois autores permitem compreender uma parte significativa do “espírito” que animou esta viagem.

Não entrarei em detalhes sobre a dor, ela está bem presente nas personagens do romance de modo latente. Essa dor é a manifestação aguda perante a perplexidade do que nos acontece enquanto seres vivos. Como seres conscientes não vivemos em total aceitação de tudo o que acontece. Encontramos até vários estados que poderíamos rotular de psicossomáticos, como a asma, a ansiedade, a insónia. Mas esta dor não é só mal-estar físico ou psicológico, tem uma origem mais funda, consequências da nossa inadequação constitutiva com o real, modo de estar próprio de seres conscientes, uns mais impressivos que outros. Nuno transforma também esse sobressalto de estar vivo e ser consciente em literatura.

Este livro é um relatório sobre a procura de uma resposta à questão “quem sou eu?” , ”que faço eu aqui”, respostas que bem podem ter um ponto substancial de partida, doloroso. Nada. Viver é uma agitação que muito deve a acasos e golpes de sorte e azar que modelamos de acordo com um acumular de experiências, mas também do modo como as enquadramos.

Quando as experiências singulares das personagens são também nossas, quando o particular se universaliza estamos novamente perante literatura da boa.

Pertencemos todos mais cedo ou mais tarde, a uma grande família, a dos vencidos, para os mais resilientes, ganhamos algo de significativo, o que vivemos. O importante é encontrar um equilíbrio, o equilíbrio dos vencidos, a vida, na melhor das hipóteses, é uma lição sobre o engano e o desengano.

O nosso narrador desloca-se ao sabor dos acontecimentos. Sabe que estes têm um poder sobre nós que só ilusoriamente conseguimos dominar. Há alguns recursos para ludibriar essas evidências, viajar no tempo e no espaço, estar disponível, procurar, mesmo que não se saiba bem o quê.

O Nuno regressa ao passado para compreender o presente, talvez ao procurar um sentido para a existência, descubra que ele radica, em nos tornarmos senhores dos nossos desajustamentos. A vida surge como uma figuração de um Deus cínico e cruel perante a nossa fragilidade. Estabelecemos os nossos hábitos e percursos, mais ou menos seguros, mas somos frequentemente abalados por pequenos e grandes problemas, acasos, golpes que tudo fazem ruir.

O desenganado não foge do mundo, não se esconde mas também não recorre à transcendência ou à imanência de uma qualquer sabedoria sem deus, antes transforma as suas deceções num manual de sobrevivência existencial, aceita as suas derrotas e apega-se às suas enfermidades. Nós somos as nossas doenças.

Podemos não acreditar na literatura, ela não salva, mas os livros que expressam o estado de ânimo de quem escreve e a necessidade profunda de nos libertarmos de algo, são poderosos interlocutores.

Este livro fez-me pensar numa importante posição filosófica sobre um dos temas mais acutilantes sobre o humano. “Quem sou?” não é apenas uma pergunta sobre uma pertença geográfica ou cultural. Alguns filósofos falam-nos da ilusão que temos uma identidade e um eu. Para David Hume não passamos de um feixe de perceções que se sucedem umas às outras, estando num fluxo e movimento perpétuos. A identidade é apenas uma representação de continuidades, um aglomerado de sensações. Estamos programados para nos apercebermos da identidade em nós próprios, mas apenas a mudança existe. Estamos configurados pela ilusão do Eu. Se só olhássemos para este mundo momentâneo, não agíamos. A individualidade é apenas um efeito secundário da natureza íntima da consciência e a vida interior é demasiado subtil para ser conhecida. A linguagem tem neste domínio um papel importante, conseguimos através dela olhar retrospetivamente para as nossas vidas, invocando assim um eu virtual. A ilusão de uma individualidade persistente emerge com a palavra.

John Gray em Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals refere como adquirimos o sentimento de nós próprios através do modo como na infância os nossos pais nos falaram, improvisamos histórias sobre nós, num monólogo interior intermitente e utilizamos a linguagem para construir uma série de futuros possíveis. É através da linguagem que inventamos esse eu fictício, que projetamos no passado e no futuro: Mas esse eu é problemático porque é fictício, e é uma frágil construção. Apesar do eu ser algo momentâneo e mesmo inapreensível a não ser como ficção, na consciência normal do momento presente, o sentimento da individualidade é inabalável (ao contrário da vivência de estados limite ou experiências que nos projetam para lá dos padrões da normalidade).

A escrita dá-nos o relato desse fracasso da identidade. Não acredito que algum escritor tenha morrido feliz. Queremos saber quem somos e consideramos importante dar noticias das nossas pesquisas. Transformamos as nossas necessidades numa ilusão sobre a nossa importância. E em alguns casos, ainda bem. É o caso do Nuno.

Num plano menos filosófico, se este este livro tem subjacente a procura dos fios que tecem as existências, as ligações e os fundamentos que sustentam a vida, tem como pano de fundo um poderosa personagem, os Açores. Não é um livro de literatura açoriana, seria redutor essa catalogação, mas é também um livro sobre os Açores (mesmo nas várias dimensões temporais, presente e passado, que se tornam contínuos neste livro). As ilhas são seres vivos.

A questão da identidade é de novo fundamental. O narrador, viveu até aos sete anos em Lisboa, depois vai para os Açores até à adolescência e regressa a Lisboa. Em Lisboa não se sente totalmente Lisboeta, mas quando regressa aos Açores, que ganha uma força quase mítica, também não se sente Açoriano, não é visto como tal, é um outro. O pano de fundo, Continente e ilhas, poderia aplicar-se a outros contextos sobre a importância e instabilidade de pertencer a algum lugar ou alguma coisa. Quando deixamos de pertencer totalmente a um lugar, acabamos por não ser de lugar nenhum. Voltamos invariavelmente a esse lugar, à procura de algo que já não existe e provavelmente nunca existiu. O Nuno é um português com aspas. “Este é o meu povo e ele não quer saber de mim”. Na verdade acabamos por pertencer apenas a nós próprios, e mesmo a percepção de continuidades que permitem essa certeza, destabilizam-se com frequência.

