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Quetzal

Na companhia dos livros.

Os Emigrantes

«Há muito que os livros de W. G. Sebald ganharam o rótulo de obras-primas. Ilusória e incatalogável, a prosa de Sebald navega entre a meditação e a elegia, a fotobiografia e o livro de memórias, a prosa e a poesia, a história e a invenção. Segundo ele, a sua escrita é “uma metáfora ou alegoria de um evento histórico colectivo.”

Nascido na Alemanha em plena Segunda Guerra Mundial, a sua vida e obra cresceram à sombra de um eterno conflito que, mesmo após o cessar do último tiro, continuou a travar uma luta imensa na sua alma. Nos seus livros, para além da evocação de escritores como Kafka, Benjamin ou Conrad, há a presença constante e ameaçadora da sombra da História: o imperialismo europeu, a destruição ambiental e o Holocausto moram em todas as obras. Sebald será uma espécie de arqueólogo da desgraça, um coveiro da melancolia, mas o seu grande triunfo é o de conseguir dotar de esperança um cenário que parece estar apenas reservado à dor e à morte.»

 

Pedro Miguel Silva, Rua de Baixo

 

Mao - A História Desconhecida - a 5 de abril nas livrarias

Esta é a grande biografia de Mao Tsé-Tung, o livro que resultou de mais de uma década de pesquisa e de inúmeras entrevistas com muitos dos que privaram com Mao dentro da China, e com todos os que com ele tiveram contactos relevantes no estrangeiro.

Pródigo em revelações surpreendentes, Mao, A História Desconhecida arrasa com os mitos (o da Longa Marcha, por exemplo, ou o de uma conduta norteada por ideais e ideologias), mostrando a forma como ascendeu ao poder e liderou a China num regime de coação, intriga e chantagem, que se saldou no extermínio de dezenas de milhões de chineses – 38 milhões morreram durante a maior fome da História; ao todo, mais de 70 milhões foram vítimas da governação de Mao – em tempo de paz.

E se por um lado explora a personalidade de Mao na sua atuação pública e política, revela, por outro, as histórias desconhecidas (e verdadeiramente cruéis) da sua vida privada e íntima – com os filhos, as mulheres e as amantes.

Mao, A História desconhecida, de Jung Chang – autora do romance Cisnes Selvagens – em colaboração com o marido, o historiador britânico Jon Halliday, considerado livro maldito e totalmente banido da China, é um documento fascinante quer para o leitor especializado, quer para o leitor comum.

 

 

 

Obscuro objeto de suspense

Jorge Ferreira, «o conde», recebe na sua quinta algarvia uma jovem e bela inquilina inglesa, que pretende escrever um livro. O anfitrião é um homem educado, atraente e rico, mas em extremo reservado – não se lhe conhecem amigos, amantes ou relações familiares –, que partilha a grande casa senhorial com duas amas e uma governanta. O seu passado esconde um trauma que o acompanha até hoje e que ele pretende eliminar da memória. Pelo contrário, Sarah Langton, filha de um milionário italiano, é impulsiva e aventureira, «viciada em liberdade» – o que não consegue conciliar com a reclusão e a disciplina que a escrita exige. Tudo parece concorrer para que estas duas personagens se aproximem lentamente e que comecem a processar o que as atormenta (a Jorge, os episódios do passado; a Sarah, extrema dificuldade em escrever alguma coisa pertinente para o seu livro misterioso). Mas a súbita visita de «Biafra» – «vistoso fato de linho branco, cravo na botoeira, panamá na mão» –, que vem para tentar uma pequena chantagem, dá lugar a uma cascata de revelações, desenlaces, homicídios, suicídios e desaparecimentos entre a Nigéria, Marrocos, Algarve, Londres e Amsterdão, tendo como pano de fundo o tráfico de diamantes e um país corrupto e corrompido, entregue aos seus segredos de família.

Mentiras & Diamantes, o mais recente e inédito romance de J. Rentes de Carvalho, é um thriller habilmente construído e uma narrativa implacável, violenta e sexy. E um maravilhosamente obscuro objeto de suspense.

 

Sobre Amuleto

«Publicado em 1999, Amuleto é um romance breve que funciona como uma ponte entre as duas monumentais obras-primas de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (1998) e o póstumo 2666 (2004). Os livros do escritor chileno, embora autónomos, estão imbricados uns nos outros. Têm vasos comunicantes. Partilham temas, obsessões e personagens. Nas mais de mil páginas de 2666 não se encontra uma única frase que justifique o título, mas numa cena noturna deste Amuleto, com três personagens à deriva pela Cidade do México, a explicação surge quase como um prenúncio: no desamparo da madrugada, a Avenida Guerrero parece-se com “um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo.”»

