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Quetzal

Na companhia dos livros.

Chegar tarde a uma guerra não é pior do que outras desilusões

 

 

«Esta citação sugere não apenas o tom deste livro como algumas das razões pelas quais o seu autor não é um nome instantaneamente familar - e porque devia ser. Frustração inescapável, ocasionais brutalidades e a eterna sombra da falta de dinheiro constituem a realidade de milhões de pessoas numa sociedade competitiva, mas não serão o material ficcional mais atractivo para quem nela vive.»

 

Luís M. Faria leu Perto da Felicidade - Cold Spring Harbor, de Richard Yates, e escreveu sobre o livro na edição de 23 de Agosto, no Actual do Expresso.

 

Parem já os relógios, corte-se o telefone

Parem já os relógios, corte-se o telefone,

dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,

emudeçam pianos, com rufos abafados

transportem o caixão, venham os enlutados.


Descrevam aviões em círculos no céu

a garatuja de um lamento: Ele Morreu.

No alvo colo das pombas ponham crepe de viúvas,

polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.


Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego

dos dias da semana, Domingo de sossego,

meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;

julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.


Não quero agora estrelas: vão todos lá pra fora;

enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;

esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.

Nada mais vale a pena agora do que resta.

 

 

Um poema de W. H. Auden escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Título por haver

No meu poema ficaste

de pernas para
o ar

(mas também eu

já estive tantas vezes)


Por entre versos vejo-te as mãos

no chão

do meu poema

e os pés tocando o título

(a haver quando eu

quiser)

 

Enquanto o meu desejo assim serás:

incómodo estatuto:

preciso de escrever-te

do avesso

para te amar em excesso
 

 

Um poema de Ana Luísa Amaral escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Amor é o olhar total, que nunca pode

Amor é o olhar total, que nunca pode

ser cantado nos poemas ou na música,

porque é tão-só próprio e bastante,

em si mesmo absoluto táctil,

que me cega, como a chuva cai

na minha cara, de faces nuas,

oferecidas sempre apenas à água.

Um poema de Fiama Hasse Pais Brandão escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Ao jurar-me ela seu fiel amor

Ao jurar-me ela seu fiel amor,

palavra que acredito e sei que mente;

deve pensar-me um jovem sem tutor,

nos enganos do mundo inexperiente.

Assim, pensando em vão que me crê jovem,

saiba embora já fui melhor do que hoje,

as suas falas falsas me comovem

e a verdade de parte a parte foge.

Mas porque não dirá ser ela injusta?

Porque não digo minha idade avança?

No amor, idade e anos dizer custa

e é costume de amor fingir confiança.


       Deitamo-nos, mentimos, mente, minto.

       Mentir em culpa é-nos lisonja, sinto.

Um poema de William Shakespeare escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

De amor

despede-te de mim, bate devagar à porta:

tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,

ruínas, tarefas de pão e linho, não dar

nome às coisas senão o de um vago esquecimento,


abandono. despede-te de mim como se a vida

recomeçasse agora, não me procures onde

a memória arde e o destino se ausenta.


tudo são banalidades, afinal, quando assim

se recomeça e a vida falha como um material

solar e ilhéu. levamos poucas coisas, basta

um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,


os muros brancos de uma casa, o espaço

de uma mão. arrumo as malas e os sinais,

aquilo que nos adormece em plena tempestade.
 

Um poema de Francisco José Viegas escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Como posso amar-te, se nem sei

Como posso eu amar-te, se nem sei

como à porta te chamam os vizinhos,

nem visitei a rua onde nasceste,

nem a tua memória confessei.

Que vaga rima me permite agora

desenhar-te de rosto e corpo inteiro

se só na tua pele é verdadeiro

o lume que na língua se demora...

Não deixes que te enganem os recados

na infernal gazeta publicados

que te dão já por escultura minha;

nocturno frankenstein, em vão soprei

trompas de criação, e foste tu

quem me criou a mim quando quiseste.

 

Um poema de António Franco Alexandre escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Ardis


A incompreendida figura do amor

a céu descoberto sem que se exprima

rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis

e enchemos os livros da ardente ausência

de nós próprios

 

Ao entardecer corremos

ao pontão sobre o mar

e a vida só se parece

com alguma coisa que sabemos
 

Um poema de José Tolentino de Mendonça escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Café do molhe

Perguntavas-me

(ou talvez não tenhas sido

tu, mas só a ti

naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,

e não outra coisa qualquer:

a filosofia, o futebol, alguma mulher?

Eu não sabia

que a resposta estava

numa certa estrofe de

um certo poema de

Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)

conhecia de cor,

em castelhano e tudo.

Porém se o soubesse
de pouco me teria

então servido, ou de nada.

Porque estavas inclinada

de um modo tão perfeito

sobre a mesa

e o meu coração batia

tão infundadamente no teu peito

sob a tua blusa acesa


que tudo o que soubesse não o saberia.

Hoje sei: escrevo

contra aquilo de que me lembro,

essa tarde parada, por exemplo.

 

Um poema de Manuel António Pina escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Na pele

O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar

ao longo das falésias, o que sempre

me traz a exaltação desses rapazes que circulam

por Lisboa no verão.

O mar está-lhes na pele. Partilho

com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas

a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista

da pedra onde o mar vem largar a pele.

 

Um poema de Luís Miguel Nava escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

Como a vida sem caderneta

Como a vida sem caderneta

como a folha lisa da janela

como a cadela violeta

— ou a violenta cadela?

 

Como o estar egípcio emudado

no salão do navio de espelhos

como o nunca ter embarcado

ou só ter embarcado com velhos


Como ter-te procurado tanto

que haja qualquer coisa quebrada

como percorrer uma estrada

com memórias a cada canto


Como os lábios prendem o copo

como o copo prende a tua mão

como se o nosso louco amor louco

estivesse cheio de razão

 

E como se a vida fosse o foco

de um baço, lento projector

e nós dois ainda fôssemos pouco

para uma tempestade de cor

 

Um ao outro nos fôssemos pouco

meu amor meu amor meu amor
 

 

Um poema de Mário Cesariny de Vasconcelos escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

 


 

 

 

2666, de Roberto Bolaño

 

«Eu acho que Roberto Bolaño é uma grandes revelações da literatura do nosso tempo. 2666 é a redescoberta do extraordinário poder do romance e da literatura. (...) Depois de ter lido Bolaño a nossa vida muda um pouco. Quer dizer, não se pode esquecer aquilo que ele deixou escrito, e que é uma tempestade, uma torrente, um delírio - como deve ser a literatura.»

 

Francisco José Viegas, director editorial da Quetzal, em declarações à Lusa. A peça completa aqui. Mais novidades aqui.

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