De qualquer modo, na questão significativa da literatura e dos autores açorianos, este é incontornavelmente um livro marcante, se este livro é literatura da boa, no caso especifico da literatura açoriana, esta não poderá passar sem ele.

O modo de estar, as relações entre homens e mulheres, a imigração, a grande guerra, os que partiram e os que voltaram, os sucessos e os fracassos, as romarias, uma descrição minuciosa da topografia, ruas lugares, as pessoas da ilha de São Miguel, a caça à baleia, a rivalidade entre ilhas, a sua flora, o clima, a geografia, os sismos, as expressões regionais, a vivência da fé e de deus, a pedofilia, a relação com o continente, a miséria dos camponeses, os escritores açorianos (Emanuel Félix, Eduíno Jesus, Antero, Manuel Ferreira) atravessam de modo incisivo todo o livro, revelando um trabalho de uma minúcia extrema. A passagem dos Açores do século XX dos anos 40 para o século XXI está neste livro. Como também Portugal.Esse trabalho de pesquisa está também presenta na questão da doença do avô.

Duvido que exista descrição mais precisa sobre a tuberculose, e até me atrevo a dizer mais, não conheço na literatura portuguesa a abordagem da questão da doença (seja ela qual for) como o Nuno a trata. A sua minúcia dá também a todas as personagens uma densidade que as torna reais e humanas, e não apenas caricaturas.

A vida, a morte, o amor e a doença são os grandes temas da literatura e estão em todas as páginas deste livro. Assim como o egoísmo, o ressentimento, o medo de nós próprios, o rancor, tão viscerais com as enfermidades físicas. Este é um livro suave mas duro. Perpassa-o uma tristeza amena mas profunda que é uma espécie de metabolismo intelectual do narrador, modo dele conhecer e se relacionar com o mundo.

O Nuno é um grande observador, tem uma sensibilidade extrema e escreve muito bem, tem na sua escrita o boletim da sua meteorologia sentimental, afetiva, psicológica e filosófica. Um grande autor.

Partir de um diário de um familiar e transformá-lo em matéria literária, transformar a procura do que sou em matéria ficcional, transfigurar experiências particulares em aspetos em que todos nos podemos reconhecer, é trabalho apenas acessível a um grande escritor.

Numa passagem do livro descobrimos que se o narrador tivesse aprendido a surfar, não teríamos escritor. Neste caso, ainda bem que não aprendeu a surfar.

 

Bíblia: Os Evangelhos segundo Frederico Lourenço

 Depois de traduzir a “Odisseia” e a “Ilíada”, de Homero, Frederico Lourenço assume um desafio ainda maior: a tradução da Bíblia, a mais completa jamais publicada em português. São 80 livros, organizados em seis volumes, que só estarão completos em 2019. O primeiro tomo, com os quatros Evangelhos, chega às livrarias em Setembro, com chancela da Quetzal.

 

Leia aqui o texto de José Mário Silva, na edição diária do Expresso.

 

“Esta aventura é uma espécie de milagre e o Frederico Lourenço, sem o qual nada disto seria possível, é o alquimista desse milagre”, afirmou Francisco José Viegas. “Estamos diante de alguém capaz de transformar um sopro num relâmpago.”

É então sob o signo de Gutenberg, ou da sua herança, que se anuncia aquela que promete ser a versão mais completa da “Bíblia” alguma vez editada na nossa língua. Feita a partir da “Bíblia” grega, ou “Bíblia dos Setenta” (“Septuaginta”), inclui os 27 livros do ‘Novo Testamento’ (iguais em todas as Bíblias) e 53 livros do ‘Antigo Testamento’ – mais sete do que os abrangidos pelo cânone católico, e mais 14 do que os das edições protestantes. Entre os livros que não costumam ser traduzidos estão os “Salmos de Salomão”, o “Livro de Susana”, e a “Epístola de Jeremías”.

 

© Fotografia de Paulo Cunha, Expresso.

Frederico Lourenço: a Bíblia toda e para todos

 

A Quetzal vai começar a publicar em Setembro uma nova tradução da Bíblia. É feita a partir do grego por Frederico Lourenço e sairá em seis volumes, até 2019. Está a ser apresentada como a mais completa jamais feita em português – leia aqui o artigo de Lucinda Candeias, na edição online do diário Público.

 

Frederico Lourenço quis com esta abordagem pôr à disposição uma edição para todos: “Falta uma versão da Bíblia para crentes e não-crentes”, disse ao jornalistas, uma versão não-apologética daquele que é “talvez o livro mais importante de toda a tradição ocidental”. Para o tradutor, a Bíblia não devia ser um exclusivo das faculdades de Teologia, mas presença obrigatória em todos os cursos de Humanidades. “Esta edição tem uma intencionalidade linguístico-histórica, não teológica. (…) As notas tentam explicar a materialidade do texto, que muitas vezes não se entende.”

 

© Fotografia de Miguel Manso. Público.

A Bíblia na Quetzal: uma edição literária em português e com seis volumes

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A Quetzal irá lançar a partir de setembro uma tradução da Bíblia, feita por Frederico Lourenço – com mais sete livros do que a edição canónica. O projeto foi apresentado esta quarta-feira. A 23 de setembro sai o primeiro dos seis volumes, dois dedicados ao Novo Testamento, 4 para o Antigo.

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 Na Cinemateca Portugesa, em Lisboa, esta manhã.

 

 

Do texto das jornalistas Rita Cipriano e Rita Neves Costa, do Observador:

 

A editora Quetzal vai publicar, a partir de setembro, uma nova tradução da Bíblia, da autoria do romancista, poeta e tradutor Frederico Lourenço. Composta por 80 livros (em vez de 73), distribuídos por seis volumes, esta nova edição será a primeira do género a ser lançada em Portugal e “a mais completa jamais publicada em português”, assegura o editor.

A 23 de setembro sai o primeiro dos seis volumes, dois dedicados ao Novo Testamento, 4 para o Antigo. O último volume será publicado no início de 2019. E fica o aviso: não está prevista edição digital em e-book. Francisco José Viegas, na apresentação desta nova edição, afirmou que “é o sonho de qualquer editor publicar uma nova versão da Bíblia, um texto que nos ultrapassa em todas as dimensões e que é a invenção do romance moderno”.

