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Quetzal

Na companhia dos livros.

No Chiado, depois de descer a rua Garrett

 «Com os seus vinte e dois capítulos, e portanto a um capítulo de ser perfeito, o Céu Nublado com Boas Abertas entrou na minha vida numa noite de Snob. Eu creio que o Alexandre já tinha chegado - não tenho a certeza - e estávamos derramados pela mesa em torno de uns copos, quando o Nuno me falou do seu romance. Houve ali um momento de choque ao aperceber-me que seria o primeiro romance do Nuno. Quer dizer, para mim o Nuno sempre fora escritor e, por isso, em qualquer altura do Nuno um romance seria algo natural, mas eis que ali estava ele, o romance, na iminência de ser uma realidade, como um produto dos 40 e poucos anos. Uma boa idade para um primeiro romance. Tomei como nota mental comprá-lo quando saísse e estava longe de pensar que estaria aqui hoje a apresentá-lo.»

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Domingos Farinho sobre Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos. Para ler na íntegra aqui

O Melancólico Inconstante e a invariabilidade de Vencer

 

 

 

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«Só o retornado vê e vive a ilha verdadeiramente. É uma questão de visão; daquela paralaxe que cabe ao viajante, ao combatente, ao emigrante, ao estudante, enfim, a quem coraja voltar sabendo que nada será o mesmo e que o passado se fará, de ora em diante, da falsa memória e da selecção. O autor e o personagem de Céu Nublado com Boas Abertas toma pulso e impulso e percorre o trilho terapêutico neste regresso com múnus, com um propósito herdado cujo destino circular é uma aproximação ao passado através de um presente desconforme e até mesmo insólito. Mas rápido se apercebe o leitor que o insólito não é coisa nupérrima, não é sequer moderno, mas sim uma viga transversal ao tecto humano, uma natural vértebra kafkiana. Quem se gruda e descola da tradição de Joyce ou Beckett trará sempre no lombo a marca de formidáveis personagens e da sensação de jornada feita dentro e fora. Munido de todas as referências que o alicerçam, Nuno Costa Santos consegue ser intrépido na audaz facada que desfere no lugar-comum que é muitas vezes dado às ilhas. E é essa facada correspondente a uma clínica sangradura que é correctiva ao corpo. Um trabalho que se aventura a apontar um céu dividido, metade azul, metade cinzento (…) por mais que passe a imagem de soturno e castigador. É, assim, descrita a verdadeira dicotomia insular, que não é mais que a imagem do próprio Homem e da vida, na sua visão mitificada (…) que esconde… Que esconde sempre a sua origem eruptiva e violenta, e um final prometido, feito do mesmo.

