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Quetzal

Na companhia dos livros.

Maria do Rosário Pedreira no Ensaio Geral

 

"Maria do Rosário Pedreira será a próxima convidada do programa Ensaio Geral, da Rádio Renascença, a realizar-se no espaço da Livraria Ferin, dia 4 de janeiro, pelas 18.30.

 

Escritora portuguesa, Maria do Rosário Pedreira nasceu em 1959, em Lisboa. Fez os estudos superiores na Universidade de Lisboa, onde se licenciou, em 1981, em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Franceses e Ingleses. Fez ainda o curso de Língua e Cultura do Instituto Italiano de Cultura, em Portugal. Como bolseira do governo italiano, frequentou um curso de verão na Universidade de Perugia. Foi também aluna do Goethe Institut.  

 

Amante da atividade editorial, coordenou os serviços da Editora Gradiva, foi diretora de publicações da Sociedade Portugal-Frankfurt/97 e editou os catálogos das exposições temáticas da Expo‘98, entre outros. Em 1998, tornou-se editora da Temas e Debates.

 

Iniciou a sua carreira literária em 1996, publicando o primeiro livro de poesia A Casa e o Cheiro dos Livros, cuja edição se esgotou de imediato. Seis anos mais tarde, e após a edição de vários títulos em prosa, nomeadamente Alguns Homens e Duas Mulheres e Eu (romance) e outros de literatura infantil, Maria do Rosário Pedreira publica um novo livro de poemas, O Canto do Vento nos Ciprestes, cujo reconhecimento da crítica a confirmou entre a plêiade dos novos poetas.

 

Distinguida com alguns prémios literários, é detentora de uma obra diversificada, em prosa, poesia, ensaio e crónica, constituindo a literatura juvenil — grosso da sua ficção — um veículo de transmissão de valores humanos e culturais. As coleções juvenis «Detective Maravilhas» e «O Clube das Chaves» (esta em parceria com Maria Teresa Maia González) entraram já no universo ficcional da adolescência portuguesa.

 

Esta é mais uma sessão do Ensaio Geral na Ferin, ciclo de tertúlias que leva, todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, um autor ao espaço desta livraria para debater ideias e conversar com o público presente.

 

Esta é uma iniciativa conjunta da Livraria Ferin, Rádio Renascença e Booktailors."

Eduardo Cintra Torres sobre A Civilização do Espetáculo

Texto de Eduardo Cintra Torres sobre A Civilização do Espetáculo, de Mario Vargas Llosa           

 

 

            "Agradeço à organização o convite para introduzir este debate com um a intervenção sobre o tema A Cultura É Um Espectáculo? a propósito do livro A Civilização do Espectáculo, de Mario Vargas Llosa. A minha única nota negativa sobre esta edição é a de sucumbir ao chamado “acordo” chamado “ortográfico”, que logo no dilacerado título traduzido nos remete para uma civilização de alguma coisa que se espeta não sei onde, um tal de “espetáculo”. Este meu texto ostenta orgulhosamente a ortografia anterior a esse chamado “acordo” chamado “ortográfico”.

            O livro de Vargas Llosa é um contributo importante para um debate sempre necessário sobre o lugar da cultura na sociedade. Em vez de procurar resumir o livro, prefiro convidar os presentes a lê-lo sem os meus spoilers, partindo dele para um reflexão sobre as questões que ele aborda. O livro de Vargas Llosa insere-se na corrente apocalíptica a respeito da cultura, se virmos a questão na dicotomia criada por Umberto Eco entre apocalípticos e integrados. O próprio Vargas Llosa o diz no primeiro parágrafo: “a cultura, no sentido que tradicionalmente se deu a esse vocábulo, está nos nossos dias prestes a desaparecer.”. 