 

A edição, que a Quetzal apresentou esta quarta-feira na Cinemateca em Lisboa, foi feita a partir da chamada Bíblia Grega, também conhecida por Septuaginta ou Bíblia dos Setenta. Mais extensa do que as edições convencionais, é composta por mais sete livros do que o cânone católico: os terceiro e quarto Livro dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, Livro de Susana, Bel e o Dragão e Epístola de Jeremias, que fazem parte do Antigo Testamento.

A edição da Quetzal será também mais extensa do que as Bíblias protestantes — incluirá mais 14 livros. Esta última não inclui nenhum Livro dos Macabeus, por exemplo, enquanto a católica inclui apenas os dois primeiros.”

Sobre o trabalho de tradução, Francisco José Viegas garante que é resultado de “uma enorme coragem do Frederico [Lourenço], que transformou um sopro num relâmpago”. Acrescentou ainda que “este não é o trabalho de uma equipa, é o trabalho de um homem solitário”.

Estes sete livros, assim como os 27 que compõem o Novo Testamento (iguais para as edições católicas e protestantes), foram traduzidos diretamente do grego clássico por Frederico Lourenço, que procurou “restituir ao texto a sua beleza original”. “O texto não foi modificado com vista a ser religiosamente correto”, explicou ao Observador Francisco José Viegas, editor da Quetzal, o que permite deixar a descoberto alguns pormenores que as outras edições ocultaram.

A edição canónica da Bíblica é composta por 73 livros — 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento.

A preocupação com a linguagem, que será visível nas centenas de notas de rodapé que esta edição incluirá, permitiu criar uma edição que, na opinião de Francisco José Viegas, é “duplamente literária”. “É literária porque respeita o grego — não foi feita para se encontrar nela uma revelação. É literal porque é um texto que é belo no grego e que agora é belo no português.”

Os seis volumes da nova tradução serão publicados “mais ou menos” de seis em seis meses numa ordem diferente do convencional, que pretende ajudar os leitores a compreenderem melhor a Bíblia.

“Concentração e entrega”

Frederico Lourenço comprou uma edição do Novo Testamento em grego na Feira do Livro de Lisboa, em 1984 e leu-a várias vezes. “Tive até de a fotocopiar porque estava cheia de apontamentos, feitos ao longo dos anos”. “O Novo testamento em grego dá a sensação de ser uma coisa nova, seja hoje ou amanhã. É intemporal”, acrescentou.

A mesma versão da segunda parte da Bíblia foi lida por Oscar Wilde, enquanto o escritor britânico esteve preso. Frederico Lourenço admite que já foi um “católico crente e praticante”, que hoje já não é “tanto” e que se interessa por “mais coisas”. Mas não tem dúvidas: “Sei que há qualquer coisa acima de nós, mas não sei dizer o que é ou quem é”.

Sobre este trabalho de tradução, diz que surgiu depois de ter descoberto que não existia uma versão completa da Bíblia grega disponível em português. Foi incentivado por amigos padres e fazê-lo. “E os amigos padres vão aumentando de ano para ano, não entendo muito bem porquê.” “Concentração e entrega” são os ingredientes fundamentais para esta empreitada, a mesma que o levou a recusar todos os trabalhos que lhe foram propostos entretanto.

Em setembro: o Livro dos Livros com tradução de Frederico Lourenço – a Bíblia mais completa na nossa língua.

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A Quetzal vai publicar em setembro o primeiro de seis volumes da Bíblia traduzidos por Frederico Lourenço. O professor, tradutor, poeta e ensaísta Frederico Lourenço junta-se à Quetzal para o mais importante dos seus projetos: a tradução da Bíblia.

 

Do Diário de Notícias:

«Não é, explica o editor da Quetzal, Francisco José Viegas, apenas uma nova tradução do que já existe disponível mas sim uma tradução até hoje nunca feita em Portugal: a Bíblia Grega, Septuaginta, também conhecida por Bíblia dos Setenta.

A edição tem a particularidade de ser dividida em seis volumes, com o Antigo (quatro volumes) e Novo Testamento (2 volumes), e o último chegará às livrarias em 2019. Segundo Frederico Lourenço, esta será a Bíblia mais completa que os portugueses alguma vez tiveram para ler e destina-se "tanto a crentes como a não crentes". Entre as particularidades desta sua tradução está a de não ser organizada conforme é habitual nos volumes existentes, com uma ordem cronológica que tem início no Génesis.

No total serão 80 livros, ou seja, mais catorze do que as Bíblias protestantes e mais sete do que a tradução do cânone católico. A nova edição em seis volumes conterá os 27 livros do Novo Testamento, mas no Antigo Testamento acrescem sete aos 46 livros da Bíblia católica: o 3º e 4.º Livro dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, Livro de Susana, Bel e o Dragão e Epístola de Jeremias.

Segundo Frederico Lourenço, este é um projeto que tem desde há muitos anos mas "que só agora senti maturidade e confiança para o executar".»

Time Out: Marmelo, um «romance perturbadoramente actual»

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 «Um romance perturbadoramente actual», é como João Morales classifica «Macaco Infirnito», o livro de Manuel Jorge Marmelo: o autor prossegue «as suas invenções literárias sobre ‘o livro por vir’, ao mesmo tempo que dá corpo a uma visão assaz crítica sobre o mundo. Aqui, cabem a crise dos refugiados, o racismo e a paradoxal relação (humana, absolutamente humana) entre o horror e a arte». A ler tudo, na edição desta semana da revista TimeOut.

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AUTORES NO MEIO DO VERÃO: Ana Cássia Rebelo no inquérito da Quetzal: «Não gosto de ler em locais silenciosos. Preciso de ruído para me concentrar.»

