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Quetzal

Na companhia dos livros.

O safari fantástico

«Corto Maltese, mas também Paulinho da Viola. Mia Couto e Gabo. Carlos da Maia e João da Ega. Um ditador africano cujo nome se torna tão fácil de reconhecer como complicado de apresentar de forma explícita, até porque, como diz o próprio, «a comunidade internacional e, em particular, Portugal, tem apoiado, sem reservas, o nosso modelo de democracia». Mas também uma Virgem sem cabeça, um Construtor de Castelos que deriva para Engenheiro de Pontes, o Kung Fu Panda e o Sombra. Depois, Salvador da Bahia, uma Lisboa disfarçada com o passado, França, Colômbia e múltiplas Angolas. A que se junta a sombra de uma mangueira, que resguarda mas que, em simultâneo, faz cativos aqueles que nela mergulham e não mais conseguem sair – até aventura em contrário – dessa traiçoeira «zona de conforto».»

 

João Gobern, Diário de Notícias

 

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Um lugar quase perfeito

Helena Vasconcelos, no Ípsilon, dá cinco estrelas a Acasalamento, de Norman Rush, e considera que o escritor criou «uma das melhores personagens literárias femininas das últimas décadas.

 

«O facto de toda a acção se desenrolar nos anos 70 do século passado acrescenta um certo exotismo e um contexto histórico excepcional. Rush que, com a mulher Elsa, passou exactamente essa época — de 1978 a 1983 — em África, integrado no Corpo da Paz, está perfeitamente familiarizado com os acontecimentos que determinaram as grandes viragens no continente: luta contra o apartheid na África do Sul, independência de países colonizados, auto-determinação e consolidação das teorias marxistas. No entanto, o autor nunca se deixa empolgar por ideologias e mantém, até ao desfecho, um distanciamento satírico, e uma postura afectuosamente crítica. Enquanto a acção se alonga com a mesma cadência que o tempo em África e os principais protagonistas vão perdendo o seu brilho heróico, Rush nunca se esquece que a sua tarefa mais importante é a de explorar o poder da linguagem. A mulher que tenta sempre aperfeiçoar o seu conhecimento é uma virtuosa do “idioverso”, uma mistura de termos em várias línguas (incluindo as nativas, como o tswana), de referências cruzadas, de piadas privadas, de neologismos, de citações, de estrangeirismos, manipulados e utilizados com avidez. Para ela, a intimidade suprema passa sempre pela linguagem — “ a decadência é quando se começam a perder os nomes das coisas (p. 211) — e a pobreza do vocabulário é uma condenação para qualquer sociedade. Quem não gostaria de lhe seguir os passos, atravessando um deserto e vivendo num lugar quase perfeito, onde todas as experiências são possíveis?»

 

London author photo 2013.JPGFoto: Elsa Rush

"Perdi muito cedo a ingenuidade porque comecei a ler"

«Inspira-se nestas pessoas?

Eu não me inspiro, tomo nota. São uns apontamentos.

Vamos usar a palavra inspirar para facilitar...

Entre aspas.

"Inspiram" mais hoje em dia ou há uns anos "inspiravam" melhor?

Talvez deva responder de outra maneira. As pessoas eram diferentes e mais ingénuas. Atualmente, estão mais ao corrente da vida e perguntam-se: "Como é que me devo apresentar?" O que antigamente não acontecia porque a pessoa era e agora a pessoa faz-se.

O que tem muito que ver com as personagens de ficção...

É um pouco assim. Devido à televisão, têm uma grande consciência de si próprias, da sua atitude e da sua posição. Há, talvez, aqui quatro ou cinco pessoas entre as poucas dezenas que ainda são da cepa antiga. Mas o geral não.

E no seu caso, mantém-se ingénuo ou também já a perdeu?

Eu nunca o fui. Perdi muito cedo a ingenuidade porque comecei a ler bastante e muito cedo - por volta dos 8 anos -, mesmo que não soubesse o que lia. Era como quem absorve material sem saber o que aquilo é. No entanto, por volta dos 14 anos já tinha uma consciência política muito desenvolvida para a idade e para o tempo. Até uma consciência social muito forte pois nasci num lugar muito pitoresco de Vila Nova de Gaia, a que chamam Monte dos Judeus. É uma ilhazinha de casas no meio dos armazéns de vinho do Porto, onde havia uma fauna muito especial de pessoas: dois ricos que eram os donos da estiva, uma família Cockburn, uma classe média modesta, prostitutas, embarcadiços e pescadores. Na parte da frente da casa, olhava-se para o Porto; nas traseiras, olhava-se para a Idade Média. Isso deu-me muito cedo uma visão particular da sociedade, porque convivia com as classes sociais todas.

E no seu caso, mantém-se ingénuo ou também já a perdeu?

