«Da quietude pesada da tarde saiu um lamento, acompanhado de um barulho que parecia produzido por um corpo a roçar nos degraus da escada e plo som pausado de uma ão que batia na parede a um ritmo de soco. O rumor durou pouco tempo, apenas o suficiente para eu me aperceber da sua estranheza. Mas não me mexi imediatamente. Primeiro ainda pensei que viesse do interior da minha sonolência. Ou talvez não passasse de uma brincadeira de crianças . Fiquei imerso numa vaga indiferença, talvez um minuto, a ouvir aquele murmúrio, semelhante a um coração a pulsar na distância. Se tivesse ali permanecido, sem vontade para investigar, nada haveria para contar nestas páginas, o que seria bem melhor para mim, sem dúvida. Mas a curiosidade levou-me a abrir a porta. Saí para o corredor colectivo (a varanda típica corrida dos prédios húngaros) e abri a porta da escada (tarefa que me levou o que pareceu uma eternidade, enquanto escolhia o exemplar certo de um molho de chaves indistintas). E entrei na escadaria.»
O primeiro parágrado de Territórios de Caça, de Luís Naves. O livro será apresentado no próximo dia 9 - não por acaso: passam vinte anos sobre a queda do Muro de Berlim e o romance é passado na Hungria e atravessado pela sombra do muro. Haverá além da apresentação por João Villalobos, uma actuação do Quarteto de Câmara de Vasco Barbosa, que interpretará um "nocturno" de Alexander Borodin.
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