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A autora do belíssimo ‘Ana de Amsterdam’ começou a vida de leitora com ‘As Gémeas no Colégio de Santa Clara’ – e lê ‘O Monte dos Vendavais’ todos os invernos. Ana Cássia Rebelo trabalha das nove às cinco, como jurista, em Lisboa, numa instituição pública. Às cinco da tarde inicia o segundo turno – cuidar dos filhos –, que se prolonga até por volta das onze da noite: dar banhos, ajudar com os deveres da escola, fazer o jantar. No dia seguinte, de manhã cedo, prepara-lhes o pequeno-almoço, leva-os à escola, regressa ao trabalho. Assim dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. A Madalena, o João e o Joaquim são a sua prioridade, a eles se dedica sem restrições e a eles se sacrifica inteiramente, com infinita disponibilidade e amor. Os filhos são os pontos de apoio que lhe regem a existência, é maravilhoso que existam, sente-se feliz quando os tem a seu lado, nada lhe dá mais força; a profissão, por outro lado, garante-lhe a subsistência, permite-lhe aplicar o diploma de licenciada em Direito pela Universidade Católica e dá-lhe um sentido prático da realidade.

 

 

Um exemplo de beleza.

A Simone de Beauvoir.

 

Um exemplo de elegância.

A Simone de Beauvoir.

 

Um exemplo de fealdade.

O Jean-Paul Sartre.

 

A música que nunca lhe sai da cabeça.

Nenhuma.

 

O lugar ideal para passar férias.

A aldeia onde o meu pai nasceu, em Goa.

 

Qual foi o primeiro livro que leu? O que se lembra dele?

“As Gémeas no Colégio de Santa Clara”. Recordo o início: quatro raparigas caprichosas jogam ténis e bebem limonada.

 

Que livro a obrigaram a ler na escola que achou insuportável?

“Eurico, o presbítero”.

 

Qual é a obra que releu mais vezes? Porquê?

“O Monte dos Vendavais”. Leio-o todos os invernos por rotina e superstição. O ano não pode terminar sem que volte a esse livro.

 

Vai parar a uma ilha deserta e encontra o pior livro imaginável. Como se chama?

Infelizmente, não é preciso ir para uma ilha deserta para encontrar o pior livro imaginável. Os escaparates das livrarias estão repletos de maus livros.

 

Qual é o melhor local para ler? E o pior?

Gosto de ler no refeitório do banco onde trabalho. Não gosto de ler em locais demasiado silenciosos. Preciso de algum ruído para me concentrar.

 

A bebida ideal para acompanhar uma boa leitura?

Nenhuma. Não bebo enquanto leio.

 

Costuma sublinhar livros ou escrever neles ou é daqueles que os mantém imaculados?

Sublinho, escrevo nas margens e nas entrelinhas. Faço listas de palavras na cartolina da capa.

 

Usa um marcador ou dobra as páginas?

Uso um clipe.

 

Em miúdo, sonhou em ser igual a que personagem literária? Porquê?

Em miúda, pouco ligava à literatura, queria era ser igual à Beatriz do “Verão Azul”, de longos cabelos loiros, disputada por Pancho e Xavi.

 

De que livro tirava o seu epitáfio, porquê? 

Tirava-o de um poema do Mário de Sá Carneiro: “Quando eu morrer batam em latas/ Rompam aos saltos e aos pinotes./Façam estalar no ar chicotes./ Chamem palhaços e acrobatas.”

 

O filme que gostaria de rever sempre.

“As asas do desejo”, do Wim Wenders.

 

 

Às sextas-feiras: um Quetzal na nossa vida (4)

Aqui está mais uma fotografia do ‘Pharomachrus mocinno’, o nosso Quetzal desta sexta-feira. Este tipo, o ‘Quetzal Resplandecente’, era considerado «divino» nas civilizações pré-colombianas. «Deus dos Céus» para os antigos astecas e maias – e símbolo da bondade e luz –, era declarado crime matar um Quetzal. Em várias lendas o seu nome também significa «precioso» ou «sagrado» nas línguas meso-americanas.

O ‘Pharomachrus mocinno mocinno’ encontra-se sobretudo no México, Guatemala, Honduras, no leste de El Salvador e no norte da Nicarágua. O Pharomachrus mocinno costaricensis habita a Costa Rica e as terras altas do Panamá.

Ver também este Quetzal costa-riquenho, esta recordação da Guatemala, e esta coleção de imagens do Bosque Nuboso, em Monteverde, na Costa Rica. Boas leituras!

À sexta-feira: crónica de J. Rentes de Carvalho

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Como é habitual nas sextas-feiras, aqui está a crónica de J. Rentes de Carvalho. Na semana passada, como se recordam, era «A Barbie e o Namorado»; esta semana, «As Orelhas em Ponta». Maravilhosa.

«Os sorrisos são os mesmos, as pessoas continuam a falar-lhe como dantes, uma ou outra diz que o tempo passa depressa, já lá vão dez anos, pergunta se ainda aguenta o trabalho no lar. Depois é bom-dia ou boa-tarde, adeusinho, parece o costume mas há mudança, Matilde tem a certeza de que lhe escondem qualquer coisa. Não escondem. Ganharam-lhe medo, desde a tarde em que no café anunciou que o senhor Adriano não durava, e ele faleceu na noite seguinte. Depois foi a mãe do Fonseca, o tio da Sabina, a avó do Antero, a avó da Mariana. Quiseram saber se era dom, e ela tinha-se zangado. Qual dom, qual carapuça, qualquer um podia ver. Quando os idosos começavam a ficar com as orelhas em ponta, era sinal que nunca falhava: poderiam aguentar o dia, mas da noite não passavam. No café, quando ela não está, ainda gracejam, mas dentro de casa deixou de haver paz. Embora ninguém toque no assunto, involuntariamente vão os olhos dos novos para as orelhas dos anciãos. E estes, fingindo que não dão conta nem acreditam no que a Matilde diz, evitam o espelho.»

 

A crónica de J. Rentes de Carvalho é publicada aqui.

AUTORES NO MEIO DO VERÃO: Manuel Alberto Valente no inquérito da Quetzal: «Nas ilhas desertas só há livros maravilhosos.»

