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Quetzal

Na companhia dos livros.

O Adérito das cerejas

«O Kalifa serve um «bacalhau à lagareiro» de qualidade superior, feitura idem, pelo que para lá me mando, a antecipar os sabores do almoço.

Estaciono defronte dos Correios.

Assombrado, o casal estacou no passeio. A mulher fica. O homem, um sessentão gorducho apoiado a um cajado, avança para mim:

- Olha que esta! Ai que caralho! Quem havia de dizer!

Indiferente ao trânsito, pára a meio da rua, abre os braços, agita o pau num modo de esgrima amigável.

- Não me está a conhecer, pois não? Ai que caralho. A minha mulher… Não se lembra de mim?

- Francamente, não recordo.

- Caralho! Sou o Adérito! O Adérito das cerejas, caralho!

- Deve estar enganado.

- Não estou, caralho! Nós somos primos!

- Desculpe, mas…

- Sou o Adérito da tia Conceição, caralho! O Adérito… - continua a sorrir, mas atira uma paulada raivosa ao passeio.

- O Adérito, caralho! O Adérito de Vilarinho dos Galegos! O das cerejas! O primo!

- Olhe que não. Eu sou doutros lados. Não tenho família em Vilarinho, nunca lá fui.

- Não me diga, caralho! Então enganei-me?

- Acho que sim.

- Ai que caralho! Podia jurar, caralho!...

Encara-me descrente. No outro lado da rua, encostada à parede dos Correios, a mulher acena um adeusinho.»

 

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O diário de J. Rentes de Carvalho

«O livro Pó, Cinza e Recordações começa no dia 15 de maio de 1999 e termina nesse mesmo dia do ano seguinte. É do género literário da diarística, peça pouco habitual entre a maioria dos escritores portugueses e no qual o escritor J. Rentes de Carvalho já caminha pela terceira vez, pois publicou Portugal, a Flor e a Foice, um relato cáustico sobre o país de 1974 e 1975, e Tempo Contado, sobre o mesmo país, mas passado nos anos de 1994 e 1995.»

 

João Céu e Silva, Diário de Notícias

 

Pó, Cinza e Recordações chega às livrarias a 8 de maio.

 

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Vasco Graça Moura, um ano depois

O poeta Vasco Graça Moura morreu há um ano. Assinalamos a data com um dos poemas incluídos no volume 2 da Poesia Reunida.

 

meu amor, meu quente marulhar

 

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,

meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar,

percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,

e és para mim toda a realidade nesse instante.

há roupas, sim. roupas que vais vestindo, algum creme que pões,

uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora

e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.

 

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Pessimismo atento

«Como numa tragédia, há uma espécie de força negra que impele as personagens a uma condenação. Não se trata de uma visão determinística, mas da lucidez de um pessimismo atento. A precipitação final do livro aproxima-o da catástrofe trágica, acabando por lhe dar uma dimensão que o eleva acima de uma simples narrativa.»

 

Hugo Pinto Santos, Time Out

 

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Livros, rosas

«Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram. 'A rosa é sem porquê', disse Angelus Silesius; séculos depois Whistler declararia 'A arte acontece'.
Oxalá sejas o leitor que este livro aguardava.»


(Do prólogo ao livro 'Biblioteca Pessoal', de Jorge Luis Borges.)

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Pó, Cinza e Recordações, de J. Rentes de Carvalho

Escrito entre maio de 1999 e maio do ano 2000, este é o diário do milénio de um dos mais relevantes autores portugueses da atualidade, vencedor do Grande Prémio de Literatura Biográfica APE, em 2012.

 

«Há diários importantes e os que são apenas interessantes. Há-os íntimos, alguns dolorosamente francos, outros mascarados. Os que são escritos para ferir e os que são escritos para recordar. Este, suponho eu, cabe mal nas categorias acima, pois menos que uma anotação de factos e pensamentos, o vejo sobretudo como um desejo de conversa.»

 

«Aonde pertencerei? De verdade e por inteiro, a parte nenhuma. A terra onde nasci tornou-se-me estranha como um teatro, quando estou nela tenho a ideia de que represento um papel. A outra, onde vivo há mais de meio século, dá-me por vezes a ideia de um navio que se afasta e me deixou no cais. Procurar outro poiso? Nem a idade o permite nem as amarras o deixariam. Porque é isso: não pertenço, mas é muito e forte o que me prende.»

 

A 8 de maio nas livrarias.

 

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Borges: o autor-leitor

«Poucos, como o argentino Jorge Luis Borges, terão sabido tratar do leitor com tamanha adulação, colocando-o no papel principal das suas histórias. No prólogo da primeira edição de “História Universal da Infâmia” (Quetzal, 2015), escrito em 1935, Borges escreveu isto: «Por vezes creio que os bons leitores são cisnes ainda mais tenebrosos e singulares que os bons autores.»