 

José Mário Silva, no Expresso, dá cinco estrelas ao livro de Roberto Bolaño

 

Cinco estrelas para a arqueologia literária

«Vasco Rosa acrescentou em cerca de 50 o número de escritos dispersos de Raul Brandão (1867-1930) que já reunira num livro anterior. A tarefa a que pôs ombros é digna de um rato de biblioteca. É que só através de autênticas escavações por publicações periódicas foi possível alargar o conhecimento da actividade jornalística do autor de Os Pescadores

 

Diogo Ramada Curto, Ípsilon

No interior do escritor

«O que mais se destaca neste conjunto de textos de imprensa é a qualidade da prosa. E o negrume. Por todo o lado há húmus, pescadores, amargura infinita, água escura, ventania, «noite camilesca» e revolta. Camilo, o génio que em nada deixa de meter coração e raiva, é o seu modelo, até porque encontra dor em tudo: «Camilo, pelo seu tipo de romântico, com a vida batida a galopadas, de raptos, de amores, de rija pancadaria» (p. 80). No enterro de Guerra Junqueiro, o cronista recorda os humildes, os pastores, as mulheres parindo filhos para a desgraça e a dor (p. 75). Silva Pinto é menos a sua obra do que um homem apegado à bengala, arrastando uma perna, com os cabelos já brancos e agitados, e sempre furioso com todos: «Se há homens que nascem com esta sina, sofrer, Silva Pinto é um desses» (p. 102). Aníbal Fernandes Thomaz, homem de biblioteca «que cheira um nada a bafio», confessa-lhe: «O que eu tenho sofrido!...» (p. 108). Com a sua pomposidade, Almeida Garrett é uma caricatura andante que envergonha: «quando um janota qualquer finge que tem cabelos e se aperta com um espartilho, não sofre: a futilidade dá-se bem com a futilidade. Mas um homem de génio nunca desce, sem sentir que se rebaixa.» (p. 72). É caso para dizer que os livros, os lugares e as pessoas (povo, amigos escritores) são construções de Raul Brandão, são o próprio Raul Brandão. O mundo existe no interior do escritor. As pessoas e os lugares são como ele os imagina. Nada existe fora do cérebro porque no fundo a única realidade existente é o eu.»

 

Paulo Rodrigues Ferreira, Orgia Literária

 

Bolañistas a Barcelona

Até dia 30 de junho é possível ir até Barcelona e ver a exposição Archivo Bolaño 1977-2003, no CCCB - Centre de Cultura Contemporània de
Barcelona
. Passam este ano dez sobre a morte do autor de 2666 e esse é o pretexto para essa mostra. Isabel Coutinho fala dela no Ípsilon de hoje, edição em papel ou para assinantes, e dela dá também conta a reportagem de Cassiano Ellek Machado, na Folha de São Paulo

 

 

 

Os três primeiros parágrafos

«Esta vai ser uma história de terror. Vai ser uma história policial, uma narrativa de série negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que a conto. Sou eu que falo e por isso não parecerá. Mas no fundo é a história de um crime atroz. 

 

Eu sou amiga de todos os mexicanos. Podia até dizer: eu sou a mãe da poesia mexicana, mas o melhor é não dizê-lo. Conheço todos os poetas e todos os poetas me conhecem a mim. Por isso podia até dizê-lo. Podia dizer: sou a mãe e sopra um zéfiro danado há séculos, mas é melhor não dizer. Podia dizer, por exemplo: conheci Arturito Belano quando ele tinha dezassete anos e era um menino tímido que escrevia peças de teatro e poesia e não sabia beber, mas seria de alguma forma uma redundância e a mim ensinaram-me (com um chicote ensinaram-me, com uma vara de ferro) que as redundâncias sobram e que o argumento por si só é suficiente.

 

O que eu posso dizer, sim, é o meu nome.»

Quem é Dana Spiotta?

Com apenas três romances, todos premiados, Dana Spiotta tem sido aclamada pela crítica como uma das grandes vozes da ficção americana dos últimos anos. Spiotta é professora da Universidade de Syracuse e vive em Nova Iorque com o marido e a filha. Destruir a Prova (Eat the Document) é o seu romance-estreia em Portugal. 

 

 

 

Da imprensa internacional:

«Esplêndido. Tem a ferocidade 'staccato' de Joan Didion, a ressonância história e a diversão de Don DeLillo.»

Michiko Kakutano, The New York Times

 

«Brilhante e evocativa (...) esta obra está preparada para remexer na história moderna.» 

David Thomson, The York Observer


«Prepassado por uma inteligência subtil (...), singularmente poderoso e provocador (...). Spiotta possui uma sensibilidade irónica, justapondo o fervor dos anos 70 com o oportunismo dos anos 90.»

Caroline Leavitt, The Boston Globe
 

Hoje nas livrarias

 

 

Prémio da Rosenthal Foundation - Academia Americana das Artes e Letras

Finalista do National Book Award

 

 

 

 

 

Eat the Document - com o mesmo título do célebre documentário sobre uma tournée de Bob Dylan no Reino Unido, em 1966 - é uma poderosa história sobre o idealismo, a paixão e o sacrifício, que se desloca entre os movimentos subterrâneos dos anos 1960 e os seus ecos e consequências nos anos 1990. Um retrato arrebatador de duas eras e um dos romances mais provocadores dos últimos anos. Uma estreia literária fulgurante em Portugal.

Estrelas e boas palavras para Amuleto.

«Para o escritor chileno Roberto Bolaño (1953 - 2003) a literatura era o duro ofício de dar voz aos fantasmas que habitam a noite escura da alma esses lugares onde já mal se ouvem canções e onde cabem a loucura e o horror.»

 

Arranca assim o texto de José Riço Direitinho, no Ípsilon de hoje, sobre Amuleto, o nosso novo livrinho do Bolaño. E, sim, podemos escrever 'livrinho', são 138 páginas, de literatura bolañiana, é certo, mas 138 páginas. 144 páginas e 5 estrelas.

 

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