 

Manuel Alberto Valente vive em Lisboa e é editor – o seu nome está ligado a chancelas tão importantes como a Dom Quixote, a Asa (que com ele iniciou a publicação de literatura) e, actualmente, a Porto editora, onde dirige a Divisão Editorial e Literária de Lisboa. Estudou Direito em Coimbra e em Lisboa (além de ter passado por Luanda),mas o jornalismo, uma vez por outra a política, e sempre os livros foram o seu destino. Sobre a poesia, escreve ele próprio que «não passa de um ofício de preguiça e no meu caso / além de preguiçosa prefere o curto prazo/ fisga de bolso que fala do umbigo». Os versos agora reunidos são também marcados por esta conclusão, tirada de perto: «Com a idade aprendemos / que o amor existe / na confluência de dois verbos: o verbo recordar e o verbo ensandecer.»

 

 

 

Um exemplo de beleza.

Claudia Cardinale em A Rapariga da Mala, de Zurlini.

 

Um exemplo de elegância.

Audrey Hepburn, em Sabrina, de Billy Wilder.

 

Um exemplo de fealdade.

Donald Trump, em todas as fitas que faz.

 

A música que nunca lhe sai da cabeça.

“La Bohème”, Charles Aznavour:

“Je vous parle d’un temps

Que les moins de vingt ans

Ne peuvent pas connaître”

 

O lugar ideal para passar férias.

A minha casa na Ericeira.

 

Qual foi o primeiro livro que leu? O que se lembra dele?

A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlöf. Muito pouco, na verdade, mas tudo começou aí.

 

Que livro o obrigaram a ler na escola que achou insuportável?

Julgo que no meu tempo não havia livros obrigatórios. Mas, mais tarde, já no liceu, o Herculano foi uma “seca”.

 

Qual é obra que releu mais vezes? Porquê?

Devia responder o Ulisses, do Joyce? Nem sequer o li, quanto mais reler...

 

Vai parar a uma ilha deserta e encontra o pior livro imaginável. Como se chama?

Nas ilhas desertas só há livros maravilhosos.

 

Qual é o melhor local para ler? E o pior?

O “meu” sofá. A praia, onde nunca consigo uma posição confortável.

 

A bebida ideal para acompanhar uma boa leitura?

Whisky, sempre whisky.

 

Costuma sublinhar livros ou escrever neles ou é daqueles que os mantém imaculados?

Sublinhava as sebentas na Faculdade, os livros não.

 

Usa um marcador ou dobra as páginas?

Marcador, claro.

 

Em miúdo, sonhou em ser igual a que personagem literária? Porquê?

Perry Mason. Por isso fui para Direito.

 

De que livro tirava o seu epitáfio, porquê?

Detesto epitáfios.

 

Um filme que gostaria de rever sempre.

Johnny Guitar, claro.

 

Manuel Jorge Marmelo ao «i»: «O terrorismo é hoje mais do que tudo um problema de psiquiatria.»

 

Leia na edição de hoje do jornal i a entrevista de Manuel Jorge Marmelo ao jornalista Diogo Vaz Pinto: «Desta vez tudo se passa num prédio, uma viva assombração dos nossos dias funcionando ali um prostíbulo às ordens de um tirano preso a uma cadeira de rodas. Manuel Jorge Marmelo arquitetou novamente um microcosmos onde o leitor começa por ser lançado num espaço fechado um tanto genérico e servido de um bando de clichés os nativos das representações ordinárias que despontam à primeira sugestão. Mas aos poucos como se erguidos dos próprios fósseis os personagens vão descolando do registo linear e ganhando traços próprios. Como se a vida fosse despertada pela atenção do leitor atravessando as divisões estilhaçando a superfície À medida que as personagens inicialmente algo esquemáticas recordam episódios do seu passado vão assistindo assim ao seu próprio parto Uma narrativa que consegue colocar a engrenagem entre a realidade que nos chega todos os dias de forma difusa pelas notícias as distâncias que divisamos como vagas ficções menos pelo seu lado fabuloso do que pelo lado sórdido e os modelos de opressão que dominam o tempo que vivemos Um livro que fica a meio caminho entre a alegoria e uma distopia em ponto pequeno.»

 

 

 

Entrevista de Diogo Vaz Pinto | Fotografia de Diana Tinoco

© jornal i

 

 

 

O cenário deste romance é um bordel e já disse que este espelha um pouco a Europa mas gostava de saber qual foi o ponto de partida para este livro...

Curiosamente não teve a ver com esse bordel como metáfora para a Europa. Lembro-me perfeitamente de quando escrevi as primeiras frases do livro. Foi aqui em Lisboa Acordei de manhã na torre de um hotel quando estava hospedado para gravar o episódio do Contentor 13 [programa da RTP2, de entrevista a autores]. Acordei com o barulho da cidade ao longe e a sensação de despertar para a realidade mas não poder ver o que se está a ouvir É a partir daí que a história se desenvolve A ideia de transformar esse prédio alto num bordel surgiu posteriormente.

Parece haver nos nossos dias uma dificuldade da ficção de estar a par da realidade. Ao escrever este livro debateu-se com o esforço para de algum modo fazer caber nele a realidade atual?

Sim o livro parte dessa premissa a necessidade de refletir sobre a realidade europeia de hoje E o livro está contaminado por isso. A imagem do bordel tenta dar corpo de um modo literário à ideia que fazemos hoje da Europa. Temos uma Europa guardada, cercada por muros e redes. Mas por as coisas estão a acontecer a cada dia que passa, é difícil estabilizar para já um pensamento sobre esta realidade. A literatura, do meu ponto de vista, é um esforço adequado para lidar com isto. Não decorreu o tempo necessário para a História se debruçar sobre aquilo que estamos a viver, e mesmo para a sociologia talvez seja ainda cedo para compreender isto com alguma clareza. Mas o que a literatura permite é abordar esta realidade sem certezas. Pode transformá-la numa outra coisa, dar-lhe uma dimensão ficcional e a partir daí mais do que negociar certezas pode problematizar estas questões. Problematização que nem tem de ser feito de um modo directo. O que fiz foi reflectir isto a partir de um microcosmos como é o bordel do livro, ou como fiz no “Somos Todos Um Bocado Ciganos” [livro publicado pelo autor em 2012, na Quetzal], a partir do microcosmos do circo, que já entendeu me permitiu trabalhar questões que enquanto cidadão me inquietam. 