            Vargas Llosa inscreve-se numa linhagem antiga e honrosa que começa em Platão, quando este decretava a expulsão dos espectáculos populares da sua felizmente utópica república. Cícero, Santo Agostinho e tantos outros escreveram sobre os perigos da cultura de massas, ou da cultura com massas, em especial a dos espectáculos. Não a cultura das elites para as massas, mas uma cultura submetida a uma qualquer hegemonia das massas. Esta corrente acentuou-se, como se compreende, quando as massas entraram no palco da História, a partir de finais do século XVIII, num processo multifacetado, um melting pot político, económico, social e cultural, em que se misturaram a revolução francesa, a aspiração das massas à representação política, a secularização dos Estados e das sociedades, a vitória final das grandes cidades sobre os campos, o capitalismo, as comunicações à distância, a imprensa de massas e os novos lazeres de ricos e pobres, incluindo grandes espectáculos como as exposições nacionais, internacionais e mundiais, as grandes exposições de arte, os parques de divertimento, e espectáculos do quotidiano como o circo, os desportos, o teatro, o cinema, que foi inicialmente um dos grandes divertimentos dos pobres, e mais tarde a rádio e a televisão.

            É neste quadro, quando as massas ganham uma autonomia de escolha na grande cidade, que o capitalismo cultural corresponde a essa necessidade, estruturando a cultura de massas de acordo com os seus próprios valores. Nas palavras imortais atribuídas ao fundador da grande imprensa popular inglesa, Lord Northcliffe,  “o jornalismo é dar ao público a carne por que ele anseia”. A frase veio a ficar conhecida pela versão ficcional, numa peça de teatro de Arnold Bennett em 1909, na qual o magnata da imprensa representando Northcliffe diz ao irmão que o seu único princípio é “dar ao público o que o público quer”. A peça, apropriadamente, chama-se What the Public Wants. O capitalismo queria vender, e crescer, porque é a sua natureza, e para isso tinha de conformar-se às escolhas das massas, que batem as elites num único ponto: são mais. Tendo que vender para as massas agora empoderadas, as elites adaptaram-se e isso pareceu a subversão da ordem hierárquica na cultura. Como perguntava ao seu filho uma apavorada Madame Juliet nos anos da Revolução Francesa: “Os lobos sempre comeram as ovelhas: será que desta vez as ovelhas comerão os lobos?” A resposta de Vargas Llosa seria afirmativa.

            Vargas cita autores que escreveram antes dele sobre o tema, como T. S. Eliot, George Steiner, Guy Debord, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy e Frédéric Martin. Poderia citar outros, que trago em meu auxílio, autores que estudei e citei no meu livro A Multidão e a Televisão, a sair em breve (Universidade Católica Editora, 2013), e noutros textos sobre cultura de massas.

            Um dos mais enfáticos é Sainte-Beuve, o crítico literário francês que já em 1830 clamava contra a “literatura industrial”, que comparava ao esgoto e que apelava, já ele, ao levantamento da elite contra a degradação do que considerava a verdadeira literatura. A massificação da cultura e o inevitável desenvolvimento dos mass media, levava o sociólogo Gabriel Tarde, em 1901 a prever para o futuro o fim dos intelectuais — antecipando-se um século a um debate público em França sobre o tema.

            Um dos mais argutos observadores do novo mundo cultural (e político), que Vargas Llosa poderia ter citado extensamente, foi Ortega y Gassett. Nos anos de 1920-21, em artigos reunidos sob o título A Espanha Invertebrada (isto é, sem elites), escreveu sobre o conflito entre a massa global e a elite, vendo-o como fenómeno mortal de insubordinação espiritual das massas contra toda a minoria eminente, e manifestando-se, nas suas palavras, “mais noutras áreas do que na política: o público dos espectáculos e concertos considera-se superior a todo o dramaturgo, compositor ou crítico”. Ortega via o processo como uma revolução insolente, dos piores contra os melhores, resultando na quebra da coluna vertebral de “uma sociedade [que,] sem aristocracia, sem egrégia minoria, não é uma sociedade”. Haveria solução entre o “estado de invertebração rebelde, de deslocação”, ou a contrária “conversão radical dos sentimentos numa direcção afirmativa, criadora, ascendente”? Para este segundo caso só há uma condição essencial: “O reconhecimento de que a missão das massas não é outra que não seja seguir os melhores”. A massa tem de saber que é massa. Esta impossível solução elitista não passava por formas de governo, mas antes pela criação de “um novo tipo de homem espanhol”, dócil por “afinação da raça”. Esta proposta tão claramente escrita — Ortega agarrou o tema pela jugular, excepto ao afastá-lo da política — desaparece no seu famoso livro sobre o mesmo tema, A Rebelião das Massas, no qual terá sido o primeiro a cristalizar o conceito de “homem-massa”, o bloco humano da mediocridade, unido pela soma de “homens sem qualidades”. O homem-massa, onde quer que estivesse, tinha o carácter de “pavorosa homogeneidade” da multidão. E, mais do que isso, o poder agora era dele.

