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Quetzal

Na companhia dos livros.

5 estrelas para Mentiras & Diamantes

«Mentiras & Diamantes tem os ingredientes do thriller, com o escritor a manusear com mestria as técnicas do suspense numa teia cuidadosamente tecida e à prova do leitor mais treinado em encontra pontas soltas. Mas seria limitador reduzi-lo a um género. É uma interrogação sobre um tempo da história recente de Portugal ainda camuflado no silêncio, com uma crítica dura aos protagonistas da cena política nacional. E isto já não é novo em Rentes de Carvalho. É conhecido o desprezo do escritor pelos políticos e pelo rumo de um país que não conseguiu suportar pela claustrofobia dos costumes e do qual fugiu. É também conhecida a sua atracção pela possibilidade literária desse Portugal que, apesar de apontar o dedo ao ditador, nunca terá sido capaz de resolver uma mesquinhez e um provincianismo enraizados.»

 

Isabel Lucas, Público

 

Relâmpagos Negros

«Conhecemos esta mundividência dos seus livros inclassificáveis e esplêndidos, aos quais A Pedra Ainda Espera Dar Flor acrescenta centena e meia de artigos, prefácios, resenhas e divagações. O inexcedível Vasco Rosa, que tinha reunido em dois volumes boa parte destes dispersos, oferece-nos agora uma edição aumentada e num único tomo, resgatando de jornais antigos mais umas quantas dezenas de textos. Estes dispersos são como que esboços das obras canónicas de Brandão, contos lúgubres, histórias de pescadores, monólogos, prosas poéticas, páginas memorialísticas. Os textos mais notáveis são os jornalísticos, etnográficos e impressionistas, nomeadamente as entrevistas ou reportagens com gente que trabalha e sofre.»

 

Pedro Mexia, Expresso´

 

Um Mao para lembrar

«Numa altura em que o Capitalismo volta a estar em xeque, aquele que chegou a ser apontado como um dos rostos do Socialismo, o Grande Líder que esteve na base de uma nova China, chega agora a Portugal na forma de uma biografia intitulada “Mao, a História Desconhecida”, da autoria da chinesa Jung Chang e do seu marido, o historiador britânico Jon Halliday. Um livro que, recorrendo a testemunhos e a mais de 10 anos de investigações, revela um Mao que a propaganda chinesa se esforçou por esconder, já que, mais do que defensor do Socialismo e do bem-estar do povo, era no Poder que estava interessado. Não se importando sequer de deixar pelo caminho os corpos de mais de 70 milhões de chineses.»

Ler no Diário Digital

 

Manguito literário

«A Balada de Johnny Sosa é um desses exemplos pequenos da arte de bem soltar um manguito literário contra ditaduras e ditames e dar ao fraco e oprimido o seu saboroso momento de vingança. Um gesto ínfimo de consolo enorme, nomeadamente nestes tempos de tristeza civilizacional que prolongam o descontentamento muito para lá de qualquer Inverno.»

 

António Rodrigues, Ípsilon

 

Destragediar a vida

Hoje, no Ípsilon, destaque para a entrevista ao escritor uruguaio Mario Delgado Aparaín, autor de A Balada de Johnny Sosa, romance reeditado recentemente pela Quetzal.

 

«Em entrevista ao diário argentino Página/12 afirmou: “Sou de uma geração que perdeu o sorriso” e, no entanto, o humor é parte importante da sua obra.

 

A Balada de Johnny Sosa foi, entre outras coisas, uma reacção sã e natural – e até, diria, um tanto ingénua – à explosão da literatura panfletária dos anos 70. Uma literatura carregada de dramatismo, de personagens torturadas e de niilismos vários que atentavam contra a esperança e que afectou sectores importantes da literatura latino-americana. Alfredo Zitarrosa, maravilhoso cantor, poeta e narrador da minha terra, disse-me um dia que tinha gostado muito de A Balada de Johnny Sosa porque tinha a virtude de “destragediar” a vida – ele tinha inventado o verbo destragediar. Segundo ele, a única forma de retirar o potencial degradante que a tragédia costuma dispersar sobre os seres humanos é nunca perder o sentido de humor. Uma parte importante da minha geração pode ter perdido, por imperativo da dor, a capacidade de sorrir. Mas eu não.»

 

 Fotografia de Daniel Mordzinski

 

Diamantes eternos

«A obra de J. Rentes de Carvalho (n. 1930) tem estado a ser reeditada pela Quetzal, que acaba de publicar um seu romance inédito -  “Mentiras & Diamantes”. Trata-se de um thriller bem esgalhado, cruzando reminiscências do processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974 com redes de crime organizado. Rentes de Carvalho pertence a uma geração em que os escritores dominam bem o vocabulário, por oposição à “dieta Twitter” que vai moldando vária prosa publicada. O desembaraço não dispensa o uso de vernáculo, sempre adequado às circunstâncias, pontuando a narrativa de observações pícaras: “Grande cu! Alcatra de primeira!”»