Paulo Piconegro, o dono do bordel, que nos surge paralisado, numa caldeira de rodas, admite algum paralelo imediato com Wolfgang Schäuble?

É engraçado porque na apresentação do livro na semana passada, no Porto, à medida que a apresentadora ia falando do livro foi tornando óbvio que este personagem é muito parecido com o ministro das Finanças alemão. Quando terminou de falar, eu pedi às pessoas para não confundirem os dois. Mas evidentemente a comparação é inevitável. Não foi esse o ponto de partida embora a dada altura me tenha ocorrido esse paralelo entre o dono do bordel e o dono da Europa. 

E vê um paralelismo na forma de aproveitamento das economias mais débeis, uma espécie de lenocínio a favor dos países mais ricos da Europa?

Essa noção foi-se desenvolvendo à medida que escrevia o livro. Mas o que eu acho mais preocupante é o não se poder dizer sequer que são as nações mais poderosas do centro da Europa que impõem ao resto uma série de regras, uma vez que estas nações com economias mais frágeis têm apesar de tudo líderes eleitos e que seriam relativamente fáceis de afastar através de eleições. O problema é o facto de hoje quem toma decisões na Europa serem pessoas sem rosto. Que não conhecemos, que não elegemos e que não podemos afastar. São precisamente os Paulos Piconegros deste mundo que estão encerrados em enormes edifícios a decidir aquilo que depois influencia a vida de todos nós. Desde directrizes económico-financeiras a que todos os países estão sujeitos até à quantidade que lhes parece razoável de imigrantes que podem entrar por dia na Europa. São pessoas inamovíveis e que têm um poder que ninguém fiscaliza.

Pareceu-me que existia também uma denúncia de algo pernicioso na forma como Piconegro se relaciona com a arte, nomeadamente com a pintura “Les demoiselles d’Avignon” que ele coloca à entrada do bordel como se procurasse filtrar a realidade que ele próprio concebe, criando um estranho jogo de espelhos. Que tipo de jogo de forças está ali na forma como ele se apropria do quadro do Picasso?

Estamos todos cansados de ver no Facebook aquelas frases que repetem que a arte salva as pessoas, que a literatura salva isto e aquilo. Mas o que a História nos tem dito é que muitos daqueles que cometeram os piores crimes contra a humanidade eram muitas vezes pessoas que exibiam uma certa cultura. A relação entre a cultura e a bondade está longe de ser imediatamente demonstrável. E isto também nos remete para essa tal elite de poderosos que comandam as nossas vidas e que, muitas vezes, são coleccionadores de arte e que ganhem fortunas com a especulação à volta desta. Tanto comercializam arte como petróleo ou o que for. Para eles o valor da arte não difere do de qualquer outro produto. Foi na tentativa de reflectir sobre esse valor da arte e sobre a falta de valores na relação com a arte que explorei o tema no livro. Para mim é bastante claro que a relação com a arte não implica a adopção de valores éticos e morais, e esta foi uma forma de denunciar este mundo em que tudo é convertível a um valor de mercado.

A ideia que dá o título ao livro, a do macaco infinito, com Wakaso, o negro que surge como escravo às ordens de Piconegro, procurou assim reflectir sobre formas actuais de exploração mascaradas através da relação económica?
O teorema do macaco infinito [segundo o qual um macaco digitando aleatoriamente num teclado por um intervalo de tempo infinito acabará por produzir alguma grande obra literária, eventualmente até a obra completa de Shakespeare] tem essencialmente três dimensões neste livro. A primeira é a do racismo e dos vários tipos de intolerância, que se calhar até explorei mais a fundo em livros anteriores. Depois existe uma dimensão metaliterária bastante óbvia, no sentido em que este teorema pode, em última análise, ser aplicado a todos os escritores. O que os escritores fazem, no fundo, é sentarem-se em frente a uma máquina ou a uma folha de papel e tentar escrever uma obra, de preferência forte. Portanto, o que tentam é a partir de uma disciplina auto-imposta tentar criar alguma coisa. Serviu-me assim como metáfora da literatura e reflectir sobre o que é escrever um livro. A terceira dimensão, e para mim a mais interessante, é a possibilidade de nós, homens, sermos provavelmente esse macaco infinito. O símio cujas capacidades mentais não pararam ainda de evoluir e que não sabemos se algum dia esta evolução irá parar. O problema é o de através desta capacidade aparentemente infinita sermos capazes por um lado de enviar uma sonda até Júpiter, curar doenças mortais, sermos capazes de criar obras de arte sublimes, e ao mesmo tempo sermos capazes enquanto comunidade de impor regras absolutamente absurdas do ponto de vista humanístico. Trinta anos depois da queda do muro de Berlim estamos novamente a construir muros na Europa e estamos todos os dias a provocar uma mortandade a pessoas que procuram chegar cá fugindo de guerras e sem que isto nos pese particularmente na consciência. No fundo, o termos criado as condições para que quase semanalmente ocorressem crimes bárbaros como foi o caso do atentado de ontem [a entrevista foi feita na passada sexta-feira] em Nice. Na minha opinião este tipo de atentados sucedem porque é relativamente fácil a um indivíduo cair numa situação de desequilíbrio mental que nos leva a ultrapassar essa fronteira entre o que temos como humano e essa outra condição. Passa a ser muito fácil matar centenas de pessoas porque ninguém olha para nem por ninguém na nossa sociedade. Acho que o problema do terrorismo é mais do que tudo um problema de psiquiatria. Desde o início dos tempos que há homens com instintos homicidas – que é o que mais se opõe ao sentido de sociabilidade que caracteriza o Homem enquanto espécie. Ninguém no seu perfeito juízo mata por sua vontade outra pessoa. É preciso pelo menos um instante de loucura para chegar a esse ponto. O que sucede com o terrorismo foi terem sido criadas condições para que pessoas desequilibradas psicologicamente se sintam enquadradas por ideais completamente enviesados que oferece a estas pessoas uma cobertura ideológica para todo o género de atrocidades.