            Diversos autores da mudança do século XIX para o século XX lamentaram o novo poder cultural das massas e odiaram-nas. D. H. Lawrence propôs em textos, em 1908 e no início da década de 20, o extermínio das massas inúteis por gaseamento.

            Outros pensadores compuseram variações sobre o tema da homogeneidade dos gostos e opiniões, como Heidegger. Adorno e Horkheimer e Hannah Arendt, pela sua experiência pessoal e pelo zeitgeist do fascismo e do nazismo, acrescentaram ao tema o horror da massa dominada por elites malévolas. O mundo estava em transe, quando elites se apropriavam das massas para fins horríveis e as próprias massas não eram de confiar. O perigo transpunha-se para a democracia, quando, nas palavras de Arendt, “o mundo comum acaba quando é visto apenas sob um ponto de vista e só lhe é permitida uma perspectiva”. Ou, nas palavras de Adorno: “O segredo da propaganda fascista [é o] de tomar os homens pelo que eles são: as crianças autênticas da actual cultura de massa padronizada, largamente espoliados da sua autonomia e espontaneidade”. Arendt e Adorno viam, assim, a tirania como uma característica da sociedade mediática de massas. Contudo, não lhes ocorreu que, para as massas, houvesse uma tirania cultural das elites.

            A questão vinha de trás, mas como referi parece não ter solução em democracia. Vargas Llosa insiste na necessidade da democracia e refere, como Ortega, ou como noutros tempos Platão, alguma forma de a cultura poder ser imposta às massas. Mas não há soluções possíveis (ainda podemos exceptuar a universidade, mas a sua massificação tem resultado no oposto). Vargas Llosa, a meu ver, tem o bom senso de tirar o retrato à “civilização do espectáculo” sem avançar com soluções definitivas, dado o que elas implicariam com a própria democracia e com as liberdades. Define a civilização do espectáculo como “um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigente é ocupado pelo entretenimento e onde divertir-se, fugir ao aborrecimento, é a paixão universal.” Poderia ter citado, no seguimento da sua definição, um célebre livro publicado em 1985, de Neil Postman, com o título Amusing Ourselves to Death e o subtítulo Public Discourse in the Age of Show Business.