Eu nunca o fui. Perdi muito cedo a ingenuidade porque comecei a ler bastante e muito cedo - por volta dos 8 anos -, mesmo que não soubesse o que lia. Era como quem absorve material sem saber o que aquilo é. No entanto, por volta dos 14 anos já tinha uma consciência política muito desenvolvida para a idade e para o tempo. Até uma consciência social muito forte pois nasci num lugar muito pitoresco de Vila Nova de Gaia, a que chamam Monte dos Judeus. É uma ilhazinha de casas no meio dos armazéns de vinho do Porto, onde havia uma fauna muito especial de pessoas: dois ricos que eram os donos da estiva, uma família Cockburn, uma classe média modesta, prostitutas, embarcadiços e pescadores. Na parte da frente da casa, olhava-se para o Porto; nas traseiras, olhava-se para a Idade Média. Isso deu-me muito cedo uma visão particular da sociedade, porque convivia com as classes sociais todas.»

 

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Entrevista de J. Rentes de Carvalho ao DN.

 

Futebol e sentimento

«Este não é um dicionário comum. Porquê o sentimental?

 

Não queríamos que fosse um dicionário normal. O E não poderia ser de Eusébio, seria muito óbvio. É de Eléctrico, do tempo em que o Rogério Pipi e o Peyroteo, um do Benfica outro do Sporting, trabalhavam juntos no mercado das carnes e iam também juntos de eléctrico para o treino. Isso é sentimento.

 

Há histórias surreais como a do tipo que atropela o seu jogador favorito do Torino, o Gigi Meroni, e anos mais tarde se torna o presidente do clube. Como fazes a tua pesquisa?

 

Entre numa livraria e folheio as coisas mais improváveis. A partir de uma ponta solta começo a descobrir a história. Esse jogado foi atropelado no meio da rua por um adepto que o idolatrava e que morava ao lado dele – e que viria a ser presidente do clube. O jogo seguinte foi um Torino-Juventus, um dérbi muito fértil em emoções, e ficou 4-0. Três golos foram marcados por um jogador argentino, Néstor Combin. Encontrei-o na Argentina em 2011 e ele fartou-se de chorar ao lembrar-se das coisas. Esse tipo de histórias estão por aí, há que as procurar.»

 

Entrevista de Rui Miguel Tovar à revista Sábado, a propósito da publicação do Dicionário Sentimental de Futebol.

 

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«Sou esquisito ao telefone»

«Porque decidiu responder por email em vez de fazer uma entrevista por telefone? Porque prefere escrever sempre que pode?
Sou esquisito ao telefone, ainda mais quando faço entrevistas. Leio-as mais tarde e consigo ver que por causa do meu nervosismo acabei por transmitir ideias enigmáticas e até enganosas em relação ao que realmente tinha para dizer.
O seu primeiro romance foi agora publicado pela primeira vez em Portugal. Isto não lhe parece estranho, quando estamos a falar de um livro que foi lançado originalmente em 1991?
Bom, a única coisa que sentia sobre esta publicação em Portugal era prazer. Mas isso foi até ter lido esta pergunta. Pergunto-me se não deveria ter estado revoltado com o país durante todos estes anos.
Tem uma média de dez anos entre livros e só publicou quatro. Não leve a mal esta pergunta, mas o que faz para viver?
Já ganhei a vida de diferentes maneiras, de apanhar cerejas a descarregar camiões que transportavam molhos de “New York Times” para os pontos de venda, durante a madrugada. Estive empregado como responsável pelas batatas fritas na cozinha de um restaurante quase durante 30 minutos. Fiz as coisas que habitualmente os escritores fazem, dei aulas, fiz revisão de texto… O trabalho que fiz durante mais tempo foi como alfarrabista. A Elsa trouxe quase sempre dinheiro para casa e entre os dois recebemos três pequenas mas importantes heranças, que foram uma grande ajuda. A história profissional dela é tão variada como a minha mas foi durante muito tempo designer têxtil. Trabalhámos no Botsuana, em África, durante cinco anos como directores do programa do Peace Corps [organização de voluntariado gerida pelo governo dos EUA]. Tivemos alguns prémios, uns bónus, direitos de livros vendidos para filmes que acabaram por não resultar em filmes… Enfim, percebemos cedo que para nós o lema mas inteligente seria “manter baixas as expectativas”. Vivemos durante 53 anos menos os cinco de África numa pequena casa numa quinta construída em 1840. Primeiro alugámo-la por 55 dólares por mês, depois comprámo-la, mais os quase oito mil metros quadrados de terreno, tudo por 20 mil dólares. O nosso carro é um Saturn de 1998.»

 

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 Norman Rush em entrevista exclusiva ao jornal i.

Um lugar contra a solidão

«“Qual é a nossa história?” Rebecca Solnit constrói um livro a partir desta pergunta primordial a que vai dando respostas, sustentada na reflexão sobre sua relação “maligna” com a mãe. A partir do que podemos chamar um ajuste de contas de uma mulher adulta com a sua mãe doente de Alzheimer, Solnit vai atrás da sua história e, a partir dessa singularidade, convoca a imaginação e nomeia-a a sua grande aliada para conseguir chegar ao outro. Sem imaginação, diz Solnit, não há empatia, o mesmo é dizer que sem imaginação somos seres isolados no mundo.»

 

Isabel Lucas, Público

 

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