Referindo que os «exercícios de prosa narrativa» que formam o livro derivam das suas releituras de Stevenson e de Chesterton – e também dos primeiros filmes de Von Sternberg e de alguma biografia de Evaristo Carriego -, Borges radiografa desta forma as grandes histórias presentes neste pequeno livro: «Abusam de alguns processos: as enumerações díspares, a brusca solução de continuidade, a redução da vida inteira de um homem a duas ou três cenas.»

Pedro Miguel Silva, Deus Me Livro

 

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Uma menina bem comportada?

«Mal-entendido em Moscovo, uma memória ficcional de publicação póstuma (1992), é publicado ao mesmo tempo que a reedição de O Segundo Sexo (também pela Quetzal Editores), um volumoso discurso sobre a ‘condição feminina’ escrito em fins dos anos 40 do século XX. Os dois livros cobrem uma grande parte das várias facetas de Simone de Beauvoir, cuja vida e obra atravessam o meio do século XX, alguns dos seus combates culturais e das suas contradições. Educada em colégios de freiras e devota, cedo se tornou ateia militante; ícone do feminismo, ficou para sempre, por ironia do destino, amarrada à sua relação conjugal vitalícia com Jean-Paul Sartre e ao ‘tórrido’ romance que manteve com o escritor americano Nelson Algren (de que ela gostava, pecaminosamente, de se chamar ‘mulher’, com anel no dedo). A sua relação com Sartre, diz a badana de Mal-entendido em Moscovo, pautou-se por padrões de ‘abertura e honestidade’, a que outros chamariam frieza, despudor e promiscuidade – e num certo caso as autoridades académicas chamaram desvio de menores. Não foi decididamente ‘a menina bem comportada’ do título irónico do primeiro dos seus volumes de memórias.»

 

Miguel Freitas da Costa, Observador

 

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Uma biografia com qualidades

«Se não tivesse outras qualidades (que tem), esta biografia teria a de ser a primeira de Agostinho da Silva. Ele que, entre outras coisas, foi um grande biógrafo, encontra aqui um amplo terreno para um percurso que parece pedir o chavão de maior do que a vida. Apesar de um estilo por vezes demasiado encorpado, com frases muito extensas, de labor intrincado, há outros aspectos a ter mais em conta: os temas versados (uma imensidão), os anos cobertos (uma vida de quase 90 anos), a multiplicidade de fontes (entre próprias e alheias, mais as primeiras, diga-se).»

 

Hugo Pinto Santos, Time Out

 

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Um thriller inesperado

A 10 de abril nas livrarias.

 

«A crítica internacional tem posto o escritor chinês Mai Jia nos píncaros da lua. É um novo nome, um entre tantos milhões de habitantes da República Popular da China, país onde o número de escritores tornados conhecidos no Ocidente é ínfimo. […]

Ignoremos o que se diz sobre o romance de Mai Jia e vamos à sua leitura. Cifra é uma narrativa que surpreende pelo inesperado de se ler um autor chinês com uma história que é uma espécie de thriller, só que mais inteligente do que a maioria destes “produtos” e com temas e abordagens que jamais se esperariam de um autor daquela parte do mundo. Isto porque Mai Jia não perde o pé na história milenar da China e utiliza muitas das suas passagens como cenário deste Cifra, balanceando em tempo certo a narrativa com geografias orientais e modos de pensar ocidentais.»

João Céu e Silva, Diário de Notícias

 

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Cifra chega esta semana às livrarias

E vamos dando conta das primeiras reacções na imprensa portuguesa:

 

«"Cifra". O título é o do livro mas também serve na perfeição para classificar o percurso de Jiang Benhu, escritor chinês que se estreou com esta história em 2005 e precisou de quase uma década para chegar ao resto do mundo (traduzido para inglês no ano passado, publicado neste 2015 entre nós). Para todos os efeitos, esteve codificado até agora - uma vez disponível aos olhos e à imaginação de todos tem-se revelado autor de sucesso, best-seller, tesouro escondido e outros epítetos da mesma classe. Porque sempre fez jogos com a linguagem, assina com outro nome, Mai Jia, mas logo à primeira publicação quebra uma das mais elementares regras da privacidade e do secretismo: assina ficção com ingredientes reais, pedaços de biografia incluídos. Mas a verdade é que nem por isso se dá a conhecer na totalidade. Quem é que vai conseguir descortinar o que é facto e o que não é?»

Ler o artigo completo no i.

 

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