 

Eduardo Pitta, Sábado

 

Isto anda tudo ligado

«Rentes de Carvalho escreve com a elegância e a destreza “de quem maneja o florete”. O leitor vai sabendo das aventuras (as do presente e as do passado) pela voz de um narrador que parece divertir-se na maneira elíptica e muito hábil de contar a história, que tanto pode alternar entre uma aldeia algarvia onde uns estrangeiros organizaram “umas orgiazitas ao ar livre, outras na capela da casa”, para logo a seguir um corpo ser entregue no deserto da Mauritânia. Pelo meio vão surgindo diamantes traficados nos saltos de Blahniks, um nigeriano em Albufeira, uma conta de dinheiro sujo em chipre, um receptador em Amesterdão que fala quimbundo, português, inglês e russo, e que vive com uma antiga bailarina do Kirov…enfim, toda uma fauna que faz de Mentiras & Diamantes um dos mais interessantes livros de Rentes de Carvalho.»

 

José Riço Direitinho, Revista Ler

 

Um amuleto literário

«Já vos aconteceu chegarem ao final de um filme ou de um livro e ficarem como que aturdidos, aprisionados numa sensação de queda no vazio que vos faz questionar se terão chegado lá, àquele lugar que o criador imaginou e escondeu nas entrelinhas? Pois bem, “Amuleto”, de Roberto Bolaño – edição Quetzal, série américas – é um desses livros abençoados pelo mistério da criação.»

 

Pedro Miguel Silva, Rua de Baixo

 

J. Rentes de Carvalho responde

A propósito da publicação de Mentiras & Diamantes, que chega às livrarias a 12 de abril, desafiámos o nosso autor J. Rentes de Carvalho a responder a algumas perguntas, uma das quais de um leitor. O escritor aceitou amavalemente o desafio e aqui ficam as perguntas e as respostas para todos os nossos leitores:

 

Passaram dez anos desde a publicação do seu último romance, A Amante Holandesa. Porquê um hiato tão longo até este Mentiras & Diamantes?

R: Hiato relativo, porque entretanto escrevi outras coisas, um segundo guia de Portugal, um guia de Lisboa e um estudo político social, A Ira de Deus sobre a Holanda, artigos aqui e ali, um ou outro ensaio. Mas acontece que no respeitante à escrita de ficção sou extremamente vagaroso, levanto-me dificuldades, problemas que só na minha cabeça existem. Fora isso sou um crítico embirrento de mim mesmo, o que hoje me parece satisfatório desagrada-me amanhã, emendo sem fim, recomeço não sei quantas vezes. E não vou falar dos romances deixados a meio, nem dos que ficam pelo esqueleto. Felizmente o meu pão-nosso de cada dia não depende da escrita, caso contrário teria um sério problema.

 

Pode descrever-nos, sucintamente, este romance?

R: É um relato em que entram personagens de natureza muito diferente, nalguns casos diria até oposta, e acontecimentos que decorrem num enquadramento peculiar. Numa trama normal teriam poucas probabilidades de se encontrar e influenciar. Mas como a vida é cheia de surpresas acabam por, voluntária ou acidentalmente, interferir nas acções mútuas e dar ao enredo as reviravoltas que, quanto a mim, são indispensáveis para "prender" o leitor e, em certas alturas, perguntar-se se é ficção ou, pelo menos em parte, realmente aconteceu. Acrescente-se que aqui e ali de facto aconteceu, e estou grato às pessoas que me forneceram algumas peças do puzzle.

 

Mentiras & Diamantes, que se pode considerar um thriller, pode surpreender os leitores quer pela temática, quer pelo estilo. Houve uma intenção deliberada de se aventurar por outros caminhos ou foi escrevendo sem pensar muito nessa mudança?

R: Era um desejo antigo, inconscientemente talvez date da minha infância, porque desde menino sempre fui e continuo a ser um leitor guloso de thrillers. Acontece que não me via capaz de fabricar um enredo complicado e a movimentar tantos personagens, o que a uns parecerá simples, mas se aproxima do malabarismo. Com o perigo de por um pequeno descuido segurar mal a vara e fazer cair a pratalhada.

 

Já citou como influências ou pelo menos, como escritores que lê com muito agrado, John LeCarré e Elmore Leonard. O que é que estes dois escritores têm que desperta a sua admiração? Deteta-se neste livro a influência destes autores?

R: Os quatro ou cinco primeiros romances de John LeCarré foram para mim uma revelação. Pelo enredo, o conhecimento dos ambientes e, sobretudo, a naturalidade do diálogo. Li-os algumas vezes com a mesma intenção de quem estuda um manual. Elmore Leonard foi uma descoberta posterior, e então já era demasiado velho para aprender, apenas saboreio e invejo. No que respeita este género, na minha formação pesam ainda de maneira variada muitos outros escritores, mas por agora fico-me por: Téophile Gautier,  Lawrence Durrell, Graham Greene, Somerset Maugham, Simenon, um esquecido John D. MacDonald.