Não me foi difícil encontrar madeira a que lançar cabo de abordagem neste livro. Há uns anos estive aqui nesta casa [dos Açores], e o Eduíno [de Jesus] deu-me a oportunidade de tomar assento na mesa, no lugar que, na altura, se destinava ao Fernando Aires. Mal sabia eu que o plano era uma mais complexa substituição. Ali estaria para falar pelo meu Avô, Fernando de Lima. Um plano bem urdido, pelo seu irmão de armas, que nos sabia muito próximos. Esse diálogo, surpreendentemente, também não me foi difícil. Esta herança geracional, este acto de profunda ligação com um Avô é, precisamente, o que inaugura Céu Nublado com Boas Abertas. Inicia-se a viagem literal com uma descoberta, a de uma obra inédita do avô do protagonista-narrador: Exílio na Montanha, uma referência titular deveras evocativa de um conhecido livro de Thomas Mann, que não incidentalmente, coloca o seu herói no topo de uma montanha, em convalescença e na perfeita oportunidade de se rever existencialmente. Em crise existencial, o palco deverá ser território neutro, ou a casa, ou ambos. Em qualquer dos casos, dita a circunstância que nos vejamos como estrangeiros, em sítio conhecido ou num que devíamos conhecer. Será sempre o estrangeirado que mede a sua ambiguidade identitária, as suas dialéticas, procurando a identificação derradeira, procurando talvez aquele sentir de pertença que nos remete ao berço e a tempos em que os deuses verdadeiramente existiam, pairando, cuidando, alimentando, sempre neste gerúndio tão nosso. Este reencontro será sempre uma utopia cumprida na odisseia e no desterro. O Homem soube disso quando criou o Olimpo para os seus deuses, e quando lançou os dados a Ulisses, dando-lhe a sacola de Éolo, senhor de todos os ventos e direcções. Aqui [em Céu Nublado com Boas Abertas], o nosso protagonista é, não tanto instalado quanto levado por sirenas, a um outro sítio de isolamento: à ilha. Ora, com o avô na montanha e o neto na ilha, temos construídas as duas pontas do fio condutor para um dialogo literário sem tempo, e com um espaço perfeitamente inerte, não fosse essa a natureza lenta comum às ilhas e às montanhas. Quem não se lentifica nesses lugares de perdição e de encontro, são as personagens. Essas, ricas em metáfora, por vezes esbarrando em arquétipos, noutras fugindo deles com despudor quanto baste, são talvez, e cada uma, pingos destilados da metis, ou argúcia do autor, característica , aliás, partilhada com o mesmo Ulisses feito navegador e explorador existencial. A orgânica inteligente do livro é feita de muitos órgãos, com diferentes funções, assim deve ser qualquer corpo. O uso de cartas, não desigual ao de Olivier Rolin no seu O Meteorologista, faz do leitor mirone e massaja a glândula da empatia. Esse influxo da polifonia vívida num dialogismo de forma e ferramenta, constrói personagens que enchem o espaço da linguagem e circulam nele com todas as cores e iluminuras, mesmo que, por vezes, estas sejam na escala cromática do cinzento, apontando ao negro. E, mesmo aí, urge considerar a propriedade que dita que o negro assim o seja porque absorve toda a luz que nele se incide. Neste prisma, o chumbo insular seria nada mais que um todo absorvido de luz. Um nublado da ordem do melancólico que se espraie em momentos eutímicos, em abertas, e essas, boas.

Neste ponto na ordem de trabalhos a que se sujeita um livro quando se torna físico, já muito foi dito sobre Céu Nublado com Boas Abertas. Muitos olhos fizeram os seus processos especializados e ecléticos de dissecação in vitae; todos, adianta-se, com as melhores considerações. Fazer um exercício de não pisar dedos é difícil nesta maravilhosa circunstância, mas há uma nota não menos importante a escrevinhar-se nestas margens: O título do livro é um diagnóstico, todo ele clínico na sua metáfora. Céu Nublado aponta o melancólico, Boas Abertas, a mania. Mania, pelo adjectivo que eleva a condição da abertura luminosa, aqui incandescente, no mínimo. A polarização não é novidade na condição humana, senão parte integrante desta, algo cíclico a que são sujeitos os ilhéus talvez mais do que muitos. Dita a melancolia que o seu dínamo seja permanentemente alimentado a desilusão e angústia. São essas as duas Erínias do nublado. Mas no movimento ascendente, antes do precipício, fazem-se as boas abertas, muitas vezes mantidas pelo impulso, pelo prazer. Assim é a própria vida, quer o vejamos, quer não. Do mesmo modo, é na perda e no recuperar da saúde, que ela própria é apreciada. Saber viver com esse dínamo alojado no peito será, talvez, atingir a verdadeira liberdade. Saber traçar limites nesta vivência: o desafio. E é nesse desafio, nessa corda bamba, que fazem travessia as personagens, empurradas para a deslimitação, para o crime, essa fuga rente à própria morte por não se suportar a vida tão em cerco. E o que é uma ilha que não um cerco? O que é uma pessoa que não um cerco de si mesma? Não nos enganemos, no entanto, no diagnóstico. Não é este um que rotule o ilhéu de maníaco depressivo. Existirá, sim, uma depressividade, uma melancolia, furada de quando em quando por momentos de melhoria. A gravidade aqui, terá que ser imposta sobre a melancolia tornada crónica, indício sempre de perda precoce, de vazio. Para esse vazio bastará um sentimento de estrangeirismo, de singularidade cercada pelos mais castradores elementos, do Mar ao Céu, antigas moradas dos deuses. Céu Nublado com Boas Abertas é, portanto, e também, um tratado clínico. E não creio que em total contra-narrativa com outras gerações. Afinal, através do realismo mágico, muito foi traçado a grafite, escura também. Mas é tendência no Autor, como deve ser em todo o mudar-da-guarda, o lancetar edipiano. o desafio feito ao Pai, aos deuses, ao sistema, ao Mar, ao passado. Tenta-se sempre, falha-se e consegue-se, e assim se restaura o próprio fabrico do Tempo e as dinâmicas que dele dependem. Faz-se, no combate, a homenagem. O Autor é vencedor nisto, sempre. Aqui, com a justa húbris de quem sabe o que faz. De quem tem bagagem quanto baste para sobreviver a qualquer viagem que se proponha fazer. Será ele, o Autor narrador, também, um melancólico inconstante, como nós todos, como o tempo. A sua solução final é sempre vencer através do sofrimento. Até mesmo o Avô extirpa o pulmão para salvaguardar a sua filha da contaminação. É respirando, enfim, vivendo, que se morre. Apenas na obra valorosa nos libertamos da lei da morte. Avô sabia disso, o neto também.