            Parece-me que a civilização actual se compara, sem qualquer anacronismo, à Roma imperial. Apesar de a tendência ser já visível na democracia ateniense, é na Roma de Augusto que começa a primeira sociedade do espectáculo instituída como tal. O circo, no sentido do verso de Juvenal, foi uma efectiva política de Estado para afastar a multidão do fórum e empurrá-la para o Coliseu. Como sabemos, resultou. Ora, o que me parece escapar à análise de Vargas Llosa é o profundo carácter político da civilização do espectáculo, seja a da Roma Imperial, seja a nossa: a redução de tudo, incluindo a cultura, ao espectáculo, torna governáveis os regimes instituídos, como as democracias, em que as elites cedem uma parte do palco às massas, mas não cedem o poder essencial. Foram as elites que mantiveram o seu poder dando o poder da “cultura” às “massas” e incorporaram as multidões na organização sistémica em eventos e espectáculos. Em boa medida, os “excessos” da massa ganharam um carácter festivo e foram integradas nas sociedades do espectáculo, elevando por vezes a política à ordem do mito, como nos grandes festivais desportivos ou musicais. As elites salvaram-se proporcionando uma parte do seu antigo poder, o da cultura em sentido lato, para as massas. Para se salvarem e lucrarem com isso, foram as elites que escolheram este caminho. Esta é hoje a forma possível de domínio da massa pelas elites, a hegemonia de que falava António Gramsci. Em 1928, Edward Bernays, um dos fundadores das relações públicas e sobrinho de Freud, abria o seu livro Propaganda, com esta declaração: “A manipulação consciente e inteligente das opiniões e dos hábitos organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder governante do nosso país. […] Somos governados, os nossos espíritos são moldados, os nossos gostos formados, as nossas ideais sugeridas, grandemente por homens de que nunca ouvimos falar. Este é um resultado lógico da forma como a nossa sociedade democrática é organizada. Vastos números de seres humanos têm de cooperar desta maneira se querem viver juntos como uma sociedade funcionando suavemente. […] Em quase todos os actos das nossas vidas quotidianas, seja na esfera da política ou dos negócios, na nossa conduta social ou no nosso pensamento ético, somos dominados por um relativamente pequeno número de pessoas […] que compreendem os processos mentais e os padrões sociais das massas. São quem puxa os cordéis que controlam o espírito público, arreiam velhas forças sociais e forjam novas formas de ligar e guiar o mundo”. A frivolidade, o divertimento, fazem parte deste enquadramento conspirativo? É também o que parece concluir Cornelius Castodiaris, no seu livro de textos com o sugestivo título de A Ascensão da Insignificância (Lisboa, Bizâncio, 2012). Como escreveu Neil Postman, socorrendo-se de um romance sobre o triunfo da sociedade do espectáculo, Admirável Mundo Novo,  escrito em 1931, o que Aldous Huxley tentava dizer-nos não era que as pessoas do Brave New World “se riam em vez de pensarem, mas antes que não sabiam de que se riam e por que razão tinham deixado de pensar.” Mas não será esse o objectivo da hegemonia? Pode “culpar-se” as massas do sistema cultural que as elites lhes proporcionaram e alimentaram e de que lucraram?

            Há uma contradição insanável nos lamentos sobre a civilização do espectáculo, e deriva da política: é que a democracia é o regime em que as massas elegem as elites que as elites querem eleitas e, para isso, o espectáculo não só é uma manifestação de liberdade como de necessidade. Deste modo, a sociedade do espectáculo actual, como o regime de pão e circo do Império romano, que mais tarde o Império romano do Oriente oficializou, é um meio de sobrevivência da democracia e não uma mera afirmação da mesma. Não se pode aspirar ao fim da sociedade do espectáculo sem desejar o fim da democracia, que vive através dela. Se o ritual é essencial à existência da sociedade, como Durkheim demonstrou magistralmente em 1912, nas Formas Elementares da Vida Religiosa, o ritual é hoje o espectáculo da sociedade laica e dos meios de massas.

            Basicamente, os lamentos contra a sociedade do espectáculo têm um pressuposto político: o de que a cultura “certa” já não tem a primazia no espaço público, e não só, também nas universidades e noutras esferas da vida. Nem todos são claros a este respeito, como o foi Ortega ou Walter Lippmann, talvez o fundador do estudo da opinião pública da era dos media de massas, quando em 1922 considerava que a propaganda se tornara “um órgão regular do governo popular”.  Definia o “público” como “a massa de indivíduos absolutamente iletrados, de espírito fraco, altamente neuróticos, mal alimentados e frustrados” e defendia o governo das massas por uma elite intelectual pela tendência das massas para a irracionalidade, construindo as suas opiniões políticas a partir de imagens ou ficções.            Por exemplo, a entrega da rádio pelo Estado norte-americano apenas a algumas empresas comerciais era vista na Europa como uma concessão à democracia de massas. Pior ainda, estabelecia uma “democracia comercial”. Em Londres, a mesma concepção política levava o primeiro director-geral da BBC nos anos 20 a advogar o monopólio da BBC pelo Estado e a defender um operador público que orientasse as massas com as concepções político-culturais das elites. Não pretendo aqui debater o que está certo e errado, apenas chamar a atenção para um processo histórico no Ocidente que foi seguindo o caminho encetado pela democracia comercial e cultural dos Estados Unidos, motivando os lamentos de perda de hegemonia cultural das elites. 

