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Quetzal

Na companhia dos livros.

primeiro pornoparágrafo

"Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopeia, não é arte. É – repita comigo – vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora «bloqueio criativo» por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor."

 

Pornopopeia, Reinaldo Moraes

A miragem da vida perfeita

Sara Figueiredo Costa sobre Onze Tipos de Solidão, de Richard Yates:

 

"Em cada história paira a sombra que a miragem da vida perfeita exerceu nos Estados Unidos desta época, entre cocktails coloridos antes do jantar e chapéus atirados para lindos bengaleiros dourados, tudo desfeito com o avançar da narrativa. Nos escombros, sobra literatura da melhor qualidade, e nenhuma luz a assinalar a saída."

 

"O fino da grossura"

Para saber o que é Pornopopeia, basta ler Nelson Motta:

 

""Pornopopeia", de Reinaldo Moraes, é o melhor romance brasileiro que li — às gargalhadas — nos últimos anos. Um diretor de comerciais decadente e louco por sexo, drogas e encrencas se envolve com uma seita de Surubrâmanes e mergulha em uma epopeia tragicomicossexual de 480 páginas em que a invenção literária, a cultura pop e o rigor da linguagem estão a serviço do humor e da crítica social com uma graça e uma grossura raramente vistas juntas em nossas letras. É o fino do grosso.

É como se Henry Miller e Bukowski tivessem fumado, bebido, cheirado e viajado de ácido com o devasso Zeca pelo submundo de drogados, bebuns, putas, travecos e traficas da noite paulistana. Como um "Ulisses" doidão, priápico e bagaceiro, "Pornopopeia" é movido por uma sucessão vertiginosa de acontecimentos e narrado em monólogos interiores elaborados com linguagem forte, ágil e precisa, em que Zeca relata sua epopeia pornoescatológica debochando de suas próprias metáforas e hipérboles, avacalhando o seu relato aparentemente caótico mas baseado em uma sólida estrutura e em personagens tão sórdidos e patéticos quanto divertidos e sedutores. Poucas vezes tanta baixaria foi elevada a tais alturas."

Sobre Danúbio

J. Rentes de Carvalho, no seu Tempo Contado, escreve sobre Danúbio, de Claudio Magris:

 

"Há vezes em que de nada adianta o azul do céu e o chilreio dos pássaros, vai-se o pensamento para situações que seria bom esquecer mas a memória traz à tona, acordando as palavras, os rostos, as falsas promessas, os motivos que pareciam rectos e vistos a outra luz surgem oblíquos, estranhos como carantonhas.
À noite leio Danúbio, o livro de Claudio Magris, cheio de belas descrições, ideias elevadas, frases daquelas que obrigam a uma pausa, tanto elas nos tocam. É como atravessar um porta singela e descobrir com assombro que se penetrou num monumental e maravilhoso museu de gentes e civilizações.
Grande, muito grande, é a diferença entre a beleza dessa leitura nocturna e as mesquinhices que a recordação aviva ao amanhecer."

Um ET nas livrarias

"A primeira coisa que se pode dizer sobre o primeiro romance de João Leal, 38 anos, é que é um pequeno extraterrestre nas livrarias portuguesas. O próprio autor, livreiro com uma longa experiência – esteve na Barata, na Fnac do Chiado e hoje está ligado à livraria Bertrand – o admite: “Quis arriscar num género que não há praticamente em Portugal: um thriller que é também fantástico e que junta a história mais clássica de um órfão e de uma série de assassinatos a uma ficção mais especulativa, num tempo remoto.”

 

 Foto: Joana Freitas

 

A História Não Acaba

"Como em Danúbio, que era o rio que nos guiava e servia de rota para as civilizações, aqui também é o espaço de tolerância e de ética responsável que encontramos. Magris mostra como tudo é transitório na história: os regimes políticos erguem-se e desaparecem como pó quase sem se reparar. Sucedeu no Danúbio, acontece em Itália, pode inclusivamente ser possível em todo o mundo. Porque a história não acaba."

 

Fernando Sobral, no Jornal de Negócios, sobre A História Não Acabou, de Claudio Magris

 

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