Estamos já em escalada suficiente para termos boa vista sobre o impacto deste romance no nosso tecido literário. Fez vinco, dobra; acepilhou, nivelou, inaugurou, brindou. E tudo isto em presente histórico, também.

Entretanto, olha-se o mar, do regresso que abre a narrativa ao que a encerra, e sonha-se, do voo que inaugura a viagem até à página final. É esse o derradeiro positivismo humanista, a derradeira aberta luminosa num céu nublado e carregado, sonhar sobre o abismo e, fatalmente, vencer.»

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Texto de João Pedro Porto, na apresentação de Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos, na Casa dos Açores em Lisboa, na semana passada.

 

A empatia não é apenas um sentimento

Rebecca Solnit escreve contra o ultraje - PÚBLICO “Acho sempre que quando escrevo o faço contra alguma coisa, em vez de a favor de algo. Quando escrevi Esta Distante Proximidade estava a reagir contra a ideia de que a empatia é apenas um sentimento. É também um acto imaginativo, como nos imaginamos na vida de outra pessoa. É por isso que a empatia um é tremendo acto criativo, muito ligado à habilidade de contar histórias, de entender histórias. Uma falha de empatia é sempre uma falha da capacidade imaginativa. Por exemplo, nesta pré-campanha vemos as pessoas à volta de [Donald] Trump e da sua falta de imaginação sobre o que é ser negro, o que é ser pobre, o que é ser imigrante, como é ser todas essas categorias de pessoas e encorajar a violência em relação a eles. É quase como um acto ritual, linchar todo o velho sul, um acto de não empatia. Empatia é o sentido de que não estamos separados; eu sinto por ti o que acontece contigo. Isso torna-nos vulneráveis e por isso as pessoas tentam de tantas formas não ser empáticas.”

Isabel Lucas entrevistou Rebecca Solnit, autora de As Coisas Que os Homens me Explicam, em San Francisco.

 

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Matéria-prima para matéria literária

 O que o fez pensar que um bairro poderia ser profundamente literário?

As histórias das pessoas. Desde cedo senti que tinha ali matéria-prima que poderia resultar em matéria literária. Podemos conhecer histórias interessantíssimas na vida real e não conseguir encontrar forma de as transformar em matéria literária e, por vezes, histórias muito interessantes do ponto de vista humano dão má literatura... Mas havia uma coerência naquele ambiente, não só naquelas histórias reais que eu conhecia, mas noutras que eu pensei que poderiam encaixar ali, histórias inventadas, histórias que partiram de notícias que li em jornais e que cabiam naquele universo. O ponto de partida foi crescer ali, ouvir muitas histórias, e pensar porque é que haveria de ir à procura de outras histórias se tinha ali um ponto de partida. Mas por que não ir buscar histórias a outros lugares e trazê-las para aquele universo? A certa altura percebi que fazia mais sentido assim.

 

Bruno Vieira Amaral, sobre o Bairro Amélia, de As Primeiras Coisas, em entrevista a Vânia Maia, para a revista Visão, a propósito do projeto Um Bairro Melhor. 

 

 

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