            Também me permito acrescentar outra reflexão que não encontro no livro de Vargas Llosa: as elites de que fala o livro e de que falamos em geral já não são o que eram. Há cerca de uns 30 anos um politólogo francês definia os que fazem os media como “elites secundárias”. Ora, hoje essas elites não são “secundárias”, são primárias. Definem, escolhem e impõem o que é cultura de massas ainda antes de as massas se pronunciarem. Mais: essa é a sua cultura. Partilham-na com as massas. Pegando no conceito de homem-massa, de Ortega podemos chamar a estas elites as elites-massa. Do mesmo modo que as elites culturais se misturam com as massas no futebol, como o próprio Vargas Llosa, também as elites culturais hegemónicas, as elites-massa, impõem uma concepção de cultura e de acervo que ignora, abafa e até se opõe ao que Vargas Llosa se refere como a cultura como a entendemos até hoje e que é o que também poderíamos chamar a cultura das elites cultas. Acontece, repito, que as elites cultas também aderiram à cultura popular e fizeram-na até por opção ideológica, como Vargas Llosa refere a respeito dos Estudos Culturais britânicos e americanos. Um ou outro imperador romano poderia não gostar dos espectáculo no Coliseu, mas dava-os e a eles assistia. Hoje os imperadores da civilização do espectáculo apreciam verdadeiramente o show do Coliseu. E são parte dele.

            Gostaria de deixar duas notas finais. A primeira para referir que não sou apocalíptico. Por duas razões. Antes do mais, porque muitos autores da cultura culta, ou da alta cultura (expressão que ainda se usava ou ainda se usa), têm o seu espaço e até uma expansão global, como o próprio Vargas Llosa. Apesar de todos os males apontados à civilização do espectáculo, nunca como hoje a cultura culta teve tanta divulgação, consumo e estudo. Depois, porque a cultura popular, incluindo a do espectáculo, produz bens culturais de valor ou até de muito valor, seja nos palcos, seja nos media, incluindo a televisão. A quantidade de produção medíocre, proporcionada pelas liberdades e pela necessidade do capitalismo de produzir sempre mais, não pode fazer-nos ignorar a porção menor de conteúdos de qualidade. Nem pode fazer-nos esquecer que sempre houve produção medíocre e que também as elites cultas sempre produziram cultura medíocre e não apenas de qualidade. A quantidade de mediocridade visível não pode ser uma variável de apreciação do tema. Digo visível, porque a cultura popular do passado deixou muito menos traços do que a cultura culta (e desta pode dizer-se que quase sempre sobreviveu o melhor).  

            A renúncia da cultura culta em tocar com mãos supostamente limpas em criações culturais populares supostamente sujas, em especial desde o modernismo, também contribuiu para deixar o campo às novas elites culturais hegemónicas. Esse nojo pelo popular recorda-me um conto de Rudyard Kipling, “The Finest Story in the World” (entre aspas). O narrador conhece um bancário, pobre e suburbano, que é de vez em quando possuído pelas suas anteriores encarnações, nomeadamente a dum escravo grego remador numa nau de guerra que, como lhe competia, falava em grego demótico ou popular. Tendo nas mãos um texto escrito em grego demótico pelo ignorante bancário, o narrador corre a mostrá-lo a um velho especialista do British Museum. O professor identifica o documento: “é uma tentativa de escrever num grego extremamente corrupto por parte de um ― e aqui ele fixou em mim um olhar com intenção ― de uma aã… pessoa extremamente iletrada.” O especialista ignorou com sobranceria o documento: se ele ao menos fosse antigo! O documento, sendo de agora, não tinha interesse. Hoje os arqueólogos estudam literalmente o lixo de civilizações mortas. Pergunto-me se não deveria a cultura culta dar atenção ao que chama de lixo da cultura popular e eventualmente encontrar nela o que há de valor. É o que tento fazer como crítico.