 

Os seus livros, que a Quetzal tem vindo a publicar, têm tido um reconhecimento crescente por parte dos leitores e da crítica. Vê esse reconhecimento com gratidão ou com a sensação de ter chegado tarde demais?

R: Nunca se chega tarde demais, quando se chega. Claro que me sinto grato, mas para além de  um sentimento de gratidão, o que de facto me toma é um pasmo real, um sentimento de descrença. Não é impunemente que um indivíduo anda na escrita há mais de  sessenta anos, tem algum nome no país que o adoptou, mas por razões várias é ignorado  naquele em que nasceu e em cuja língua insiste em escrever.

A reviravolta causa uma certa perplexidade, mas nada que a tarimba da minha longa vida não ajude a resolver.

 

Pergunta do leitor Hugo Carlos Silva: No caso de existir, qual o livro que funciona como o centro da sua obra, a a partir do qual os outros irradiam (mesmo que de formas pouco óbvias), aquele em que sentiu estar mais próximo da plenitude (estética e moral)?

R: Um livro que funcione assim, que possa ser considerado centro de uma obra, deve ser raro e privilégio daqueles poucos escritores que, de longe a longe nos séculos, merecem o título de grandes. No meu caso não há centro, apenas dispersão, e planeamento nenhum. O que tenho escrito ou o que vou escrevendo resulta, ora de acidentes, ora de coincidências, às vezes é “disparado” por uma simples frase numa conversa, uma recordação, uma notícia.

A respeito de plenitude, e peço desculpa da banalidade, a única atingível é a do estômago. Pessoa a quem se meter na cabeça que anda em busca, ou está prestes a alcançar uma plenitude, seja ela estética, moral ou outra – com exceção da acima citada – tem em mãos um problema sério.

 

Entrevista Rentes de Carvalho

Que pergunta fariam a J. Rentes de Carvalho?

 

Vamos entrevistar o nosso autor J. Rentes de Carvalho e os leitores também têm oportunidade de participar. Deixem a vossa pergunta nos comentários até amanhã (dia 3 de abril) no respetivo post na nossa página do facebook (https://www.facebook.com/livros.quetzal.editores). Rentes de Carvalho responderá à pergunta escolhida pela equipa da Quetzal e a entrevista será publicada no blog www.quetzal.blogs.sapo.pt. O autor da pergunta escolhida receberá também um exemplar de Mentiras & Diamantes, o romance inédito que chega às livrarias a 12 de abril.

 

A importância da música

«Tal como acontece com muitos escritores da sua geração, casos de Dave Eggers ou Jonathan Franzen, os seus três romances estão cheios de música. Como explica esta proximidade, é geracional ou pessoal?

 

Pois é. Há uma atracção. Tenho de lhe agradecer a comparação com esses dois autores. Gosto muito do que eles escrevem e ao contrário de mim são estrelas grandes da literatura (risos). Tento entender o processo de escuta, a consciência dos sons, como eles interferem no modo como olhamos uma determinada realidade. Há uma relação muito próxima entre a música e a memória. Não sei se pelo processo de repetição. É uma coisa que me interessa muito. No meu caso e no da geração a que pertenço, bem como na geração anterior muito influenciada pelo rock’n’roll, acho que é um contágio natural. Crescemos a ouvir música. Quando eu andava no liceu, numa cidade dos subúrbios da Califórnia, os livros faziam parte da minha vida, os filmes também, mas era a música que nos vinha dizer que havia um mundo maior algures, para lá desse universo suburbano, onde as pessoas eram diferentes e tudo parecia possível. Havia uma tremenda sensibilidade que era capaz de nos dar esperança. Só tínhamos de conhecer as pessoas certas. Talvez aqui em nova Iorque, que era muito longe (gargalhada). A formação dessa sensibilidade é essencial quando se tem 13 anos e se ouve aquilo que se percebe pertencer a outra realidade, menos limitada do que aquela em que vivemos. Isso fica connosco para sempre.»

 

Excerto da entrevista de Dana Spiotta a Isabel Lucas, no Ípsilon da passada 6ª feira.

 

Coisas Partidas

«Dana Spiotta escreveu um romance provocador sobre luta e perda, com uma pitada de ironia sobre a rebelião e o protesto político, em que aproveita para ir explorando os pontos de contacto entre duas épocas marcantes da história contemporânea. Magistralmente arquitectado, e muitíssimo bem escrito, é um livro em que a autora percorre a História em sucessivas elipses, que dos anos 70 nos levam (para logo depois nos trazerem de volta) ao diário de Jason (escrito de 1998 a 2000), o filho da protagonista, no qual o adolescente procura descobrir, por aproximações, a vida secreta da mãe (como aquela que associa a mão a um dos músicos dos Beach Boys) – fá-lo como se montasse um puzzle a que sabe sempre que faltarão muitas peças; ao mesmo tempo, este é também um romance sobre os efeitos corrosivos de um segredo mantido por mais de duas décadas; sobre desespero e solidão.»

 

José Riço Direitinho, Ípsilon