Depois de mais de duas décadas a trabalhar como jornalista, e sobretudo num período em que o rosto que o país de si tinha era em grande parte reflexo do trabalho dos jornalistas, classe que tem vindo a perder meios e influência... Agora como romancista, em que medida pensa que a literatura pode ou não compensar a perda da capacidade mediadora dos jornais?
Nenhum jornalista, ou ex-jornalista, consegue livrar-se de um olhar crítico sobre a realidade. Mas isto é antes de tudo uma postura cidadã. Todos devemos adquirir essa capacidade de questionar o ambiente que nos rodeia, sejamos jornalistas ou tenhamos qualquer outra profissão. A minha literatura é tributária dessa tensão com a realidade. Creio que a literatura tem um papel de mediação mas que não se substitui ao do jornalismo. São processos de mediação completamente diferentes. O do jornalismo é muito mais directo, uma reflexão diária e continuada sobre factos e em cima dos factos. A literatura não o é necessariamente. Toda esta nossa conversa é um pouco uma simplificação do que é o livro. O livro não coloca as questões de um modo tão directo. Cria uma situação completamente ficcional e até, em alguns aspectos, inverosímil, e, a partir dessa falsificação da realidade, a literatura tenta problematizar para buscar assim uma verdade. Mas não é uma verdade semelhante para todos os leitores. O que a literatura tenta é levar as pessoas a pensar a partir de uma mentira. Uma ficção de algum modo inverosímil e que não se confunde com a realidade. Não fiz sequer trabalho de campo para perceber se existe um bordel como o Bar Mitzvá [o do livro]. Mas foi o bordel que eu inventei para cumprir a função que lhe determinei. A partir da ficção o trabalho do escritor não é entregar verdades formatadas ao leitor mas levar o leitor a reflectir sobre a realidade que está na origem daquela ficção. E o obrigar o leitor a pensar também o leva a retirar as suas próprias conclusões.

Neste livro opta por um tipo de escrita bastante acessível, bastante directo na forma como narra a sua história, apresenta o elenco dos personagens, parece às vezes o tipo de narrativa que facilmente teria uma adaptação cinematográfica pela forma tão visual como se desenrola a acção. Isto resulta de algum esforço para tentar cativar um público mais vasto?

Não foi essa a preocupação. Tratando uma realidade que é cruel e até agressiva, este livro precisava de uma linguagem que também fosse crua e seca. Essa aparente simplicidade da linguagem é contrabalançada pela agressividade de palavras que sei que podem provocar alguma aversão aos leitores. Não houve minimamente uma preocupação de escrever simples para ser mais fácil de entender, mas de escrever de um modo nu e cru para se adequar à realidade sobre a qual o livro procura reflectir. 

Qual o papel do romancista numa sociedade em que os meios tecnológicos parecem ter criado a possibilidade para que todos se reclamem autores?
Aquilo que eu entendo como sendo a minha obrigação enquanto escritor é contar uma história mas não fazer dessa história um exercício vazio e sem mais sentido que não seja o do entretenimento. O papel da literatura é ir além do entretenimento e induzir e praticar uma postura desde logo cívica, uma atitude de questionamento, mas também um gesto literário que construa uma visão sobre o mundo que temos à nossa volta.

No teorema do macaco infinito o exemplo dado é a obra de Shakespeare, mas quais foram para si os escritores que mais o impressionaram por essa capacidade de, contando uma história, problematizar o mundo à sua volta?

Houve dois livros que me marcaram profundamente na fase final da adolescência. O “Cem Anos de Solidão”, do García Márquez, e “A Jangada de Pedra”, do Saramago. Li-os muito próximo um do outro e não só me educaram enquanto leitor mas obrigaram-me a ser mais criterioso nas escolhas que fazia em termos de leituras. Indicaram-me o caminho para o que eu haveria de ser como autor. Para simplificar, “A Jangada de Pedra”, a ideia da Península Ibérica libertar-se da Europa e ficar à deriva não é à partida uma história verosímil, não é uma coisa que possa acontecer amanhã nem em 100 anos, mas o que o Saramago com esse livro me ensinou é a possibilidade de a partir de uma ideia inverosímil ser possível criar uma história que, internamente, ao mergulharmos nela e nos vermos imersos naquela linguagem, rodeados daquelas personagens e seguindo aquelas reflexões, aquilo torna-se uma verdade para quem está a ler. É o que eu tenho tentado fazer.

 

Fotografia de Diana Tinoco [© jornal i]

Manuel Jorge Marmelo: «Há pessoas que combinaram o absoluto terror e o culto pelas artes»

 

 

Imperdível entervista de Manuel Jorge Marmelo ao jornalista Valdemar Cruz, do semanário «Expresso»: Temos um prostíbulo comandado por um patrão paralítico sentado numa cadeira de rodas e amante das criações artísticas, um servil criado negro obrigado a demonstrar o teorema do macaco infinito, as prostitutas do bar Mitzvá onde tudo acontece, e uma metáfora da Europa e dos tempos que vivemos. É o novo livro de Manuel Jorge Marmelo, intitulado “Macaco Infinito”.»  [Fotografia de Lucília Monteiro / Expresso]

Aos 45 anos, Manuel Jorge Marmelo, jornalista entre 1989 e 2012, surge com novo romance. São já mais de vinte títulos publicados desde 1996, ano em que se estreou com O Homem que Julgou Morrer de Amor. Autor de O Amor é para os Parvos, conquistou em 2005 o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco com O Silêncio de um Homem Só. Em 2014 o romance Uma Mentira Mil Vezes Repetida proporcionou-lhe o prémio literário do Festival Correntes d'Escritas. Toda a entrevista aqui.

 

Valdemar Cruz 

Ao ver o romance situado num bordel cujo patrão é um paralítico sentado numa cadeira de rodas, é forte a tentação de ver ali uma metáfora da Europa em que hoje vivemos. É uma leitura abusiva?