            A segunda nota diz respeito ao tema “a cultura é espectáculo?” Parece-me que não há uma resposta unívoca. A cultura não é espectáculo no seu todo, mas há cultura que é espectáculo e há espectáculo que é cultura, seja no sentido restrito seja no sentido lato de cultura. Sempre foi assim. Mas a espectacularização generalizada da sociedade contemporânea conduz também a uma certa espectacularização da cultura. Por exemplo, o predomínio da arte efémera sobre a arte perene, das instalações e das performances, inscreve-se na necessidade de exaltar o momento, o carpe diem, o esquecível, o espicaçar da reflexão superficial. A obrigação de entreter, de divertir — de amusing ouselves to death — , que é um efectivo mandamento da lei da civilização do espectáculo, afecta também a criação cultural, como refere Vargas Llosa.

            A crescente espectacularização das sociedades inclui aquilo a que chamo a sua eventificação, isto é, a pontuação do quotidiano por um número cada vez maior de eventos de todo o tipo. O conceito de eventificação constata a multiplicação de eventos multitudinários de todos os géneros no quotidiano das sociedades e, por extensão, de grande número dos seus membros, através da vivência presencial ou mediática. A eventificação é hoje tão necessária que não respeita o calendário: o “evento” Carnaval de Loulé, por exemplo, tem uma edição em Agosto. A eventificação corresponde à espectacularização da sociedade, sendo um dos seus aspectos mais relevantes e visíveis. A tendência para a espectacularização de inúmeras actividades humanas, não apenas ligadas aos mass media e à política, verificou-se também com as actividades culturais, mesmo as que já eram espectáculos em si. Ocorreu uma espectacularização do espectáculo. Umberto Eco, em 1980, apresentava o fenómeno como pós-Maio 68: “Lentamente, as multidões, e não só juvenis, tinham saído do ambiente fechado dos teatros: primeiro, o teatro na esquina da rua de brechtiana memória, o seu irmão mais novo, o street theater, e os hapennings, depois as festas, teatro como festa e festa como teatro…” — até se chegar ao momento em que “as festas se tornaram objecto de administração municipal” tornando-se “um ‘género’, como o romance policial e a tragédia clássica”, etc. A cultura torna-se espectáculo: ao contrário da cultura “séria” consumida em silêncio, na “cultura como espectáculo” o público toma parte, ele é o espectáculo. Estas “novas massas (e creio que de ‘massas’ se pode falar, embora o formato não seja o das massas desportivas ou das massas rock) […] comportam-se como se estivessem numa festa colectiva, […] vêm também pela colectividade do evento” isto é, “para estar juntas”. Há, assim, uma acumulação de vivências — o usufruto do espectáculo/evento cultural, a participação individual, a imersão na colectividade — que, se já existiria nas festas dadas por Péricles às massas de Atenas, voltava agora a ser exteriorizada. A cultura culta não se exclui desta tendência de espectacularização, pelo contrário. Também nela se passou a viver-se numa “ritualidade colectiva” espectacularizada, de que é exemplo a Festa da Música.

                        Os eventos estão disponíveis em estádios, discotecas, salas de espectáculos, santuários, até em museus, ruas, nos próprios media. A efervescência colectiva tornou-se constante. Os eventos, no sentido sociológico que lhes atribuo, constituem um tipo de acção ou actividade social das sociedades contemporâneas; ou, também, um tipo de “pseudo-actividade”, para usar a expressão de Adorno, uma actividade de substituição, de “prolongamento do trabalho”, em que o lazer se tornou no capitalismo tardio, ou na sociedade do espectáculo. Os eventos são uma forma de mercantilização dos colectivos. O poder político não desdenha este enquadramento sistémico, de que beneficia. O divertimento sempre foi visto como bom em si para os trabalhadores, como referia o bispo de Manchester sobre um dos primeiros parques de divertimentos contemporâneos: “Blackpool está prestando realmente um grande serviço ao país pela sua ampla provisão de divertimento alegre e sadio”. Na mesma época, um homem de negócios do Lancashire afirmava: “Blackpool interpõe-se entre nós e a revolução. Que continue por muito tempo como protectora da ordem social!” E John Dewey notava em 1927 que “o aumento do número e da variedade dos divertimentos, bem como seu baixo custo” constituíam um “poderoso desvio” das “preocupações políticas”.

            O sociólogo Edwars Shils considerava que a originalidade da sociedade de massas residia na aproximação da massa da população ao “centro da sociedade”, ou seja, das “instituições centrais governadas pelas elites e os sistemas centrais de valores que guiam e legitimam essas instituições”, disso resultando numa “integração mais estreita nos sistemas institucional central e de valores da sociedade”. Deste modo, a civilização do espectáculo é indissociável da política, da democracia e da evolução económica e social do Ocidente, e contribui para uma maior homogeneidade.

            Perante a perplexidade dos lamentos pelo “fim” da cultura, julgo que não outro caminho se não cada um procurar fazer o seu trabalho o melhor possível, seja em que ramo for, seja para quem for, esperando que o trabalho cultural possa ser interessante e útil à sociedade presente e vindoura.

Eduardo Cintra Torres

Caxias, 8 de Dezembro de 2012"

A tradição do livro

«Com este livro, e tendo em conta o título desse último texto, sente-se um pouco como um dinossauro face ao mundo actual?

 

Um pouco, sim. Sinto-me muito identificado com uma tradição – embora não creia que ler Shakespeare, Cervantes, Dostoiévski, Proust é opor-se à modernidade, pois nesses livros encontramos chaves para entender o mundo em que vivemos. Não se trata de negar a imagem – eu gosto muito de cinema, vejo muitos programas de televisão com muito prazer –, mas acho que se isso substituir a tradição do livro, haverá um empobrecimento da atitude crítica face ao mundo. A cultura do ecrã é muito mais conformista, mais letárgica, desmobilizando muito mais o espírito crítico, é quase como o sacrifício da racionalidade.»

 

Mario Vargas Llosa em entrevista ao Ípsilon.

 

50 anos de poesia

«É o grande lançamento, em matéria de poesia, deste Natal (embora independente dele): quase 50 anos de versos em Poesia Reunida, de Vasco Graça Moura, em dois volumes, com a chancela da Quetzal. Num total de quase 1200 páginas – e sem a profusão de páginas em branco que por vezes caracteriza este tipo de edições. O que dá a precisa ideia da vastidão da obra do poeta, que o é também como tradutor de rara qualidade (e o que já traduziu de poesia, da Divina Comédia, de Dante, a sonetos de Shakespeare!), além de ficcionista e ensaísta. […] Vasco Graça Moura é um dos grandes poetas portugueses, com uma técnica e uma oficina apuradíssimas, sem paralelo na nossa lírica atual: uma rara poesia “culta”, que tanto releva do seu excecional domínio dos clássicos, da música, da pintura, etc., como se exprime em poemas de tão difícil simplicidade e beleza, como “As meninas”.»

 

Jornal de Letras

 

 

Somos Todos um Bocado Ciganos

"O ambiente deste romance não é uma moldura arbitrária, mas um elemento significante. Transporta uma rede de sentidos - precariedade, marginalismo, incerteza - que interagem com a trama e com a evolução do narrador. Ambos precisam dessa incerteza. E, em contraponto com ela, ganha espessura este romance breve e exato, com o apuro verbal, o acerto rítmico e o controlo narrativo de uma epopeia dos pequenos."

 

Hugo Pinto Santos, Expresso

 

Certificado de Reabilitação

“Emergindo dos escombros de uma tradição literária desconfiada de dogmas e de ficções com ‘mensagem’, A Piada Infinita atreve-se não só a transportar dogmaticamente uma mensagem, mas também a oferecer uma alternativa terapêutica e uma hipótese de salvação. A sua descomunal ambição é submeter o leitor ao mesmo processo de reabilitação dos personagens: levá-lo, metaforicamente, a ‘bater no fundo’ dos seus pressupostos sobre o que uma obra literária deve fazer e oferecer; substituir os seus rituais por outros; reconstruí-lo do zero – enquanto leitor e, suspeita-se, enquanto pessoa.

 

Quer a ouçamos ou não até ao fim, essa é uma promessa que A Piada Infinita cumpre: mostrar-nos os nossos limites.”

 

Rogério Casanova, Ler