É isso que o livro é. O patrão do prostíbulo não é exatamente o ministro das finanças alemão, mas poderia ser. A ideia das janelas do prostíbulo estarem todas fechadas, e ainda por cima terem em frente um aeroporto cheio de cercas é para reforçar a metáfora. Vivemos na Europa tempos bastante complicados. De alguma forma, isto é uma maneira de escarafunchar na ferida até ela fazer sangue.

Não obstante o ambiente que se imagina feérico, próprio de um bordel, aquilo acaba por ser muito claustrofóbico…
Quis que toda a ação decorresse ali dentro e essencialmente em dois ou três espaços do bordel para dar a ideia desta claustrofobia provocada pela alta finança e por esta série de regras mais ou menos cegas a que os países estão sujeitos, com efeitos como o referendo inglês. Por outro lado há a situação social. Finalmente, temos as sucessivas vagas migratórias e o modo como a Europa, ou alguns países, têm lidado com a situação, criando entraves de tal modo grandes, que as pessoas acabam por arriscar e fazer viagens perigosíssimas pelo mar, com os resultados trágicos que se conhecem.

Paulo Piconegro é o patrão do bordel Mitzvá. Chamou-me a atenção a escolha dos nomes, todos eles estranhos, porventura com segundas leituras. O que presidiu à escolha?
Sim, houve essa intenção. Para além de linguagem, que tentei que fosse o mais seca e despida possível para se adequar bem ao tempo que vivemos, houve a preocupação de adequar os nomes das personagens à sua personalidade. O Wakaso (o servil criado negro de Piconegro) que é um nome relativamente comum numa parte de África, foi roubado a um jogador de futebol da Costa do Marfim. Um dia estava a ver um jogo da Taça das Nações Africanas e apareceu-me ali o Wakaso. Achei que tinha tudo a ver com alguém que vai ter o papel principal no livro e está a tentar, cumprindo um castigo, comprovar a teoria darwiniana do macaco infinito. Ou seja, a tentar por acaso ser capaz de escrever um livro. O próprio nome acaba a ser um dos fatores que levam Piconegro a contratá-lo por achar que há ali qualquer coisa de poético no facto de alguém se chamar o acaso.

E o nome do bar? Mitzvá remete diretamente para a tradição judaica…
De alguma forma o nome está explicado no próprio texto. Aquilo é um prostíbulo. O Mitzvá é uma cerimónia de passagem dos judeus para a idade adulta e que no fundo é isso que no mundo secular fazem os prostíbulos. Para muitas pessoas os bares de alterne são locais de iniciação na vida sexual. Não há qualquer outra intenção.

Com que intenção utilizaste uma linguagem seca, como dizes?
O livro retrata uma situação muito crua. Para além do Mitzvá ser um lugar inóspito, a realidade da qual pretende ser metáfora também é bastante inóspita. Tentei que a linguagem retratasse tudo isso. Quando chamo putas, e não prostitutas ou meretrizes às funcionárias do bar, é uma tentativa de tornar aquela realidade difícil, também pelo lado da linguagem. Sei que causa reação por parte das pessoas. Já com outro livro tive essa experiência de que o palavrão às vezes provoca reações epidérmicas nas pessoas.

A palavra “puta” deve ser das mais usadas no livro. Isso ainda é incómodo, mesmo tratando-se de um romance?
Ainda é incómodo. Julgo não cometer nenhuma inconfidência grave se disser que já o livro estava numa fase bastante adiantada de produção e ainda tinha a minha editora da Quetzal a perguntar-me se por acaso não queria mudar “putas” para “prostitutas” e “preto” para “negro”. Tenho amigos pretos que preferem ser chamados pretos a negros, ou escurinhos ou outra coisa qualquer. As vezes há um certo politicamente correto que leva as pessoas a olharem para as palavras com um preconceito que elas não têm. Tentei ser o mais direto possível nesse tipo de designações.

Como chegaste a esta ideia?
As ideias vão surgindo aos bocadinhos. O primeiro capítulo do livro, que é o Paulo Piconegro a acordar e a ouvir o ruído do trânsito, surgiu-me quando acordei uma manhã em Lisboa num hotel altíssimo a ouvir o ruído do trânsito. Aquela imagem de alguém que ouve a cidade à volta após acordar foi a primeira ideia que tive para o livro. Depois surgiu a ideia de quem acorda ser alguém que não se pode mexer e está resumido a essa perceção auditiva da cidade. Mais tarde acabou por surgir o criado negro.

Como é que te aparece aquele trabalho à volta do teorema do macaco infinito, que é algo muito forte no contexto do livro?
Creio que resolvi incluí-la muito no início. Tem um papel central e sobretudo remete para uma ideia que julgo resultar com alguma força, que é a questão de sendo o ser humano o mais infinito dos símios – até hoje ainda não paramos de evoluir e descobrir coisas – tanto é capaz de fazer aterrar uma sonda em Júpiter, curar uma doença praticamente incurável, ou compor o “Samba da Bênção”, como, ao mesmo o tempo, enquanto coletivo, pode criar as tais regras que estão na origem da situação que vivemos hoje na Europa. Por outro lado, toda aquela teoria darwiniana permite fazer uma ligação à literatura e refletir sobre o processo literário. Os escritores acabam por fazer a mesma coisa. Sentam-se frente ao computador e esperam que dali resulte um livro, de preferência bom.

Como é que uma casa de putas, para utilizar a linguagem do livro, está recheada de reproduções de grandes quadros de grandes pintores, com particular destaque para o tantas vezes referido “Les Demoiselles d’Avignon”, de Picasso?
O Paulo Piconegro tem essas preocupações estéticas e artísticas, essencialmente porque me pareceu interessante fazer uma reflexão sobre os chavões que costumamos ouvir sobre a literatura poder salvar as pessoas, tal como a arte. As putas não ligam nenhuma àquilo e Piconegro, tal como várias facínoras que fomos conhecendo ao longo da história, consegue ser uma pessoa absolutamente horrível e cruel, e ter essas preocupações artísticas. Temos inúmeros exemplos de pessoas combinaram o absoluto terror e o culto pelas artes.

 

 

 

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